De Bernardo a Eduardo,
o complexo de existir.
Um ano após a morte do
menino Bernardo, Eduardo sentou-se em frente a sua
casa e levou um tiro, no Complexo do Alemão, não teve tempo
de saber o que acontecia. Quantas criança foram vítimas da
violência no mundo neste pequeno espaço de tempo? Enquanto isso os
governos brincam com a realidade: “ Está tudo bem!” vamos fazer
um ajuste aqui, uma reforma ali e tudo continuará bem. Mas vem a realidade e
aponta: vocês roubaram destes meninos o futuro, a possibilidade de uma vida longa e saudável. Todas as mães sentem o coração apertado, num misto de
tristeza pelo que aconteceu e de alívio por não ter sido o seu
filho. Recentemente assisti ao filme “ A história de Adele H.”
uma biografia romanceada da vida da filha do escritor Vitor Hugo, ela corre o
mundo em busca de uma obsessão amorosa, escreve um longo diário,
talvez com a pretensão de ser escritora, com a vontade de escrever e
expressar suas idéias. Adele Hugo acaba miserável, vagando pelas ruas do
mundo, sem saber de si, sem saber quem poderia ter sido, entregue ao
que se diagnosticou na época como esquizofrenia, acaba como uma
personagem de seu pai: Fantine. O Brasil está assim de Bernardo a Eduardo um
só ano se passou e nada aconteceu, vagamos revivendo histórias
desastrosas. O menino do Complexo do Alemão, morto por quem estava
ali para protegê-lo, deve ter sido recebido, no céu, pelo menino que na terra
foi sepultado envolto em plástico e tendo o corpo corroído pelo
ácido, nas mãos da própria família. Ambos sofreram do mesmo
complexo: o de existir. Há uma dor humana que não é nem física,
nem emocional, é existencial. A dor e o prazer de existir, de se
saber humano, de se perceber espirito e matéria. Somos seres que
perdemos o entendimento da complexidade da vida. A dor destes dois
meninos foi estampada em fotografia esta semana, o retrato de uma
menina síria que se rendeu a uma máquina mortal, ela se sabia
vítima de uma dura realidade. A menina síria, o menino do alemão,
os jovens que filmaram a morte dentro do avião, as crianças
palestinas, as afogadas nos mares, os mortos por coiotes. Todas são
as crianças de Vitor Hugo. Como nós Humanidade não conseguimos nos
livrar dessa estética violenta e cruel? Como uma pessoa que desviou
bilhões de dólares que seriam para melhorar a vida de meninos e
meninas como esses consegue colocar a cabeça no travesseiro e dormir
tranquilamente? O que levou a humanidade a esta situação? Como nós
convivemos com isso tudo e não nos assombramos mais? Deus, Homem,
Ciência, Tecnologia, precisam se falar, se reunir e repensar. Para
onde estamos indo?
Fernanda Blaya Figueiró
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