Um caldeirão difícil de fragmentos de Poesia

Um caldeirão difícil de fragmentos de Poesia
Recebi de um amigo este bom poema que copiei um breve fragmento, só tenho on line e não sei se pode ser divulgado trabalho inteiro. Ler bons poemas é bom.Acredito que tenha em alguma biblioteca on line: "Cadernos de Tradução, Porto Alegre, no 38, jan-jun, 2016, p. 1-84 
“Arato, Fenômenos”
 “Corre, no entanto, outra história entre os homens, que ela antes vivia na Terra e vinha ter com os homens e de modo algum desdenhava das tribos dos homens e mulheres antigos, mas sentava-se entre eles, ainda que fosse imortal. E chamavam-na Justiça: reunindo os anciãos  ou na praça ou na larga via, ela cantava, incitando ao que é apropriado ao povo. À época, os homens ainda não conheciam funesta contenda nem disputa censurável nem clamor de batalha, mas viviam como eram: ficava de lado o mar atroz, e os víveres, não os traziam de longe as naves, mas sim bois e arados e a própria Senhora dos povos, Justiça, a doadora do que é justo,  toda uma miríade de coisas provia. Assim foi, enquanto a Terra ainda alimentava a raça áurea. Contudo, com a raça argêntea estava pouco ou nada inclinada a conviver, desejosa dos costumes dos povos de antigos. No entanto, ela ainda estava junto daquela raça argêntea. Ao anoitecer, saía sozinha das montanhas ruidosas e não se dirigia a ninguém com palavras doces, mas, quando havia enchido as grandes montanhas de homens, ameaçava-os, reprovando-os por sua maldade, e dizia que não mais viria à presença dos que a chamassem. “Que geração inferior vossos áureos pais deixaram! E vós ainda piores filhos devereis gerar. Certamente haverá guerras e derramamento injusto de sangue entre os homens, e a dor dos males os cobrirá.” Assim tendo falado, rumou para as montanhas e deixou as gentes todas ainda a mirá-la. Mas, quando também aqueles haviam morrido, nasceram outros, a geração de bronze, homens mais destrutivos que os anteriores, os primeiros a forjar a adaga própria dos crimes nas estradas e os primeiros a comer a carne dos bois de arado, A estrela mais brilhante da constelação de Virgem.”

Esse poema é lindo, mas este pequeno fragmento é maravilhoso,  “Que geração inferior vossos áureos pais deixaram! E vós ainda piores filhos devereis gerar. Certamente haverá guerras e derramamento injusto de sangue entre os homens, e a dor dos males os cobrirá”. Como Eva e Adão, perdem o paraíso, os homens perdem a presença da Justiça se permitirem  que as futuras gerações percam o brilho e o conhecimento, como Deus manda Anjos a Sodoma e Gomorra, os sábios poetas gregos sabem que gerações podem se perder e terem “corrompidos seus pensamentos’... Então é da História ter tempos de degradação e tempos de Luz?
Como aproveitamos nosso tempo ? Quais ainda são nossos sonhos? Que tipo de Seres Humanos somos? Justiça anda entre nós ainda ou cansou de nossa sociedade e partiu, somos cadáveres adiados ardendo ou estátuas de sal?
Geração de bronze é temporal? É simultânea? Nas falhas da Justiça a guerra corre campo a fora?
Precisamos criar coisas novas, alicerçadas no conhecimento seja ele erudito ou popular, que eu só do popular conheço...
Céu, governo e povo são, de acordo com a doutrina de Confúcio, os três supremos poderes. O Céu faz as leis e traça as regras gerais para a vida do homem. ( em nossa laica cultura é o legislativo) O governo recebe e reforça essas leis ( a Justiça). Os poderes executivos e o povo vivem de acordo com elas. ( o Executivo, que só é legitimo se junto com o povo). Alfred Doeblin.
Arato me livra de ter que ler Aristóteles, eu tenho, só que... Sou mais de imagens e por isso leio pelas “Invisíveis asas da poesia”, que prosa me parece amarrada e gosto de voar.
A tempos que sabemos que aqui estes três pilares precisam ser reforçados, digamos para não falar em remodelar, porque? Porque a fonte é sempre a mesma, porque é boa, é a água mais pura, tudo o que precisamos já temos, logo precisamos apenas rememorar, corrigir ou esperar uma geração de bronze. Que ela sempre vem, sempre depois da seca, por mais severa que seja, a chuva vem... Do maior Dilúvio o Arco Iris emana...
Estamos aqui vivendo o mesmo tempo, dividindo as mesmas percepções, “Toda unanimidade é burra”. Por isso e só por isso, da mesma fonte brotam coisas tão diversas. Olhar para o céu e ver, entender e nomear os astros, a sua influência, ou a Justiça e os deuses em seu panteão. Uma roda da vida, um candelabro, um Deus Sol, um Deus múltiplo, um Deus uno, um Deus morto, ou impossível, são construções diferentes de nosso espírito, a forma como formamos nossas próximas gerações. Eu não quero a morte da esquerda e ou a da direita, muito menos o totalitarismo de uma ou outra. Quero que ambas evoluam como conceitos e criem um Pensamento de Bronze*, ou vários até evoluir e mudar e mudar de novo . Que o antagonismo e a diversidade são fundamentais, onde uma força humana se torna única a violência e injustiça impera.
Por exemplo o Islamismo não é ruim, mas quem usa para o terror é ruim e precisa ser combatido, nada no mundo é absolutamente bom ou ruim. Querer se tornar superior não é nada ruim, superar coisas ultrapassadas, mas se isso levar a massacres, torturas e morte, é ruim, tem que ser combatido, e quem se levanta é a geração de bronze, que não é uma etnia, não é uma classe social, um gênero, uma cor de pele, um formato de corpo, uma modalidade ou ideologia.  São pessoas  que superaram a si mesmos, alguém que elevou sua condição humana para o bem de todos, para edificar e construir, coletiva ou individualmente. O Homem além do Homem, é o ser humano além de suas limitações e fraquezas, se subjugar, ofender, humilhar está mais perto da besta, do que do super homem. Se não aceitar as leis e regras, desde que sejam justas, caminha para a guerra. Se as leis se tornam impossíveis de serem cumpridas, ou cruéis e injustas a guerra se torna obrigação e não há como fugir dela. O leitor, ou robô,  que teve tempo de vir até aqui, deve ter percebido, até pelo título, estes são fragmentos colocados num caldeirão, mais confundem do que iluminam,apenas incomodam. E essa talvez seja a única função da poesia pulsar no céu e incomodar até que alguém ordene, entenda e perceba o conjunto.  
“Eu sei que há sempre um lugar para o Poeta
Na fileira feliz das divinas Legiões,
E que os convidará para a eterna festa
Dos Tronos, dos Valores e das Dominações”Charles Baudelaire
É o ócio amiguinho, domingo longo...
Fernanda Blaya Figueiró

PS: *confundi a Geração de Bronze é ainda destrutiva, depois dela vem a dos Heróis, esses é que precisamos. Mas relendo e aprendendo, pulei uma geração...  




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