Lá, do alto céu, a
Humanidade é uma só.
Esta frase, ou uma
parecida com ela foi dita por um astronauta embevecido com o Planeta
Terra, o sonho de Saint Exupery, olhar o mundo de fora já é
possível, ver os lampiões sendo acessos, ver o dia se tornar noite
e perceber que todas as rosas são a rosa. Teria muitos assuntos
hoje, mas passou, eles passaram. BRICS o que me incomoda? Porque vou
escrever sobre e postar sobre? Porque estou viva, só por isso, as
pessoas evitam se expor, nós blogueiros optamos por nos expor na
nova tabuleta, o novo diário de notícias ou ainda o papiro
fixado na parede, um espaço em branco qualquer.
Violeta Parra em sua
canção “Maldigo del alto cielo” fala em sua dor, uma dor da
América, amaldiçoa a dor e quem a produz... É digamos um grito de
revolta seguido por muita gente, Mercedes Sosa, entre tantos
cantores, Neruda entre poetas. Lá do alto céu a Humanidade é uma e
aqui no dia a dia todas as histórias se tocam como numa teia, os
caminhos estão cruzados. BRICS? Sim, porque temos uma preocupação,
ou porque tenho uma preocupação, porque aliados fortes são bons
num momento mas podem se tornar opressores em outro. FMI ou FME, tem
diferença entre eles? Qual o melhor, qual o pior, ainda é possível
para um país seguir caminhando sozinho? A América ainda não
conseguiu resolver os problemas dos anos de colonização europeia,
nem os desastres da guerra fria. Há um projeto de lei tramitando que
quer “uma escola sem partido”. O que é isso? A escola não deveria formar cabos eleitorais, ser livre de ideologia, o
conhecimento ser passado de geração para geração sem carimbo, por
exemplo as universidades brasileiras principalmente públicas ensinam
que a ditadura de direita foi um horror , e foi, mas a mesma
universidade ensina que a ditadura do proletariado foi uma maravilha,
isso é errado. Venerar um tipo de ditadura e abominar outro, isso é
ideologia, isso formou um “eleitorado” que agora foi traído, pelo
menos aqui no Brasil. A esquerda usou o poder exatamente como a
direita já fez para gerar algumas fortunas ilícitas e para tentar
se perpetuar no poder, abandonou o povo a própria sorte. O que pensaria Violeta Parra sobre a dor da
América de hoje? Continuaria amaldiçoando o que os homens fazem aos
homens? A resposta, meus amigos, está no vento... Mães venezuelanas
tem que atravessar a fronteira e ter seus filhos no Brasil, filhos da
Humanidade, quem serão eles no futuro? Cidadãos divididos entre
Venezuela e Brasil, uma linha imaginária no chão, são filhos de
Pachamama. Quantos brasileiros hoje se sentem em parte estrangeiros?
Nossa pátria amada que tão distraída foi subtraída precisa se
preparar para dar a eles condições de ser, como a sírio,
haitianos, angolanos que vemos todos os dias nas ruas. Essa costura
toda é a mãe natureza alcoviteira misturando os sangues para
fortalecer as espécies. Na Síria está neste exato momento
acontecendo um genocídio, quando essa guerra acabar, que todas
acabam, alguém ira erguer memoriais, ira converter a dor em filme,
em lamento, em telas e poemas. Mas é um genocídio, um ou mais povos
podem estar na lista de extinção, belas crianças cobertas de dor
e morte, pessoas impotentes sem ter como cuidar de seus filhos.
Agora. Isso está acontecendo agora. Nós blogueiros de hoje, antigos
escribas, estamos aqui olhando, ouvindo, registrando. É o que nos
compete nesse complexo sistema de teia onde nada mais é solitário e
ao mesmo tempo é tudo muito árido e único. Ninguém podia ter
escrito esse texto que não eu, porque sou eu a perceber e não é
uma percepção verdadeira é um fragmento de percepção sobre
coisas que verdadeiramente estão acontecendo, esse texto pode compor
a verdade ou a mentira. A literatura ou a escrita livre não tem
compromisso com a verdade. Alguns leitores do blog deixam rastros,
pois buscam velhos textos, em um eu digo "não nos limite, não somos
subdesenvolvido, em outro digo sim, "somos sub". Sub
desenvolvidos, ou não, somos vocês. Nós somos vocês, só que nascidos
na América do Sul, somos os filhos brasileiros de mães
venezuelanas, ou de povos mais antigos vindos de caravelas, vindos do
oriente, em busca de um norte, de um pedaço de chão, de um quinhão
de farinha. Nossa dor é ancestral e não será com pílulas mágicas
que ela desaparecerá, ela não vai desaparecer porque existe para
nos manter alertas, ela é parte do ser humano. O Império Romano, é sempre ele que espreita a
sombra e olha a nossa terra de fartura, nossa comunidade sossegada,
limpa, abastecida e confortável. Que boa terra para conquistar
pensam os Imperadores, que povo fácil de dizimar, que pastagens
férteis e fontes de água doce. Avanti! Não, essa terra tem dono!!
Diria o velho Sepé Tiaraju!!Tombou é verdade, mas com muita peleia. Então
que venham os BRICS e nos olhem como iguais, não como fracos, que não
somos. Somos desenvolvidos de nosso modo, não do modo que se quer impor como único, nada, nada no mundo serve da mesma forma para todas as comunidades.
Fernanda Blaya Figueiró
“Amaldiçoo no alto
céu
Violeta Parra
Amaldiçoo no alto
céu
a estrela e seu
fogaréu,
eu amaldiçoo o
corcel
e a sua crina no
breu,
amaldiçoo no subsolo
a pedra e seu
contorno,
amaldiçoo fogo e
forno,
pois minh’alma está
de luto,
amaldiçoo os
estatutos
do tempo e seu
modorro,
quanto durará minha
dor.
Amaldiçoo Pico da
Bandeira
e Mata Atlântica na
costa,
amaldiçoo, senhor, a
estreita
como a larga faixa de
terra,
também a paz e a
guerra,
o franco e o
caprichoso,
eu amaldiçoo o
cheiroso,
pois morreram meus
anseios,
amaldiçoo todo o
certeiro
e o falso com o
duvidoso,
quanto durará minha
dor.
Amaldiçoo a
primavera
com seus jardins em
flor
e do outono a sua
cor,
eu o amaldiçoo
deveras;
a nuvem passageira,
a amaldiçoo tanto,
tanto,
pois me ajuda um
quebranto.
Amaldiçoo o inverno
inteiro
como o verão
embusteiro,
amaldiçoo profano e
santo,
quanto durará minha
dor.
Amaldiçoo o peito
varonil
e o berço
esplêndido,
amaldiçoo todo
emblema,
o Olimpo e o
pau-brasil,
o mico-leão e o azul
anil,
o Universo e seus
planetas,
a terra e as suas
cavernas,
pois me descorçoa
uma tristeza,
amaldiçoo mar e
correnteza,
seus portos e
caravelas,
quanto durará minha
dor.
Amaldiçoo lua e
paisagem,
as praias e os
desertos,
amaldiçoo morto por
morto
e os vivos, do rei ao
pagem,
a ave com sua
plumagem,
os amaldiçoo como
artífice,
os professores e
pontífices,
pois me flagela uma
dor,
amaldiçoo a palavra
amor
com toda a sua
porquice,
quanto durará minha
dor.
Amaldiçoo enfim o
branco,
o preto e o amarelo,
os bispos e os ateus,
hospitais e
ministérios,
os amaldiçoo
chorando;
o livre e o
prisioneiro,
ao manso e ao brigão
eu jogo minha
maldição,
em grego e em
palavrão
por culpa de um
traidor,
quanto durará minha
dor.
tradução de Ricardo
Domeneck,
Comments