Berthe – Bonnet
Hoje li um conto de Maupassant, Berth, é uma sátira
acredito, de como a Doente Berth é vista pelo Dr. Bonnet, num imaginário mundo
em 1876, a narrativa é bela e flui, como todos seus contos. Depois tentei
encontrar algo sobre esse texto e esbarrei num texto atribuído a Monteiro
Lobato em que ele reclamava da grande quantidade de contos de Maupassant ( Meu
Conto de Maupassant), muito bom, e ele brinca contando uma história medonha e
também faz uma breve crítica fala ele que a grande “popularidade” de seus textos
está por abordar o amor e a morte. “A morte,meu caro, e o amor,são os dois
únicos momentos em que a jogralice da vida arranca a máscara e freme num
delírio trágico”. Verdade! A mais pura verdade! Um conto muito bom o de
Monteiro Lobato.
Berth é definida no conto como: “O pobre ser ali guardado nunca deve ver o que se passa do
lado de fora. É uma louca, ou antes, uma idiota,ou melhor ainda,uma retardada,o
que chamaríeis,vós os normandos,uma niente.”E passa dr. Bonnet a narrar sua
longa interação e interesse na paciente, o autor revela a natureza maior de seu
interesse em suas investigações: a curiosidade, muitas e muitas experiência
para satisfazer a curiosidade.”Ela, então, enlouqueceu!Sim, meu caro, essa
idiota enlouqueceu.” O sarcasmo e diria até o masoquismo de Dr Bonnet é algo
impressionante no texto, o desdém por aquele objeto, que ele manipula desde o
nascimento e o fascínio do interlocutor e nosso, do leitor é assustador. Dr
Bonnet coloca-se num pedestal, como o fazem os padres, cria uma distância entre
ele “não louco” e Berth “a idiota”. A única coisa que importa é aliviar o
sofrimento dos pobres pais, isso é genial, porque é disso exatamente que se
trata até hoje, uma relação de poder através da padronização dos seres. Lembrei
de uma entrevista de Paulo Coelho que assisti, em que ele diz mais ou
menos que depois de passar duas vezes
por internação decidiu deixar de “brincar de louco” e conseguiu, isso reforça
um pouco a percepção que tenho de que a sociedade cria a loucura como cria a
pobreza, leva a pessoa a loucura, muitas vezes através da pobreza, da
marginalização. Hoje a ciência tem o monopólio sobre a doença, assim como as
religiões tem sobre Deus, tudo está muito compartimentado e especializado.
Berth foi um ser humano, ou só uma idiota? Na metade do verão de 1876 essa
pessoa dava medo nas outras? Pensando em Monteiro Lobato e sua idéia de delírio
trágico diante da morte e do amor, acho que nada mudou, só os termos, mas as
relações são as mesmas. Basta dizer que Trump, o magnata que ocupa o cargo mais
importante do momento foi recentemente chamado de Louco. Bastou sair um pouco
da linha e temos um louco.
A loucura, o sexo,a violência e a política são os temas que
mais interesse despertam nas pessoas, neste nosso mundo então, em que todos
observam todos, o tempo inteiro quase doentiamente, são os assuntos que mais
dão audiência.
Já o Brasil hoje está fervendo, com malas e malas de propina
descobertas em um apartamento, a delação sob suspeição, é tanta coisa que a
população, essa idiota, pode acabar enlouquecendo... Que loucura.
Fernanda Blaya Figueiró
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