Crônica- Carta além do Tempo.

Carta além do Tempo.
Caro Tio Zéca.

Esta é uma conversa que nunca tivemos, para mim teu melhor livro foi Dom Casmurro, um lindo conto infantil. Lembro apenas a introdução: “Dom Casmurro era um cascudo, preto lustroso,  preguiçoso, preguiçoso... comia: cocô.”Tem um velho conto de Natal sobre o qual já falei, o menino e o caixote, quase releitura da menina da caixinha de fósforos eu diria. Última sessão é muito bom, Os nomes da Nossa Dor é o melhor, hermético para o leitor comum, como eu, difícil mas mudou um pouco o que eu pensava. Quando li Natasha não gostei muito, confesso me pareceu que tu a conhecia “A loucura” por fora, como teoria e não como dor.
“Sofia está Louca.” É fantástico, página 50 do primeiro livro... minha poética aborda constantemente a loucura, chato até para os parcos robôs leitores que tenho. “Bem feito que ela agora está louca” é perfeito. Na nossa família esse sempre foi o grande tema acredito. Bem, quando era bem  pequena e acordávamos cedo os dois, uma vez, houve uma das grandes brigas dos verões sobre o mote: quem é o Louco... Havia muita energia e hormônios envolvidos entre os adultos e uma luta invisível pela sabedoria e pelo poder, típica dos 30 e poucos anos acredito. Bem, estávamos alojados no INPS, pois meu pai era funcionário deste instituto, logo o quarto que usávamos levava essa alcunha, naquela louca briga de idéias e de personalidades fortes veio a sentença: Fulano é Louco, não Louca é Beltrana, não é Sicrano: Louco de pedra... Todos vocês o são, resumi! Fizemos correndo as malas, feito ciganos mordidos pela raiva, e partimos... Sofia está louca adorei reler, me fez me sentir em casa...
A loucura? Eu lendo teus escritos pensava bem baixinho, ele não a conhece... Ele nada sabe sobre ela, só o que leu, nunca o que sentiu. Passados os anos e muitas conversas sobre o assunto, eu digo que tenho depressão desde que nasci, e muitas vezes ela me derrubou, hoje sou um “raro caso de auto cura” porque desisti e aceitei e principalmente entendi. Aos 14 anos ela aprofundou terrivelmente, pois foi Sartre e seu “O Quarto” que me tiraram da escuridão, ao ler o seu texto entendi que aquele ambiente em que eu vivia não era só meu, como temi que alguém visse minhas estátuas, fiz auto terapia com Sartre, viu que chique... Hoje elas dançam soltas e livres na rede... Bem naquela época a fofoca familiar me trouxe um ruído: Fernanda é Autista! (não sei se tu foi quem disse,mas caiu em tua conta)Fiquei furiosa, muito,muito furiosa, rompemos da minha parte nosso longo amor fraterno, não aceitei o termo, talvez eu fosse um pouco Autista tanto que hoje sou Artista, deixaste de ser meu tio preferido, tua primeira morte para mim. Que as pessoas morrem muitas vezes umas para as outras... Nem sei se é verdade essa fofoca... Mas, da raiva veio depois de muito tempo a pergunta: e se? Se eu fosse mesmo autista e tu nada vez? Depois o alívio: Graças ao bom Deus que nada foi feito... Porque hoje penso que a medicina destrói em algumas vezes a mente com drogas, será? Que Sofia era Louca? Ou ficou?
Ano novo escrevi em tua lembrança, Madá é uma Natacha por dentro da loucura, foi mal aceito e nem existe exatamente esse pequeno livreto... Da loucura hoje penso que tem muito a ver com hormônios, expectativas, poder e pobreza. Que essa última enlouquece as vezes, muita gente tomada por louca só está sob pressão, sofre a tensão da vida. Quem melhor definiu essa doida foi o poeta Gonzaguinha:  E a vida?? Ela é bonita. Simples e eficiente, adoro suas músicas que me ajudaram a entender o mundo. Tua morte física foi um golpe forte, porque foi cedo, não reatamos,  mas hoje peço perdão pela minha pouca sabedoria, minha falta de Sofia. Éramos todos loucos e pobres naquele tempo e isso explica todos esses medos o de perder algo, a consciência, o controle, a razão... Quem perde na verdade nada perde,  não sei se um dia vou ter paciência de ler todo os nomes de nossa dor, pela questão técnica, que me agrada mais a literatura em tudo, na história, na filosofia, na economia, nas religiões e hoje vejo teu ofício quase como religião com todos seus dogmas e conceitos um pouco fechados... Meu último grande colapso foi assustador, agora já tem mais de dez anos, um dia vi o tempo parar na esquina democrática, Jesus, como havia almas assustadoras nas paredes e como o tempo para, numa profunda depressão o corpo falha, reagi quando vi um grande cachorro vindo em minha direção ele subia do mercado. Consegui voltar, mas foi por pouco que ela não me tomou, por muito pouco, eu já havia passado pela terapia e para mim não surtiu muito efeito, talvez por preconceito de anos de conversa, não voltei e hoje me reconheço, foi melhor assim, a loucura me rondou, mas fiz a volta nela, hoje somos melhores amigas. Hoje acho que só tenho melancolia, de Amália, de Idalina( única que conheci em vida e de quem lembro os joanetes, que hoje tenho, a implicância com os gatos de minha tia colorada, o corpo pequeno e as pintinhas nas mãos, a casa em Santa Maria, os biscoitos e a luz  ), de Encarnacion, não lembro o nome de minha bisa Lobato Figueiró, que também morreu cedo, que também acompanhou os filhos pelos campos e galpões do mundo. A gente carrega esses medos, essas histórias no sangue, no ouvido, no coração e elas assombram de tempos em tempos. Fui covarde para falar isso a um poeta vivo, mas espero redenção. Sabe que sempre pensei que eu fosse negra, devo ser em algum destes cruzamentos sou negra, vejo Pretos Velhos e eles me ajudam muito a entender o mundo... Um Tio Lhodoro me acompanha em todos os caminhos... Foste um bom tio, alegre, forte, principalmente um bom amigo e tudo está certo. Um beijo da Nega Preta. 
Esta tardia carta aberta pode servir para outros tios e outras sobrinhas, vai saber?
Fernanda Blaya Figueiró Nega Preta. 


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