CracoLândias
Não tem muito o que falar sobre isso, é uma eterna guerra, dos
campos de ópio, aos modernos narcóticos,
caros ou baratos, são eternas guerras travadas. Famílias destroçadas, crianças
oprimidas, grandes feitos, grandes assassinatos, extinções em massa... Proibição,
liberação, imposição, medicação, internação, aceitação??? Negação acho que é a pior de
todas as coisas, São Paulo está certa, tem que enfrentar, coibir, diminuir, recuperar
quem for possível. Há almas que são destinadas a sofrer? Sim.
Acho que evoluímos em algumas parte e regredimos em outras :
coletores hoje se tornaram obsessivos compulsivos acumuladores; melancólicos em
depressivos,bipolares; Guerreiros em psicopatas border line; Aristas em
autistas esquizofrênicos; espiritualistas em drogados paranoicos ;líderes em
narcisistas... Por ai vai, somos muito primitivos e evoluídos ao mesmo tempo...
Uma vez li um conto de Mia Couto, não lembro o nome, mas era
dele sim, muito bom, ou era um fragmento de romance ou uma crônica, não sei, mas ele falava num personagem muito antigo: O
Homem que sai para caçar, a mulher fica na casa, fixa, o homem anda quilômetros
na floresta, sem marcos, para reconhecer o caminho ele põe fogo em alguns
pontos e assim se guia, volta a aldeia, com o fruto de seu trabalho, no tempo
certo volta a floresta. Ou algo parecido com esse relato distorcido pela minha
memória. Esse ser é um andarilho, é livre, tem pernas fortes, é magro, precisa
andar, andarilhar, se mexer, percorrer muitos quilômetros, estar em movimento,
ser respeitado pelo seu fazer, correr riscos, se sentir orgulhoso de si, de seu
mundo e até ser infeliz...
Não é o tempo que ficamos aqui, nem a intensidade com que vivemos que nos torna de bem conosco
mesmos é a velha sentença: Conhece-te a ti mesmo! São Paulo é um ser, mesmo que
isso pareça maluquice, Brasil é um ser, Um ser espelhado em seus criadores.
Quem? Nós! Os nossos ancestrais, os nossos descendentes. Somos Brasil, somos
Terra, somos Humanidade. É importantíssimo que São Paulo ache um jeito de
conhecer quem são e tornar protagonistas os ser CracoLândia, para que o ser São
Paulo funcione dentro de marcos, que se saiba foi por aqui que eu vim, aqui o
Leão rosnou e me afastou, aqui há água é pura, ali salobra, se eu não beber
agora não retorno. Quando esse ser chega é preciso que veja em seus olhos a
sombra do leão, a fome e a sede,a trapaça do companheiro que não retornou... Eu
sou muito, muito, muito antiga. Acredito que a autoridade é uma necessidade e
que o autoritarismo é um perigo, os dois andam fio a fio, lado a lado, há
segredos no caminho, há segredos na ausência, na casa, na mata... Quem com o
ferro fere com o ferro será ferido. Vimos Brasília em chamas, chamamos os leões
e eles rugiram, o rebanho dispersou, leão é leão, rebanho é rebanho, há força e
fraqueza nos dois... Um age na falha do outro, essa oposição de forças
fortalece aos dois, não quero a volta do totalitarismo nem a leniência da
anarquia. Ordem sem exagero, limites sem restrição de liberdade, liberdade com
responsabilidade . Tem hora de caçar, hora
de plantar, amar, odiar, rezar, coletar, desaparecer, que até essa é muito
importante.
Há a hora da tensão e a da descontração, o excesso de uma ou
de outra desequilibra.
Fernanda Blaya Figueiró
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