Perto das horas cheias

Perto das horas cheias

Há uma magia que se prende nos ponteiros dos relógios. Mesmo que quase não existam mais ponteiros na maioria das horas.Que não existam mais intrincadas engrenagens rodando na marcação do tempo.Há hora para tudo no cadenciar do tempo. Quantas voltas há num rodar de horas, numa única existência? Acabo de desistir de escrever um longo texto, eles não são para mim.
“Uniforme(uni-forme) “Dado que a realidade consiste do cálculo traduzível em planos, é preciso que o homem entre na uni-formidade, se quiser ficar em contato com o real. Um homem sem uni-forme hoje causa a impressão de irrealidade, assim como um corpo estranho em nosso mundo” (Heidegger- retirado da pg 140 da “A arte do romance” Milan Kundera.
Não sou, nem uso uni-forme sou disforme, anacrônica, estou presa nos ponteiros de um relógio, que certamente não mais existe ou roda, rodando parado no eixo da terra ou do tempo. Não sei bem!
Esta semana assisti a um programa de televisão, acho que com Caco Barcellos, ele falava sobre transgêneros, em determinado momento o cartunista Laerte Coutinho congelava em plena palestra e saia de fininho, desnorteado de um lugar incômodo( não assisti tudo só uma parte). Essa pessoa que escreve e desenha tiras, um renomado catunista, recentemente se assumiu um homem que usa roupas femininas. Não uni-forme. Ele teve a coragem de assumir ser uma outra pessoa e se vestir de uma outra forma, mas a sua atitude ou seu jeito( no programa) era de muito desconforto, porque você sai de um quadrado e parece que tem que encaixar em outro. Sai de uma forma e deve encontrar imediatamente uma outra forma, uma categoria, uma marca, uma coisa tangível, reconhecível, mensurável.Pelo menos percebi assim a sua postura corporal(naquele instante), isso é uma violência contra um ser não uni-forme, não preso ao real como os outros querem que o real seja.Um ser de tirinhas vive nas tirinhas.
Eu não sou mensurável, não sou um produto, me custa muito caro não ser o ser que querem que eu seja. Não sou rebelde, ou não rebelde, fiel ou infiel a este ou aquele pensar. Eu sou o que quero ser, ou o que posso ser, e quem não quiser me ver, apague-me de seu olhar.


Fernanda Blaya Figueiró

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