Mostra de Cinema Contemporâneo dos Açores: Parabéns!!!
Açores – Azores, achei estranha já de imediato as duas grafias acredito que seja como Brasil e Brazil, traduzido do português para o Inglês, mas tirando esse pequeno estranhamento, adorei a mostra, assisti quatro curtas, mas como a sequencia foi montada fez parecer um mesmo longa, uma diversidade de sentimentos e sensações. Foi como conhecer um pouco o arquipélago, o primeiro “O funeral artístico de um projecionista” fala de forma sucinta sobre o "fim de era" que estamos vivendo e o dilema da arte: música, literatura, cinema, artes plásticas, tornaram-se digitais, são operadas por Inteligências Artificiais, eu ampliaria o longo debate e diria que não foram só a artistas que perderam lugar no mundo, no caso do filme o projecionista que tinha uma função na sociedade, era reconhecido pelo seu ofício já que as pessoas indagavam sobre os filmes recém-chegados, Havia a reclusão da pequena sala de projeção, uma toquinha segura de onde se afastava do mundo e retirava seu modesto sustento. Quantas profissões morreram? Antes de ir para o centro passei e olhei para um enorme pavilhão que há aqui em Viamão, era uma fábrica de doces em compotas a MUMU, o prédio abandonado foi devolvido ao poder público municipais, uma vasta área que devia gerar muitos empregos, sustentar várias famílias e que perdeu o sentido, fechou as portas, assim há pelo Brasil inteiro os reflexos da crise financeira e da falta de condições para a competitividade, muitos taxas, impostos, salários que são baixos para quem recebe e altos para quem paga. Como diria o Projecionista, a morte de uma ideia. Enfrentamos uma terrível crise na segurança pública, moradia, blablabla, as escolas tem poucos alunos, os presídios estão super lotados, talvez até de ex industriários, poetas e projecionistas, pessoas que perderam seu ganha pão,parte da morte das ideias, as ideias que tínhamos do mundo não servem mais. Quem deveria proteger o trabalho ajudou a destruí-lo e aí temos a participação de trabalhadores, empreendedores, gestores. E agora, Projecionista? O que é feito desse extinto ser, em que vai se tornar?
Pulamos para a fantástica explosão em “Adormecido” o acordar do vulcão é um soco de realidade para nossos sonhos tão pequenos.
Terceiro curta “Ser Ilhéu”, tenho a impressão de que li a frase “não sei se da ilha sou, ou se ilha sou” na exposição do stand de cultua açoriana ou em algum poema, mas é o resumo da ópera, a beleza da fotografia do filme é tocante, o abandono da Ilha, acredito que parte de algum parque , “agora que todos foram avisados, posso descansar” diz a protagonista numa angústia que mesmo quem já saiu da Ilha a mais de duzentos anos ainda sente. Essa aflição, medo de não avisar todos há tempo deve existir ainda lá, na sombra dos vulcões, na possibilidade de tempestades e da revolta do mar. O mar não estava para peixe, aqui em Porto Alegre e cercanias também não, aqui, não nessa terra, mas nesse tempo não percebemos mais as pequenas nuances, o vento na velinha, a agitação dos animais. Nossa luz está sempre acesa e as horas são digitais, o pêndulo do relógio perdeu o emprego como o Projecionista. Tic...Tic... Tic...
No fundo de toda essa dor antiga pulamos para Montar a Tenda- Carnaval da Terceira, e toda a aflição fica na beira do mar, no pé da montanha, um pandeiro, algumas violas e muita alegria, seguimos o cortejo de apresentações e algo de lá se liga profundamente com o que construíram aqui as gentes vindas de lá ,cantigas, danças, a mania de ser feliz apesar de tudo, um riso solto e farto, popular, retira o peso e o desespero do Ilhéu e apresenta a comunidade em festa, com seus ensaios e arte feita por fazer, arte compartilhada entre iguais, como muitos grupos daqui fazem.
Muito interessante a mostra de cinema e fiquei com a impressão que há semelhanças e diferenças entre as pessoas que partiram de lá há muitos anos e as que ficaram lá. Na vida alguns são raízes outros são sementes, é preciso saber, quem você é? Se não fossem as sementes não estaríamos aqui, se não fossem as raízes não estariam os Açorianos de hoje lá. E como aqui, lá também muitas outras raças e etnias foram migrando ao longo dos séculos, alguns seguiram sementes outros criaram raízes. Essa vontade de ver o mar, ou se mar, é um pouco de resquício das vontades dos antigos navegantes, Portugal, Espanha, Açores, são no fundo, no fundo um caldeirão genético só, para cá trouxeram africanos, encontraram índios, e aos poucos sementes de todas as partes do mundo encontraram nessa boa terra solo fértil, alguns seguiram sementes, outros fincaram raízes.
Somos um pouco de todas as pessoas do mundo aqui no Brasil, em breve estaremos reequilibrados, entendendo a forma de ser e agir pós funeral de um tempo.O desafio maior é achar novos ofícios para todos, cada um com seu jeito, suas necessidades, um dia vamos conseguir.
Fernanda Blaya Figueiró
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