Império de Malagueta seu novo Reality Show.
Os seres humanos cansaram da guerra dissimulada e estão construindo os pilares de uma guerra declarada, o anonimato das disputas estará caindo? Como serão os próximos anos? A guerra virtual mata na vida real? Sim. Dinheiro é um imperativo tão poderoso na atualidade que sem ele o mundo é impossível, com ele também, ter muito é um perigo, ter pouco mais inda. Os seres são medidos pela sua capacidade econômica, só. Quanto você vai ganhar durante a vida, quando você vai custar ao se aposentar, quanto e para quem você vai servir e o que vai consumir, com quais serviços e bens você vai lidar, em que cadeia produtiva você se encaixa? Já disse uma vez, soou muito feio, mas nada no mundo arrecada tanto e cresce tanto quanto a pobreza. Que pobreza de espírito você dirá, que coisa sórdida de se dizer, mas é verdade:pobreza gera muito dinheiro, por isso o mundo deixa que exista, porque é conveniente. Quantas ONGs, Igrejas, Partidos Políticos exploram a pobreza? Pedem em seu nome contribuição financeira e isenção de tributos?A história hoje é contada enquanto acontece, enquanto desenrola o fio, é muito rápida e efêmera, que impacto tem sobre nós, que ainda somos feitos de carne e osso, que temos frio e fome, que temos sonhos? Do que é capaz para o bem e para o mal o Ser humano? Tá! Eu já disse, não acredito no fim do maniqueísmo, nem em nenhum outro fim de qualquer "ísmos", as ideias são as mesmas, as forças são as mesmas agindo em nós. Se você é da turma de que acredita que isso tudo foi superado, que é defasado, então desembarque, nada haverá para você aqui. Uma jovem chamada Malagueta, que seu nome não sabemos só sua alcunha, vive entre o real e o virtual mundo, ela existe? É ela, ele ou nem ela nem ele? Malagueta foi mesmo assassinada ou não existia? Alguns filósofos novos estão reinventando o mito da caverna, em que seriamos “borrões de nós mesmos”, a realidade foi filmada e usada recentemente em toda a sua crueza, foi fotografada e expostas e as pessoas se sentiram traídas, não isso não foi aqui, não no meu tempo, ou na minha vila. Foi. Os crimes hoje, mesmo acontecendo com os holofotes, continuam não desvendados, continuam obscuros. Foi, sim. Nesse tempo, neste período, nessa Humanidade elevada, polida, sem traumas. Sim! Há obscuridades na alma humana. Malagueta tinha um login, foi apagado, tinha um perfil, era fictício, tinha uma história inventada. Sumiu no mundo, entre um click e outro, nunca existiu ou existia? Malagueta nasceu com já dezoito anos, sejamos corretos politicamente, escolheu que seria uma Imperatriz, ocorre que não há mais impérios dando sopa, uma Imperatriz do Game. Impérios são sempre Impérios, geram inveja, desconfiança, medo e atraem os mesmos seres desde as cavernas. Que Império é esse? Quanto ele pode de fato ocupar no mundo virtual? Malagueta achava que era brincadeira, uma bobagem. E deveria ser, mas tem quem leve a sério as brincadeiras. Malagueta lançou seu Império do Game, em plena luz do dia, sem se preocupar, sem intenção boa ou má, quanta ingenuidade, o Bem e o Mal, adoram uma boa briga, uma discórdia qualquer, uma disputa, um desafio. Malagueta colocou as cartas e pensou que nada aconteceria, um valete morreu ao cruzar a avenida. Ela riu, que coisa, essa notícia, que invadiu a página, assim feito cookies, ignorou. Virou a outra e um Rei se ergueu, levantou seu exército contra seu maior inimigo. Bloquear os cookies? Malagueta tentou mas o jogo estava em andamento, percebeu que as cartas acordavam de um grande sono. Territórios conquistados e perdidos, ventos, furacões, seca e fome. Malagueta não sabia mais quem era, nem o que fazia. O Brasil convive com a crueldade e a violência, que antes ficavam confinadas em territórios e comunidades de periferia, assim como com a bondade e a vida protegida. Há favelas no mundo todo, Malagueta nasceu perto de mais da periferia e os contornos imaginários entre os mundos não existem mais, ela fugia de casa, não aceitava o que os pais diziam, era a vítima perfeita, adentrou a favela para zoar? É crime? Não. Não é. Mas foi crime o que aconteceu assim que o baile acabou, um crime que acontece o tempo inteiro, contra quem deste universo se aproxima. Este universo da violência perdeu os contornos e invadiu tudo, não há mais um lugar em que não entre. Entra pelo Game, pela TV, pela porta da frente das casas, no computador, no celular. Se não usasse drogas, não fosse aos bailes, se não andasse com estes sujeitos seu destino seria outro? Não há como saber. Foi a primeira vez que isso aconteceu? Não. A História da Humanidade é repleta de crueldades contra os seres humanos, ela foi violentada porque era mulher? Não. Se homem fosse teria acontecido o mesmo. Ela foi vítima das circunstâncias? Sim e não. Ela foi vitima e pronto. Pessoas gostam de se divertir, de brincar e de “torrear” com a vida e a morte. Malagueta sempre existiu, é seu direito dançar, brincar e rir, mas ninguém pode garantir que nada de ruim vá acontecer. Bem perto daqui uma família inteira encontrou a morte dentro de casa e nem era periferia, nem foi arrombada a porta, ninguém sabe o que aconteceu. Um império inteiro cabia nos pequenos cômodos onde todos foram encontrados, havia tensões internas, brigas antigas, amores declarados e vidas recém nascidas, foi talvez uma das cartas do Game de Malagueta, que movidas na partida foram descartadas. Haverá um ser manipulando a sorte e o azar? Malagueta morreu no dia que o Game acabou, segue um corpo desprovido de vida própria vagando por alguma periferia ou por uma casa semi protegida, um “cadáver adiado que procria”. A violência que existe aqui no Brasil é muito antiga, uma parte das coisas mais modernas em pensamento, arte e direitos existe aqui ao lado de partes que ainda vivem como se na Caverna estivessem. Rascunhos de vidas ou vidas plenas de animais que se pensam superiores? Há que se protestar, que gritar e brigar para que algo mude, mas no fundo todos sabemos que a violência é parte do ser humano, parte de cada um de nós, como lidamos com ela é a questão. Como vivemos em meio a tudo isso e que consciência temos de nossos limites? Uma jovem mulher jogou um carrinho no olho de uma criança indefesa de dois anos. Jogou porque era mulher? Não, porque era ignorante, porque exerceu sobre o ser indefeso a sua fúria, sua indignação, sua incapacidade de agir de forma correta para com a criança, foi cruel? Sim. A criança teve culpa? Não. O ambiente parecia seguro? Sim. Perdeu o controle?Sim. É má ou agiu de forma má? O lar, a escolinha, o baile funk o que tem em comum? Aconteceram no Brasil, mas poderiam ter acontecido em qualquer lugar do planeta, em qualquer lugar que exista um império, grande ou pequeno. A diferença de discurso, de direitos e deveres, de oportunidades do Brasil é a mesma do abismo econômico que há entre as pessoas, lutamos há muito tempo para que a realidade mude e ela não muda, mudamos as ideologias, os políticos, os poderosos e na realidade nada muda. A Europa fez um paraíso para si e deixou grande parte do mundo de fora, agora a miséria bate a sua porta, lá irão voltar a conviver com o que aqui vive lado a lado, um Estado de Bem Estar Social e um Estado Paralelo de Mal Estar Social. É surreal o que vivenciamos aqui? Não. É real mesmo, as mesmas coisas que acontecem no mundo acontecem no mundo virtual porque ambos são criações da mente humana. Há seres humanos diversos convivendo e vivendo com patamares diferentes de educação, cidadania e civilidade. O que vai acontecer? A sociedade irá estabelecer novos contornos para sobreviver e manter a ilusão.
Fernanda Blaya Figueiró
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