Na terra dos que perderam as cabeças

Na terra dos que perderam as cabeças
Tia, Tia!! Perdi minha cabeça, sabia??
Não!! Na verdade, eu sabia... Li no jornal
Tia,Tia!! Ajeita pra mim, essa cabeça não é a minha
Na tumba? É importante isso??
Sim, Tia!! Essa cabeça da tumba não é a minha...
De quem é? Importa?
Não é que importa é que não é a minha, entende??
Não!... Quando morri minha cabeça estava no meu pescoço...
A minha também, mas perdi!!
Onde?? Ou para que queres tua cabeça??
Eu era bonito!! Cabeceava bem.
Entendo!! E dava cabeçadas também??
Muitas!! Sinto um vazio, um peso, essa cabeça na tumba não é a minha.
E se for?? Se tu precisou ganhar uma nova??
Não!! Eu podia, era meu direito dar cabeçadas...
Como posso te ajudar... Estou aqui numa pátria que é só minha
Tia, Tia!! Olha lá... Olha
Olho!!
Aquela é a minha... Olha o corpo é de menina... Tia aquela é a minha...
Todo o mundo é minha pátria, tudo no mundo vive nos meus olhos
Tia, tia!! Me ajuda!! Dá tua mão e pega para mim!!
Ah!! Pode deixar, assim que passar eu pego...
Tia, agora!! Assim... Cuidado, vai cair!!
Peguei!! Que belo sorriso... Toma, pula, cuidado...
Agora sim, Tia!! Nós dois fomos para a terra dos pés juntos na mesma hora.
Vocês se conhecem?? De onde??
Da vida, a gente viveu a vida junto.. Nos jogaram na mesma cova, mas na tumba misturou.
Como vocês se chamam?? Ou como vocês eram??
Importa, Tia?? Nós eramos jovens e sempre morremos jovens, desde as cavernas
Ela não fala?? É uma bela menina...
Psiu!! Ela ainda não sabe... Leva um tempo sabe...
Sei!! Tão cheia de... vida...
Verdade!! Ela leu alguns dos seus livros...
Você!! Você sabe quem eu sou??
Não! Sei quem você foi!! Quem você é, não sei!! Assisti sua entrevista...Fui eu, em outra época quem deu o décimo terceiro tiro, por que importa?
Exagero!! Foi exagero!!
Matar é matar, não tem exagero, nem mesquinharia
Mesquinharia? Como, não entendo...
Poupar pólvora para mata mais chimango... Não sei como seria em Pernambuco...
Pernambuco?? Pareceu exagero só...
Matar e deixar na cruz foi exagero, a Tia acha??
Outro exagero!!Que sentido tem nisso??
A casca rompe, encontram a gema e a clara a dor da morte no óleo fervente, nunca que o pintinho vira galinha... Só que nós ficamos fortes... Quantas galinhas não nascidas fortalecem a humanidade nesses milênios todos... Preciso andar tem uma barca pronta...
Vai deixar tua amiga assim?? Vagando sem cabeça!! E essa cabeça sem corpo!!
Uma hora ela desperta e encontra!! Vem??
Não!! Não sei... Não quero!!
Tem uma guerra começando na Macedônia, acho, não perco por nada...
Você não tem medo?? De perder a cabeça...
Não!! Eu sempre recupero, sempre... Tem muita alma boa perdida aqui...
Meu mundo inteiro fica na minha cabeça, se perco??
Não perde, nada se perde de nada, medo é coisa de quem ficou velho...
Oh o respeito... Que falta de decoro
Tá, medo é coisa de quem sabe da morte...
Melhorou!! Tocou o apito, vai...
Vou!! Vou nessa!! Vai ser divertido... Tchau!!
Tia, tia... aqui me ajuda essa cabeça
Sei!! É a tua...
Não, não é a minha, aquele pestinha lá na barca roubou a minha, eu cabeceava melhor...
Assisti uma antiga entrevista de Clarice Lispector, muito boa, em determinado momento ela fala sobre um assassinato, em que o morto é atingido por 13 tiros e o quanto aquilo foi marcante para ela, a quantidade de disparos, ela define como uma vontade de matar, um tiro bastava. Aqui estamos vivendo um tempo em que além de torturar, matar os corpos são decapitados, a vontade de matar toma as gangues de drogas e seus integrantes. Esta semana a coisa parece que acalmou, ou parou de ser divulgada. A realidade é parte da ficção, é nossa fonte inesgotável de observação, de interação. Gosto de ler Clarice as vezes, mas não encontro muita familiaridade com a mulher sóbria e de rosto enigmático das entrevistas. A semana que vem deve estrear um filme sobre a Ucrânia, mesmo que ela Clarice não se sentisse ucraniana era, a profundidade de seus olhos, a densidade de seus contos são antigas demais para o Brasil, esse jovem senhor, que ri de si mesmo e brinca com as tragédias. O Brasil é a soma de todos os povos cada um trouxe um pouco de si e aqui se permitiu ser. Ela seria uma escritora se não houvesse migrado? Se sobrevivesse a fome e as guerras talvez fosse. E todos os que não sobreviveram, quantos entre eles seriam? Mas por alguma maldade grande do universo não foram, sucumbiram, por isso quem sobrevive, quem vive, quem adianta na vida e tem uma voz tem obrigação de usá-la, bem, mal, com maestria com mediocridade, pouco importa. Que pensaria Clarice olhando o nosso ovo? Nossas galinhas decepadas? Porque essa tragédia toda? Para alimentar o medo... Ia colocar fora essa introdução mas achei que pensariam que eu plagiei, não eu li e regurgitei... seus chatos... então desloquei para o pós escrito...
Fernanda Blaya Figueiró




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