O que queremos?

O que queremos?
Hoje li um conto de Kafka "Na Colônia Penal", repulsivo, difícil de aguentar e leitura sem enjoar, principalmente a mordaça, para quem já leu. A barbárie da tortura me fez pensar como é "falsa" a lamúria de Lula, seu assombroso discurso de "perseguido" "injustiçado". Ele zomba ao dizer que teve seus "Direitos Humanos" violados. Aqui no Brasil,não sei se acontece em outras partes, há uma desconfiança de ativistas dos direitos humanos, porque seriam segundo algumas visões, defensores da marginalidade. Aqui o sistema carcerário muitas vezes, pelo que é dito dele, parece com essa Colônia Penal, não tem a máquina de tortura lenta e dolorida, mas uma sociedade violenta entre apenados. Essa velha máquina aos pedaços, cujo objetivo já foi superado, desumanizada, tomada por um sub oficial e sem encontrar a redenção prometida, para que serviu essa máquina um dia? Alguém em algum momento da história da humanidade, ou em vários momentos, criou instrumentos sofisticados de tortura, para causar dor e sofrimento e retirar de outro alguém uma suposta confissão, uma informação qualquer... Enquanto lia o texto a TV permaneceu ligada, mesmo no "mute", mostrando duas mulheres, em lugares diferentes, sendo espancadas, ambas em bares, uma no Brasil outra fora daqui, já havia visto a notícia antes, não lembro em que país foi. Isso sim é agressão aos Direitos Humanos, não a condução de Lula para depor ou um interrogatório da ex-presidente da Argentina. Esse homens que aparecem espancando as mulheres merecem a prisão, mas não serem submetidos ao espancamento ou a ter a pele gravada com as afiadas agulhas, na imaginária ou talvez aposentada máquina de tortura. Olhando as imagens é fácil entender porque em alguns momentos da história a humanidade regride, esses homens que batem e provavelmente num segundo momento matarão essas mulheres esqueceram que um dia houve uma máquina, que o delinquente era julgado a revelia, que era torturado e morto, por sociedades violentas, eles estão testando a sociedade? O antigo comandante foi assassinado e o cruel método de execução tomado pelos presos? É a única explicação para o conto de Kafka,o Sistema Prisional Brasileiro parece estar nas mãos desse oficial, estar dominado por quem deveria dominar. O que a sociedade brasileira quer? Como corrigir essa lambança toda que a corrupção desenfreada fez? Os partidários de Lula acham que ele sofre “perseguição” os contrários , inclusive eu, acham que ele deveria ser preso, não para ser entregue a máquina, mas para reparar os erros que cometeu e principalmente para se manter longe do erário público. Qual seria a sua sentença? Não sei. O que vai acontecer? Não sei. Foi muito bom ler esse texto, não lembro de ter lido antes, porque me fez lembrar do monstro que podemos nos tornar, e nas monstruosidades que estão acontecendo nesse momento pelo mundo inteiro. A literatura como era antes não existe mais, é como essa máquina obsoleta e decadente, a nova ainda está em ebulição, nós leitores e escritores que apreciamos a velha forma de expressão e não compreendemos a nova, ou não a reconhecemos ainda, estamos presos ao antigo comandante, nos sentimos como se estivéssemos presos e não estamos, as cordas romperam, o que nos assusta é o que virá, temos muita coisa boa para ler,dá para passar muitas vidas lendo o que já existe, isso é assustador para quem se propõe a escrever, a beleza, e grandiosidade, do que já existe, há muita porcaria também... Como o Explorador pulamos no barco, deixando com alívio a Colônia Penal para trás, mas ela nunca mais sairá da nossa mente, a Ditadura dos anos 60/70, que muitos vivemos de formas diferentes, nos assombra, preferimos fingir que não vemos o que foi feito do Brasil, com medo de que algo pior venha a acontecer. Nossa encruzilhada é tenebrosa nesse aspecto, porque queremos Justiça e não Vingança, queremos o equilíbrio entre ser livre e ser responsável. Há e não há uma profunda angústia na sociedade, há aqueles que como as mulheres enchem o prisioneiro de doces, o novo comandante que não comanda nada e a sombra do velho sepultado. O mundo de Kafka era mais cruel ou é ainda o mesmo até hoje? O Mundo olha para nós latino americanos como se fossemos menos, exóticos, bobos... Não! Somos os mesmos do tempo de Adão e Eva, das cavernas, aquele jovem robusto e tomado de fúria, covardemente espancando uma mulher sentada ou os cozinheiros batendo na cliente, são parte da Humanidade tanto quanto (tentei pensar em uma boa imagem e não consigo lembrar...)... Sim, demorou o menino norte americano que mandou uma carta pedindo para receber um refugiado sírio sujo de poeira de guerra, esse menino é a imagem da redenção, talvez não seja bom, nem mal, mas tem um bom coração, não vai conseguir, é lógico, salvar o outro, mas resgata em quem pode a humanidade, a bondade. Nós, escritores bons, ruins, habilidosos ou não, somos testemunhas e digerimos a realidade, a Colônia penal de Kafka nunca existiu, mas sempre existiu, é a mesma prisão de,Dostoiévsk que nunca tive estômago para ler, sempre vomitei antes. É a atualíssima Guantánamo. Essa é a literatura que perpassa o tempo, que independe de geografia, da ascendência, ou de DNA, mesmo que dê enjoos e repulsa, ela existe com algum fim cósmico que não é de domínio do escritor. Por isso foi muito importante o Nobel, romper a estática literatura e reconhecer a novidade, Bob Dylan é nesse ano nosso maior poeta, ele é o menino mandando cartas ao presidente. Viva, Bob Dylan! Viva esse reconhecimento da fusão entre som, imagem, palavra, corpo, que é o novo, mesmo que parece um pouco velho, a nova literatura, é uma viva contação de histórias, verdadeiras ou não, Bob Dylan é a fusão entre leitor/escritor/ator/canção/melodia. Sua biografia é a literatura acontecendo, evoluindo. Nosso conhecimento hoje é compacto, estamos na nuvem, alguns contando bem outros não a mesma história, com muitas fotografias ilustrando nossas vidas, com verdade ou não. Com muitos questionamentos e poucas respostas compatíveis. Seja justo!! Como é difícil, como é difícil ser justo, não se deixar tomar pelo ódio, não se deixar aprisionar por coisas estáticas, o mundo é fluído... Somos a soma de nossos medos com nossas esperanças e coragem, as nossas leituras, nossa escrita é só expressão de um tempo, não é nossa verdadeiramente, olhem que olhar profundo tinha Kafka... Bom menino??

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