Um continho para variar: O velho prisioneiro do ágio

O velho prisioneiro do ágio


São tempos de alta usura em nosso país, os ricos correm o risco de perderem suas cabeças quando estes tempos se aprofundam, os pobres serão massacrados e quem sobreviver viverá tempos negros. Há uma antiga casa, de dois séculos talvez, o que seria muito pouco para ser antigo em outros continentes, mas que na América é muito, nela vive um velho prisioneiro do ágio. A casa tem dois andares, as paredes internas foram todas removidas e no lugar de salas, quartos e banheiros há um brique muito pobre, livros antigos de pouca valia, objetos e mais objetos espalhados entre velhos lustres, discos, selos e toda a sorte de coisas usadas. O velho prisioneiro do ágio usa pequenos óculos de aro em seu rosto longilíneo, é magro e tem pouco sangue nas veias, típico das pessoas que não se preocupam com o outro, que é apenas o outro: uma ameaça constante a seu “patrimônio”. Que triste é sua alma corrompida pela usura. Onde fica esta casa? Em muitas cidades do mundo, quem é esse senhor? Na verdade são muitos e vivem em muitos lugares, ao longo dos muitos séculos. Mas a casa talvez tenha apenas dois séculos. Não! Essa casa tem o tempo da humanidade, o tempo inteiro do ser humano, é uma fachada, não se sustentaria com os objetos de pouca valai que vende. Algo muito velho está escondido em suas paredes, uma ideia de mundo. Bela? Não, nem feia, é uma casa velha de fachada acinzentada com pequena sacada ornamentada com ferro fundido de antigamente, um vestido vermelho de Umbanda pousa guardião de relíquias e quinquilharias. Vale mais o terreno do que o prédio, você entende, não é? Logo, mas logo essa casa vai ruir e em seu lugar a cidade erguera um nosso templo de um novo tempo. O velho é desconfiado e murrinha como todo prisioneiro do ágio, fica a pensar que está sendo logrado. Pobre alma prisioneira. Logrou e logra em uma vida inteira de negociosinhos e de dinheiro escondido, na miséria profunda da alma. Nossos governantes faliram. Estão mais corrompidos que o velho prisioneiro do ágio, foram se embrenhando nas teias da mentira e nos conchavos para angariar fundos. Estamos no fundo do poço e descobrimos que é muito, muito fundo que a luz fica a cada dia mais longe, em breve chegaremos ao Japão ou no meio do mar, mas no caminho há um núcleo denso e quente que há de nos consumir a pele, estaremos no Inferno? Não. Isso é drama barato, como os muitos que a casa guarda, e nosso conto necessita de algo maior, de uma ilusão: o fogo purifica. Sente na sombra e observe a derrubada da velha casa de ágio e suas quinquilharias dela vira o novo, o belo o iluminado. Liberto em fim será o velho prisioneiro.


Fernanda Blaya Figueiró  

Comments