Pequena coleção de memórias ruins.


Pequena coleção de memórias ruins.

Tenho uma pequena coleção de memórias ruins que as vezes me assalta, assim do nada como se eu estivesse presa a pensamentos antigos ou a uma cadeia de memórias alguns dias boas em outras ruins. Hoje lembrei ao assistir um antigo filme em que uma família perde o filho “No profundo mar infinito” acho, mas lembrei que uma vez esqueci minha irmã na escola, ela estava no maternal e eu no Jardim, então ela devia ter três e eu cinco anos. Eram outros tempos e muitas crianças saiam da escola ao mesmo tempo e faziam o mesmo trajeto, três quadras. Um dia ao sair fui para a casa de uma amiga Denise, que ficava na metade da segunda quadra para brincar de casinha, lembro de um joguinho de chá colorido, e esqueci de levar a minha irmã; ela ficou sozinha na porta de escola chorando e sua professora acabou levando-a em casa. Acho que a mãe de minha amiga me levou em casa mais tarde, não lembro bem, mas a angústia ligada a essa memória me acompanhou quase toda a vida. Contei esta história inúmeras vezes, mas de tempos em tempos ela volta, como se eu fosse de novo esquecer de algo importante. E eu esqueço, um dia não reconheci minha filha no shopping ao sair do cinema olhei o rosto conhecido e chamei a Luiza pelo apelido da minha irmã, Tita. Só entendi hoje vendo o filme que é sentimento de culpa. Todos os meus problemas nasceram comigo, toda minha inquietação é muito antiga, isso não é um problema, é uma forma de ser e agir. Não é uma patologia é uma forma de estar no mundo. As pessoas estão errando com as crianças o tempo inteiro, o que fazer deste texto? Quando as boas memórias aparecem? Não sei bem, mas elas aparecem, só que as ruins são mais poderosas. Assim como aparecem, desaparecem e as vezes parece que eu não estou em casa, não estou em mim. De fato, de trágico nada aconteceu nesta memória, mas o que poderia ter acontecido que é a questão. Perdi meu filho uma vez também no supermercado, mas foi bem menos marcante, pois foi um corredor só que nos separou, deve ter sido logicamente impactante nele. Lembrei perdi os dois uma vezes na Redenção, no Lual , achamos que tinham ido para a pracinha e eles estavam sentadinhos conversando com uma turma a poucas mesas de nós, mas a angústia foi enorme. Aquela mãe do filme é muito eu, o irmão também. Perdi muitos cachorros nos últimos tempos e agora estou refazendo a matilha, e me sinto um pouco traidora dos que se foram. Mudando de saco para mala, a Grécia deveria cair no SPC do mundo, pois as vezes é melhor quebrar do que continuar negando a realidade. Adoro o SPC porque já estive lá e já sai. Não dói. O que fazer deste texto? Acho que ter um governo ruim nos ameaça, nós que vivemos a pressão que era o tempo da ditadura, não como guerrilheiros, terroristas ou subversivos e sim como seguidores da lei, dentro das normas, parece que a ruptura e desestruturação das normas, do Estado Democrático de Direito, nos coloca sozinhos brincando na casa dos amigos enquanto tínhamos que estar em casa. Nosso chão parece que vai ruir. Não vai, é só o pensamento ruim se mostrando em toda a sua força. A realidade não pode ficar mais ruim, porque não existe.

Fernanda Blaya Figueiró

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