Sobre minha experiência em escrita e leitura.
O Brasil tem poucos leitores, é uma realidade em
nosso país poucas pessoas gostam de ler e menos ainda de ler literatura, há
leitores mas a maioria lê títulos e escritores estrangeiros. Há muitos
escritores, eu mesma sou uma leitora/escritora, mas não sou lida e leio coisas
mais antigas... Tem sim leitores de novidades, de Best Sellers e Cult , o
cinema e a música são bem mais populares. Gosto muito de ir ao cinema, mas de
um tempo para cá cansei, fiquei muito
exigente e crítica, então diminui o ritmo para aproveitar mais, assim é também
com a leitura, se lemos muito e sem a devida atenção vira só uma mania, deixa
de ser uma diversão, passa a ser rotina.
Fiz algumas brincadeiras literárias evocando alguns
textos, isso é bom e normal, os escritores tem essa mania de citar outros, de
falar em mitologias e tudo isso é parte do processo ler/escrever... Lemos por
prazer, por busca de conhecimento, por entretenimento, por necessidade de
fantasiar e reelaborar a vida, a passagem do tempo, os desafios todos que
passamos.
Uma vez um rapaz leu alguns textos meus o Livro Ano Novo, eu fazia uma oficina
de teatro e ele me perguntou como eu escrevia coisas tão diferentes e era uma pessoa tão normal?Tive que rir porque nunca na
vida tinha sido chamada de “normal”, as pessoas me acham mais para anormal, mas
acho que a página em branco é um território neutro, como o palco é para os
atores, o campo para os jogadores, não é seguro, nem é ameaçador, podemos
vencer, perder, cair,levantar, sermos bons ou desonestos nesse meio, por
exemplo: esquecer a deixa para o colega, dar um carrinho maldoso, marcar o gol
ou fazer aquela defesa inesquecível, escrever bem ou mau, com malícia ou sem, mas essa
é a nossa praia. É onde nos sentimos em casa, sabemos nos mover e onde estão os
perigos, quando eu comecei a escrever tive que superar meus próprios
preconceitos sobre o que devo ou não escrever, sobre a minha preocupação com a
crítica alheia e principalmente com a autocrítica que precisam existir,mas não
podem limitar e oprimir. Normal ou anormal, perdem o sentido em literatura,
tudo é possível e impossível. A gente
não nasce escritor mas vai se tornando, eu optei por me tornar uma blogueira,
algo novo, esta possibilidade de escrever e publicar imediatamente. A escrita
flui e muitas vezes brota e é repetitiva, ou inovadora, mas procuro seguir o
fluxo, deixar a mente livre, o que não é nada fácil. Mesmo que as pessoas
neguem somos preconceituosos com muitas coisas, temos conceitos pré estabelecidos
e censuras. Familiares costumam não gostar muito do que escrevemos, porque se
identificam às vezes se acham injustiçados e podem mesmo ser, amigos também... Mas
acho que isso é assim mesmo, e com o tempo as pessoas acostumam com as
esquisitices, os temas as abordagens.
Fiz uma representação grotesca de um pentagrama com
a palavra Aleph, as pessoas se assustam, tudo o que é ligado a palavra Bruxa,
assusta, é impressionante o que a “Caça as Bruxas” feita na idade média,
imaginem quanto tempo faz da elaboração do “Malleus Maleficarum” ou “ Martelo das Bruxas” e mesmo quem diz não acreditar em Deus morre de medo de Bruxas. Ou
ainda quem diz que quer ter sua religião respeitada sente ódio e terror sobre
esta manifestação antiga de fé.
Pentagrama, círculo mágico, as referências a
Deusa e ao Deus Conífero, ao Ar, Terra, Água e Fogo, são todas construções literárias
da atualidade, porque o “Martelo das Bruxas” e a longa perseguição ao paganismo
quebraram os elos entre a religião antiga e a atualidade. Muitos símbolos e
crenças de hoje são até baseadas no que este livro criou, ou tentava combater.
Bruxaria, loucura, eram formas de impor uma só religião, um só poder e exigir
que todas as pessoas fossem iguais, submissas e aceitassem um tipo de poder e
de “manifestação comportamental”. Neste período havia quem realmente acreditava
e vivia sua fé Cristã e uma forma de perversão que algumas pessoas desenvolviam
na caça as bruxas, onde havia tortura, massacre, imposição de suplícios e fonte
de terror e poder exercido por integrantes de algumas Igrejas. Bruxas não são
más, feias e loucas, são pessoas que optam por viver uma relação diferente com
a fé e ligação com o Divino. Tudo é invenção, não existe tradição passada
porque foi rompida, existe muita imaginação e criação, talvez alguns mitos
tenham sobrevivido, mas como era exercido na antiguidade não. Acredito que
mesmo nas religiões de longa tradição como Judaísmo, Cristianismo, ( esse com
diversas manifestações e igrejas, parcialmente parecidas e parcialmente
incompatíveis)Budismo, Hinduísmo, Islamismo, há ritos antigos e há ritos
incorporados ao longo dos anos que vão modificando a relação entre os
religiosos.
Quando comecei a escrever pensei que deveria
escrever sobre tudo, muita coisa do que produzi gosto, algumas não, muitos contos,
poemas e escrita do cotidiano acho que são muito ácidas, outras inúteis e até ultrapassadas,
caóticas, mas não coloco nada fora, publico e se não publico coloco fora, nem
salvo. As vezes me distancio para poder voltar a gostar ou desgostar de algo,
acho que é assim com todo mundo que opta por essa antiga arte, mas acredito que
minha escrita tem qualidade e que um dia vai ainda ser lida. Não me preocupo
mais com preservar os direitos autorais porque o escrita está muito dinâmica e
cada pessoa tem seu estilo, como sua digital, leio outros textos e não me
preocupo mais se eles refletem no meu texto, porque tudo reflete em tudo.
Gosto de pensar que sou livre, mesmo sabendo
que ninguém é totalmente livre, acho que neste aspecto a Bruxa para mim é um termo viável, porque é o mais livre e no estado de solitude que no momento procuro estar.
Gosto deste estado de solitude e pretensa liberdade de expressão. Achei
importante essa fala porque não sigo mais muitas longas tradições, nem me fixo
em alguns dogmas religiosos ou científicos. O que o leitor vai entender é
problema dele, tem gente que me lê só para ficar irritado e isso já serve,
outros só por ler, vai saber???Deve ter até quem leia porque gosta,ou um dia posso vir a ter mais leitores. A maior parte da obra de todos os escritores é pouco lida, assim como muitas músicas, peças, telas não são nunca apreciadas, ouvidas, mas nada disso faz dessa energia toda algo menor ou ruim, só é diferente, é um trabalho que cumpre sua função ao ser executado, como cozinhar, lavar, passar, construir... As pessoas sabem quem foi Mario Quintan por exemplo, mas poucas leram suas obras, alguns conhecem até as vírgulas e pontos, então é assim, vamos tocando a vida com magia e criando a realidade
Fernanda Blaya Figueiró
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