Vozes soltas na memória



Vozes soltas na memória
Um conto que podia ser verdade mas não é. É imaginário, fica tão longe da verdade que é parte de um sonho. Podia ser sobre Cauby Peixoto e Ângela Maria, talvez seja, mas é um conto sobre um tempo. Pode? Pode! Hoje começou a passar Cauby na TV, pensei, porque? Tanta gente partiu no ano passado, mas era boa a nova, completou ontem 85 anos. Ufa!! Pensei. Há alguns meses pesquisei sobre Ângela Maria e fui tomada pelo bom susto de saber que ela ainda é viva. Fazia tantos anos que não sabia dela que achei que já havia partido. Eles não partem mesmo os que tenham partido, são, mesmo não mais sendo ainda são. Enquanto ensaio um conto eles cantam Lupicínio Rodrigues, a delicadeza e poesia são vivas e eternas. O Brasil viveu uma era dourada de grandes vozes, de poesia e sotaques carregados de “rr e ss” de pronúncia minuciosa e impostação da voz, que é uma fatia única da história do país. As grandes vozes fazem parte de nossa cultura. “A vergonha é a herança maior que meu pai me deixou”. Sabe moço! (Leopoldo Rassie,) Lupi, é artigo raro aqui neste tempo: Vergonha. O que sobrou para nós? No meio do alvoroço, hoje as lutas brutas e feias não tem mais clarim, nem chamados elas são urbanas. Não tem com quem sentar e negociar a paz... Não tem como fazer tratados, sobram cicatrizes de batalhas no peito de cada família que perde. Perdem! Quem tem a “Pisada de Lampião?” Dominguinhos e Luiz Gonzaga transformaram a dor em alegria, a lembrança em dança, a seca em fartura, não o timbre das belas vozes dos palcos do sul, mas a alegria de sobrevivente, o orgulho de gente boa que tem vergonha na cara, então norte e sul, leste e oeste  tudo se alinha. Tudo se completa. Precisamos ouvir Chico e Lobão juntos. Que o vento traga o lugar do novo e o do antigo juntos.
O conto? Acho que perdi! Perdi a noção da hora?? Talvez! A sorte do brasileiro foi lançada, a ponta afiada da flecha vaga no absoluto vazio, é rápida, certeira,impulsionada por quinhentos anos de histórias. Não quero o seu perdão!Basta amar! A flecha da sorte cruza o ar, você não consegue ouvir a tempo, você não consegue acompanhar, ela pode quebrar com o vento? Pode desviar num pássaro? Pode atingir o alvo? Que alvo! O coração de cada brasileiro é tauba de tiro ao Álvaro. Enquanto pulsar, enquanto bater vamos em frente. Você vai dizer que não ouviu o som da cuíca, o estridente da guitarra,quantos sopros e dedilhados, as palmas, as pausas e os silêncios? Essa flecha saiu de uma caverna pré histórica, que história não tem pré, pós e então. História é estória. Deixe-me ir preciso andar! Essa flecha que rompe o espaço e nos assombra é nossa amiguinha, ela é pão, é movimento, nascimento e morte. A paz dura até o ponto que termina. Que bom que Cauby e Ângela Maria ainda estão por aqui para fazer o povo sonhar. Não sei! Realmente não sei se eram pobres, se nasceram na cidade, no campo, no mar, se fizeram fortuna, se gastaram, se amaram, se eram euro,afro,oriental,américo descendentes. Não sei mesmo! Voltei para rever os amigos- Nelson Gonçalves... Quanta coisa nossa jovem nação já viu, já superou, já passou. Café? Petróleo? Soja? Algodão? Charque? Futebol! Sim! Senhores, faz parte, sim. A gente não quer só comida... Marvin pode ser nosso conto. Não tinha educação? Segundo Paulo Freire isso não existe. Ser letrado não é tudo. Puxa o Cachimbo da paz Gabriel e canta com Valesca a pensadora, e não tô brincando. Cada um com a sua voz, a sua sabedoria. India, Índios, Índio chegou na praia, ele já estava ela. Quem me dera ao menos uma vez ter de volta todo o ouro... Não tem como! A flecha da sorte levou o ouro das Américas. Talvez amiguinho eu fale demais por não ter nada para dizer. Como um barco perde o rumo... Diga a verdade doe a quem doer... É hoje o dia da... E a … Não pode nem pensar em chegar. Um salve para esses meninos que jogaram toda essa beleza na rede, assim fica fácil contar um conto. É preciso fazer as pazes com o passado porque ele não volta( deve ser uma música só não sei de quem) a flecha, essa ancestral, leve e invisível, rompe o ar e um dia vai cair. Meninos ou meninas do You Tube me mandaram ouvir Ney Matogrosso. Poema, lindo!! Que deve ter alguma mente atrás destas pesquisas todas, será?... Queria eu que ainda fosse humana, porque as vezes desconfio. Desconfio que nossa inteligência está quase artificial e desumana. Nossa humanidade não podemos perder. A possibilidade do choro, do riso, do espanto. Desculpem.Muita, mais muita gente e melodia não foi lembrada mas está junto aqui, faz parte. Como não coloquei Caetano e Roberto? Não sei! Eles devem estar ai e você não percebeu. Perdi a mão para contar histórias, um pouco porque o mundo é um moinho. Quando uma ilusão é reduzida a pó é preciso de imediato que nós construamos outra. Fecha essa caixa de pandora que a esperança pendurada vai resolver.
Deixa te contar então: A Cigana leu, não no fundo de uma caneca com café, ou no bailar da fumaça do incenso, na vela cuja chama ilumina a noite fria, na palma da mão da gente. Se, se e somente se houver uma nova guerra para que América fugirás? Para que montanha alta irás? Atravessarás que oceano? No ano que os cinco planetas se alinharam,o sol queimou forte os sertões e desertos, cobriu de neve as ruas e mostrou ao homem que é pequeno, frágil e precisa se entender. El Niño furioso esse ano, de alinhamentos e de mudanças. Calma menino! Que venha La Niña! As forças da natureza ou da natureza humana estão buscando um equilíbrio. Um novo ponto, uma ilusão. A Flecha ancestral corre sem parar, ainda não se sabe de onde vem, quem é e para onde vai. Com ela viajamos, com ela aprendemos a manter o estado de atenção. A arte é a expressão do desespero e da esperança, ela mantêm a corda esticada para nossos passos bobos pelo escuro. Na linha da vida a Cigana lê, uma leitura diferente, lê o olhar aflito, lê e vê, ouvi e conta. Lê e dança no compasso das palmas. Quando a caravana chega é preciso receber e depois deixar que se vá. A sociedade precisa entender o andar das coisas, que tem menino que toca, que tem menina que dança, que tem a mão boa para a terra, o braço próprio para o mar. O pé que sabe chutar, uma bola, um bumbum num palco lotado. Se uns sabem fazer bem as coisas com mãos rápidas e outros sabem correr, imaginar, calcular, inventar, até guerrear. Nada como uma mão que polvilha a mesa com farinha e a outra que traz a luz do dia para um bebê. Há riqueza para todos, porque a “riqueza” é a energia do fazer, transformar e como ela chega a cada um é inventado por nós. Nada é pra sempre, lembra?? Para que tanta estatística, medição e comparação. Partindo com seu pandeiro colorido deixou escapar: encontrem o que há de melhor em cada um, dizem os antigos que o que caiu da carroça ao longo da viagem já não te pertence...Logo em seguida desapareceu sem deixar rastro, como se nunca tivesse por ali passado,
Fernanda Blaya Figueiró

Comments