Você não percebe mas a Corrupção afeta sua vida.

Você não percebe mas a Corrupção afeta sua vida.

Assisti ao programa Globo Repórter sobre o Itaimbé zinho, a Globo está de parabéns pela beleza do programa. Mas para mim foi triste porque lembrei de um tempo em que ainda alimentava a ideia de ser uma escritora, tenho um texto que fala justamente de lá, criei a personagem Linna Franco, inclusive uso seu nome como e-mail até hoje, devido ao blog, porque queria construir uma obra literária voltada ao público infanto-juvenil, além dos textos que escrevia para adultos. Acho que grande parte dos meus fracassos são de minha pura responsabilidade, porque eu nunca me submeti ao mercado e muito menos a política, então optei por este caminho obscuro da marginalidade, um pouco porque escritores vivem uma dicotomia: queremos ser reconhecidos profissionalmente mas queremos manter o anonimato que permite andar despercebido pelas ruas e colher as ideias. Voltando ao título eu escrevia, compilava textos e antes de publicar  fazia o registro, para preservar os meus direitos autorais, quanta vaidade. Até que inscrevi um dos meus livros em um concurso e o edital foi modificado, fiquei muito furiosa entrei em contato com os responsáveis, fiz uma denúncia no MP, porque havia uma exigência de Depósito Legal o tal registro junto a Biblioteca Nacional, que foi retirada, perdi pois o MP entendeu que não havia um ilícito, então retirei meu livro e desisti de busca estas coisas todas porque no Brasil, em muitos casos, a lei não serve para nada, só para perseguir alguns e beneficiar outros. Não existe uma Literatura Brasileira ou uma preocupação com a Memória Artística, existem alguns escritores que conseguem romper barreiras e vender livros. A Biblioteca Nacional é um velho prédio, pouco preservado que luta para sobreviver, infelizmente fica também a margem das preocupações da nação. A corrupção custa caro ao país porque ela danifica a alma do povo, ela faz com que os projetos de vida sejam abandonados. Você pensa: quem sabe começar tal negócio e logo em seguida  você desiste porque sabe que colocará dinheiro no lixo. Eu para esse ano comecei uma horta, já decidi que os pássaros serão meus sócios porque não vou brigar com eles por algumas folhas de alface, será a nossa horta.


Fernanda Blaya Figueiró 


O antigo texto:
ITAIMBEZINHO: O DESAFIO.
 Linna estava cansada, muito cansada. A Aventura no Lago Tarumã tinha lhe tirado as forças, precisa recarregar as energias.Estava em férias da faculdade, porém mantinha o estágio na rádio universitária.
Ela pintou o apartamento de azul claro, usou uma faixa de papel de parede com conchas e outros objetos do mar, na altura dos móveis. Quando terminou havia uma carta na sua caixa de correspondência. O que seria?
Linna abriu o pequeno envelope azul, não havia remetente. O selo e o carimbo de postagem indicavam que a carta era de Cambará do Sul.
Estava curiosa, um cartão branco e delicado trazia a inscrição: Carta Convite. Convidamos você Linna Franco e seus amigos para visitarem o Parque Nacional do Itaimbezinho. Esperamos por vocês, no próximo fim-de-semana. Estranho, não havia uma assinatura. Um cartão anônimo, enviado pelo correio ao seu endereço. Linna ficou preocupada. E se fosse uma armadilha?
No outro dia Linna chamou sua turma e perguntou o que eles achavam do convite. Deveriam ou não aceitar? O grupo estava reunido no meio do parque da redenção.
Sentados no chão conversavam e curtiam a natureza e a energia da cidade. Com a chegada das férias escolares cada um tinha um destino. Acauã precisava retornar para Maquiné, seu pai, o cacique Tibiriçá, queria que ele ajudasse a receber os visitantes. Já que o movimento na aldeia e na reserva aumentava muito. Era ótimo para a população de lá, pois conseguiam movimentar a economia e juntar dinheiro para os meses frios, quando o número de turistas caia pela metade.
Josefina ficaria em Porto Alegre, os seus familiares não queriam mais que ela acompanhasse as aventuras, achavam que não era bom para uma pessoa de cem anos estar envolvida com problemas, mesmo que fossem relativos ao meio ambiente.
Os Tamoios não podiam sair de Viamão, estavam ocupadíssimos com o treinamento das categorias de base, a gurizada, como eles gostavam de dizer.
Armando estava de malas prontas para ir para Caçapava, faria um trabalho exclusivo para uma grande campanha publicitária.
Tadeu, Oscar e Janete estavam com viagem marcada para a serra, visitariam uns amigos e assistiriam ao Natal Luz.
Gi estava indo para as Missões, participaria de um grande encontro de conscientização cultural, ela e seu grupo lançariam um livro só sobre grandes personalidades negras e seus feitos.
Andressa estava indo para a fronteira, adorava freqüentar free shopping e faria todas as compras de Natal, que no seu caso seriam muitas.
Logo só Linna Franco iria ao Itaimbezinho, seria estranho ir sozinha. Acauã achava que ela não deveria ir, convidou-a para passar o fim de semana com ele em maquiné. Mas alguma coisa dizia a Linna que precisava enfrentar o desafio, mesmo que sozinha....AIMBEZINHO: O DESAFIO.
 Assim decidiu ir. Escolheu um abrigo azul celeste, um tênis branco,,uma calça jeans, blusas e um biquíni. A Magrela já estava pronta, Linna tinha conseguido uma oficina especializada em recuperar bicicletas, como ela havia sido jogada no Lago Tarumã estava muito danificada. O mecânico teve que mudar os aros, o banco, a correia. Só a essência continuava dela. Linna tinha planos de passar o fim-de-semana em casa e curtir o retorno da magrela. Mas, o bilhete tinha chamado sua atenção. O que estaria acontecendo?
Pegou o ônibus às 18:00 de sexta-feira, chegaria à noite. Ela havia feito reserva em um albergue da juventude de Cambara do Sul. Vários estudantes estariam lá, segundo a informação de Fabrício Leandro, o assistente social responsável pelo albergue. As coisas começavam a fazer um pouco mais de sentido, talvez fosse apenas um encontro de estudantes. Linna estava cadastrada em várias entidades ambientalistas, logo, o bilhete azul não tinha nada de mais. No ônibus ela pegou no sono profundamente. O ar condicionado estava super frio, por sorte levava a mochila na mão. Linna acordou no meio do campo. O ônibus estava estacionado e não havia ninguém!
 O céu estava coberto de estrelas, uma lua maravilhosa iluminava o campo. Linna não fazia a menor idéia do que podia estar acontecendo. Por sorte a porta do ônibus abriu quando ela mexeu em uma manivela. Não havia rastro nenhum dos outros passageiros e nem do motorista. Ela estava sozinha, desorientada e lógico, com medo. O seu celular não tinha sinal. Resolveu caminhar, achou mais fácil seguir na direção que a frente do ônibus apontava.Linna achava que o motorista não tinha visto que ela dormia e tinha ido embora com os outros passageiros, mas o estranho era que não encontrava sinais da estrada. O ônibus havia andado quilômetros. Linna saiu caminhando sem rumo, o campo era plano e coberto por uma vegetação rasteira. Havia poucos animais ao longo do caminho e um silêncio quase absoluto. Totalmente diferente dos outros lugares onde ela tinha estado. Estava com medo, mas curiosa.
Quando o sol despontou no horizonte, Linna caminhava sem rumo, o campo começava a ser mesclado com capões de mata nativa e belas Araucárias. Ela lembrou de Maquiné, da Grande Araucária, de Acauã e todos os amigos, como queria que eles estivessem ali.
De repente estava em frente ao cânion! Magnífico!
Uma fenda rompia o chão. Paredes de pedras cobertas por árvores, flores e uma queda d'água se estendiam como um longo caminho.Seu coração disparou diante de tanta beleza... O sol timidamente avançava e Linna estava tomada pela emoção.
 Lágrimas inundaram seus olhos, rolaram pelo seu rosto e caíram naquela terra abençoada.
A Gralha Azul veio falara com Linna, pousou a poucos passos dela, fez um gesto com a ponta da asa, indicando a imensidão.
- Linna, ela disse, aqui tudo está resolvido. Aqui não vamos encontrar problemas, disputas, conflitos. Este é o Cânion Fortaleza!
- Que bom que você está aqui, senti uma alegria imensa ao ver a fenda, mas uma profunda solidão... Fiquei confuso.
- Qual foi a primeira coisa que você sentiu?
- Eu queria que Acauã e meus amigos estivessem aqui.
- Isso é o amor. Lembra o que Tibiriçá falou a vocês lá em Maquiné?
-Que eu levaria um pedaço do coração de Acauã comigo e que ele ficaria com um pedaço do meu coração... Agora eu entendo - Linna tirou do bolso da jaqueta uma pequena flor feita de folhas de bananeira - Essa flor foi ele quem fez e me deu. Eu trago sempre comigo.
-Você está cansada?
- Estou! Também com fome e sede...
- Água tem nas folhas das plantas e comida, tem nos galhos, há frutas, sementes... Basta procurar.
Linna e a Gralha Azul caminharam pelo cânion. Uma trilha bastante acentuada levava até o fim. A Gralha Azul disse que aquele era um caminho desconhecido até para os guias mais experientes da região. Linna teve que ter muito cuidado, pois estava andando quase na vertical, havia alguns pontos onde ela podia se apoiar, um cipó longo e emaranhado na vegetação acompanhava a trilha, e a Gralha Azul voava ao seu lado. Procurava não olhar para baixo, a paisagem era linda, mas assustadora, se perdesse a concentração cairia, sem a menor chance de sobreviver.
O céu estava claro e o Cânion parecia infinito, mas de uma hora para a outra, uma forte neblina encobriu tudo. A Gralha Azul informou que era um fenômeno típico da região: a Viração. Um choque de massas de ar.
Linna gostou, pois assim a decida ficou parecendo menos perigosa, mas também um frio repentino veio junto com a cerração. Linna sabia que não corria perigo, a Gralha Azul dava a ela uma sensação de segurança. Mas jamais teria decido se ela não estivesse ali.
 O que será que havia no fundo do Cânion?
20/12/06 ( data da postagem no weblogger)
A descida do cânion fortaleza foi longa e demorada. Linna chegou ao fundo do precipício exausta, já anoitecia. O lugar estava totalmente escuro, a Gralha Azul a acompanhou durante toda a descida.
Linna passou por várias espécies de animais: insetos, répteis, aves... Muita diversidade de plantas ... Mas a medida em que descia predominavam as pedras e pequenas correntes de água. Um vento frio e assustador soprava. Não havia luz, Linna tinha uma lanterna consigo na mochila, encontrou também uma barra de cereais... Foi um alívio...
- Nossa, quanto nós caminhamos!- disse Linna.
- Muitos quilômetros - disse a Gralha Azul - você notou que andamos em zigue-zague?
- Notei. Acho que para facilitar o equilíbrio, não é?
- Exatamente. Essa trilha foi feita pela natureza mesmo.
-A gente não vê nada daqui, a fenda vai afunilando?
- Sim e não. - A gralha respondeu - Em alguns pontos a fenda afunila em outros alarga. Aqui existem vários Cânions, agora nós vamos desvendar um segredo*, todos eles são ligados por cavernas e túneis naturais...
-Eu imaginei que deveria ter algo assim, pois o envelope azul que eu recebi, falava que eu deveria ir até o Itaimbezinho e não o Cânion Fortaleza. Você sabe quem me mandou o convite?
- Sei. Mas não posso revelar.
- Imagino que o motivo de eu estar aqui também?
-Isso, Linna. Eu preciso voltar a superfície, mas não tenha medo, todos os seres vivos daqui conhecem você. E o tempo lá em cima parou. O ônibus vai estar andando, saindo de Porto Alegre. Então do mundo que você chama de real ninguém vai sentir sua falta. Adeus, Linna.
- Adeus e obrigada.
A gralha Azul voou em direção ao topo e Linna ficou só, no escuro e sem saber o que aconteceria. Pisou em um objeto pontiagudo, quando focou a luz da lanterna viu uma guampa de boi encravada na lama: .... "Mesmo que eu atravesse um vale de sombra e morte... Nada temerei... O senhor meu Deus estará comigo"... Linna lembrou de um salmo que dizia mais ou menos isso, lembrou de Josefina recitando para ela, numa feira de sábado. Lembrou do sorriso dela, de seu perfume, de sua sabedoria... A imagem da amiga centenária inundou sua mente... Não tenha medo Linna disse para si mesma, em alto e bom som...
O som que predominava no fundo do Cânion era o da água correndo e do vento... Linna caminhava sem saber bem para onde... Estava cansada, escolheu um lugar mais alto e seco para deitar. Iluminou as paredes de pedra e vislumbrou um pouco do que parecia ser o céu. Dormiu por algumas horas, quando acordou uma topeira olhava para ela.
- Olá , disse Linna, quem é você?
- Eu sou uma topeira, vim levar você até a entrada da caverna, olha! – o animalzinho mostrou para ela algumas nozes - São para você!
- Obrigada, sabe que eu tenho um amigo chamado Topeira... Ele é jogador de futebol...
- Eu conheço!  - disse o animalzinho - Ele joga no Tamoio, não é?
- Isso... - respondeu Linna - Ele é gente fina, como todos do time... Mas de que caverna você está falando?
- A Caverna Azul, um lugar muito bonito – a topeira parou e olhou para Linna, com a voz bem baixa disse a ela – Linna eu vou junto até a entrada da caverna, depois você segue sozinha. Lá dentro você vai percorrer um túnel, até um ponto, onde existem três caminhos que levam até a caverna, mas você deve escolher sozinha por qual seguir.
- Qual a diferença entre eles?
- Basicamente não tem diferença, é só uma questão de escolha. Cada caminho vai ter uma mensagem, a que você achar melhor deve seguir.
- Nossa você está me assustando...
- Não se preocupe, você está gostando do passeio?
- Sim, só perdi a noção do tempo... Como aqui é sempre escuro... Há pouco achei que estava chovendo.
- Mas estava, só que aqui em baixo caem só uns pingos. Chegamos. Boa sorte, Linna!
- Obrigada, Topeira. Acho que eu vou precisar.
Linna se despediu do animalzinho que subiu apressado. A entrada da caverna era bastante estreita, ela teve que se encolher, as paredes eram de uma rocha escura, logo havia um túnel de poucos metros. Linna viu que havia várias estalactites emoldurando o caminho, avançou com cuidado. Estava quase no final do túnel, quando deixou a mochila cair e vários morcegos saíram voando assustados com o barulho. Ela entendeu porque a topeira falava baixinho, seu coração estava acelerado, parecia ouvir um zunido, sentia uma pressão na testa. Chegou a pensar em voltar, mas manteve a calma e seguiu em frente.
O Túnel terminava em um buraco, não havia degraus, Linna teve que saltar para dentro. O Chão estava muito úmido, coberto de lodo e pedras. Logo ela viu os caminhos que a topeira havia mencionado: eram três aberturas na pedra, uma ao lado da outra e em cada uma havia uma palavra grafada.
Então, quem teria escrito na pedra? Linna não era a primeira pessoa a estar ali.
A primeira palavra era Aquitã,  havia junto um desenho de um caminho curto. A segunda palavra era Ita Ai’be, o desenho correspondente era o de um caminho mais largo e um pouco mais longo. A terceira palavra era Pauã e o desenho correspondente era de um caminho bem mais largo e longo.
Linna tinha que decidir!  Parou em frente as três entradas e observou principalmente os desenhos, já que não sabia em que idioma as palavras estavam escritas, parecia Tupi-guarani.
Aquitã, Ita Ai’be, Pauã.  Linna era pelo equilíbrio, estava inclinada a escolher o caminho do meio, nem muito longo , nem muito curto. Ita Ai’be recitou em voz alta: Itaimbé. O caminho para o Itaimbezinho, será?
Ela lembrou que o nome Itaimbezinho significava pedra afiada, os índios achavam que a fenda tinha sido feita por uma faca, de tão perfeita que era.
Linna imaginou Deus com uma faca na mão esculpindo a terra.Ou descendo um machado afiado, rompendo o chão com fúria! Não! Os índios tinham razão, ela pensou, aquele lugar era abençoado.
Escolheu o caminho do meio. Um corredor levava a um lugar deslumbrante: a Caverna Azul. Exatamente como a toupeira tinha falado, estalactites apareciam em quase todo o teto, tinham a coloração azulada, como se fossem turquesas. Ela andou mais um pouco e viu um lago de águas claras, Linna se aproximou e colocou  a mão no lago, a água estava morna , ela provou um pouco. Parecia a água mineral vendida em garrafas, ela bebeu mais um pouco, estava com sede.
A garota viu refletida na água uma imagem fascinante, ficou surpresa. Virou-se e uma fada olhava para ela. Seus olhos eram muito claros, quase translúcidos, seu cabelo era coberto de pequenas flores que hora pareciam azuis, hora rosa. Linna abriu e fechou os olhos várias vezes, a fada riu dela.
- Que foi Linna? – ela disse - não vai dizer que não acredita em fadas? Seu blog é cheio de imagens nossas.
- Eu sei! Mas nunca imaginei que,que... que  fosse ver uma... – Linna gaguejou. Esse lugar é lindo, essas pedras são turquesas?
- Não. São selenitas, elas são muito poderosas, atuam sobre as pessoas, fazendo com que enxerguem melhor a realidade. Se você notar são transparentes como os cristais, aqui estão azuis pela cor da água e pela energia desta caverna.
- Foi você?
- Quem enviou o convite? Sim. Só esqueci de assinar... A Gralha Azul, veio de Maquiné, que se você olhar no mapa vai notar que não é muito longe daqui. Ela falou em você e sua turma. Contou às aventuras que vocês vinham passando, mostrou suas fotografias e resolvemos convida-la para vir aqui... O bilhete foi postado no correio pelo Macaco Tobias, o carteiro deu um corridão nele, por sorte caiu entre as outras cartas e foi enviado. Você está gostando?
- Claro! Como você se chama? E que flores lindas são estas no seu cabelo?
- Meu nome é Hydra e essas flores são hortênsias... Na verdade eu sou uma Hortênsia, só que ganhei este corpo de fada, por mérito... Foi a própria Mãe quem me elevou... Numa cerimônia linda. Por que eu sozinha povoei os Campos de Cima da Serra, acredite...
- Como?
- Eu fui a primeira Hortênsia cultivada, por uma pessoa maravilhosa que um dia morou aqui: Dona Alvidiana.
-A Mãe Natureza???
_ A Mãe Natureza, respondeu Hydra, fazendo uma reverência com a cabeça. Você não quer sair da água, vai acabar criando raízes...
- Bom aqui tudo é possível, imagina um monte de mudinhas de Linna Franco.
-Você é realmente muito inteligente... É isso que a Mãe quer... – disse Hydra.
Linna estava encantada com a suavidade da fala de Hydra, a fada era meiga e alegre. As duas estavam diante do lago, dentro da caverna azul, uma ligação subterrânea entre os Cânions Fortaleza e Itaimbezinho. Hydra falava sobre a importância das ações de Linna e de seus amigos. Sobre a dedicação e a lealdade que tiveram com a Grande Araucária e o Conselho dos Anciãos, a atuação brilhante na Limpeza do Lago Tarumã... E as pequenas ações que cada um fazia: Acauã educando as pessoas sobre a importância da reserva da Serra Geral. Josefina, circulando pela feira de sábado no parque da Redenção e soltando sementinhas de conhecimento e respeito pela natureza. Gi, atuando como uma guerreira na valorização da sua cultura e na batalha contra os preconceitos de qualquer tipo. Armando, fotografando e registrando coisas boas e ruins, denunciando o que não concordava, um homem livre. Oscar, Janete e Tadeu, uma família unida e trabalhando junta na formação de um novo pensamento, otimista e principalmente modificador da realidade. Andressa, uma consumidora contumas, mas consciente e altruísta, sempre pronta para ajudar, sempre disposta e alegre. Os Tamoios, sempre voltados para as crianças e utilizando o futebol como uma forma de conscientização. Além é claro dos animais: Briel, Gabi, Dona Cordélia, a Gralha Azul, o Caracol, a Serpente, Princesa e os filhotes .... Conversaram horas sentadas na beira do lago.
O tempo não passava. Hydra falava com calma e queria ouvir Linna, queria saber o que levava ela a ser assim: dedicada e consciente.
- Não sei! Eu vou fazendo as coisas – disse Linna – Tem uma força que parece atuar em mim. Como um dia de inverno que fui visitar o Jardim Botânico, na volta, fazia muito frio, eu vinha com a Magrela pela Ipiranga e vi várias famílias abrigadas às margens do arroio. Senti uma vontade enorme de ajudar, de fazer alguma coisa. Dai fui encontrar com o pessoal da ronda e eles me deixaram ajudar a recolher as pessoas e servir sopa. Mas alguns não queriam sair da rua. Sabe porque?
- Não. – disse Hydra – Você sabe?
-  Sei, eles diziam que tinham medo de sair e não poder voltar para lá no dia seguinte. Agora imagina passar uma noite inteira na rua, com um frio de cortar e correndo todos os riscos que a gente sabe que eles correm.
- É horrível mesmo. Mas foram os homens que criaram isso. A Mãe Natureza sempre provê... Ela põe as sementes onde o solo permite... Ela deixa o joio e o trigo crescerem juntos, em equilíbrio...
- Eu sei. Mas e agora que o mundo já é assim? O que podemos fazer?
- Restabelecer as coisas. Como Acauã sempre diz...
- “Guarda no Coração Linna !”... – seu olhos se encheram de lágrimas, estava morrendo de saudades dele – Como assim?
- Os homens devem guardar a Mãe Natureza no coração....




sábado, 23 de dezembro de 2006
Hydra conduziu Linna até a margem lateral do lago, havia uma pequena canoa, esculpida no tronco de uma Araucária, dois remos feitos da mesma madeira estavam presos com cordas de cipó nas laterais.
Linna ficou chocada: usarem madeira de araucária para fazer a canoa parecia tenebroso, mas Hydra explicou que a morte fazia parte da vida de todos os seres e que esta araucária, tinha sido transformada e os seus restos tinham cumprido a sua missão: adubar a terra. Muitas outras plantas e árvores nasceram de sua energia. Logo ela havia completado magistralmente seu ciclo de existência. E a canoa havia sido talhada pelas hábeis mãos de um Pajé, era cheia de bons fluídos. A morte,disse Hydra, é parte da vida, o que importa mesmo é a maneira como uma pessoa vive, as decisão que toma, as sementes que deixa, o bem ou o mal que faz...
- O mal? Como?
- A gente só conhece a alegria por que existe a tristeza, a bonança por que existe a tempestade. Mas eu fico aqui Linna Franco... Você segue... Este é o Lago da Existência, ou o Rio da Vida. Adeus!
- Adeus! Obrigada, adorei conhecer você Hydra... Quando nos revemos?
- Um dia Linna. Um dia!
A fada voou e seus cabelos trocavam de cor entre azul, lilás e rosa. Ela subiu até o teto da Caverna e se dissolveu entre os cristais de selenita. Linna ficou admirada, olhando para cima viu a imagem de Hydra refletida em cada pedacinho de pedra.
Linna estava só, entrou na pequena canoa e usando os dois remos em sincronia avançou no Lago da Existência.
* É uma bela manhã de Sábado em Viamão... Vou ao comércio... Um beijo
FELIZ NATAL!!!( postado no weblogger)
Linna não sabia o que iria encontrar. A canoa era pequena e bem talhada, havia um banco junto aos remos, a madeira parecia coberta por um tipo de resina, como uma parafina. Ela ajudava a canoa a deslizar com suavidade pela água do lago. A água ficava mais quente a medida que avançava em direção ao centro do lago. As paredes e o teto da caverna permaneciam azulados e cobertos de pedras. A imagem de Hydra havia desaparecido, assim como os sons. Predominava um silêncio que Linna ainda não conhecia, os remos tocavam a água sem produzir som.
Linna parou de remar, se agachou e colocou a mão na água, que estava quente e muito limpa, sacudiu a mão contra a canoa e não ouviu nada. Ficou preocupada, fechou os olhos e lembrou o que Hydra havia dito: guarda no coração Linna.
A canoa balançava levemente... Linna cruzou as pernas e pensou com intensidade na flor que Acauã havia lhe dado. Mentalizou as cores, o formato e principalmente o significado. A imagem dele foi aos poucos se formando em sua mente.Linna viu o amigo atravessando a mata atlântica, ele estava ajudando a combater um foco de incêndio iniciado por turistas desastrados. Chamou, mas ele não podia vê-la. Ela abriu os olhos e viu refletida nas pedras a cena que havia imaginado...
Acauã vestia a calça de algodão e a bata branca que usara para salvar a Grande Araucária. Estava determinado e ativo, aplicava  todo o seu conhecimento da mata para controlar o fogo... Linna notou que ele parecia ter parado para ouvir alguma coisa... Seria seu chamado? Pensou em chamá-lo novamente, mas a Mata precisava mais dele do que ela.
Neste momento um pingo de água caiu bem onde ela estava, direto na água, produzindo um estalo. Ficou super aliviada, pois não havia perdido o sentido da audição.  Ao cair o pingo produziu algumas ondas, ela olhou ao redor e viu que estava no meio do lago. Olhou para trás e viu que a canoa havia deixado um rastro por onde havia passado, um caminho com a cor da resina. Linna havia remado muito. Nas paredes da caverna estavam refletidas várias imagens suas: bebê, criança e jovem. Aparecia brincando com os pais e os irmãos, com amigos de quem nem lembrava mais. Estudando, brincando, brigando, comendo, namorando... Os amigos das aventuras apareciam todos, em vários momentos, como num filme.
Teria morrido? Teve medo de olhar para a frente, sua audição retornara, mas também uma forte sensação de fim, sentia perfumes e odores, gosto amargo e doce.
- Calma, Linna!
- Hydra? É Você?
- Sim, estou aqui... – Linna reconheceu a imagem da nova amiga refletida nas ondas provocadas pelo pingo.- Foi você quem produziu este pensamento, lembra que você recitou um salmo?
- Sim, Josefina me ensinou... Mesmo que eu atravesse o vale da sombra da morte, nada temerei... porque o senhor Deus estará comigo... Esse é o vale da morte?
- A morte é parte do lago da existência, mas o que está tomando conta de você é o medo. A sua mente está produzindo medo...
- Eu tive medo e chamei Acauã. Acabei vendo ele lá na Mata, em Maquiné. Mas não tenho certeza do que vi e nem do que tenho ouvido.
- Mas você ouviu o pingo. Por que acalmou o coração e viu que Acauã está onde deveria, onde é necessário. Você venceu o medo. Eu sempre estarei aqui, mas o importante é que você siga sozinha.
- Obrigada Hydra.
Linna resolveu fechar os olhos e remar sempre para o mesmo lado, em círculo. Esperou a canoa parar e fez o movimento inverso. Abriu os olhos e todas as imagens haviam desaparecido. Novamente teria que escolher um rumo. Soltou um grito bem alto: Haaaaa. A caverna respondeu: aaaaum. Linna proferiu: aum. Estava ouvindo e sentindo as vibrações da energia.
O Lago da Existência estava calmo e sereno. Linna havia encontrado uma forma de se expressar, usava os remos para avançar, mesmo sem saber bem para onde, confiava que fazia a coisa certa. A margem do lago apareceu novamente.
Linna conduziu a canoa sem pressa, quando já estava quase chegando na margem um banco de areia prendeu o fundo da embarcação.
Sem pensar duas vezes, saltou da canoa e mergulhou no lago, nunca havia sentido uma paz tão grande. Imersa na água Linna sentiu vontade de ficar ali mesmo, mas sabia que precisa completar a jornada. Nadou com confiança, estava se sentido leve e feliz. No fundo do lago havia uma camada de arreia que aos poucos ia se tornando a própria margem. Um foco de luz iluminava uma das pedras da caverna. Linna foi até a luz, estava saindo da caverna azul, mas levava consigo a energia mágica daquele lugar: Ita Ai’be. Pedra afiada. Linna saiu da caverna pela fenda e ouviu o som de pessoas, um grupo caminhava em fila indiana. O guia falava que eles estavam diante do Rio do Boi, no interior do Cânion Itaimbezinho... Linna olhou para trás e a fenda havia desaparecido...
Ela chamou por eles, mas pareciam não lhe ouvir...  Fabrício Leandro, o guia, falava que no outro dia receberiam a visita de Linna Franco, uma estudante de jornalismo que vinha atuando muito como ambientalista... O lugar era deslumbrante.
Linna entendeu que ainda estava sob o efeito da mágica. O grupo foi embora e sentada sobre uma rocha Linna viu a imagem mais bela de todas: a Mãe Natureza sorria. De seus lábios saíam os sons dos animais: o canto dos pássaros, o cricrilar dos grilos, a música das cigarras e até o som do pingo que ela havia ouvido... Em seu colo descansavam as plantas e as flores. Á água, o vento, a vida emanava dela. Linna se aproximou e ficou quieta diante de tanta magnitude.
- Linna!
Ela não sabia o que deveria fazer, quando se deu conta estava apoiada sobre os joelhos, com a cabeça baixa e em posição de reverência.
- Aproxime-se - disse ela para Linna – precisamos conversar.
- A senhora é linda - disse Linna.
Ela não conseguia focar os olhos diretamente em sua interlocutora, pois uma luz de um amarelo muito intenso a iluminava. A Mãe Natureza assumiu a forma de uma mulher mais velha para poder conversar com Linna. Explicou que isso era apenas um truque, uma imagem bastante comum na cultura humana.
- Eu estou vivendo uma experiência muito renovadora aqui. – disse Linna.
- Na verdade este caminho que você acabou de percorrer é bem conhecido pelos homens. Em várias culturas ele aparece, o lugar em si não faz muita diferença, pois o caminho é interior. Você encontrou consigo. O silêncio, a reclusão, a solidão, são artifícios que aceleraram um pouco este processo, como uma fruta que amadurece em uma estufa.
- Eu tive medo... Um medo opressor, mas que depois se tornou importante para que eu decidisse continuar.
- Linna, Hydra já falou com você sobre o medo. O que eu quero enfatizar é que você encontre esta energia lá no mundo, esta capacidade de refazer, de reconstruir. O Homem declarou guerra a mim.
- Alguns homens, Mãe, não todos. –Respondeu ela – Não sei como devo chamá-la?
- Eu sei, e sei de pessoas que lutam por me defender, como você, Acauã, Josefina, Hydra e todos seus amigos. Você pode me chamar Vida, como muitos costumam.
- Como posso ajudar?
- Boa pergunta... O homem sempre teve uma grande capacidade de adaptação e de transformação. Pois hoje vocês precisam usar esta ferramenta, por exemplo, em vez de temer a luz do sol, transformá-la em energia. Usar os raios para o benefício de todos inclusive meu... Transformando as coisas ruins em boas.
- Como?
- Bom. Pesquisando, planejando, administrando, usando as faculdades que vocês receberam de Deus. Mas sem terrorismo, sem um discurso de fim de tudo... Vencendo o medo. Vocês têm que virar o jogo... O que você fez com a canoa?
- Eu remei, avancei no lago, fui ficando com medo, parei de ouvir, fechei meus olhos e lembrei dos meus amigos, dos meus pais. Cheguei a ver imagens, sentir aromas e quando eu ouvi o pingo a realidade voltou. Eu girei a canoa deixei que ela parasse e procurei um novo rumo, eu estava confiante novamente... Achei que estava perdida, mas encontrei o caminho.
- Qual? Você sabe?
- Eu diria que o da iluminação... Mas eu ainda me sinto igual, com todos os meus defeitos.
- E eles estão todos com você, mas suas qualidades também... Hydra usou uma imagem muito interessante, imaginou mudinhas de Linna espalhadas pelo mundo. Eu gostei da idéia. Não desejo guerra aos homens, eu sou pela paz... Mas uma lei é inviolável: para toda ação há uma reação. Logo quem acha que destrói a natureza está destruindo a Vida. A melhor forma de mudar isso é pelo coração.
- Na caverna eu voltei a ouvir quando ouvi com o coração.- disse Linna.
O sol já havia desaparecido, a Mãe Natureza se recolheria e Linna havia completado sua jornada no Cânion. Estava afiada como a pedra que Deus usara para lapidar a fenda. Tinha argumentos, conhecimento e energia para continuar o seu caminho... Precisava voltar... O paraíso é a Terra e está ao alcance de qualquer um. A Paz era um longa caminhada ao encontro de si.
Acordou no ônibus, sacudida por uma menininha que olhava intensamente para ela. Trazia uma boneca em forma de morango arrastada pela mão e perguntou se ela não ia descer com todo mundo em Cambará do Sul. Ela se chamava Diana, em homenagem a uma bisavó sua: Dona Alvidiana. Tinha os cabelos encaracolados e o sorriso igual ao de Hydra. Linna ficou sem reação.

 Fernanda Blaya Figueiró 




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