Selva de Calais, as tristes chamas da favela.

Selva de Calais, as tristes chamas da favela.

Muito triste a imagem dos barracos em chama na desocupação da Selva de Calais, as guerras e o terrorismo estão lembrando a Europa de que a miséria existe. O que irá acontecer a todas aquelas pessoas? Serão incorporadas a vida da Europa ou serão deportadas? Impossível não se sentir chocado com o fogo, algo tão antigo solução velha de como dar fim a vilarejos indesejados.Comprei no Brick o livro Escritos de Guerra de Saint- Exupery, uma coletânea de cartas, depoimentos, críticas, muito interessante, uma escrita mais informal, menos elaborada, mas muito bonita, viva, e profunda, um homem angustiado quando se permitia ao homem ter angustia, ter dúvida  diante da vida.Então essa imagem do fogo na favela, a angústia do campo de refugiados ganhou um peso, como se a França de 39 a 44 ardesse em chamas. É sem sombra de dúvidas um período histórico muito complexo esse que vivemos. A globalização quis os lucros do novo comércio, e não quer dividir os prejuízos que trouxe, que traz ao mundo. Sei que o blogue, o Facebook e outras redes não são para pensamentos ou para textos profundos, são para imagens, mas lendo  as cartas, abertas ou endereçadas, percebi que essa comunicação sempre foi assim, só mudou de formato, de alcance, é mais acessível, então peço paciência aos leitores, porque são livres, se quiserem ler leiam, se não, tudo bem. Em algum momento no livro  ele fala em um leitor ideal, que todo autor teria em mente... esse ente, eu acho que atualmente, pelos vestígios do blogue, no meu caso, esse  leitor pouco ideal é um robô. Acredito que quem acessa meus texto é uma inteligência artificial. Fiquei pensando que Sartre e Saint Exuery não se frequentavam e pelo que o Google, desculpe o Dr. Google informou, eles viveram em parte a mesma época, mas em lugares e rodas diferentes, estiveram na mesma guerra, em ofícios diferentes, tiveram relações e visões diferentes dos conteúdos do mesmo mundo. São escritores completamente diferentes, me parece e tinham um mesmo leitor provavelmente. Quem? Eu, entre muitos, em épocas diferentes. Anos mais tarde, muitos anos... Conheci os dois na adolescência e de forma fragmentada,autodidata, mas encantadora. O que eles pensariam sobre ter uma Selva em Calais? Ter uma favela, um campo de refugiados, havia escrito de concentração, não sei se é muito diferente. Estão concentradas muitas almas em pouco espaço, e não querem ficar na França. Querem ir para a Inglaterra, vou tomar a liberdade de escrever algo politicamente incorreto: buscam a mão forte que os oprimia, buscam o Patrão. É preciso entender isso, sem me jogar pedras e ideologia ultrapassada, estas pessoas estão buscando um emprego, precisam que alguém crie um para elas, como eu que sei que minha escrita é absorvida por robôs e minha universidade é o Dr. Google, eles precisam encontrar um lugar, uma forma de trabalhar e sobreviver, precisam ganhar o pão com o suor do trabalho( essa maldição bíblica que foi lançada sobre a humanidade), como fazem há milênios. Eles querem viver com dignidade e sonhar que por seu mérito e por obra de sua ação irão sustentar seus filhos, seus hábitos, suas vidas, em comunidade. Junto deles vem os que querem impor a morte do Patrão, a violência é a única linguagem que conhecem, serão leões da selva. Há uma dor infinita em seus olhares, um apelo e uma vontade de encontrar sossego. Quando suas respectivas guerras terminarem alguns voltarão, outros não, alguns vão tombar na batalha pela sobrevivência, mas nenhum deles voltará a ser quem era. Não há mais mercado para textos como o meu, nem eu quero isso, então essa minha longa escrita é como o tapete de Penélope, a trança de Rapunzel. A vida dessas pessoas também, eles esperam ir, fazer, ser e estar em algum lugar. E alguém, uma mente malévola, vendeu a eles a Selva de Calais como um destino, uma sorte, um lugar para viver. Milhões hoje estão vagando não como turista, nem como combatentes, mas como condenados ao exílio,em busca de trabalho, segurança, e isso assusta quem está estabilizado. Assusta os Norte Americanos que votarão em Trump, por temerem esse estrangeiro migrante que desvaloriza o trabalho, que mexe com o imaginário, que pode mesclar os sangues, as línguas, os costumes, que ameaça o mundo como ele era. Não me levem a mal e compreenda de mente aberta: isso lembra o “Feixe”, concentrados são uma força, sozinhos não, entendo assim a ação de hoje e a tentativa de realocamento dos migrantes em albergues limpos, ordenados, se a França permitir em breve a favela se torna consolidada, por exemplo o Rio de Janeiro deixou, quando ainda era capital do Brasil, que as aglutinações e sub moradias perdessem o controle, porque o governo brasileiro não usou as verbas para desenvolver as comunidades e sim para gerar pequenas fortunas falsas, gerando em contrapartida miséria no outro lado da corda. Os migrantes e refugiados que também chegam aqui aos montes devem ser incorporados ao tecido social e aprenderem a nossa ordem, mas estão sendo largados no comércio informal e a nossa ordem está em desordem... Explodem favelas violentas no Brasil inteiro, eles estão aqui encontrando caos... A globalização precisa, tardiamente, equalizar o trabalho,há energia suficiente ela precisa fluir, precisa ser melhor utilizada. Não é matando milhares de pessoas que se elimina a miséria, nem com bandeiras e linhas imaginárias que se limitam os povos. Se houver fome, violência e morte os povos se colocam em movimento, em poucos anos nasceu uma favela na França, isso é assustador mesmo, porque em breve pode não haver mais França, nem Brasil, ou Estados Unidos,só uma legião de multidões perdidas, separadas por muros.As corporações precisam tomar consciência de seu papel de Patrão, são algo da atualidade, talvez em breve sejam consumidas por excesso de energia, para quem venderão seus produtos e bugigangas? É muito simbólico o fogo em Calais, não tenho como não achar opressor. Hoje pensei em escrever um conto mas não tem, para mim, mais sentido escrever contos. Acho que nós, escritores grandes ou pequenos, vivemos em ciclos de produção, como o nosso sistema atual é perecível,o trabalho é etéreo, como tecer mandalas, nada é mais libertador do que criar e destruir, ter essa consciência do impermanente.Que mal pode fazer não haver mais Brasil? A brasa vai arder... Vai continuar o fogo, as reinvenções, a juventude já sabe de algo que não podemos entender ainda, esse modo antigo de ação-reação declinou? Ou sempre tem algum povo fugindo de algum lugar e agora é muita gente, é a multidão que apavora, há espaço, há pão, para todos,só que não há dinheiro, esse senhor do mundo, ele é quem leva todos os olhares para os países ricos. Logo, logo isso termina, a terrível guerra terminou e Saint Exupery não viu, Sartre viu, viu também outra nascer, outra forma de guerra, ou criou.Agora, nós escritores dessa época vemos isso, esse terrorismo, essa busca alucinada por petróleo e riqueza que correu o Brasil e bombardeia a Síria e tantos outros Fronts mundo a fora. O Front urbano é a próxima esquina, o pátio do supermercado, a sala do aeroporto, a selva urbana está momentaneamente incivilizada. Mas volta, tudo passa, tudo volta... Se você perdeu tempo vindo até aqui foi voluntariamente, que nas primeiras linhas já havia um aviso, então que tipo de robô é você? 


Fernanda Blaya Figueiró 

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