Arquivo Prosa

Oi, Gente!

Hoje senti vontade de reler um continho meu e encontrei a coletânea Arquivo Prosa... Esses são textos super antigos e a maioria já está no blog mas republico.Alguns são bons outros bem ruins, mas tudo escrito por mim.Acho que assim reunidos nunca tinha publicado. Ver algumas fotografias de crianças morrendo nas guerras, faz mal para a gente, não importa que crianças, nem que guerra, é  sempre triste. Uma menininha brasileira foi morta espancada pela própria mãe e outros outros tantos casos horríveis acontecendo trazem o horror para perto. Esse continho "A noite eterna de Jacó" escrevi há muitos anos e as guerras vem e vão, sempre temos coisas repetindo.
Fernanda




A noite eterna de Jacó.
Jacó ainda está com o cajado nas mãos, travando a sua interminável batalha com Deus. Abraão entra e toma a pequena Israel nos braços.
Deixa os dois lá sozinhos. Ao fundo ouve o estampido seco de madeira contra madeira.
Ele chama Israel de sua pequena criança e, tomando sua mão, os dois saem a passear pelo mundo.
“Sabe Israel”, ele diz, “um dia os homens vão entender que o mundo é um e muitos”.
As enormes pernas de Abraão levaram os dois às mais variadas partes do mundo, em passos largos. Às terras da África, a todos os cantos da América, aos floridos recantos da Europa, a bela Ásia, a fria Antártica e a adorável Oceania.
Em todos os lugares havia muitas pessoas, muita alegria e muita tristeza. Havia leite e mel. Ricos e pobres. Amor e dor.
Voltaram à noite eterna de Jacó e a Aurora veio em sua companhia. Pena que Estavam tão exausto que não perceberam...

Fernanda Blaya Figueiró. 04/08/2006.

Publicado na Coletânea Escritos






Arquivo ... Prosas

















Antologia  de contos e crônicas da escritora  Fernanda Blaya Figueiró



























A foto do Maestro

Entrei só para tomar uma xícara de café e me deparei com
aquela figura sombria, de olhar inquisitivo.
Expresso com creme.
Os ossos da face realçados pela magreza revelavam alguma coisa estranha, perturbadora. Uma foto antiga, amarelada.
Ao sair dali, tinha pouca coisa a fazer. Pelo menos, achava que tinha.Caía uma chuva forte, a praça alagou em poucos minutos.Enquanto as outras pessoas fugiam da chuva, resolvi aceitá-la, os pingos gelados foram aos poucos diminuindo, virando em chuvisqueiro.
 Entrei no elevador e vi: Refletido no espelho, o mesmo rosto com ossos saltados do retrato .Onde estava minha face rosada e robusta?
Aquela imagem havia entrado em mim?Foi a impressão que me deu de que aquela imagem havia se apossado de minha pessoa, de mim.
EU.
Com a chave que havia em minha mão, abri a porta do número 915. Um apartamento revestido de carpete em tom pastel, paredes claras, poucas mobílias, limpo, frutas selecionadas e bem arranjadas sobre uma cesta de vime.
Minha figura lavada pela chuva parecia estarrecida, sem reação.Por que aquela imagem havia me causado aquela impressão de possessão, de invasão? Não senti fome, nem frio. Adormeci tranqüilamente, sem receio.
Acordei com a imagem dele.
Os ossos do rosto saltados, os olhos fixos em mim.Ele estava no meu quarto Seu rosto claro sobressaía na escuridão.  Não dizia nada, não se mexia, mas estava ali. Incontestavelmente estava ali.
Meu corpo ficou colado ao colchão, não consegui reagir, senti um formigamento na espinha, como uma descarga que descia por minhas pernas e me imobilizava.
O que poderia querer de mim? O que quer de mim?
As mãos delicadas do pianista tocaram a terra seca, a pele macia não estava acostumada com a aridez.
Temi os temores errados. Não posso mais morrer.
Augusto estava sentado nos degraus. O vento frio da tarde de inverno embaralhava seus cabelos, o rosto magro e envelhecido do maestro trazia marcas de sofrimento.
- Gunther, não devíamos ter vindo, não faz sentido.
Ontem a vida fez uma volta completa para me mostrar que eu quis as coisas erradas.
Os sinos dobram solenemente, aos poucos, os fiéis entram na Igreja, tomados pela dor, beijam as chagas do Cristo em frente ao altar e rezam, pedindo piedade.
Uma estranha alegria me alcança. Eu já morri.
Ensaiavam Bethovem, para a cerimônia pascal.
Nos fundos da Igreja, o pianista e o maestro tentam entender. Haviam se despedido dela há quatro anos, em frente ao salão da Pontifícia e nunca mais, um longo silêncio, até um garoto encontrar uma pequena bolsa de festa.
Eu queria saber mais sobre a foto, o maestro. Essas imagens todas passeavam pelas paredes do meu quarto. Augusto, o maestro, Gunther, o pianista, quem seria a mulher desaparecida?  Eu?













Publicado no Livro Ano Novo e Textos Escolhidos





Liberdade em Monumento.

-Mentira! -Mentira!
Gritava, contorcendo o corpo, em movimentos de gestos largos. Corpo que girava hora com os braços soltos, hora esmurrando o peito. Cabelos desgrenhados e olhos insanos atordoados num ir e vir desprovido de sentido.
O cruzamento trancado. As mãos apertadas ao rosto, o casaco sujo. Os gritos invadindo as janelas fechadas. E, o sinal piscando no amarelo. O vento trocando o som por saliva. A revolta dirigida ao monumento a Liberdade.
Homem ou Mulher?... Que pergunta?
- Mentira! Mentira! Mentira... O sinal, em fim, retornava. Mas, o caos já estava espalhado. Pelo retrovisor e a uma velocidade quase nula a figura desaparecia. No rádio o desfecho, morto vândalo que agredia o monumento.
A liberdade não combinava com a prisão. Do corpo, da roupa, do sinal, do monumento.
A mentira.


Fernanda Blaya Figueiró










Pelas Ruas

A sombra na calçada não é uma ameaça real. É um jogo, uma brincadeira dos sentidos.
- Obrigada, mãe!- ele responde ao receber a moeda – Eu te amo! – E assim, parte. Pés descalços, rosto queimado, olhos vazios. A cidade aceita, com culpa, medo e remorso. Toda a cidade tem andarilhos... Senhoras, senhores e servidores... Horrores...
Sob os pés pedra. Sobre a cabeça sol. Nada disso existe! Toca o barco... Toca a vida. É você! Sempre, você.































O escriba

            Nos dias de hoje,  coube a mim esta nefasta tarefa...
            As advertências antecedem ou criam as tragédias? A arte registra a violência de se estar no mundo, ou cria esta violência? - Perguntei ao Escriba.
            Era um velho homem, de barba crescida,  olhar turvo pela catarata, ombros pequenos e mãos de dedos tortos, de  labor .  Pena e tinta.                                                                 Assim escreveu: Tudo é energia! Gaste sua energia, em sorrisos, e tudo serão dádivas! Gaste sua energia, em rugas,  e tudo serão dores! É falsa a pena ou invisível a tinta. Não sofra! Celebre! Está o osso à mostra e lateja a carne, em febre,  mas é na mente que tudo acontece.
Quanta bobagem! - pensei - E uma ruga escureceu meu rosto.

Viamão, 02de dezembro de 2008.
Autoria: Fernanda Blaya Figueiró

Moa e a Pitangueira
Moa atravessou o campo florido, procurando  pitangas maduras. A frutinha vermelha e carnuda era sua favorita. Levemente amarga, mas com um sabor inconfundível, era um prazer gastronômico que dispensava qualquer complemento. Ao aproximar-se do arbusto, tropeçou, na ponta de um objeto que parecia uma raiz.
Colheu as pitangas, colocando-as em um guardanapo e sentou, para degustar, calmamente, a iguaria. O amargo da pitanga dava uma sensação familiar. Moa estava feliz! Ao observar melhor o chão, percebeu que o objeto, no qual havia tropeçado, não era uma raiz, mas um pedaço de couro. Movida por uma curiosidade infantil e levada, desenterrou o objeto, que, aos poucos, foi se revelando...A menina estava se sentindo como uma arqueóloga, desvendando segredos. Aos poucos, conseguiu soltar a peça, embrulhado em um pedaço de couro curtido, estava uma pequena caderneta. Moa abriu, impaciente, a sua descoberta.
A caderneta, fina e comprida, tinha a capa azul e estava em perfeitas condições. Moa notou que as primeiras páginas haviam sido arrancadas, sobrando só retalhos irregulares das folhas.  Não havia data, mas a grafia das palavras parecia muito antiga.
Moa estava perplexa diante do achado. Na primeira página inteira, estava copiado, em caligrafia exemplar, um poema.
 “Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.”                
   Luís de Camões
Ela leu e releu as palavras:  cousa amada, soava muito estranho aos seus ouvidos. Entre as outras páginas, havia pétalas secas, sementes de frutas, pedaços de cachos de cabelos castanhos e  algo que parecia um cordão umbilical. Moa enrolou tudo, novamente. Que segredo seria aquele que a pitangueira, docemente, guardava?
Viamão,  5 de dezembro de 2008.

Autoria: Fernanda Blaya Figueiró


Morreu na casca


Belminda! Oh, Belminda! Trás logo o meu casaco mulher. Hoje eu acabo com essa cobra, antes que se crie. Devia ter morrido na casca a infeliz... Imagina que essa bruxa, pois isso só pode ser uma bruxa! Imagina que quer exibir em Cafundós essa tal peça de teatro. Essa mulher, histérica, não passa de uma louca desvairada! Nem por cima do meu cadáver! Peça de teatro? Uma ova! Isso na verdade é uma ironia de nosso candidato a dirigente do Cafundó Futebol Clube. Belminda, o meu sapato, olha! Tu não tá vendo? Tem caca de cachorro, no meu sapato... Anota isso, nessa tua cabeça de vento, Eu, Vagner do Nascimento de Azambuja,  mando em Cafundós de Judas, há mais de cinqüenta anos. Tudo! Mas, tudo que acontece nessa cidade tem que passar por mim. Agora vem essa fedelha, que até meio índia é, querendo fazer a cabeça do povo com essa idiotice de peça sobre abóboras. Eu estou na estrada... Ninguém me engana...  As abóboras que a diabinha fala são as minhas melancias. Não construí um império, A Melancias Companhia Limitada, para virar “personagem”. Para rirem de mim. O padre vai, o secretário da saúde vai e hoje fechamos definitivamente aquela espelunca. Uma espelunca. Belminda, já chamou o carro? Onde está... Não! O crachá, cabeça de vento! Como vou sai sem o meu Crachá? Há cinqüenta anos eu uso o meu crachá, de sócio honorário do Cafundó Futebol Clube. O olheiro já me disse quem está no tal “espetáculo”, vou quere uma lista completa, com fotografias, de todos os “alcagüetes” que sentarem a bunda para ver essa tal peça de teatro. O infeliz que soltar uma só risadinha, mas vai levar uma bordoada, vai rolar mais cabeças por aquela escada que nem a revolução francesa podia imaginar. Cobra se mata na casca, eu sempre digo, não dá para deixar se criar. Como? Tem certeza? Deputado Federal? Como? Mas, quem deixou isso acontecer? Belinda! Tu sabia disso? O borra botas está na cidade! Isso é coisa dessa bruxa... Manda embora esse carro, eu não sento na mesma sala que esse traste... Bom mesmo era o tempo da inquisição...


Viamão, 05 de agosto de 2009

Fernanda Blaya Figueiró

















O Ato
No conto, o primeiro parágrafo. Na poesia, os dois primeiros versos. No romance, três páginas. No cinema, dez minutos. Os dois se olharam. A antipatia foi imediata.
Dolores e Altair.
Ela cruzou o corredor, pisando firme, baixou levemente a cabeça e balbuciou um “Bom dia...” Murcho. Ele respondeu com um grunhido que pareceu “igualmente...”, colocou a mão no bolso e fingiu procurar algo. O som do relógio de parede ecoava. Dolores deixou cair uma pasta com documentos.  Altair fingiu não ver. Fazia frio e a recepção estava vazia. Uma gota de suor correu pela testa dele.
Uma sorridente senhora, usando um vestido lilás, apareceu na porta lateral. Os dois respiraram... Aliviados. Suzete, “que não era o crepe” , foi muito amável e tratou de proceder as apresentações.  Somente os dois estavam inscritos para a seleção. A entrevista era fundamental, ainda que o número de vagas sendo maior do que o de candidatos.
A sala de aula ficava nos fundos do corredor. Suzete explicava como deveriam preencher o formulário: três vias, letra de forma... O vento encanado trazia folhas de árvores e poeira para o pátio interno, onde o corredor desembocava.
Lindo!
Os dois pronunciaram a palavra...Ao mesmo tempo. O grande pátio limitado por uma mureta, emoldurava um horizonte verde e ensolarado.
Suzete abriu a porta; um rangido anunciava a enorme sala, com grandes janelas de madeira. Um quadro negro. Uma mesa escura. E uma cadeira revestida de couro. No lado oposto, uma mesa comprida acolhia quatro professores. Poucos sorrisos!
Suzete entregou os documentos e saiu. A luz do sol iluminava a sala. Algumas perguntas, algumas respostas. E a folha em branco!
Altair: Crie um personagem em situação de risco.
Dolores: Crie um personagem em situação de risco.
As palavras pulavam pela janela. Produção textual! A sala encolheu! Altair suava, pediu para sentar, próximo a janela. Dolores derrubou a folha, a caneta e a cadeira. Estabanada, ocupou a pesada mesa do professor.
Café. Discretamente, Suzete entrou com a bandeja!
Nome! Um personagem começa pelo nome. Altair: Maria. Dolores: José.
Situação. Altair: Parto, não. Assalto, não. Incêndio. Boa!
Situação. Dolores: Atropelamento, não. Briga de bar, não... Salvamento. Boa!
A folha, o lápis..
Maria estava na enorme sacada de seu apartamento... As chamas altas consumiam rapidamente a mobília. A garota implorava por socorro! Aflitos, os amigos gritavam da calçada. Ouviu a sirene.  
A folha, a caneta:
A sirene do quartel general, do corpo de bombeiros, soou estridentemente, José correu para a viatura. Tinham poucos minutos para efetuar o salvamento. A jovem estava presa na sacada. Fortes labaredas avançavam. Subiu as escadas rapidamente.
A sirene! Tempo esgotado! Súplica!
Três linhas! O fim?
Trêmulo, Altair entregou a folha. Sem sentir as extremidades Dolores entregou a folha.
Assim que a porta fechou, os risos contidos viraram frenéticas gargalhadas. Aproximaram-se da mureta. Tanta coisa pra falar! Aquela imagem.
Estavam em frangalhos, quando a porta abriu, e Suzete perguntou muito solenemente: - Mas e o José? Salvou a Maria?

Senhora das Jóias
A velha senhora resmungava em um escuro canto do antigo casario, enquanto a vida palpitava florida pos todos os lados. Agarrada a suas preciosidades não percebeu o correr do tempo. Presa em um emaranhado de colares, anéis e braceletes não sentiu as mudanças ao seu redor. A certeza, equivocada, de sua infinita riqueza a fez insensível à realidade. A si mesma denominava: Senhora das Jóias.
O tempo nunca parou! Seus bens perderam o valor, a vida o sentido.
Rosa estava ligada a ela como uma sombra que a acompanhava desde sempre.
Não havia mais água, luz ou pão no antigo casarão.
As trêmulas mãos de Rosa abriram, com dificuldades, o portão enferrujado. Lá fora os carros corriam. As pessoas corriam. As pedras quebradas da calçada, não combinavam em nada com a luxuosa avenida. Todos os dias ela buscava água na torneira do majestoso edifício. Saia com o balde na mão e enchia, sabendo que não era certo. O que é certo?
O vigilante, sabendo da necessidade, fingia não ver o pequeno delito.
 O dono da padaria, cumprindo promessa a virgem, preparava um saquinho com pão, leite, frutas e açúcar. O olhar miúdo de Rosa, acompanhado de um sorriso sem graça, dizia tudo.
Voltava com a única refeição do dia e um enorme agradecimento no coração. Não deixava de achar belo o mato que tomou conta do jardim, nem os ninhos dos pássaros, as tocas dos ratos, as fanfarras dos gatos.
 Cantarolando ela arrumava tudo numa bandeja limpa e polida. Aproximava-se com cuidado, cabeça baixa e voz suave.
- Senhora! Senhora!
Nada! Nem um movimento... Insistia:
- Senhora! Senhora!... O seu café...
Os gatos aproximaram-se atraídos pelo doce aroma de leite. Rosa percebendo que ela havia reagido deixou a bandeja sobre a mesa e recuou até a porta.
- Some!... Some daqui! Abutre!
- Abutre! Sempre viveu nas minhas costas... Vai! Vai daqui...
Arfando, a Senhora das Jóias, comeu e resmungou. – Abutre! Vive que nem sombra, sussurrando, falando mal de mim. Acha que não sei??? Isso nunca teve vida. Some, some! Ela quer minhas Jóias! É isso... Passou a vida querendo... Mas, eu não dou! Não dou... Levo tudo comigo.
Rosa encostou a porta com cuidado, tomou seu café na varanda, ouvindo o canto dos pássaros e conversando com os gatos.
Faltava pouco para terminar. Tinha decidido tudo na manhã anterior, a casa ruiria sobre suas cabeças. Nos dias de chuva as goteiras eram tantas que não tinham como escapar. Os dias eram tão longos.
Só restavam as duas. Rosa caiu no profundo sono eterno.
Na manhã seguinte seus dois amigos, sentindo sua falta, invadiram o antigo casarão. Rosa estava no jardim, tinha o rosto sereno e tranqüilo. A velha estava sentada em uma poltrona rasgada, resmungando e xingando.
- Abutre! Cadê o abutre! Ladrões!!... Quem são vocês? Demônios!! Ninguém vai levar minhas jóias... Ninguém!
O antigo casarão caia aos pedaços. - Meu castelo! – gritava – saiam do meu castelo...
A triste figura gritava e fedia coberta por fios ornados com coloridas tampinhas de garrafas.  Nos dedos tinha anéis de arame, enfeitados com pedras da calçada. Nos braços tiras de papelão.
Na bandeja um pequeno pedaço de papel com a inscrição: “Senhor! Não havia mais dignidade! Perdão! Rosa.”



Viamão, 17 de agosto de dois mil e oito







Rosas e chocolate

Ela aproximou-se do caixa, com os produtos que havia escolhido.
- Precisa de mais alguma coisa?
- Não! – Só das rosas e do chocolate. Vermelhas! As rosas. Preto! O chocolate...
Mostrou a ele a beleza deste contraste.
- É para presente?
- Não... Ou, melhor, sim... Um presente para mim.
- É seu aniversário?
- È.
Ele ficou em silêncio por alguns minutos, depois com um sorriso lhe desejou felicidade. Ela agradeceu e saiu levando o pacote. Foi a única pessoa com quem falou naquele dia, além de suas flores. Estava muito feliz! As gloxicinias abriram bem no seu aniversário, não podia esperar um presente melhor. Teve pena dele, parecia tão confuso, atarefado, de sua janela viu quando soltou e o tempo que ficou esperando pelo ônibus. Tão novinho e tão ambicioso, tinha nos olhos uma indignação, de vencedor. Seria um vencedor... Acendeu uma velinha para iluminar seu caminho, para que conseguisse vencer sem se perder, sem amargurar, como tinha acontecido com seu pai. A vida tinha lhe corrompido a alma... Como eram parecidos, chegava a arrepiar. Tudo podia ter sido mais fácil para ele... Escolheu bem a casa, sabia que o casal não conseguia ter filhos, eram bem empregados, pareciam tão felizes, mas o casamento durou pouco. O menino ficou levando uma vida difícil. Melhor do que a vida que levaria na sombra do pai, ela não tinha remorso. Não podia ter ficado com ele. Quando o pai saísse da cadeia os encontraria. Mataria os dois, como matou a mãe dele. Se soubesse que ele viveria tão poucos anos e que nunca sairia da cadeia teria ficado com o menino. Pena que a gente nunca sabe o que vai acontecer... Não quis estragar tudo, remexendo em histórias antigas. Não teve coragem de por filho no mundo, disso tinha um pouco de remorso. Que dissipava quando suas flores abriam. Ele vai ficar bem, já é homem feito, trabalha, anda na linha... Acendeu mais uma velinha, para que a linha ficasse bem visível e ele continuasse assim, no caminho.

Viamão, 9 de outubro de 2009

Fernanda Blaya Figueiró









Quando o jornal chegar


As noites na escuridão são muito longas. A morte vira um instrumento de liberdade e de alento. Um ser que sofre muito, por maldade e abandono, perde a vida aos poucos. Um dia perde o apetite, o ânimo, no outro o brilho no olhar. Uma hora nada mais tem importância e a manhã chega mansamente.
O silêncio vai contar tudo um dia, como as ruínas contam sobre os druidas; as marcas nas escarpas contam do oceano que um dia habitou o vale.
O pote não estava quebrado, nem virou. A chuva foi escassa naqueles dias. O sol forte! Onde estavam todos?
Jaz a casinha de madeira no meio do mato. Contando, sem contar. Quando o jornal chegar não terá mais latido.


Viamão, 6 de março de 2009.

Fernanda Blaya Figueiró














O Chalé de 1919


Um painel de mogno foi o que me restou do Chalé que ocupou o meio do terreno por noventa anos. Além de muitas fotografias, algumas em preto e branco, outras coloridas. O Shopping que foi erguido em seu lugar silenciou sua existência e aniquilou com os gatos, as baratas e os ratos, seus últimos moradores. Vende-se de tudo ali, muitas coisas das quais ninguém realmente precisa. Esta inscrição, em auto-revelo, ficava bem na fachada, logo acima da porta principal, protegida por uma pequena varanda:1919. Sempre achei um belíssimo número, sei pouca coisa sobre este ano, apenas que havia acabado a primeira grande guerra. Dizem que foi construído por uma família de estrangeiros que comprou um pedaço de mato e montou uma fabriqueta de móveis. Quando morei nele lembro de encontrar retalhos de madeira no porão, pregos, um torno muito antigo... Na demolição um antiquário levou tudo, consegui roubar estas paredes da fachada, subornando um pedreiro.
Dos noventa anos de sua existência, seis foram meus. Nunca imaginei que o terreno fosse ser tão valorizado, quando nos mudamos, meus pais disseram que estávamos subindo na vida. Saímos do subúrbio para o último andar de um luxuoso edifício. Sonhei, em segredo, que um dia compraria novamente o Chalé. Tinha seis anos e a terrível tarefa de aprender a ler, não gostava dos exercícios da escola, mas adorava as ilustrações e os poemas. Lembro do Chalé ficando para trás, com seus mistérios e segredos, a cadeira de balanço foi a minha maior perda, ficou sozinha pendurada na varanda. Era de vime e tinha uma almofada estampada com enormes folhagens, verde e vermelho. De uma forma acabei comprando o que sobrou dele.
Quando nos mudamos levei junto, escondida na caixa de brinquedos, um velho álbum que tinha fotos dele em construção e de seus primeiros moradores. Nas mais antigas a paisagem era totalmente rural, com o tempo ele foi sendo abraçado pela expansão da cidade. A primeira escritura, tirei cópia no cartório há alguns anos, estava no nome de Badwin e Marta Andersson. Quando era pequena ficava horas imaginando como eles viviam. Ele era grandalhão e risonho, ela tinha os braços roliços, as bochechas coradas e um ar de vó. Por isso eu os chamava de vovô e vovó Santana, como se fossem pais de meu pai, inclusive levava as fotos para a escola, inventava muitas histórias sobre eles. Talvez porque não conheci meus verdadeiros avós. Não eram em nada parecidos conosco, mas as fotos eram muito antigas e ninguém reparava.
Meus pais não tinham passado, ou não queriam ter. Sempre fomos nós e meu irmão. Nossa vida vivia cheia de outras pessoas, amigos, conhecidos, compadres. E de muito trabalho, muito, muito, muito, mesmo. Mas, eu adorava plantar flores. Achava lindo vivermos do comércio das flores e de seu perfume. Na escola as flores eram de papel, isso me incomodava muito, bem como o apelido de colona. A gente acordava com o sol e dormia quando ele dormia. Isso é pura magia.
No edifício todas essas coisas foram se perdendo, aos poucos, mamãe me inscreveu no Balé, eu odiava, as outras meninas riam de meus “pés rachados de colona”. Umas tontas que nunca tocaram na maciez da terra recém arada.  Consegui sair logo, mas descobri a música e a dança livre. Um espírito livre não aceita doutrina nenhuma. Sempre que podia voltava ao Chalé, não era fácil, mas minha madrinha continuou morando no subúrbio e isso era como uma porta para o paraíso. Estudei etiqueta, corte e costura, minha mãe realizava os seus sonhos, como se eu fosse a sua boneca.
Às vezes caminho pelo shopping como se pudesse recuperar um pouco do cheiro das flores. Mas, tudo feneceu. Meu pai jura que lhe roubaram as fórmulas e o direito de produzir os perfumes. Do último andar do poderoso edifício fomos para uma pequena casinha numa praia quase deserta. Tempos de negócios ruins, dívidas e de poucos amigos. De lá fomos para a casa de minha madrinha, para mim a vizinhança com o Chalé, que já não era mais o mesmo, foi um retorno a paz e a tranqüilidade.
A quitanda deu muita dor de cabeça no início, mas depois nos levou novamente ao topo. Compramos uma casa no bairro e dali não saímos mais. Fui a primeira mulher a cursar o técnico de eletrônica. Minha mãe não queria, achava rude e pouco elegante. Mas, no fim entendeu que era uma profissão em ascensão e muito bem remunerada. Meu irmão quis ficar na quitanda. Aos poucos foi recolocando as flores, foi aumentando e diversificando os produtos. Fui embora, trabalhar em uma multinacional. Vinha no Natal. O Chalé passou a ser ocupado por pessoas muito pobres, o pátio cheirava a mijo de rato e a umidade. Construíram várias malocas no pátio. Houve uma longa disputa judicial que acabou no despejo daquela gente toda e na imediata demolição de tudo. Eu já havia voltado, fiquei com a casa de minha madrinha, que não tinha filhos. Só o que eu consegui comprar foi esse pedacinho. Então montei o painel começando com essa do casamento de Badwin e Marta Andersson, minha mãe achou horrível, eu usar fotos de pessoas que não conhecia. Depois fotos do chalé novinho, com muitas pessoas e ornamentado para festas. Das nossas minha mãe gostou, meu pai sempre chorava com a foto da camionete cheia de flores fresquinhas, recém colhidas. As fotos de meu irmão doíam muito, mas, mantive. O balanço, com um urso sentado, faz as pessoas sorrirem. Eu apareço em poucas. 1919 é um tributo ao Chalé. Não gosto quando dizem que eu vivi uma mentira. Baldwin e Marta são meus avós. Eu comprei o Chalé... As pessoas não entendem o que é a verdade. No início fiquei confusa, mas não é uma memória só minha. Mesmo assim não vendi a obra para o shopping, acho que seria como perder de novo o balanço, o Chalé, meu irmão, as flores, o perfume. Então eu te pergunto: O que é a arte?...

Viamão, 15 de novembro de 2009.
Fernanda Blaya Figueiró 
















Dos loucos


Uma pessoa que perturbava. Tirava o sossego das outras pessoas. Não como o choro de uma criança que irrompesse a madrugada. Ou, o cobrador que invadisse a linha telefônica logo pela manhã. Ou a notícia nefasta, na caixa de correspondência, denunciada pelo timbre antes mesmo da carta aberta. Esses todos são muito fáceis de se livrar.
Onira era perturbadora, na fala, nos gestos, na presença quase insignificante, mas, paradoxalmente incomoda. Indesejada. Parecia cobrar constantemente, coisas incobráveis, como o amor.
Agora que: - Já se foi! Com a Graça de Deus.
Podia ser revisitada, como uma grande obra que nos arroubos de um jovem e atrevido escritor fosse dilapidada em sua essência e reduzida a um livreto de fácil leitura.
Uma fogueira e restaria só o aceitável. Nada de sorrisos escancarados. Como quem altera a cena de um crime contra a imagem. Removeu erros, anulou rascunhos e qualquer indício de devaneios. Qualquer gemido nas entrelinhas. Qualquer toque, suor, lágrima ou gota.
A obra limpa. Os despojos queimados.
Ao percorrer os corredores da obra descobriu...
O incomodo continuava ali. Gritando. Em cada verso desalinhado.





Dos loucos


Uma pessoa que perturbava. Tirava o sossego das outras pessoas. Não como o choro de uma criança que irrompesse a madrugada. Ou, o cobrador que invadisse a linha telefônica logo pela manhã. Ou a notícia nefasta, na caixa de correspondência, denunciada pelo timbre antes mesmo da carta aberta. Esses todos são muito fáceis de se livrar.
Onira era perturbadora, na fala, nos gestos, na presença quase insignificante, mas, paradoxalmente incomoda. Indesejada. Parecia cobrar constantemente, coisas incobráveis, como o amor.
Agora que: - Já se foi! Com a Graça de Deus.
Podia ser revisitada, como uma grande obra que nos arroubos de um jovem e atrevido escritor fosse dilapidada em sua essência e reduzida a um livreto de fácil leitura.
Uma fogueira e restaria só o aceitável. Nada de sorrisos escancarados. Como quem altera a cena de um crime contra a imagem. Removeu erros, anulou rascunhos e qualquer indício de devaneios. Qualquer gemido nas entrelinhas. Qualquer toque, suor, lágrima ou gota.
A obra limpa. Os despojos queimados.
Ao percorrer os corredores da obra descobriu...
O incomodo continuava ali. Gritando. Em cada verso desalinhado.



Dila

Uma hora não tem mais volta, o pensamento liberta a pessoa dos dogmas e da necessidade de reconhecimento, de aprovação. Dila estava neste estágio, poucas coisas a incomodavam. Não tinha medo do ridículo. Quando subiu na tribuna sabia do desprezo da grande maioria por mulheres na política. Ou talvez pela própria política: a Arte ou ciência de governar.
Arte! Em sua mente só imaginava a loucura que a administração pública tinha provocado na comunidade. Escândalos, futricas, rombos, sujeira. O discurso importaria pouco. Estava tomando a medida certa. Esperou que todos se acomodassem. Como não fariam silêncio mesmo, iniciou em um tom muito baixo de voz. Boa noite aos senhores presentes, autoridades... Estou deixando na noite de hoje o cargo. Muito obrigada!
Desceu calmamente os degraus da escada, o silêncio imperou de uma hora para a outra. Não havia sinais de que faria uma coisa destas. O Governador, tomado de susto, gesticulava para os assessores.
A imprensa calada! Que vergonha, a Secretária de Cultura renunciava na cerimônia de inauguração de uma grande obra. E ninguém havia noticiado. Não havia rumores. Não havia suspeitas.
Um ato totalmente inusitado e não haviam fotografado, nem gravado sua fala. Correria e Pânico nas mídias. Assombro no Governo.
Dila atravessou o imenso salão, as paredes cor de creme davam um toque de requinte e majestade. Tapeçarias, murais, móveis, pinturas, esculturas, cristais. O Belo! A Arte. Lajotas portuguesas pisadas por insanos. O longo piano de calda quieto e esquecido. A Bíblia, ornada com fios de ouro, incompreendida.
O burburinho apagado pelo solo do violino. Uma Ária! A voz suave e doce, um pouco contaminada pela idade, encantou. Dila Gaute, em sua sabedoria, ensinava cultura.
Sem palavras, deixou a polis. Cada povo tem os governantes que constrói. Cada governante colhe o que semeou. Cada cultura tem o fim que permite.
Os tempos eram de uma riqueza e tecnologia invejáveis, mas de uma desigualdade assombrosa. E o preço?
O impacto foi pequeno e logo contornado: - Arroubos de Artista!
Dila olhava as rugas no espelho de cristal, as mudanças no rosto de uma senhora. Que tempo é este onde os grandes foram morrendo e ninguém os substituiu?
Onde? Onde estão os grandes homens e mulheres dos dias de hoje? Quem guia esta massa? 
O sorriso alegre da menina trazendo rosas e um poema. O brilho verdadeiro nos olhos do menino travesso que acha música nas grades da escola. A letra que repetem sem saber que sentido tem. Quando eu crescer vou ser puta! A frase não abandonava sua cabeça. Um trezoitão na cintura! Os passos de uma dança expressiva e sincera. De uma cultura popular que mostrava à sociedade seus valores. Alegria, ritmo, energia, equilíbrio: Arte. O lixo como matéria! O odor nas mãos hábeis. O palavrão na poesia. Um dia eu pego a mina!
Não faz drama dona, passa a grana!       




















O pescador que sabia esperar.

Com o braço erguido ele rodava a rede sobre a cabeça. O movimento produzia um som característico. Costumava girar cinco vezes antes de jogar. O Golfinho sabia o momento exato em que a rede tocava na água.
O Golfinho empurrava o cardume até o pescador. O pescador permitia que o golfinho comesse primeiro.
Foram anos de amizade até que a rede caiu antes do tempo.
O Pescador sabia esperar. Mas não esperava o golpe pelas costas. Não esperava ser pego de surpresa.
O Golfinho voltou, e voltou, e voltou...














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       Madame Kitty.

Cíntia cantava numa praça do centro de uma cidade. Sua voz soava docemente... Seus cabelos estavam amarrados com uma fita amarela.Usava o uniforme antigo de alguma outra menina, com listas e brasões. Pedras eram arremessadas contra ela.Outra menina cantava no centro... Outra menina acordava os anjos, atiçava os demônios, apagava a luz.
Esse sonho a acompanhava desde pequena, falara sobre ele com várias pessoas. Naquele dia Cíntia resolveu consultar Madame Kitty, queria que lesse sua sorte. Precisava entender.
 Chegou na hora marcada, estranhou o lugar, era uma saleta simples, com paredes brancas, sem nenhuma ornamentação que indicasse uma tenda cigana. Imaginava que seria um lugar com cortinas coloridas, bola de cristal, búzios, imagens nas paredes, incenso... Madama Kitty estava sozinha e foi logo dizendo:
-                     Cantar sozinha em público significa uma grande exposição, mesmo que seja docemente. As pedras são os obstáculos da sua vida. Os anjos, os seus protetores. Os demônios, seus desejos mais secretos. A luz apagada, é o obscuro, o que não desejas revelar. A outra menina, o futuro, e o uniforme, o passado, como um ciclo.
-                     O que eu posso fazer para fugir disso?- indagou Cíntia.
-                     Fugir, por quê?- perguntou a vidente.
-                     Eu vou sempre me sentir destruída pelas pedras?
-                     Não, você só tem que aprender a usar as pedras. Agora pense em alguma coisa que lhe interessa saber.
           Madame Kitty estava sentada com o baralho nas mãos. Ficou em silêncio observando Cíntia, que já não sabia se queria mesmo estar ali.
-                     Eu quero...
-                     Não, - interrompeu a vidente. Pense, não fale.
-                     Por quê?
-                     Porque uma palavra proferida ganha o universo... Nunca mais será destruída. Ficará vagando pelo cosmos...
-                     Penso pra mim? – indagou Cíntia.
A vidente balançou a cabeça afirmativamente e olhou com firmeza para ela.
-                     Mas com convicção, concentre nesta idéia enquanto eu vou dispondo as cartas. Empreste-me sua mão.
-                     Tome.
Madame Kitty pegou a mão de Cíntia, que sentiu vontade de sair correndo. Mas, pensou com convicção na menina do sonho, nela menina.
-                     A senhora. Esta carta representa a sua vida atual... A cobra estando do seu lado representa um grande perigo, envolvendo falsos amigos. Já o sol, a lua e os lírios, demonstram a superação de obstáculos. Porém, o homem estando tão longe da Senhora e à direita, significa o fim de um grande amor. O caixão ao lado dele, indica a morte ou uma doença muito grave. O valete, indica uma longa viagem. Problemas com dinheiro, já que o navio está do lado oposto e o anel longe, muito longe.  Sua vida vai passar por algumas transformações...
-                     Eu sabia. Desgraça?
-                     Não sei, pode ser coisa boa ou ruim. Agora mantenha a calma, alimente-se bem e procure relaxar antes de dormir. Não fale mais sobre o sonho. Esqueça.
-                     Vou tentar, mas não é fácil – disse ela.
-                     Eu sei, você não me falou nada sobre o castelo.
-                     Como a senhora sabe?- indagou perplexa Cíntia.
-                     Está aqui. Com as pedras, a menina constrói um castelo com telhas de vidro.
-                     Isto, em alguns sonhos a menina constrói um castelo e, em outros, uma longa estrada com alamedas de árvores e flores.
-                     Então, o que você precisa entender, Cíntia, é por que alguém que é apedrejado constrói um castelo de telhas de vidro.
-                     Para ser destruído?
-                     É um ciclo, como vimos no início. Por hoje é só.
Cíntia achou Madame Kitty impressionante. Pagou a consulta satisfeita e saiu leve e feliz. 
Logo que Cíntia virou as costas Krishna  beijou as notas, precisava muito daquele dinheiro. Tinha um pouco de pena de pessoas tolas como Cíntia, mas o mundo era dos vivos. Sentiu um leve remorso, que tratou de espantar. Só não sabia de onde tinha tirado tanta idiotice. Estava se sentindo uma atriz digna de pisar nos melhores palcos do mundo: Madame Kitty, como alguém ainda caía num golpe tão antigo.
Os Antigos Espíritos, ao perceberem as intenções de Krishna de enganar Cíntia, decidiram interferir. Sem que Krishna soubesse nascia Madame Kitty. Pelo poder do sangue que corria em suas veias.
Ela tomou conta dos preparativos. Consagrou o baralho, deixando uma noite sobre um copo de água límpida e sal, depois envolveu em um pano vermelho. Usou o corpo de Krishna para lavar as mãos, beber um gole de água e fazer o devido recolhimento espiritual.
Madame Kitty colocou uma toalha de linho branco sobre a mesa. Nela colocou uma taça contendo água pura com uma ametista dentro e um punhal com a ponta virada para Cíntia. Acendeu uma vela branca e um incenso de Almíscar. Invocou os elementos: Terra, Fogo, Água e Ar.
Fez uma reverência a Santa Sara Kali, que estava presente.Um rio caudaloso corria nas linhas da mão de Cíntia.
Madame Kitty leu o destino de Cíntia, mas não podia mudar nada.
Cíntia viu a verdadeira Madame Kitty. Era uma bela mulher, de olhos negros, pele escura, nariz comprido e rosto angular. Os cabelos estavam cobertos por um lenço vermelho. Tinha a altivez de uma rainha. O Olhar penetrante de quem tudo sabia. A voz firme de quem nada temia.”
Krishna cantava...
Diklô.

Não é o que eu sou... Mas o que habita em mim
Que produz esta inquietação.
Não é o que eu sou... Mas o que habita em mim...
Que traz esta paz.
Krishna ilumine o caminho.
Kali ceife a vida.
Sara... Sara... Sara...
Teço seu lenço com todas as cores de Deus.
Madame Kitty.

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JOSÉ FICOU RICO

-         Bom dia, tia. Vai cortar a grama?
-         Bom dia, José. Pois é tava aqui pensando... – respondeu a senhora.
-         Se a senhora quiser eu corto. Cobro vinte o pátio inteiro.
-        Vinte? Puxa, liguei pra empresa de jardinagem e eles pediram cento e trinta...
-        E aí? Vinte fica bom?- indagou o garoto.
-        Fica, o problema é o sindicato. Tão pegando no pé de quem contrata informal.
-         Ninguém vai ficar sabendo. Eu juro.
-         Que idade você tem?
-         Dezesseis. –respondeu prontamente, com muita convicção.
-         Parece doze. Não sei... Eu vou deixar você cortar, pago vinte e cinco, é mais justo. Mas não conta pra ninguém, posso confiar em ti?
-         Pode. Eu fecho o portão.
-         Feito. Sabe que eu já tava pensando em soltar uma carga de brita nesse gramado. Mas,começa logo. Use a galocha por cima do sapato, as luvas e o jaleco. Não demora muito viu José.
-         Sim, senhora.
Em pouco menos de duas horas José cortou a grama, aparou os cantos, podou as árvores, juntou tudo e antes de ir embora dividiu com a senhora uma porção de pipocas com guaraná. Recebeu vinte e cinco reais. A senhora economizou o dinheiro do remédio para dor nas costas, pois ela mesma teria cortado a grama.
José chegou em casa trazendo arroz, feijão, farinha, óleo, leite, ovos, biscoitos, sabonete, pasta de dente, sabão... Sua mãe encheu os olhos de lágrimas, o pai prometeu que assim que voltasse a trabalhar ia recompensá-lo. Ele chamou as crianças e fingindo um truque de mágica puxou do bolso do casaco um saco colorido. Os olhinhos delas brilharam mais do que o normal.
-         Jujuba! José ficou rico! José ficou rico!
As crianças pulavam e cantavam ao redor do garoto...


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Capão   I

Numa tarde de quarta-feira a gurizada saiu de uma interminável aula de matemática. Com as cabecinhas cheias de números, símbolos e pequenos problemas. Correram direto para o “campinho”. Os meninos divididos em dois grupos disputavam uma bola. E as meninas, sentadas sobre suas mochilas, trocavam enfeites, segredos e doces.
Danilo, Diadora e Douglas chegaram e pediram para brincar junto. Olharam para eles com desconfiança e perguntaram de onde vinham. Danilo, que era o mais velhos dos três irmãos, respondeu que eles haviam se mudado há poucos dias.
Um pequeno silêncio foi rompido por Thomáz com as seguintes palavras:
-                     Vamos joga! Entra cada um dum lado.
Foi o suficiente para que os irmãos invadissem o campo. Douglas arrasou, driblou meio mundo e na primeira oportunidade virou o jogo para o seu “time”, que vinha perdendo uma partida atrás da outra. Danilo não deixou por menos, mostrou que sabia jogar.
Diadora sentou com as meninas.
Assim que o ônibus chegou a gurizada largou tudo e correu para a parada. Danilo perguntou se poderiam jogar novamente no outro dia.
-                     Não sei. Respondeu Thomáz. Vocês não vão à escola?
-                     Aqui não, estudamos em Porto Alegre.
-                     A gente vai pensar.



Capão II
Danilo estava sentado na ante-sala do presidente do engenho. Trazia as reinvidicações dos produtores de arroz, acordadas na última reunião do Sindicato Rural.
Conhecia Thomáz desde os tempos do “Capão”, quando jogavam bola e capoeira juntos. Ele era um líder já naquele tempo. Conseguiu ascender no engenho comprando parte das ações. Era um estrategista.
Os produtores queriam aumentos, já que os custos dos insumos e financiamento estavam muito mais altos. E o governo vinha importando arroz, destruindo com o mercado interno.
O casamento de Thomáz com Diadora havia sido um desastre. Danilo tinha medo que o ex-cunhado guardasse mágoas.
A recepcionista ofereceu um café a ele, informou que seria recebido em poucos minutos. Algumas lembranças invadiram sua mente: as inúmeras brigas, seu pai não aceitava que Diadora namorasse um homem negro. Enquanto que os pais de Thomáz não aceitavam que ele namorasse uma “Catarina”, e ainda de origem alemã. A briga de Douglas e Thomáz no campinho ficara marcada na sua memória. Tinha sido no final de uma partida de futebol, logo que Danilo e Douglas descobriram o namoro as escondidas da irmã com Thomáz.
A porta abriu quase sem fazer barulho, Thomáz o esperava com um sorriso no rosto.
-         Boa tarde, como vai o meu cunhado? – disse Thomáz.
-         Boa tarde!  – respondeu mais aliviado - Vou bem, quanto tempo?
-         Pois é, sente-se. E o velho Shaffer?
-         Está ótimo, ele e a mamãe.
-         Eu recebi o e-mail do sindicato, mas francamente, as exigências estão pesadas.
Thomáz era um homem direto, não tinha por costume enrolar, sabia o motivo da visita e foi logo se posicionando. Não pretendia ceder muito, sabia das dificuldades que o setor vinha enfrentando.
-         Nós precisamos de um aumento.
-         Eu sei, mas este índice é insuportável para o engenho. A gente vai ter que chegar a um acordo.
Os dois homens estavam frente a frente, com a devida diplomacia que a ocasião exigia. O diálogo foi direto, impessoal e produtivo. Danilo conseguiu em parte o que precisava e Thomáz conseguiu acalmar os produtores.
Thomáz perguntou por Douglas.
-         Ele está bem. Ganhou medalha de prata nas últimas para-olimpíadas.
-         Que bom, Diadora tinha me contado. O meu piá é fã dele. Tem em seu quarto várias fotos do tio Douglas.
-         O Ronaldo é uma figura....  Acho que por hoje é isso, foi um prazer...
Os dois despediram-se. Danilo saiu com uma boa impressão. Seus medos não se confirmaram, Thomáz parecia estar tranqüilo. Douglas, em compensação continuava remoendo em amarguras. Danilo lembrava de tudo com nitidez: Douglas atacou Thomáz pelas costas, ele, por reflexo, jogou o garoto no chão. Douglas caiu sobre uma pedra, fraturando a coluna. Todo mundo viu que Thomáz não teve culpa, ele era forte e jogava capoeira como ninguém. Antes da briga eram grandes amigos...
-         Vamos jogar, pô! Entra cada um dum lado.
Com essa frase ele tinha aberto as portas para os irmãos. Depois da briga as famílias nunca mais se falaram. Diadora estava grávida e os dois casaram sem o consentimento de ninguém. Com o tempo foram ficando amargurados, ressentidos e se separaram. No fundo sentiam-se culpados.
Douglas fez vários tratamentos, mas o dano foi irreversível.
O dano na coluna de Douglas podia ser comparado ao dano nas vidas de todos eles. Todos tinham ficado um pouco paralisados. Os pais não aceitavam a amizade entre as crianças e foram, lentamente, contaminando o pensamento deles com o preconceito e a discriminação. Danilo lembra do olhar dos pais de Thomáz para eles, “Os Catarina”. Os burgueses, almofadinhas... Sempre que iam aos bailes as pessoas ficavam olhando de canto, cochichando. As meninas não aceitavam Diadora. Implicavam com tudo nela, que também tinha sua parcela de arrogância, achava que todos eram provincianos e sem educação. Já seus pais eram agressivos e intolerantes com as pessoas do lugar, não queriam eles brincando com Thomáz por que era “negro”. Quando souberam do motivo da briga nunca perdoaram a filha. Ela estava afastada da família desde então. Ronaldo não conhecia nem os avós maternos, nem os paternos. Era um garoto alegre e não conhecia o preconceito. Sua geração já lidava bem melhor com estas questões. Diadora morava numa cidade grande, era formada em biologia. Estava casada com Arnaldo com quem teve Ziza.
Antes de voltar para “Fora”, Danilo passou na agropecuária. Um grupo já esperava por ele. Queriam saber tudo sobre a reunião, o assunto rendeu horas de discussão acalorada. 
Thomáz passou pelo campinho e sentiu uma irresistível vontade de parar. Desceu da caminhonete e ficou olhando para o campo vazio. A grama estava crescida, já que ninguém jogava bola desde que fizeram uma quadra na escola. Não havia mais as marcas do gol, nem as linhas laterais.
Danilo viu Thomáz de longe. Achou estranho e resolveu parar ali também. A cidade tinha crescido, como eles e mudado em vários aspectos.
-         O que você está fazendo aí parado?
-         Lembrando...
-         A gente era feliz e não sabia, não é?
-         É. Eu fico pensando se o Douglas vai me perdoar um dia.
-         Bobagem, o Douglas teve azar, só.
-         Sorte e azar. Ta aí um negócio no qual eu não acredito.
-         Eu acredito. Vamos tomar um chope?
-         Não, eu tenho que assar um churrasco. O Ronaldo está indo lá pra casa, com toda a turma do futebol. Uma galera! Comem que nem uns loucos.
-         Também ele já tá com quase quinze.
-         Quinze anos. E parece que foi hoje.
-         Dois de novembro, que coincidência. Amanhã fazem quinze anos do acidente.
-         No dia dos mortos. Por anos minha avó me culpou por isso, disse que tudo aconteceu por que nós jogávamos bola e brincávamos no dia dos mortos.
-         Vamos embora?
-         Vamos.





Capão III

O Capão continuava ali. Uma clareira envolta em mata nativa.
O dia de finados sempre tem vento e naquele não teve. O vento traz para o mundo dos vivos as queixas das almas.
Naquela tarde, nem uma folha se mexia nas árvores. Os garotos estavam jogando e Diadora apareceu. Thomáz foi falar com ela, a mão suada encostou com suavidade no rosto de porcelana. Daniel e Douglas fingiram não ver. Mas um dos meninos, por pirraça, gritou:
-         Olha a alemoa com o negão!
O sangue de Douglas ferveu, correu com todas as forças pulando sobre Thomáz. A velocidade do garoto trouxe o vento que faltava ao dia de finados. Os movimentos de flexão do corpo de Thomáz jogaram Douglas contra o chão. O impacto provocado pela queda tirou os sentidos do menino. Só não lhe tirou a vida, por que os espíritos, acordados pelo vento, entraram na dança das almas. Dançaram os ancestrais de Thomáz e de Douglas.
Universo,
Diverso.
As almas não têm cores, mas têm passado. Não têm forma, mas têm recordações.
E os povos se levantaram!
Bateram Tambores. Bateram Pratos.
Ritmos africanos. Ritmos germânicos.
Gerações e mais gerações.
Um assobio! Brasileiro!
Um silvo forte. São as bruxas!
Um grito de dor.
Um grito de Morte!
Um grito do Céu e o outro do Inferno.
E
Deus
Desceu.
Soprou vida no sangue unido 
De Diadora e Thomáz.
Aprendam!
Numa nova vida.
O fim dos conflitos.
Depende de muito pouco.














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A noite eterna de Jacó.
Jacó ainda está com o cajado nas mãos, travando a sua interminável batalha com Deus. Abraão entra e toma a pequena Israel nos braços.
Deixa os dois lá sozinhos. Ao fundo ouve o estampido seco de madeira contra madeira.
Ele chama Israel de sua pequena criança e, tomando sua mão, os dois saem a passear pelo mundo.
“Sabe Israel”, ele diz, “um dia os homens vão entender que o mundo é um e muitos”.
As enormes pernas de Abraão levaram os dois às mais variadas partes do mundo, em passos largos. Às terras da África, a todos os cantos da América, aos floridos recantos da Europa, a bela Ásia, a fria Antártica e a adorável Oceania.
Em todos os lugares havia muitas pessoas, muita alegria e muita tristeza. Havia leite e mel. Ricos e pobres. Amor e dor.
Voltaram à noite eterna de Jacó e a Aurora veio em sua companhia. Pena que Estavam tão exausto que não perceberam...

Fernanda Blaya Figueiró. 04/08/2006.

Publicado na Coletânea Escritos


Para não esquecer
Outro dia o Milton, muito orgulhoso, e com razão, me alcançou a edição com formato novo do Correio Rural, adorei. Mas, em suas páginas, uma pequena notinha me paralisou, informava o falecimento de seu Pires, o fotógrafo. Duas emoções invadiram o meu peito, a tristeza e um alívio, imaginei que ele havia descansado. Pensei imediatamente em enviar esta pequena crônica, que tinha em meus arquivos, mas não fiz. Encontrei com ele em sua cadeira de rodas, no dia vinte e nove de maio, estava fraco e  mostrou um poema meu que guardava consigo. Poema que só ele tinha e que escrevi especialmente a seu pedido. Sempre que nos encontrávamos ele dizia: - “É preciso cuidar dos jovens!”  Fico contente em ver estes programas de combate as drogas e projetos que apontam novos horizontes para a juventude. O Pires tinha razão, os jovens não tem como lembrar de muitas coisas, é nosso papel mostrar a eles. Assim como nós não temos uma noção real do que a juventude de hoje passa, precisamos ouvi-los, deixar que expressem sua realidade, seus sonhos.
Bom!  Deixo com vocês esta crônica antiga e presto minha humilde homenagem a este meu grande amigo.. Perdi um amigo aqui, mas ganhei um no céu. 18/05/2009
“Dias melhores virão.
As marcas da violência são permanentes. Quem olha o empobrecido fotógrafo em sua cadeira de rodas, não reconhece nele o homem forte que um dia foi confundido com um Tupamaro. No fundo dos seus olhos ainda estão presentes o medo e a angústia. Não virou celebridade, nem enveredou pelos caminhos da fama.
Um dos seus desejos era de que alguém contasse sua história, seu testemunho de um tempo cruel e violento, muitas vezes retratados no cinema, na arte, na música. Mas, esquecido.
Sua voz aos poucos silencia, sua energia enfraquece... Seus gritos estão gravados nas paredes de lugares insólitos e são os mesmos dos excluídos de toda a sorte.
Eu queria ter escrito, ter apreendido um flash desta memória. Minha imaginação não foi capaz de tanto horror.
Antonio! Ainda viveremos dias de paz e respeito pelo homem, pela vida.
Oro para que os anjos iluminem teu caminho. Sempre haverá alguém dizendo esta foi tirada pelo Pires, o Fotógrafo de Viamão. Ele dizia... “Eu fui torturado!”
Viamão, 20/03/2007”



















As Figueiras de Viamão

Hoje consultei as figueiras sobre a Carta da Terra. Viamão é uma cidade privilegia em figueiras; na minha rota mesmo tem várias, a mais bela, para mim, fica bem na entrada do Clube Cantegril. Em um pequeno bosque, que um dia foi um local de lazer, com churrasqueiras, fica próximo as quadras de tênis e vôlei. Bem ali temos um santuário que deveria ser tombado como patrimônio ecológico.
Ali indaguei sobre a sua idade e não questionei sua magnitude, ela do alto de seus galhos deixou claro que já era uma anciã e no alto de sua sabedoria disse que ainda estaria ali por muito tempo.
Ontem indaguei de uma amiga o nome e ela disse chamar-se Maria. Seus olhinhos pequenos e tristes pediam um prato de comida, eu não tinha ontem, mas lhe alcancei um bombom. Ela disse que dormiria na rua, estava muito frio... Voltei ao meu chá quente, mas, minha mente partiu. A carta da terra estava comigo, com toda aquela benevolência: “ Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, a intensificação da luta pela justiça e pela paz, e a alegre celebração da Vida”[1]
Lembrei que deve fazer quase um ano que a Cássia Eler (?)de Viamão morreu. Era uma noite muito fria, lembro que escrevi algo sobre, mas, não guardei tamanha vergonha. Ela vivia bêbada, maltratada e suja. Naquela manhã foi encontrada só de camiseta na calçada do paradão. Lembro que a Câmara de Vereadores fez um encontro para refletir sobre a situação dos moradores de rua. Lembro que o Abel ganhou um blusão vermelho e meias quentinhas e bandagens nas mãos. Lembro de não ter feito nada. Ontem vim para casa fazer o que achava que era o melhor, uma oração.
Aí: “Responsabilidade Universal”; “desafios para o Futuro”; “ Terra nosso lar”. Perderam ainda mais o sentido.
Quando cheguei na altura do restaurante as belas figueiras davam guarida as bromélias, aos cipós e a outras espécies. Mais além, no laguinho artificial, as carpas nadavam e um pequenino peixe boiava morto, parte do ciclo do lago. Vi uma folhagem boiando, uma vez ganhei uma muda, vem de muito longe, meu vizinho largou no lago e estão até hoje lá. Acho que são Vitórias Régias... As caneleiras que padre Edgar me deu estão bem desenvolvidas, vieram lá da Igreja de Santa Cecília. O mesmo vizinho foi quem Plantou. Notei que a terra na volta das árvores da praça estava bem solta e adubada. Desci a Pau Brasil e passei pela casa do seu José, falecido há alguns anos, aos oitenta e quatro anos. Bem, naquela quadra ainda estão as folhagens que ele cultivava, até as sementes secas e o sorriso brincalhão dele. Os pássaros voando, os gatos espalhados e muita vida. “ O caminho adiante.”
Cheguei em minha casa e a Figueira que minha família plantou esta bela. O Pau Brasil, que foi trazido do nordeste por uma amiga minha e que adotamos, já que ele não gostava do vaso. Perdeu um longo galho na última chuva, mas, passa bem.
Os pica-paus, que moram no telhado não tem aparecido. Já as borboletas que foram muitas no início deste ano, talvez estejam em seus casulos... Não sei muito de borboletas. Nem da Carta, nem do Futuro. Mas das figueiras posso dizer que vão continuar e continuar e continuar e conti...


 Publicado no livro Raízes de Viamão

Um pedido de Natal

“Papai Noel eu queria...
Parou por alguns minutos. O que queria?
Atravessou a praça, as folhas das árvores rodavam no chão em pequenos redemoinhos. Uma semente fina, comprida e coberta com uma película quase transparente, ficou presa entre seus cabelos. Enquanto soltava a semente viu os cães correndo para o outro lado da avenida. Os pássaros pousando na frondosa árvore. Os ônibus passando, o cantor andino conversando com a cigana. O pipoqueiro recolhendo a carrocinha, o artesão confeccionando uma bela peça de pedras e linha. O gari brigando com o vento. A feira acabando, livros nas caixas, histórias adormecidas. Tendas coloridas, fitas, palavras, tudo em movimento.
Harmonia. Voava o pequeno cartaz para o meio da rua. Escrito numa colorida cartolina.
A semente foi roubada pelo vento, o cartaz recolhido pelo artesão, as fitas pelo pipoqueiro. A tenda foi parar com a cigana, os livros com o cantor andino.A linha foi recolhida pelos pássaros, as pedras pelos cães. As folhas entraram no ônibus.
As palavras caíram no texto. A frondosa árvore leu: “Papai Noel eu queria...
Harmonia...

Fernanda Blaya Figueiró






















Encruzilhada



 
Ele estava diante de uma estranha encruzilhada, nela todos os caminhos eram alternativos. Para chegar ao mar, seu objetivo, teria que trilhar pelo campo ou escolher um caminho que o levasse a uma nova estrada.
Seus pés cansados queriam seguir o atalho, mas uma voz poderosa em seu peito dizia que deveria seguir por uma das estradas. O sol se punha, guiado pela lua e pelas estrelas andou.
Andou, andou, andou... Muitas portas estavam fechadas, muito pão escondido, água aprisionada, ódio nos corações. Ele trazia sandálias nos pés e uma oração na garganta. O Pai enviou a água do céu, o pão dos pobres, a palavra que salva.
Ao amanhecer estava diante do mar. Pensava nos pequeninos, nos discriminados e excluídos, eram tantos ao longo do caminho. O pai, ao seu lado, diante da grandeza do mar, da textura da areia, da tênue luz que iluminava a humanidade, disse: - Filho, no meu reino os últimos serão os primeiros. E o espírito, voando nas asas de uma  pombinha, concluiu: - Assim tem sido desde os primórdios.



 
Escrito em 08/03/2007. Para o Sarau da ALVI em 23/03/07.








Do exílio .

É do exílio que te falo agora. Não estamos em tempos de guerra, isso eu bem sei. Estou no exílio por minha ordem.
As correntes que carrego são pesadas, foram feitas de ouro, contornam todo o meu corpo.
Roubei da vida o brilho. Da morte, o tempo.
Uma guerra pessoal, por construir uma imagem, muito próxima do ouro e das meias de seda.
Estou com a vassoura na mão, para recolher meu lixo; as grades do meu exílio se tornam cada dia mais altas.
Não vá logo concluindo que eu tenha de fato tomado posse de tanto luxo. Meu lixo é que contém muito ouro.Do trigo ao ar puro.
Foi a ferro e fogo ardente que me marquei.
O ferro queimando, como ao gado, foi tão fundo e tão sistemático... As correntes preenchem agora cada sulco na pele.
Pelo excesso, pela inércia.
Somos todos exilados nas grandes cidades.
Ruas sinistras, onde só tem acesso os eleitos, os guetos.
Meu jardim.
Cercado  e selvagem jardim, habitado por adoráveis animais .
Daqui ,então, que te falo agora.
Esta missiva tem a pretensão de propor dias melhores.
- A senhora aceita um chá?
- Um chá?












A Lata

- Rique ! Rique Sho, olá? – Uma mulher aparentando pouco mais de trinta anos olhava para ele. Usava um terno preto cortado de forma clássica, em tecido fino, que lhe caia muito bem. Não era exatamente magra. Bonita, mas não exageradamente. Como ele tinha esquecido de quem se tratava? 
- Olá! – respondeu aturdido.
-Não me reconhece? – indagou ela. Sou eu, Silene!
- Silene Colom! Sim, claro?
Os dois se abraçam longa e ternamente. Trocaram energias e fluídos. Ele estava confuso lembrava vagamente dela. O sobrenome veio em sua mente como um complemento, mais ou menos como: Cola, em Coca-cola.
- Meu Deus, como você está bem! O que tem feito?- perguntou a estranha figura.
- Escrito, escrito, escrito... E você? – responde ele, como uma rota de fuga, ou talvez em busca de pistas.
- Lido, lido, lido... Entre outras coisas tudo o que você escreve.
-E então?
Um prolongado e, ameaçador silêncio permeou a interação.  Pisavam um campo minado. Logo Rique percebeu que não tinha sido uma boa pergunta, mas sustentou o silêncio.
- Devo confessar que gosto de algumas coisas. – respondeu a mulher, medindo cautelosamente cada palavra -  Acho que você tem evoluído com relação ao uso das palavras, o seu texto está mais leve, atraente, mas quanto ao conteúdo: não sei, me parece vazio. Como já comentei em vários artigos...
- Maravilha! Era tudo que eu queria ouvir. – respondeu, para espanto de sua interlocutora.
- Como assim?
- Tenho buscado exatamente esta liberdade. Este desprendimento entre o ato de escrever e uma construção ideológica. Esta tradição retórica que faz com que o texto ganhe um novo sentido a cada momento, a cada leitura. Não quero discípulos, não quero participar de uma escola, entende? – estava diante de Silene Colom, a crítica mais estúpida que ele já tinha conhecido, quer dizer que ele definitivamente nunca tinha conhecido. E estava gorda; e o terno estava desajustado; e era bem mais bonita do que nas fotografias dos jornais, o que não fazia com que fosse bonita...
- Entendo, mas não concordo. Mesmo o vazio é uma construção ideológica, uma imagem criada e cheia de significados...
- Não! Não nego os significados, mas se posso procurar uma escrita consistente, também posso desenvolver uma escrita vazia. Um mero exercício de minhas faculdades. Assim como você pode ler, sem necessariamente tomar para si aquele objeto de leitura e a verdade nele contida.
- Adorei conhece você pessoalmente, mas meu tempo acabou, Você não vai?- interrompeu ela.
- Onde? – respondeu ele, já com uma profunda irritação na voz.
- Para A Lata, o evento cultural mais importante do ano. Você não foi convidado?... Desculpe-me, eu não tinha como saber...
- Eu fui convidado, mas não sei se vou poder ir. – Um blefe, sem muita importância. O convite pode ter extraviado, quem sabe durante a greve dos carteiros... Ele se despediu dela e ficou lembrando de todas as vezes que quis quebrar seu pescoço, esfolar suas unhas, vê-la sofrendo. As noites de sono que perdeu remoendo o amontoado de palavras hostis dela. Pensava nisso quando seu telefone tocou, no outro lado da linha, o editor gritava desesperado ao seu ouvido:
- Como você esqueceu de sua palestra. “A Lata”, você sabe o que significa? A LATA...
























Eclipse
O Dragão assombrou minha noite mais uma vez. Acordei com a roupa suja. As notícias sobre eclipses sempre me atormentavam. Era terrivelmente belo. Eu estava só, no campo, o céu me trazia uma sensação de infinitude, de dissolução. Tirei a roupa e deitei de frente para aquele mar de estrelas. Os cavalos pareciam estar mais agitados naquela noite clara, os bezerros desmamados choravam como crianças e as vacas respondiam, num lamento de dar dó. O eclipse já tinha passado, mas a minha inquietude não. Nos meus sonhos o dragão cuspia fogo pelas narinas. Acho que tinha a ver com São Jorge. O medo estava voltando e a noite seguia.  Meu corpo nu e entregue ao prazer. Minha alma atormentada. O dragão cavalgando o céu e o Olho de Deus atento a tudo.
Verme! Rastejei para dentro do galpão. O que seria de mim, maldito aos doze anos?



























A fusão das verdades

Agora que sei que todas as palavras já foram ditas e todas as combinações feitas. Perco a pretensão de disser algo novo, deixo para trás os vícios e verdades dos ensinamentos. Fico com uma leve sensação de liberdade.
E o sol vai se pôr vermelho entre árvores e casarios. Vai nascer amarelo refletido em algum espelho da terra.



























Descontos

A pequena casa estava com a porta e a única janela fechadas. As paredes sem tinta expunham a madeira desgastada pelo tempo. O ar de abandono não combinava com o ritmo acelerado da estrada. O entorno empobrecido apontava a decadência do lugar.
Vinha com a foice em uma mão, brincando com o espaço, ceifando imaginárias nesgas de ar. Com a outra carregava um saco de estopa. Camisa surrada, bombachas e alpargatas. Não usava chapéu, nem sabia dançar floreado. Cabelos brancos em contraste com a pele. Nos olhos uma indagação: Até quando?
O véu da noite desceu sobre a cidade, sem lua e sem estrelas. Nos fundos da casinha ainda podia ver um pouco de noite escura, sentir um pouco do mistério da vida. Sem o brilho falso da luz do homem.
Sozinho! Sentou na cadeira de vime, eliminou aos poucos do ouvido treinado o som grotesco da estrada. Uma prece silenciosa, na linguagem dos anjos.
-Senhor! Desconta o mal que um dia eu, com estas mãos e com este pensamento, cometi.
O pasto que carregava no saco colocou na cocheira. A foice guardou com carinho no prego. Água no bebedouro. Entrou pela porta dos fundos. Com os gravetos acendeu o fogo, esquentou a sopa. Estava cansado.
Da pequena janela viu o alazão galopando. A lua apareceu e uma cauda de estrelas iluminou o seu caminho. Sorriu! Um dia ele vai me levar, pensou. Um dia meu alazão vem me buscar!













O criador de mundos.

O canto das cigarras distraia Pascoal; o calor, no início do ano de dois mil e sete, estava superando todas as marcas, mesmo para os especialistas, que esperavam por esta reação. O jovem olhava pela janela da sala de aula; estava pendurado em matemática, física e filosofia. Sentado em uma cadeira dura, tinha, a sua frente, o livro aberto, um lápis e uma caneta. O professor suava, com o giz entre o indicador e o polegar, falava sobre a importância da ciência nos dias atuais e na necessidade da formação de pensadores, rabiscava palavras no quadro e fazia diversas perguntas.
Pascoal acompanhava atentamente, com o olhar, os movimentos do mestre. De sua cadeira, sentiu o cheiro do mar. O estrondo das ondas fez com que sua prancha invadisse o ambiente. Sentiu-a em seus braços_ leve e macia. Sentiu a pressão no tornozelo, ao prendê-la. A água jogava seu corpo para cima, e a calmaria permitia que nadasse deitado sobre ela. Chegando até as desejadas ondas. As belas ondas... No momento exato: estava em pé, sobre ela. Esperando, sentindo, respirando. O mar respondeu, produzindo uma enorme onda. Pascoal sobre sua prancha percorria o tubo de água clara e salgada, sentia a espuma em sua pele, o vento em seu rosto...
- Você não está me ouvindo, rapaz??? – interrompeu, irritadíssimo, o professor.
- Sim, estou. O senhor pode repetir a pergunta?
- Para você quem é Deus?
- O Criador. – respondeu o rapaz, com uma segurança que espantou o professor que, na dúvida,reprovou o aluno.
    Hoje Pascoal foge; foi acusado de causar danos permanentes ao planeta. Inventou Ozônio, um gás que os homens estavam, aos poucos, destruindo. No início, ficou conhecido como o criador de mundos. Pois o gás era fundamental para a continuação da vida no planeta Terra. Mas não contava que os cientistas iriam produzir uma grande, ou enorme quantidade dele. Sol, hoje, era um privilégio de pouquíssimas partes do planeta, havia uma densa camada de ozônio que impedia a passagem dos raios do astro rei.
    Pascoal era caçado, vivo ou morto. Deveria pagar, deveria retificar, deveria sangrar. Foi encontrado nas colinas de Santa Ana. Ninguém quis saber das advertências que fizera, dos inúmeros memorandos que enviou, nem das tentativas de reparação...Queriam sua pele..Esticada num pandeiro.
    O juiz furioso gritava ao dar a sentença: - Você não está ouvindo????
 Pascoal sorria, numa linda manhã ensolarada, á beira da praia... O criador!






























Marco zero.


Vanilda estava decidida a zerar o marcador da vida. Como se isso fosse possível. Chegava ao fim mais um projeto.
As mudanças na administração do estado trariam um longo período de retrocesso. Olhou mais uma vez para o prédio, se aquelas paredes pudessem falar, o que diriam?
Alexandre estava escorado no portão, olhava a fachada e imaginava tudo o que estava por vir. Tinha certeza que o fechamento da Casa de Cultura era uma retaliação, uma vingança barata, já que levava o nome de um antigo político do partido opositor ao que governava agora.
No local seria construída uma garagem, o centro da metrópole não tinha mais espaço para estacionamento.
O antigo prédio estava condenado.
Um garoto chegou perto dos dois e pediu uma moeda. Eles hesitaram, mas Alexandre deu a ele todas as moedas que tinha. O garoto recebeu e saiu, sem agradecer ou mesmo olhar para ele. Vanilda achou o menino arrogante, chamou-o e indagou dele por que não havia agradecido.
- Por que eu teria que agradecer?- ele respondeu em tom debochado.
- Porque você recebeu o que pediu, - disse Vanilda indignada.
- Eu morava aqui. Todos os dias via à senhora chegando, via ele – disse o garoto apontando para Alexandre.- Todos os dias eu comi os restos que vocês deixavam no lixo, fumei os tocos dos cigarros e bebia as sobras. Eu vivi aqui e ninguém nunca me cumprimentou. Vocês misturavam o lixo, comi muita torta com papel higiênico. E nunca fui chamado para assistir a uma peça de teatro, ou para um vernissage, ou para ler um livro. Mas eu sempre estive lá. E ninguém nunca me agradeceu.
- Como assim? - Indagou perplexo Alexandre, primeiro pela linguagem do garoto. Segundo pelos fatos que ele enumerava e pela precariedade daquele diálogo.
- Vocês querem conhecer onde eu morava?
- Sim. Respondeu imediatamente Vanilda.
- Venham comigo, disse ele dirigindo-se para os fundos do prédio.
- Como é seu nome?- perguntou Alexandre.
- Marcado.
- Marcado? – indagou Vanilda.
- É. Eu sei, parece uma sentença, mas é o que eu sou – respondeu o garoto, com um olhar desafiador. Até os “cana” me conhecem assim.
Marcado levou os dois a um pequeno portão, que ficava nos fundos do antigo prédio, escondido pelos botijões de gás. Ele servia de entrada para o porão da antiga casa. Ali o garoto se escondia.
- Há quanto tempo você mora aqui? - perguntou ela surpresa.
- Há anos. Eu era da “Boca do Lixo”. Mas roubei um cara, um chefe e ele me “juro”. Eu tive que caí... Tava vagando e um dia vi a senhora correndo atrás de um rato... Gritando feito uma louca, eu entrei aqui e fingi que ia ajudar e encontrei a entrada do porão.
- Isso faz muito tempo!- falou Vanilda.
- Faz. Respondeu Marcado...
O porão era um espaço enorme. Tinha vários objetos depositados. Um bico de luz no fundo produzia uma iluminação bastante precária. No chão o garoto havia colocado vários papelões que serviam de cama, sobre eles haviam alguns panos e pedaços de cobertas. O bico de luz estava sobre uma caixa. O cheiro era de pano podre. Um violão estava sobre a cama de Marcado, mais alguns livros e um caderno.
- Você toca? - perguntou Alexandre.
- Toco – respondeu ele. -  Aprendi ouvindo as aulas dos bundinha... Eu também li todos os seus textos.
- E gostou?
- Alguns... Fiquem quietos...
Marcado fez um sinal para que eles o seguissem, abriu um pequeno buraco pelo qual podiam ver uma das salas. Vanilda viu sua mesa, um funcionário da empresa de transportes abria as gavetas e fazia uma imitação grotesca de seu jeito de falar para um outro funcionário.
- Você me vigiava? – indagou Vanilda.
- Sempre, você é muito divertida - disse ele rindo e imitando o jeito atrapalhado de Vanilda. – Eu fui preso duas vezes, mas sempre fugi e voltei pra cá, passei uns tempos com os padres outros na casa espírita... Eu sei tudo Linda. Concluiu o garoto
- Linda? -indagou Alexandre.
- Bobagem! Um apelido –respondeu Vanilda. Vamos?
- E eu? - Marcado olhava para os dois - O prédio vai ser destruído. Vocês vão perder a “teta” e eu?
- Sei lá - respondeu Alexandre - a gente nem sabia que você existia. Você viveu todo este tempo sem precisar de ninguém...
- É assim, Drê? – provocou o menino.
- Deixa de frescura! - respondeu com voz firme Alexandre.
Os três saíram do pequeno esconderijo. Vanilda e Alexandre estavam constrangidos, atordoados, invadidos. O garoto demonstrava saber muito sobre os “segredos” de cada um. Os apelidos que ele mencionara eram particulares e a cada um enviava a um universo diferente. Linda era a forma como a família chamava Vanilda.  Drê era como uma aluna que tinha uma “relação especial” com Alexandre o chamava.
- Vocês sabem que o prédio vai virar um estacionamento e que quem vai construir é um amigo do tal de Soares? - perguntou o garoto cheio de malícia.
- Olha aqui – interrompeu Alexandre irritado com a situação. - Eu não sei de nada e não quero saber. Ouviu?
- Muito menos eu, falou Vanilda. E se você acha que vai ganhar algo com estas insinuações, cuidado! Essas coisas não são brincadeira.
- Eu sei, disse Marcado. A senhora não precisa se preocupar comigo, eu me viro. Mas aquela sua filhinha não deve saber de nada da vida.Tão mimada...
- Sai daqui antes que eu perca a paciência – ordenou Alexandre.
O garoto saiu e deixou os dois sozinhos em frente ao prédio. Observando a fachada Vanilda pensou em quantas vezes tinha subido os degraus, entrado no pequeno hall, aberto a porta e entrado na ante-sala. Tinha o hábito de olhar tudo antes de descer a escada de madeira. Pela manhã, durante o inverno, sua sala ficava toda iluminada. Já no verão recebia a sombra do prédio vizinho. O piso de taboão fazia um barulho seco sobre seus sapatos. Ouvia cada um de seus passos.
No andar superior aconteciam as oficinas e eventos: exposições, saraus, concertos. E todo este tempo aquele menino enfiado naquele buraco. Não conseguia imaginar. Estava mentido, certamente estava mentindo.
- Ele está mentindo, - disse Alexandre.
- Eu estava pensando isso - disse ela - O garoto não pode ter morado anos num prédio público e ninguém ter notado.
- O papo dele também, muito cheio de coisa, muito apurado.
- Quem será esta peste? – indagou Vanilda.
- Não sei. Bom, eu vou indo. Amanhã começo no meu novo cargo: professor de música da escola aberta. Depois de ensinar violão clássico, para os melhores...
- E eu, que fui remanejada para a Delegacia de Educação. Agora me diz o que eu vou fazer na delegacia?
- Sei lá, arquivar documentos, tomar cafezinho, - disse Alexandre em tom irônico. 
- Logo eu que detesto burocracia – respondeu ela.
Os dois amigos se despediram com um certo pesar, já que suas vidas iam tomar caminhos diferentes. A sensação de mudar tudo era muito ruim. Se tivessem ficado na mesma área, mas estavam sendo jogados em lugares onde não eram necessários. O novo governo não tinha interesse em que se mantivessem unidos, a equipe toda era muito forte e profundamente comprometida com as diretrizes da administração anterior.
Linda abriu a porta do carro e quando colocava o cinto de segurança sentiu a presença do garoto ao seu lado. Ela acenou para ele e pediu ajuda para manobrar, na saída abriu a janela e lhe alcançou uma nota de dez reais. Não entendeu direito por que tinha feito aquilo. Ele sorriu e agradeceu com uma frase que ela não entendeu: te vejo amanhã, Linda!
Pelo retrovisor viu o prédio ficar perdido no tempo.
Passou numa lanchonete antes de voltar para casa e pediu hamburguês, fritas e tortinhas. Estava pronta para preencher o seu “vazio existencial”.
Algum marcador tinha que ser zerado entrou em um boteco e comprou tinta para o cabelo. Estava pronta para olhar no espelho a nova Vanilda.
            A Implosão.
O antigo prédio seria explodido ao meio dia. Alexandre pegou a máquina de fotografias e correu para lá, queria registrar tudo. Antes, durante e depois. Estava apegado aquele lugar. Ao chegar lá encontrou Linda e Marcado. Ambos sorriram para eles. Alexandre achou graça, pois o garoto tinha “adivinhado” que eles se reencontrariam naquela manhã.
Linda tinha ficado muito bem com os cabelos dourados, combinava com o tom de sua pele, de um branco aleitado. Os dentes pequenos, levemente amarelados, apareciam no sorriso encabulado que Alexandre eternizou em forma de fotografia. Um contraste com a cor de terra do garoto, que aparecia em segundo plano. Marcado tinha o tom de pele das pessoas do oriente. Os olhos negros, o nariz alongado e um sorriso largo. Tinha uma expressão muito forte, cheia de malícia, como todo bom malandro. Mas ao mesmo tempo uma doçura no olhar.
Faltavam quinze minutos para o meio dia e Alexandre pediu a um dos bombeiros, que acompanhava a operação, que tirasse uma foto dos três em frente à porta de entrada, da qual restara só o arco de alvenaria. Todas as aberturas tinham sido removidas, no dia anterior, pois eram de madeira de lei e valiam muito nos antiquários.
Os bombeiros pediram a eles que atravessassem a rua e mantivessem a distância recomendada. Uma fita de plástico foi estendida, interditando a área. Vários curiosos, inclusive a imprensa, cercavam o lugar.
Ao meio dia em ponto a implosão aconteceu, rápida e violenta. Em segundos o prédio desabou inteiro. Restaram um amontoado de caliça, uma nuvem de pó e muito espaço. A paisagem mudou completamente. A rua ficou como o sorriso de uma pessoa sem os dentes da frente. Um caminhão e uma retro escavadeira aguardavam para retirar os escombros.  Estava cumprida a jornada da edificação.
Alexandre convidou Linda e Marcado para almoçar. O garoto agradeceu, disse que não se sentia bem em restaurantes, preferia que ele lhe desse o dinheiro e buscava algo na padaria. Então eles acabaram optando por também fazer um lanche rápido e informal, queriam especular a história dele.
O garoto pediu um xis e uma cerveja. Alexandre e Linda não concordaram com a bebida. Linda questionou sua idade.
- Quatorze anos. - respondeu ele.
- Você sabe o dia que nasceu? - perguntou Alexandre.
- Vinte e cinco de dezembro. Minha mãe sempre brincava comigo que eu fazia aniversário no mesmo dia de Jesus.
- Onde sua mãe está? - Linda pensou antes de formular esta pergunta, certamente a resposta não devia ser muito boa.
- Presa. No IPF. Ela matou um cara.
- Como ela se chama?
- Ismália.
- E você vai visitá-la?
- Não. Ela me odeia. Por causa do cara que ela matou.
- Era um conhecido? - perguntou inocentemente Alexandre.
- Era o “Homem” dela, mas o cara era um baita tarado... Ele era chegado numa “rosca”... O garoto fez um gesto unindo a ponta do polegar com o indicador.
Linda tentou interromper a fala dele antes que piorasse e as outras pessoas ouvissem, mas não conseguiu. Um constrangimento foi se tornando inevitável.
- Ela chegou em casa e viu ele com uma galinha no p... Marcado segurou e sacudiu a genitália, em movimentos compassados.
- Que horror. Exclamou Linda.
- Eles discutiram e o cara, que tava pra lá de chapado, contou que fazia o mesmo comigo e com minhas irmãs... Ela enlouqueceu... Quebrou tudo e colocou fogo na casa. Minhas irmãs estavam dormindo e morreram junto. Eu nunca gostei daquilo, achei bem feito... Que dizer... Eu tinha um amigo que às vezes a gente fazia... E era bom... Mas era diferente... Cada um fazia o do outro e nem doía, era até divertido... Hoje só se me pagarem... E não aceito esfregação...
- Quer mais alguma coisa, Marcado? – interrompeu Alexandre.
- Posso levar?
- Pode. Eu vou pagar e tenho que ir embora...
- Eu também, disse Linda.
Ambos se despediram do garoto e foram para seus novos empregos. A forma como ele contava aquelas atrocidades todas era estranha. Agia como se tivesse entrado no automático. Seus olhos ficavam esvaziados, sem expressão. E as palavras pareciam como uma fita rodando, sem sentimento. A fala era desconexa, não tinha exatamente a intenção de comunicar. Como se falasse para si mesmo.
Logo em seguida Alexandre ligou para Linda, precisava falar sobre aquilo, os dois acharam que tudo não passava de uma fantasia dele. Mas ao mesmo tempo ficaram preocupados, pois o garoto tinha demonstrado uma fixação neles.
Linda imaginava de onde ele conhecia sua filha. Porque na manhã anterior havia citado ela?
E o namorico de Alexandre com a aluna, passava a parecer uma perversão, nas insinuações do garoto. Até por que ela tinha quinze anos, teoricamente uma criança. Alexandre sabia que eras “mais rodada” que muita mulher velha, o que não justificava de forma alguma a atitude dele.
Alexandre entrou na escola e logo viu uma realidade bastante parecida com a narrativa do Marcado, ficou imaginando o que cada um daqueles pequenos passava. Roupas desbotadas, narizes sujos, unhas encardidas. Até o cheiro de alguns era ruim, não dava para saber se era suor, urina ou fumaça. Ou tudo junto. Ele usando um perfume caríssimo, uma calça jeans escura e uma camiseta justa, destoava completamente. Os garotos usavam calças largas, caídas, camisetões e bonés, as meninas a mesma coisa.
A primeira reação deles ao vê-lo foi impressionante. A diretora da escola entrou na sala e informou que ele era um dos maiores músicos da cidade e que estava ali para ensinar violão e técnicas musicais. Um dos meninos levantou e disse que não ficaria na aula do boiola. Ela disse que não tinha problema, que só ficasse quem quisesse. Todos os alunos levantaram e saíram.
Alexandre ficou sozinho com a diretora, que foi logo dizendo que não queria ele ali e que assim que fosse possível pediria sua transferência. Mostrou lhe a sala dos professores, apresentou-o a alguns colegas. Disse que deveria assinar o ponto e ficar a vontade. Enfatizou o quanto estava indignada por terem “largado” ele em suas mãos. Aline, a professora de artesanato, se aproximou dele e perguntou se podia aprender violão.
- Claro. Respondeu ele. Fico feliz em ver que alguém aqui quer aprender alguma coisa.
- Não te assusta. O maior problema aqui é a baixa estima. Todo mundo tem uma expectativa ruim. E a “Janete” é mergulhada na ideologia do partido. Jamais vai dar o braço a torcer, pois eles queriam o pescoço de vocês.
- Eu sei, se eu pudesse nunca teria entrado em partido ou me vinculado a uma tendência. Já fui discriminado de tudo que é jeito.
- Nem sei como não tiraram vocês.
- Por que no nosso grupo tudo mundo é concursado. Eu sou professor de música, estava cedido para a secretaria de cultura.
- Eu tenho acompanhado os teus textos, acho muito legal. E também comprei os teus dois Cds.
- Nem acredito. Acho que se eu vendi uns “quatrocentos” foi muito...
- O pessoal não gosta de música alternativa, mesmo de quem já tem fama.
- Você está de folga Aline?
- Não, minha oficina começa no próximo período. Mas se eu pudesse te dar um conselho seria: vai pra tua sala e mata tempo lá, pois isso aqui no intervalo vira uma guerra. E como “eles” estão por cima da carne seca. Vão te trucidar, falando mal do governo anterior.
Alexandre resolveu aceitar a sugestão, Aline era um doce de pessoa, baixinha, gordinha, simpática e cheia de vida. Ele achou que ela tinha um jeito de fofoqueira, não sabia avaliar se tinha se aproximado para ver se ele falava mal do partido que tinha assumido ou se queria ajudar. Ele já era “escolado”, nestas formas de relação.
A sua sala era um pequeno canto de um corredor, fechado por uma divisória. Ali tinha um quadro negro, uma mesa com uma cadeira giratória e dez cadeiras dispostas em meia lua. Nas paredes toda a forma de pichação. Sendo a mais nova com as seguintes palavras: Fora bichona! Em vermelho, para que todos pudessem ver.
Alexandre colocou a pasta sobre a mesa, limpou a cadeira imunda e afinou o violão. Pela janela via a praça, o pipoqueiro e Marcado.
Sentiu um frio na espinha. O que ele estaria fazendo ali?
Alexandre ficou observando, com o cuidado de não ser notado. O garoto olhava para o seu carro, espiava a porta da escola, falava com o pipoqueiro, trocava um pacote por algo que parecia dinheiro. Quando os brigadianos passaram se escondeu atrás de um monumento. Logo depois abriu um bueiro e entrou nele.
O sinal tocou, Alexandre pegou suas coisas e foi embora. Pelo retrovisor viu o menino rindo e cuidando todos os seus passos. O aluno que se recusou a ficar em sua aula estava conversando com ele e soltando altas gargalhadas.
Pensou em ligar para Vanilda, mas achou melhor ficar quieto com suas suspeitas. Tinha que comprar um presente para Marina, um problemão, por que ela não gostava de nada e tinha praticamente tudo. A cada data que passava tinha que dar um presente melhor. Pois ela sempre achava chinfrim. Não podia dar perfume, pois ela achava impessoal, não podia dar sapatos por que ela não usava sapatos e sim marcas e tendências. Se desse uma coisa para a casa ouviria um longo discurso, sobre a banalização da mulher. Se desse lingerie era uma ofensa, se desse chocolate uma indireta. Se desse um vale, uma vez fez isso, era o próprio “troglodita”. Estava de saco cheio disso. Ele já tinha mandado entregar um buquê para ela no Tribunal. Pensou numa jóia ou num casaco.
Ligou para o filho e perguntou o que ele achava. Dimas tinha cinco anos. Respondeu que ela queria uma viagem. Como ele nunca tinha pensado nisso. Uma viagem, para onde? Pra Bahia, né pai. Lógico ele respondeu. Quando? No próximo feriadão. Sete de setembro na Bahia, Ótimo. Entrou na primeira agencia e comprou as três passagens. Com a condição que se ela não gostasse poderia trocar, adiar ou desistir.
Passou no boliche o pessoal estava lá, enchendo a cara e mentindo muito, para a alegria de todos. Ele ficou por um tempo ali e na saída viu Marcado no outro lado da rua. Vanilda saía do Bistrô, com a filha, o marido e a irmã. Alexandre acenou para eles e fingiu que não tinha visto o garoto. Linda gritou que precisava que ele revisasse uns textos para ela. Alexandre viu que não passava de um pretexto para se encontrarem. Combinaram de almoçar juntos no outro dia. Ingrid A filha de Vanilda parecia uma modelo, esguia, corpo bem definido, cabelos perfeitos. Alexandre observou a fixação do garoto por ela.
Teve certeza de que eles corriam perigo. Marcado era como uma sombra. Espiando, controlando seguindo os passos deles.
Marina adorou o presente, Dimas tinha acertado na mosca. Os pais dela e alguns amigos ligaram e acabaram decidindo sair junto para jantar.
Alexandre entrou no carro preocupado. Já imaginava que Marcado estaria por perto. Nunca imaginou que ele abordaria o carro e daria um presente para Marina. Uma rosa vermelha. Pediu uma moeda, ela lhe deu o dinheiro e agradeceu.
Alexandre passou todo o jantar apreensivo, mas ninguém notou nada. Ao chegar em casa falou de suas suspeitas e de tudo o que o garoto tinha contado. Marina conhecia toda a história dele. Tinha julgado o processo da mãe dele e o marido de Vanilda tinha sido o promotor do caso.
Tudo o que o garoto disse tinha acontecido. Os abusos, a morte do abusador, a morte das irmãs. As passagens dele pelas unidades para menores infratores, pela escola aberta, pelos centros de reabilitação da igreja e das associações espíritas. A jura que recebeu por brigar com um traficante, que hoje estava preso.
Alexandre achava que eles deveriam comunicar os fatos para alguém. Marina pediu para ele não se meter, disse que no outro dia ia procurar uma assistente social e solicitar que desse uma olhada nos documentos do Conselho Tutelar e do Juizado de Menores. Ela Estava muito feliz e não queria estragar a noite com trabalho. Fazia tempo que não se olhavam de verdade. Que não namoravam, a noite terminou de forma inesperada, Alexandre e Marina entraram em sintonia, como se fossem jovens apaixonados.
A sombra.
Alexandre chegou na escola e Marcado estava esperando sentado na primeira cadeira. Tinha um violão encostado na cadeira ao lado.
Pela marca na cabeça do violão Alexandre reconheceu um velho instrumento seu.
- Eu não roubei. Você jogou num canto lá no depósito da casa de cultura - disse Marcado.
- Eu vou ser bem franco, não estou gostando nada disso. O que você faz seguindo a mim e a Vanilda?
- Nada. Eu não tenho nada pra fazer. Minha vida é vazia de sentido. Como eu li uma vez num dos teus textos. Eu não tenho uma mulher juíza, um filho, uma namoradinha boazuda...
- O que você quer?
- Nada. Eu vivia lá com vocês e nas horas de folga achava divertido ver o que acontecia quando vocês saíam de lá. Um dia eu acompanhava você, no outro a Linda e às vezes aquela tetéia da filha dela. Até o Promotor eu já espionei. Tomando cerveja, jogando bola, dirigindo bêbado, dando uma passadinha no cabaré da Tia Carmem.
- E hoje. O que você está fazendo aqui?
- Isso aqui é uma escola de freqüência livre. Eu venho aqui quando eu quero, assisto a algumas aulas e filo a bóia. Às vezes venho jantar também... Mas aí é mais complicado, por que eles querem prender a gente aqui. Como nos albergues, que eles obrigam a tomar banho e fica de cara limpa.
- Eu estou aqui para dar aula e se você está aqui para aprender eu vou ensinar. Mas quero que você se afaste da minha família e da Linda também, senão eu vou prestar uma queixa. Entendeu?
- Não precisa ficar nervoso. Eu não quero fazer mal para ninguém. Eu gosto de vocês.
- Toca uma alguma coisa.
- Vou tocar a que eu mais gostava de ouvir... Drê.
Alexandre ficou emocionado com a música escolhida, com a perfeição com que o garoto tocava o violão. Com a magia de sua voz. A letra da música falava em sombra, água fresca e uma vida boa. A melodia refletia um mundo de paz e harmonia, sem sobressaltos, sem mudanças bruscas. Era toda num único tom, melódico e levemente feliz.
- Você toca muito bem, pode ser um grande artista, só precisa de um nome.
- Evandro. Filho de Ismália. É um prazer. O garoto estendeu a mão para ele.
- Então este é o seu verdadeiro nome.
- Não, é o nome que os padres me deram. Eu não gosto do meu verdadeiro nome.
- Qual é?
- É muito horrível... Que você achou?
- Está muito bom só um pouco acelerado. Essa música é bem cadenciada, mas a posição dos dedos, o toque nas cordas está muito bom.
- A Vanilda tocava uma outra que eu gosto muito. Mas não consegui tirar.
- Você tira de ouvido?
- Sim, mas eu conheço as partituras, até peguei umas quer ver?
- Quero?
Evandro pegou uma pasta com várias partituras e letras de música. Inclusive raridades que estavam arquivadas no antigo Centro de Cultura.
- Onde você conseguiu isso tudo?
- No depósito. Sendo comido pelos ratos.
- Inacreditável. Então vamos começar com o que significa cada parte e para que serve.
Alexandre deu uma aula completa para o garoto, a relação entre eles havia mudado. O medo e a desconfiança foram virando admiração e uma certa cumplicidade.
Naquele momento ele se via tentado a adotar o garoto. Não disse nada, mas pela primeira vez via Marcado como um adolescente.
Vanilda já estava no restaurante quando Alexandre chegou. Os dois se cumprimentaram com muita alegria, sentiam falta um do outro. Ela trazia um caderno e um envelope.
- Que isso?
- O motivo do nosso encontro. Respondeu Vanilda.
- Eu preciso te contar um monte de coisas. Descobri que o Marcado tem um nome: Evandro. Ele vem nos seguindo, ontem eu saí com a Marina, o Dimas, os pais dela e mais uns amigos. Ele parou o carro e ofereceu uma rosa para Marina, parecia que sabia que era seu aniversário.
- E sabia.
- Como assim?
- Termina de contar que eu te mostro.  
- Bem falei com a Marina sobre ele e ela me disse que conhecia toda a história.
- Claro, ela julgou o caso da mãe dele e o Jéferson foi o promotor.
- Ele te falou?
- Não. Está tudo escrito pelo garoto neste caderno. Que foi deixado na caixa de correspondência lá de casa. E o envelope, que estava junto, tem uma infinidade de fotos.
- Fotos? Deixa-me ver.
- Aqui não. Tem umas muito nojentas. Tuas com aquela frangainha tem um monte. Do Jéferson, nem sei como consegui olhar pra ele... Até minhas.
- Tuas?
- Limpando nariz, fazendo carreta, coçando o bumbum, devorando tortas e mais tortas, até vou começar uma dieta urgente. De frescura com as minhas amigas, bêbada. Furiosa, brigando no supermercado. Outras bem comportadas. Até pintando o cabelo, dentro do banheiro da minha casa. Foi aí que me apavorei. Como ele conseguiu?
- Hoje ele foi lá na escola, me pareceu um garoto como qualquer outro. Toca violão como se tivesse estudado anos. E aprende rápido, muito rápido.
- Eu estou assustada, não sei o que fazer.
- Mas porque ele teria te enviado tudo isso? Será que tem mais alguma coisa, o que pretende?
- Eu acho que quer alguma vingança. Destruir nossos casamentos. Pode achar que temos culpa de alguma coisa?
- Do que?
- Vai saber, até de levar uma vida boa. Já que a dele é “infernal”.
- Chegou a falar com o Jéferson?
- Não. Eu vi ontem e as crianças estavam por perto. Não vou tá criando pânico em todo mundo.
Os dois estavam confusos, embaraçados. Resolveram mostrar tudo para Jéferson e Marina. Afinal eles deviam estar envolvidos de alguma forma. Terminaram o almoço sem comer praticamente nada. Marcaram de se encontrar à noite na casa dela. Alexandre levaria Marina.
Ele pediu as fotos, para olhar com calma e decidir o que fazer. O caderno era todo em tópicos e não tinha nada de conclusivo ou comprometedor. Registrava letras de músicas, recortes de jornais, convites, folders, o histórico do julgamento nos jornais. Mas as fotos eram impressionantes. Não pareciam ser tiradas com câmera digita e a revelação devia ter custado muito caro. Em algumas aparecia com a aluna em situações realmente comprometedoras. Notou que quase todas eram de períodos recentes a implosão do prédio. Talvez duas ou no máximo três semanas antes. A tarde foi de muita apreensão para os dois. Eles não viram mais o garoto.
Às oito horas eles se reuniram na sala de estar do apartamento de Vanilda. Alexandre havia selecionado as fotos. Mostrando as menos comprometedoras. Inclusive ele disse para todos que só tinha trazido algumas.
Jéferson e Marina acharam que eles estavam fantasiando muito, que um garoto por mais malandro que fosse não passava de um garoto. E eles já estavam imaginando seqüestro, chantagem, espionagem. Marina disse que havia falado com uma assistente que tinha garantido que o filho de Ismália, Evandro ou Marcado havia sumido. A polícia tinha quase certeza de que ele tinha morrido, só não haviam encontrado o corpo. Baseado no depoimento de outro menor que tinha mencionado o crime, que teria sido praticado por um traficante chamado de “chefe”.
- Agora, esse sim, é um bandido. Interrompeu Jéferson. Vamos fazer uma queixa crime, entregamos “todo” o material e fim. A polícia que investigue.
- Todo o material?
- Tem alguma coisa errada Alexandre? Perguntou Marina.
- Tem. Em algumas fotos eu apareço com uma aluna, uma idiotice que levou só uns dias...E tem fotos do Jéferson na “Tia Carmem” e da minha filha de vocês aos beijos na porta da escola com um cara mais velho do que eu.
- Por isso você selecionou o que ia mostrar?
- Selecionei. Mas abri o jogo tá Marina.
- Então esse menino quer ganhar um dinheiro. Disse Marina. Com as sujeiras de cada um.
- Depois cada um de nós lava a sua roupa suja. Disse Vanilda. Essa história tem que ter fim.
- Então vamos deixar de falsos pudores e ver o resto. Como esse menino é?
- Eu tenho uma foto aqui, no dia da implosão ele estava lá e eu tirei uma foto dele. É essa. Alexandre mostrou a foto.
- Deixa só eu entender uma coisa Alexandre, vocês dois por acaso?
- Não. - Interrompeu Vanilda -  Nós somos somente amigos e mais nada.
- Ainda bem. Respondeu Jéferson. Só que esse menino não é o filho da Ismália.
- Deixa-me ver? Pediu Marina.
Ela observou atentamente a foto e disse:
- É o menor que disse que ele estava morto. É filho do “Chefe”. Ele e Marcado viviam juntos, até o pai dele ser preso. Depois ficaram rivais. Vocês não lembram da repercussão desse caso na mídia”.
- Esse negócio pode ser mais sério do que parece. Eu vou passar tudo para um camarada meu, o Gringo, ele pode cuidar disso, sem tumulto. Disse Jéferson.
- A Mídia ia adorar isso, se vocês notarem bem, estas fotos são de pequenas contravenções. Marina espalhou as fotos na mesa de centro.
Foi mostrando com cuidado, não eram somente cenas ridículas. Vanilda aparecia pintando o cabelo, fumando e bebendo. Numa outra em que estava fazendo festa com as amigas aparecia um baseado, logo alguém estava consumindo drogas. Esposa de promotor, mãe. O que isso parecia?
Marina aparecia dirigindo e falando no celular, rindo de uma pessoa estatelada no chão. Jogando cartas a dinheiro com as amigas, assistindo a um strip masculino. Jéferson aparecia saindo dum bordel, visivelmente bêbado, com uma mancha de sêmem na calça do terno e dirigindo sem condições nem de andar. Alexandre aparecia tendo relações sexuais com uma adolescente. Comprando Cds piratas.
Eles não estavam matando, roubando ou seqüestrando. Mas estavam cometendo pequenas infrações. Ou, no mínimo em atitudes moralmente inadequadas. Ficava clara a intenção do garoto de desmoralizá-los e talvez de criar alguma forma de chantagem.
Estavam despontados, uns com os outros e também consigo mesmo. Os fatos eram constrangedores, mas até um certo ponto, normais em seu meio.
Alexandre e Marina foram embora em silêncio. Não falaram nada sobre as fotos. Jéferson e Vanilda também evitaram continuar com aquilo. O garoto desapareceu de suas vidas, não souberam mais nada dele.
Durante a escavação para a construção dos alicerces da garagem que substituiria o antigo prédio foi encontrado o corpo de um menino, identificado como o filho de Ismália. Estava enterrado no porão do prédio, em estado de decomposição, a perícia constatou que devia ter morrido a umas três semanas, no máximo um mês. Tinha os braços amarrados para trás, fraturas no crânio, na bacia e nas pernas.
Por um tempo o relacionamento entre os casais mudou, depois voltou ao normal. Alexandre e Vanilda foram se afastando.
Alexandre fez muito sucesso com um novo Cd, onde tocava entre outras, a música escolhida pelo garoto durante a única aula em que apareceu. Amadureceu, suas composições ganharam um sentido diferente, mais simples e acessível. Devia isso a Marcado ou quem fosse aquele garoto.
Vanilda passou a estudar o impacto das condições sócio-econômica na vida das pessoas. Focou sua atenção na chamada “Boca do Lixo”. Sobre ela escreveu um longo trabalho. Usando uma analogia com a destruição do prédio da Casa de Cultura. A obra denominada Marcas foi amplamente divulgada e sensibilizou um pouco algumas pessoas.
A Boca do Lixo.
O homem segurou o menino pelos cabelos e acertou seu rosto com uma bofetada. Os outros menores assistiram calados.
Marcado estava muito chapado, para sua sorte. Ria a cada bofetada que recebia, o que só aumentava a fúria do “Chefe”. Mesmo tendo ele caído com as mãos amarradas para trás, o homem chutou violenta e repetidas vezes seu crânio, braços e pernas. Estando inerte o corpo não cessava o espancamento. Olhava para os outros, como se avaliando suas reações. A punição foi exemplar. Todos sabiam que ele havia roubado, na boca do lixo, onde o “Chefe” era quem dominava. Ele havia invadido um território ocupado, subvertido a ordem e estava pagando por aquilo.
A morte lhe encontrou no porão do prédio onde morava há muitos anos. Um local seguro, que “Chefe” descobriu por intermédio dos outros garotos, seus filhos de rua. Foi enterrado ali mesmo, no meio da noite.
A desgraça se abateu sobre ele no dia do seu nascimento. Vinte e cinco de dezembro. Nasceu numa maternidade pública, saudável e predestinado. Pai, mãe e duas irmãs dividiam uma pequena casa, aquecida, abastecida, segura. Até o pai cair no mundo, sem volta. A mãe cair na tristeza. O abusador entrou pela porta que a mãe deixou aberta. Trazendo o medo, a violência e o fim da célula familiar.
Marcado viu tudo de longe. Viu as chamas consumirem o lar. A mãe sendo levada algemada.
A rua para ele foi horrível. Demorou a aprender a se virar sozinho. Sentia falta de abrigo, de consolo de orientação, de comida. Mas aprendeu, sobreviveu. Ele sabia que não devia ter roubado na boca do lixo. Muito menos ter enfrentado a repreensão do “chefe”. Não podia ter dedurado. Tinha que ter engolido sua raiva e baixado a cabeça. Mas não gostava de se curvar. Não gostava que zombassem dele.
A morte foi em parte esperada e em parte bem vinda. Ele seria o próximo a dominar o pedaço e “Chefe” sabia disso. Pelo olhar sem medo, pelo jeito arrogante e enfático. O outro Marcado aprendeu a lição. Marcou o “Chefe”, na paleta. Sondava, observava, avaliava todos os seus passos e dos “bacanas” também. Vivia na sombra esperando. Armava arapucas invisíveis e tinha a sapiência dos antigos, sabia a hora.
Vivia na boca do lixo, entre os caminhões cheios de mercadorias, que desembarcavam toda a hora. Entre os botecos e prostíbulos, era dócil, obediente. Dava-se bem com os “cana”. Com os padres, os espíritas, os pastores e as assistentes sociais. Sorria para os políticos, torcia por todos os times.
E matou o “Chefe” sem paixão. Até sem que ele soubesse. Buscou Ismália no dia em que saiu do IPF e beijou-a como um filho morto de saudades.
Ele pode estar em qualquer canto. Pode ser aquela sombra no arbusto, o movimento que faz os cães ladrarem nas noites de pouca luz. O mendigo enrolado no cobertor cinza que você doou na última campanha.
E quanto mais famílias forem destruídas; e quanto mais empregos forem fechados; e quanto mais verbas os políticos desviarem; e quanto mais você fingir que não está nem aí. Mais Marcado aparecem. Mais sombras aparecem e mais longe a paz fica.
Não esqueceu de guardar o carro na garagem? Isso aqui é perigoso.
Boa noite! Durma com os anjos.







Mol
As flores adoravam a estufa. Mol controlava a temperatura, a unidade, a luz e a quantidade de água e nutrientes que cada planta precisava. Era muito respeitada por isso, ela tinha estudado nos melhores lugares, sabia muito sobre botânica.
Quando ela morreu as flores sentiram, algumas morreram também e outras sobreviveram. Eu só lastimo ter chegado tão tarde: um mês. Sinto-me culpada, éramos grandes amigas, mas nos últimos tempos falávamos muito raramente. Meus netos ocupavam grande parte do meu tempo, sei que não é uma boa desculpa, mas foi assim que ocorreu.
Fui visitá-la e a notícia me atingiu como um meteoro, de forma inesperada e violenta. Sua filha estava constrangida por não me haver informado. Fui até a estufa para, em oração, despedir-me dela. Estava intacta. Com teias de aranhas, pó e folhas caídas, as luvas de Mol estavam sobre a pia, suas anotações, seus recados, tudo estava parado. Por sorte, ou pela ação do sol, alguns gomos de plástico haviam rompido, permitindo que a água da chuva entrasse e alimentasse algumas das plantas. Duas figueiras lutavam por água.   Fiquei chocada.
Ao despedir-me indaguei de sua filha o que pretendia fazer com as plantas. Ela respondeu que a casa estava à venda e que por acaso estava ali. Perguntei se ela não me venderia às plantas e ela respondeu que somente com a casa. Eu não tinha como adquirir tudo...
O tempo passou e hoje retorno.
As flores de Mol sobreviveram, a estufa foi reconstruída e as duas grandes figueiras servem agora para abrigar a orquestra durante os concertos campestres. Na casa as crianças aprendem sobre as plantas...
Sobre a pia ainda estão as anotações e as luvas, emolduradas e nomeadas: As flores de Mol.  Fotografias, roupas, objetos ornamentam tudo: os quadros que pintava, as obras que escreveu, seus rascunhos, seus projetos, as preciosas sementes...
A energia dela está presente em cada canto, em cada planta, em cada sorriso. Meus netos vão tocar hoje... Vão tocar para Mol, no último jardim vivo da terra.










     O Mouro e a Portuguesa.


As orquídeas nativas esbanjavam alegria em pequenas flores amarelas, que mais pareciam uma chuva colorida em meio ao verde das árvores.
- Eu vi aquele moreno bonito, me contou a portuguesa há muitos anos. Era carnaval, e eu pensei comigo: este é meu! Naquela época os bailes eram nos salões, as pessoas usavam belas máscaras e dançavam marchinhas cadenciadas. Quando ele passou, joguei lança perfume em sua direção, como uma chuvinha – contou-me ela. Olhei em seus olhos e sorri, foi o suficiente.
 Imagino o Mouro preso no verde dos olhos da Portuguesa. Formaram um belo casal e foram felizes.

























A videira de Domenico


Era uma bela manhã de setembro, a videira estava coberta de brotos novos, a natureza anunciava um período de renovação e alegria. Domenico havia preparado este momento acompanhando cada passo de seu desenvolvimento.
Se fores ao Chile traga-me uma muda de videira”. Lembrou do sonho do pai: produzir um vinho que tivesse alma. Era ainda um garoto percorrendo a América quando trouxe a pequena muda escondida...
Tereza estava ocupada viajando em suas novelas. Dionísio caçava: um homem rústico, criado no campo matando pequenas aves indefesas por esporte. Mas, era um bom sujeito, cultivava a terra, alegrava a vida contando causos e lendas. Consumia vinho como um admirador de arte. Sabendo apreciar e entender o que sentia.
Com o garfo Domenico revolveu a terra em torno das raízes. Era fértil e rica. Cheia de vida em pequenos pontos luminosos, minhocas saltitantes e adubo orgânico curtido.
A cada ano ele preparava tudo de novo, um processo que culminava num vinho colonial de qualidade e com características próprias. “ Esse ano vamos ter uma boa safra” O pai costumava disser, olhando o solo e os primeiros brotos. “ A uva não é sempre a mesma, depende...
As pessoas não eram sempre as mesmas ele pensava. Um estampido e uma pequena ave caída no solo, seu sangue correndo pela terra, encontrando conforto nas raízes da videira. Dionísio correndo com um sorriso no rosto e Tereza tapando os olhos para não testemunhar... Domenico pensando na alma do vinho. A videira na alma do passarinho.
“Na vida nem sempre as coisas acontecem como a gente quer!” Talvez este ano tenhamos um vinho pardo.













Mariana morreu!


Viver e morrer. Notícias de Jornal. A história da Mariana passou batida, foi divulgada brevemente. Um operário que é acusado de matar uma prostituta ganha apenas algumas linhas na coluna de rotina das delegacias. Nos jornais locais ganhou um pouco mais de espaço, pela total falta de assunto. Agora, quando ele acusou o chefe da linha de produção o enredo ficou mais atrativo, por que criou um intenso conflito. O perfil da vítima! Inacreditável... Ganhou uma conotação de estudo comportamental.
Mariana morreu! Problema dela.
O enterro foi muito triste! Dona Laurinda quis trazer a filha para a Picada, o custo ficou elevado. Castilho, o chefe da produção da fábrica, tomou todas as providências e arcou com as despesas. A família tinha recursos, mas, estava abalada.  Aos oitenta e um anos, o pai não conseguiu chorar a morte da filha. Mariana levou uma vida desregrada, incompatível com o lugar onde moravam.
A comunidade compareceu mais em respeito aos pais, do que a ela. Ao lado da avó, as duas crianças tentavam entender. Jonas estava com treze anos, a morte da mãe, naquelas circunstâncias, foi um duro golpe para o garoto. Kátia acabou tendo sua primeira menstruação, uma avalanche de emoções. A vida adulta invadiu os dois com dureza e crueldade.
Mariana deitada no caixão parecia uma princesa adormecida. Levara vários golpes de facão, nas costas. Covardia! Matar pelas costas. A pele alva contrastava com a maquiagem suave, os lábios finos e o contorno bem desenhado da boca pareciam ainda ter vida. As pálpebras cerradas escondiam o azul do olhar, o mesmo de Kátia. Castilho não deixou de notar, com uma certa malícia, a similaridade entre as duas.
Jonas jogou a primeira pá de terra sobre o caixão. Um homem. Kátia virou o rosto. Uma mulher. Naquele momento Mariana deixava a todos.
Ao tempo caberia a missão de pasteurizar a sua passagem no mundo dos vivos. Mariana viveu com uma intensidade que as pessoas não entendiam. A vida para ela era fruição, gozo, movimento. Só as crianças sentiriam sua falta e por algum breve espaço de tempo. A relação dela com os filhos foi tão forte que os preparou para enfrentar a vida.
Jonas e Kátia eram livres. Uma estranha liberdade construída nos desregramento, na superação de conceitos, na ausência do medo.
Mariana recebia a energia na pele, lia e sentia o mundo, respirava o mundo.
Nasceu na Picada, um lugar perdido no meio de vales e campo. Quando pequena adorava correr, subir em árvores e nadar. Foi a beira de um córrego que descobriu o prazer no sexo. Amor? Ela amava de um jeito diferente. Amava qualquer experiência. Nunca amou uma pessoa, mas muitas. Nunca foi uma pessoa, foi uma multidão de tendências.
Couto encontrou com dona Laurinda na fila de espera de uma repartição pública. Abriu o jornal e a história estava lá, por puro exercício da fala, comentou que achava um absurdo o suspeito ser solto. Aos poucos e numa ingenuidade surpreendente ela foi lhe contando tudo. O escritor recebeu a história como um presente embalado em folhas de seda. A palavra era sua única forma de expressão, não tinha talento pra música, para a pintura ou para qualquer outra manifestação artística. Mas, achava, ingenuamente, que devia registrar sua impressão sobre o mundo, sobre a vida, sobre a morte. O cotidiano. Fatias de realidade assim ele entendia a sua expressão.
Um dos seus quadros favoritos havia sido pintado anonimamente por ela. Uma conexão visível ligava o texto e o quadro. O homem e a mulher. O escritor e a pintora. Por que teria ele encontrado com Laurinda?  Lido exatamente aquele fragmento do jornal? Comprado o quadro?
Ao chegar em casa a obra estava lá, uma fina armação de ferro emoldurava a tela. Branco, cinza e uma sombra. Nuvens, céu e o infinito. Numa delicadeza incontestável, uma harmonia e uma beleza triste de fim e continuidade. Ocupava praticamente toda a parede. O apartamento era pequeno, havia colocado o quadro bem em frente a uma poltrona. A parede branca mantinha a neutralidade necessária e a luz natural iluminava o quadro na diagonal. A moldura projetava uma sombra enigmática na parede, como uma fenda.
Mariana nua! Assim ele percebeu pela primeira vez o quadro. Nua de máscaras, de julgamentos. Imaginou a solidão dela. Sentiu o odor de seu suor, o gosto de sua boca. O calor do seu corpo emanando das pinceladas. A tinta seca guardava um sorriso. Um olhar frenético, louco. O ato de criar leva qualquer um à loucura. Couto buscava palavras, gestos, nuances!
Nuances! Mariana estava na sua sala. Despida e solta. Em frente à tela. Nos olhos do escritos. Um toque suave! Surpreendente e provocativo. Um beijo com gotas de vinho. A pele fresca levemente emplumada. Os longos cabelos perfumados.
Com que palavras atingir a perfeição?







Com inspiração.

As pedras sabem! Foram testemunhas. Desci o degrau que separava o jardim da calçada. Meus sapatos eram altos e negros. Não usava meias, mesmo assim, a rua confundiu-me com uma bailarina. Quem sabe não foi o seco som do salto do sapato. A pista era só minha e a melodia? Uma tempestade. As vidraças romperam. “É ela!”. As palavras alinhadas tramaram línguas, me libertando. No espelho da história, as lâminas transparentes cruzaram meu corpo. Senti todas e deixei que fossem.
Poeta! Ainda busca a folhinha alva manchada pelo poema perdido? Louca!
Vá!  Logo e sem lamúrias. O poema fugiu!


























O gigante.

A tristeza da alma, em gotas salgadas, vira alegria no cavaquinho.
Chora! Um choro sentido, desejado,conquistado.Passo a passo,rasgando o espaço,
Contornando o tempo, alegrando e sofrendo.
Quatro linhas imaginárias: um sonho.
Um sonho sonhado na mais alta velocidade: rompe ao ângulos, gira a esfera, roda a terra.
Chora o cavaquinho!



























A Fonte da Paciência


O manto verde que cobre as paredes de pedra guarda um segredo de séculos: a mensagem da mulher negra que deu seu encanto aquele local mágico e colorido.
- Paciência! Paciência.
O que teria ela a nos dizer? Sobre a impermanência, sobre o vazio, sobre a terra... Sobre nós.
Paciência subia o moro, descia ladeiras, lavava a roupa. Amava e tecia. Escolhia o feijão, colhia trigo. Morava na atafona, ou nos fundos da Igreja, ou nas senzalas dos senhores.
-Paciência! Paciência!
Ouvia o doce canto dos pássaros, deitava na relva fresca. Servia água para cavalos cansados da tropeada.
Era tão bela, tão forte e sábia que um amor conquistou. E um filho perdeu, nas águas da fonte...
Seu lamento foi tanto e tão sentido que até hoje é ouvido, nas noites de lua clara, nos dias de sol dourado.
- Paciência, seu moço! Paciência.









Tá lento.
- Descobri! Tá lento! Exclamou o homem, com um pano sujo de graxa nas mãos.
- Obrigada, eu sei que eu tenho talento, mas o que tem o carro? – respondi indignada.
-Tá lento! Tem que regularar a lenta!- ele respondeu mais indignado ainda.
- Bom, vai demorar? O concerto começa em dez minutos – perguntei com um misto de raiva e súplica.
- Dois minutos, mas eu que faço o conserto! Decretou e enfiou o carão, no capo do carro.
- Não, meu filho... - Interrompi, mas não quis perder tempo, tava na cara que o “cara” nunca tinha assistido a um concerto.
- Pronto!
- Quanto?
- Vinte.
Paguei e sai apressada, estranhei que ele olhou para o relógio, colocou a mão na cabeça e entrou em um cubículo, já se despindo. Fiquei assustada, o que aquele tipo faria?
Resolvi parar no posto da Polícia Rodoviária e perguntar onde ficava a Fundação de Arte. O policial me atendeu com muita gentileza e disse que eu devia prestar muita atenção em um novo talento que seria apresentado: meu filho, disse o homem com o peito estufado. Certamente respondi e parti.
- Violino Solo, pelo jovem talento, o nosso queridíssimo Martinho. Anunciava a apresentadora.
Um jovem rapaz entrou na sala e emocionou a todos, com a suavidade e a leveza da música. Música dos anjos... Fechei os olhos. O paraíso!
Ao final fui modestamente apresentar minhas palmas.
- Oi! E a lenta?
- Lenta? Tá...






Achei que fosse outra a tua morada.

Hoje eu queria ouvir uma história que não fosse triste. Queria conhecer alguém que falasse sobre coisas boas, alguém que me contasse o Bem. Estou farta de queixas. Ontem vi um homem falando mal da mulher na fila - ”Ela sempre me irrita!” - Dizia, com a boca apertada, cenho franzido. Uma senhora lamentando a vida que os pais lhe deram, contando, como quem conta um tesouro, cada pormenor das amarguras que carregava: “Só eu sei o que passei!”. Brincos de ouro, perfume caro, roupas de seda. E, um menino sorrindo, pés sujos, roupa rasgada, olhos vivos, nariz escorrendo, magro, pele opaca. Contando que gostava de olhar um ratinho que corria para roubar comida.
Hoje estava com pressa e liguei a torradeira com o balcão da pia úmido e os pés descalços. Um pequeno choque elétrico atravessou minha barriga. Corri para desligar os disjuntores. Lembrei do menino, do ratinho, da comida. Das placas de choque para queimar gordura. Olhei a torradeira, a pia, a casa. Achei tudo muito engraçado e estranho.
O telefone tocou, deixei que tocasse.
A luz do sol não conseguia atravessar as cortinas, abria as janelas e senti a brisa da manhã. Ouvi o canto dos passarinhos. Vivia rodeada de paradoxais histórias tristes.
Cheguei tarde! O homem estava entrando na lotação, encurvado, parecia carregar pedras. A mulher tinha ficado para a próxima e com ares de vítima matraqueava. O menino trazia uma caixa de chocolates, nas mãos sujas. Perguntei pelo ratinho, sem perder o sorriso, ele disse que sua televisão estava estragada... Mas, que agora ele acordava ouvindo os passarinhos. Perguntou meu nome: Albertina Sotto. Por que eu havia me atrasado? Contei da torradeira. Rimos muito, comendo chocolates e imaginando a cena... Ficou contando de um lugar encantador que um dia seria sua morada... Lembrei de mim, assistindo um ratinho correndo para roubar comida e como eu queria uma casa como aquela, com torradeira...





A Janela da Cultura

O flautista solitário, do alto, vê a rua e, aos seus olhos, a cidade se apresenta... Serena. A música atravessa ruas e esquinas, alcançando velhos e moços. Pacífica... Sem alarde.
Amor nas bancas, atritos nos bancos. Disputas acirradas nas contendas. E a música alheia atinge corações.
A paz vem da alma! Pulsa o coração da cidade, com ritmo manso e suave...!
Edificada na cultura e na história, a janela, de venezianas abertas, abre as portas do paraíso. Por alguns instantes, uma melodia entra nas frestas da dura realidade e a vida se refaz. Há Paz nesta hora...!
As horas correm e as batalhas retornam: o pão nosso de cada dia, a luz que tem de ser paga, a dor vencida. A nova vida que, no ventre, aguarda. O corpo cansado que, na missão cumprida, à terra retorna. Reciclado.
Uma cantiga de ninar, uma louvação. O amor na praça. Um beijo doce. Um abraço solidário.
A moeda corre no vinco do chão. De um lado a paz, do outro a guerra. Alegria e tristeza. Amor e ódio. Rico e pobre. Bom e mau.
A flauta mágica, no calor da melodia, funde a moeda e os lados somem. E essa pele fina que nos une e nos separa... Desaparece...! Pura energia!!!

Uma homenagem ao poeta e músico Antônio Penai

A Terra e o Tempo
Ao longo de uma estrada andavam lado a lado a Terra e o Tempo.
Ela estava cansada... Tinha poucas flores coloridas nos cabelos e profundas chagas nas mãos e no rosto... Olhando nos olhos dele  pediu:
- Senhor! Por favor, preciso de ajuda.
- Preciso atravessar o rio.
Não era um problema dele, o Tempo pensou em seguir o seu caminho... Mas, os olhos dela! Aqueles olhos despertavam compaixão... Aproximou-se e viu melhor a gravidade de suas feridas.
O Tempo trazia um importante documento: uma carta de intenções generosas da humanidade. Imaginou que as feridas dela podiam contaminá-lo. Mas, mesmo assim resolveu acompanhá-la.
O rio era raso, a água pura e doce, ela parou na margem e calmamente foi entrando, ele colocou a mão em sua cintura e juntos iniciaram a travessia. A força da correnteza tornava a marcha lenta e pesada, cada passo podia ser sentido. Mas, no rosto dela o Tempo via serenidade em seus movimentos leveza. O rio murmurava:
- Reciclar!Reciclar!
A água tocou o rosto dela levando as chagas, nele tocou o coração enchendo de paz, de alegria e de ternura.
Quando chegaram a outra margem ele havia perdido o seu precioso documento. Ela as dores.
Vendo a aflição do Tempo, a Terra agradeceu:
- Amigo, obrigada!
O tempo desceu, então, o leito do rio. A terra subiu.
Constrangido ele achou que havia falhado em sua missão. Os sábios que esperavam o documento estavam todos reunidos em volta da fogueira, entoando uma canção, que lembrava o murmúrio do rio: -Reciclar! Reciclar!
O mais velho dos mestres perguntou o que havia acontecido, ele disse que trazia as mãos vazias... Os sábios compreenderam e responderam com o silêncio: a Carta da Terra havia chegado até ela. Aliviado ele adormeceu.
O sol lentamente apareceu no firmamento, seus primeiros raios iluminaram o ancião estava sentado ao lado do Tempo. Eles olharam para o rio que corria lentamente.
Os olhos do Tempo encontraram-se com os do Ancião, e a humanidade enfim compreendeu. O dia passou, o rio correu. O tempo mudou. A terra girou sem chagas e com flores nos cabelos.














Texto preparado para o II Encontro Diálogos de Budismo e Ecologia.
Agradecimento especial a Taís, Ilson Fonseca e as crianças do Castelinho por sua valiosa colaboração.






  As pétalas de Tibirro.

Lohane estava indo para Tibirro, pequena cidade do interior. Queria um produto elaborado com essência de rosas. Estava ansiosa para chegar, sofria com pequenas manchas na pele. Mesmo com o ar condicionado o calor era muito intenso, o ônibus parou quatro vezes. Sentia sua pele fervendo.
Usava um vestido colorido, num tecido bem leve. Sandálias baixas de couro cru. Não ficava muito bem, já que era relativamente alta e muito magra.
Sua mãe tinha sido contra a viagem, ela achava normal “ter manchas na pele”. Mesmo assim, comprou as passagens e fez a reserva numa pousada. Ela fazia praticamente tudo que a filha queria. A garota não suportava as intromissões dela.
Lohane queria se virar sozinha. Queria resolver os próprios problemas. Por sua mãe ela teria comprado por catálogo. Indicado por um vendedor. Sem saber a procedência. Sem se importar com a legitimidade e qualidade do produto. Já ela não, queria sentir, ver a fabricação, conhecer as plantas. Saber a origem.
Eram quase cinco da tarde quando, enfim, o ônibus chegou na pequena cidade. A Rodoviária era tipo um armazém, vendia de tudo um pouco, no canto havia um guichê para compra de passagens. Um cartaz escrito com pincel atômico informava os horários dos ônibus: seg a sábado, ás 06:00 e ás 15:30. Domingos 15:30. Um horror.
Se alguém tivesse uma emergência, sei lá: a morte de um parente. Teria que ligar e dizer: “Desculpe-me, perderei o enterro, pois estou enterrada aqui!” Ninguém merece!
Ela chamou um táxi, para ir até a pousada. O taxista olhou-a e com um sorriso amável apontou para um prédio no final da rua. Lohane quase teve um ataque de nervos. Como sua mãe podia ter reservado vaga num lugar daqueles? Ela ouviria. Pegou o seu celular e constatou a pior notícia que poderia ter: sem sinal.  Já passavam das cinco e era sábado.
Ela foi lentamente em direção ao hotel. Na porta estava escrito: “Pousada das Pétalas. Seja bem vindo!”. No balcão da recepção havia um pequeno sino, muita poeira e um livro aberto com uma caneta pendurada. Um vaso de prata, continha duas rosas vermelhas. Ao lado alguns vidros cheios de um líquido viscoso. No rótulo: Óleo essencial de Rosas. Produto caseiro. Pousada das Pétalas.
Lohane sentiu as pernas fraquejarem, um zumbido nos ouvidos e caiu.
Como o médico não estava em Tibirro naquele sábado, quem a atendeu foi Raul, o farmacêutico. Prescreveu um chá de camomila com muito açúcar, resolvendo o problema.  Ele foi com a garota até a farmácia, mostrou todo o processo natural de utilização das pétalas. Ela aos poucos foi ficando mais calma. Sua pele apresentava muitas manchas. O cabelo estava opaco e com falhas como se estivesse caindo.
Raul lhe passou, totalmente de graça: um xampu, uma loção para o rosto e um elixir a base de óleo de girassol. Lohane voltaria no ônibus das 15:30 de domingo. Já passavam das sete horas de sábado. Ficaria em Tibirro aproximadamente vinte horas.
Ela queria comida vegetariana ou macrobiótica.
Dona Gertrude! Raul foi rápido, ligou para ela explicou do que se tratava. A gentil senhora era professora de Yoga, e com prazer resolveu o problema. Tinha pães especiais com semente de papoula e farinha integral, queijo de cabra, Granola e essas coisas.
Lohane riu muito das histórias divertidas que ela contou. E acabou dormindo no sofá. Gertrude contou que pela manhã a garota olhou-se no espelho e não conseguia acreditar no “milagre” da loção de rosas. Antes de ir embora, fez com que Raul abrisse a farmácia e lhe vendesse vários vidros. Ele forneceu a ela o seu endereço para que ela renovasse o estoque assim que fosse preciso.
Ela nunca voltou à cidade. A cada dois meses chegava um novo pedido seu. Sempre acompanhado de um poema. Raul guardou todos.
Sonho com Tibirro
Minha alma toca as pétalas
Inala o perfume, chora
Ferida pelos espinhos
De suas rosas
Lohane.
Raul continuava produzindo artesanalmente a “loção de Lohane”.Colava os cartões com os poemas em folhas recicladas de pétalas das rosas.
O seu estúdio ficava no fundo da casa. Era todo fechado com janelas envidraçadas. Ali ele cultivava orquídeas, rosas e violetas.
Lohane enviava sempre fotos suas junto com o pedido e o poema. Estava bela como uma pintura.Aparecia nas fotos com um olhar mais maduro e cheio de autoconfiança. Sua pele estava acetinada, como uma pétala.
Um tibirro-do-pampa vinha todos os dias cantar próximo a estufa. A ave era pequena e estava sempre desacompanhada. Raul sempre colocava sementes para ele. O Tibirro caminhava rápido pelo chão catava as sementes e levantava vôo. Voltava alguns minutos depois e fazia a mesma coisa. Tinha o hábito de bater com o bico no espelho, como se estivesse travando uma batalha, consigo mesmo.
Os pedidos de Lohane cessaram.
Raul pegou os poemas e foi colocando um ao lado do outro, como se fossem pétalas. Fechando delicadamente formou uma rosa.
A Rosa de Lohane coube nas suas mãos.
Tibirro também teve suas penas postas lado a lado.
Muitas rosas ornamentavam a estufa de Raul.
Eternize
Envolta em pétalas
Estou me tornado tua rosa
Ouço o ruflar de asas
 Tibirro
Veio Salvar-me
Adeus Raul...

























O Natal diferente.
Nossa história começa dois mil e sete anos antes deste. Quando a humanidade ganhou um presente: um menino chamado Jesus de Nazaré.
Ele veio ao mundo para trazer uma mensagem de paz. Todos os anos, pessoas do mundo inteiro fazem uma grande festa, chamada Natal, para comemorar o seu nascimento.
Nessa época, as casas e ruas são enfeitadas com bolinhas coloridas e luzes. E as pessoas trocam presentes e preparam  deliciosos banquetes .
Joaquim morava no centro da cidade e adorava o Natal. Para ele, esta era a melhor época do ano. Ele percorria todos os shoppings, para ver a decoração e os presentes. No seu quarto, tinha uma montanha enorme de brinquedos, jogos, livros... Ele ganhava presentes do pai, da mãe, da avó, da dinda, dos tios e dos amigos.
Mas este ano ele queria uma coisa diferente...!! Queria dividir seus brinquedos com as outras crianças. Ninguém entendia o menino...!! Joaquim, dizia a avó, fui eu que comprei este urso gigante para você. O pai dizia: Quando eu era pequeno, tudo o que eu queria era ter uma miniatura como essa, vermelha, com bancos de couro, portas que abrem, igual a um carro de verdade.? A mãe disse que pensaria no assunto: o quarto dele estava mesmo precisando de espaço.
O tempo foi passando e os adultos esqueceram a idéia dele. Só que Joaquim não desistiu. Pegou um saco grande e colocou dentro vários brinquedos, deixou a miniatura e o urso gigante.
No dia do Natal, saiu, pelas ruas do centro, entregando pequenos pacotinhos que ele mesmo tinha feito. As crianças não entendiam direito.  Joaquim recebeu muitos sorrisos.
Entregou muitos presentes naquele dia, sem se importar em saber quem estava recebendo.
O garoto entrou numa rua estreita calçada com paralelepípedos; nela, um grande arco guardava a entrada de uma casa de cultura enorme...Parecia um castelo iluminado...!! Ele viu que, lá, no fundo,  estavam sentados uma moça e um rapaz. Chegou perto e viu que, no colo dela, dormia um menino. O vento do rio soprava forte. A cidade começava a esvaziar.
 Já anoitecia e Joaquim precisava voltar pra casa...Pegou o seu saco e procurou um pacotinho: não havia mais. Vasculhou o bolso das calças e nada. A jaqueta estava  vazia...!!
Uma canção: era só o que ele tinha. Noite Feliz...? Joaquim cantou e sua voz espalhou o Espírito do Natal pelo pequeno beco. 
A rua virou uma estrebaria, com ovelhas, vacas, uma manjedoura. Três reis magos pisaram as pedras em busca do Menino Deus. O casal sorriu para Joaquim que, feliz, voltou para casa. Uma estrela correu o Céu e dois mil e sete anos passaram.





























Sangue doce


Hanna ficou indignada. O olhar da franguinha: por cima, olho brilhando, desafiadora. O risinho estúpido de canto de boca. Não entendeu nada, por que a haviam convidado? Teria sido por pura educação? Ela teria entendido errado? Ou, por pura maldade?
Foi desarmada, de sangue doce, leve. Chegou propositalmente atrasada. A festa já corria descontraída. Aurélio foi gentil, o namoro havia acabado, mas a amizade não. Trabalhavam juntos na melhor equipe, do melhor hospital da cidade. Mas, Lea, abriu fogo. Um fogo no olhar, na ponta da língua. Queria jogo! Provocou Hanna de todas as maneiras. Estava deslumbrante, depois das cinco cirurgias que ele havia feito e que Hanna anestesiara. Pensar que esteve em suas mãos e agora... Seu sangue fervia.
Soube por Dário do trabalho: um galo preto morto, ao pé da cruz... Para eliminar micro varizes e para afastá-la de Aurélio. A franguinha, uma boneca, nas mãos dele. Coitada! Um ser sem personalidade nenhuma, vivia a sombra dele, se esgueirando, pedindo licença para existir. Não comia para manter o visual esquálido, como um vampiro ele sugava a vida dela.
Ao cruzar a esquina viu o galo preto com o pescoço quebrado. O sangue bebido, vampiros... Desceu e olhou de perto, em meio a milho de pipoca, moscas, sangue fétido e parafina derretida a carta batizada. O ódio em palavras proferidas ecoando nas esquinas da velha cidade. Sem receio pegou o pequeno papel delicadamente dobrado. Precisava saber! Sem assinatura o pedido: o sangue de Hanna. Com uma reverência devolveu as intenções aos donos.
Hanna estava pronta, sabia do trabalho. Sabia do quão covarde eles eram. Do quão baixo eram seus sentimentos. Lavou o dorso antes de entrar no bloco. Eliminou o ódio. Deixou o peso morto da vingança para trás. Ao cruzar a porta sua pressão caiu, desmaiou.
Lea estava pronta para remover as varizes, Hanna foi substituída. Aurélio, cansado das festas, errou. E o sangue da boneca escorreu pelas esquinas das veias.











Liberdade!
Liberdade...liberdade...liberdade...
Liberdade!
Liberdade...liberdade...liberdade...
Uma pequena índia, do alto da serra gritou:
Liberdade!
Liberdade...erdade...dade...dade
O eco foi se propagando e um pequeno índio dos Andes respondeu:
Liberdade!
Liberdade...li ...dade...
Foi tão alto que chegou nas duas costas e atravessou os oceanos e se espalhou por todo o mundo:
Liberdade!
Liberdade...berdade...dade...Li
E até hoje os homens não sabem o que a indiazinha quis dizer.




El Condor.

O Céu é meu.
Ou você duvida?









Uma pitada.

Uma pesada mesa de madeira servia de balcão. Ali fazia os pães, bolos, cucas, folhados e salgados. A mão experiente salpicava de farinha, a longa mesa. Deitava a massa e abria com o rolo. Passava horas neste ritual. A padaria abria às seis horas, mas o trabalho iniciava às quatro. Uma vida difícil?Nem um pouco, a tudo o corpo acostuma. Mesmo nas noites mais frias do inverno, acordar cedo tinha suas vantagens. Caminhar pelas ruas vazia da cidade enquanto os outros dormem, faz a gente pensar com mais clareza sobre o sentido da vida.
Um bom começo são os alongamentos. Iniciar a jornada esticando os músculos. Sorrindo para o dia.
Às quatro e meia os galos e pássaros começam a despertar. Às cinco, o sol aparece e a vida transborda: pássaros, cães, gatos, galos, homens, invadem o cenário.
O primeiro trem passa às seis. O doce aroma de pão invade a estação. A fornada sai em poucos minutos, com muitas xícaras de café e leite fresco.
As senhoras mal humoradas começam a chegar cheias de problemas, reclamando da cor do pão, ou da luz do dia. Coitadas, gastam a vida com lamúrias: saem os amargos de polvilho.
Depois, a criançada. Olhos brilhantes, faiscando em frente às vitrines: saem os doces, os bolos e as balas.
Os trabalhadores passam apressados: saem os sanduíches e salgados.
Os políticos se reúnem para o cafezinho: saem os pastéis de vento.
Ela vem com os cabelos em tranças: sai o coração do padeiro em disparada.
Vai o trem. Vem a noite. Uma pitada de sal. Outra, de pimenta. Dorme, dorme o padeiro. Quatro horas.   


Texto publicado na II Coletânea Entre Prosa e Verso







             Ilusão

Cacau! Cacau! O chamado vinha do outro lado da avenida. Alvino acenava, com um sorriso metálico, cabelos esfiapados e a pasta cheia de livros. O ônibus chegou ao ponto de parada. Ela fez um sinal de que ligaria mais tarde. A ponta da saia ficou presa na porta do coletivo.
Milhões de imagens preenchiam a sua mente: sonhos, projetos, expectativas. Havia poucos lugares vagos, avaliou com o olhar; podia sentar ao lado da mulher, com o bebê no colo, ou, do rapaz, com os fones de ouvido, ou ainda de um idoso. Achou que o último seria a opção mais sensata. Odiava sentar em banco quente, não gostava de usar prato recém lavado e de tomar qualquer coisa, em copo molhado. Assim que sentou, reconheceu Gilmar Cecco;estava absorvido em seu mundo, gesticulava, sorria e “falava” em pensamentos. Ombros curvados pelo tempo, mãos trêmulas, roupas puídas. As pálpebras caídas, sobre os cílios, mal podiam ser vistas, atrás dos óculos pesados.
Ele notou o interesse de Cacau, virou e perguntou o que ela buscava. Ficou surpresa, mas, não aborrecida, afinal não era uma atração e, sim, uma pessoa que estava ao seu lado. Constrangida, disse que gostava muito de ler sua coluna política, que seu pai achava que ele tinha sido “o último honesto”. Um breve silêncio foi o suficiente, para que ele percebesse que ela estava diante de uma Ilusão. E para que ela percebesse que havia invadido um universo solitário. Fim da linha. Ele pediu o seu telefone.
Sorrindo, ela sumiu, perdeu-se, na multidão que corria, adoidada, para algum lugar, no centro da grande cidade. Achou, sórdido, o sorriso malicioso do “Deputado”. O olhar satírico deixou-a comovida. Sentiu pena. Um homem triste.
Assim que chegou, recebeu a notícia de que deveria procurar o departamento de recursos humanos: por motivos de redução, blábláblá... A empresa tinha uma pessoa treinada em demissões. Uma saleta climatizada, com obras de arte nas paredes, mensagens de estímulo e um cafezinho de consolo. Precisava cumprir trinta dias, com redução de duas horas. Teria direitos...Mesmo?!
Aproveitou as duas primeiras horas de redução, para colocar o cinema em dia: tragédia ou comédia? Tragédia, toda a vida, precisava que alguém estivesse sofrendo muito. Escolheu um filme sobre exilados. Perfeito!
Saiu, do cinema, pronta!  Em vinte minutos, pegava na lanchonete. Assim que chegou, notou o clima: a gerente estava na “ponta dos cascos”, olhos apertados e cabelo arrepiado, mesmo preso com uma touca branca. Havia fila nos pedidos, no caixa, e as mesas estavam sujas. Nada comparado aos exilados estrebuchados... Vestiu o uniforme e foi pro salão, recolheu os pratos, passou um pano nas mesas, sempre sorrindo para os clientes. A mesa do canto recebia seus tradicionais clientes..Bolinho de bacalhau, limão e chopp. Torta de chocolate para as senhoras: O Chefe! Todos os dias, a reunião tinha a mesma temática, as diabruras do CC - Cargo de Confiança. Um absurdo do serviço público. Você não acha? Cacau não achava nada... Tinha prestado prova, três vezes, sem passar. Técnica em Gestão Administrativa, cinco anos de curso de inglês. Inúteis precauções para “engordar” currículo. Usaria o fundo para curtir a vida.
Os clientes de fim de tarde são mais simpáticos do que os estressados da janta. Não tinha amigos na lanchonete, ninguém estava ali pra brincadeira. Aquilo era um bico na vida deles. Menos da gerente que já fazia parte dos móveis e utensílios. Resolveu não falar nada sobre sua demissão, não queria passar para o diurno, o movimento era dobrado no almoço.
Alvino esperava por ela com um envelope na mão: uma bolsa de estudos. Cacau pulava como uma louca, ele merecia. Admirava sua sensibilidade e o idealismo que via nas coisas. Ele queria salvar o mundo. Para ela: tudo bem! Muita gente queria e era preciso. Ela queria viver o planeta. Salvar, dominar, conquistar: essas palavras que não faziam parte do seu vocabulário.
Passaram pelas prostitutas, pelos moradores de rua que lotavam as calçadas, o normal da cidade. O ar fedia a mijo, pizza e óleo queimado. Vem comigo? Pergunta louca. Entraria fundo na vida dele? Recapitulou o dia.
Fatos, cores, sabores, melodias.
Amanheceu chovendo. Cacau fez as malas e partiu
Não
Não foi por você
Não foi pela terra
Não foi a cidade
Ou o idioma

Partindo

Restou o amor
Liberto





























Tomate seco com orégano

- Não gosto!
- Todo mundo gosta!
- Eu não!
-Você gosta de tomate?
-Gosto.
- Gosta de Orégano?
-Gosto. Mas, não dos dois juntos. E por falar nisso...
Ela mantinha o olhar longe, apático. Com uma mão segurava uma bandeja cheia de torradas cobertas com tomates secos salpicados de orégano. Com a outra Tonho.
O gato quebrou o silêncio, ronronando enrolado no casaco jogado na poltrona.
Ele estava com a frase trancada na garganta: - Não gosto mais de...
O bebê colocou a mãozinha nos lábios dele. Como se entendesse que às vezes é melhor não dizer. A pequena mão cheirava a biscoito com leite.
O gato esticou a pata enrolando mais o corpo. Alegre o pequeno puxou os óculos dele, trazendo até a boca. Pulou para seu colo fazendo gracinhas.
Ela jogou as torradas na lixeira. Faltavam palavras... O ar estava pesado.
A lua docemente ornava o céu, o bebê adormeceu.
- Eu vou...É só um tempo...
- Você já foi... Faz tempo.
Um hiato os tornava estranhos.
Quando ele voltou, ela usava o mesmo suéter. O gato estava enrolado na mesma poltrona. Tudo aparentava calma, a pintura na parede havia desbotado com o passar dos anos. Continuava bela, mas amarga.
Não havia brinquedos, nem fotografias, nem sinal de Tonho. O cheiro de biscoito com leite invadiu suas narinas. O toque suave da pequena mão. Um hiato, um apavorante hiato.
- Ele...?
- Cinco anos!
- Conta...
- O conselho tutelar levou de mim. – os olhos dela não mentiam - Ce saiu por aquela porta – apontou – aquela dali!. Foram os vizinhos... E eu não culpo eles. Eu tava doente, meu mundo desabou! Assinei os documentos e foi bom pra todo mundo.
Sentou com o peso da notícia. Tonho!
- Eles não dizem nada. Nem pra que lugar foi... Ouvi dizer que bebê não fica em abrigo... Ainda mais bonitinho como era. Você lembra?
- As minhas cartas? Você nunca respondeu?
- Eu desliguei... Como uma máquina... Não trocava fralda, não dava comida. Tive outro depois: menina.
O gato levantou da poltrona e subiu na mesa. A cabeça dele explodia de dor. Cinco anos vagando em busca de paz. Não odiava ela. Só não amava. Nunca imaginou que algo assim pudesse ter acontecido.
- Às vezes eu acordo ouvindo o risinho dele... Lembrando do cabelinho, do cheirinho, chego a ver ele... Devorando biscoito, abraçando meu pescoço... Sinto, sabe? Sinto que ele está aqui comigo... Mas, no fundo eu sei que ele tá bem... Em algum lugar do mundo, sob esta mesma lua... Ele deve correr, deve brincar e deve ter uma mãe querida e um pai cuidadoso...
A realidade o atingiu como um torpedo.
- Vai embora?
Ele não tinha pra onde ir. Não sabia para onde ir. A decrepitude da casa, o pêlo judiado do gato, a falta de brilho nela. E aquela porção de tomates secos numa bandeja, orégano. Mundo cão!





















Em ruínas
 A violência institucionalizada sustenta uma paz precária. Uma paz que não convence. “Eles e nós”. Cruzamos, todos os dias, as mesmas calçadas, freqüentamos os mesmos lugares. Ruínas de uma sociedade dissolvida em um ácido composto de maldade, corrupção e miséria.
A guerra foi sendo construída bem aos nossos olhos. Fingimos por muito tempo que ela jamais viria. Mas, um dia acordamos e ela havia sido declarada. Encontrei Glads Stone entre as ruínas do que havia sido Capela das Flores. Éramos estranhos. Estranhos compartilhando ruínas e construindo memórias. Lembro que estava sentada em um dos muros destruídos da minha casa e ele chegou: sujo, fraco, desolado, ferido. Lembro do que falamos como se ele estivesse aqui. Como se hoje fosse o último dia da guerra.
A pequena cidade havia sido destruída. Stone chegou confuso, falando pouco, com frases curtas e sem fôlego. Queria saber quanto tempo eu estava ali. Deus! Nem eu sabia...!! Muito tempo. Logo, nos primeiros saques, as pessoas foram embora. Apavoradas. Imaginavam que, em outros lugares, estariam seguras.
Ambos tínhamos saído da cidade, há muito tempo. A sensação que eu tinha era de que a cidade havia me apagado, no meio das fofocas e das intrigas. Stone compartilhava da mesma impressão. Capela das Flores era um lugar amargo, sem brilho.
Muita gente morreu tentando guardar alguma coisa. Eu me escondi na Capela, sob o altar. Ao descobrirem os revolucionários, eles destruíram tudo. Mataram todos que ajudaram. O pai de Stone foi morto, por que escondeu armas e munição. Joelmo, o jardineiro da capela, por que tinha livros revolucionários.
Eles estouraram a porta da Capela. Reviraram os bancos. Não me viram. Ficaram três dias aterrorizando a cidade. Bestializados. Levaram jóias, dinheiro. Tudo!
Não sabiam dos estoques de comida que as pessoas tinham feito. Quando partiram enterrei os mortos. Como pude. Não é nada fácil enterrar mortos.
Eu estava exausta, quando ele chegou. Mal entendia o que me perguntava: Lembra de mim Edméa? Respondi: - Glads Stone o músico, não é...Lembro... Eu lembrava dele cantando. Quando saí de Capela das Flores, ele tinha seis anos. Disse que tocou no recital em que declamei Fernando Pessoa. Eu não lembro.
Queria rever a Capela, caminhamos entre as ruínas. Ele estava fraco, reclamando de dor. Ficou deslumbrado diante dela: -Edméa. Está intacta! A gente fazia festa até amanhecer e depois vinha pra cá... O sol aparecia tranqüilo, manso, entre a Capela e o arvoredo. Em nenhum outro lugar do mundo, eu me sinto tão bem. Quando saí, achei que a vida em outros lugares seria melhor.
Qualquer lugar serve.   A paz mora dentro da gente. Voltei, por que as luzes apagaram, as cortinas fecharam... Eu era aquilo que fazia. Eu respirava arte, transpirava texto... Comia ilusão. Nunca esqueço, quando me indagou: Será que já morremos?
Quantas vezes já havia me perguntado isso? E saberíamos as mesmas coisas? Que há uma Capela entre as ruínas! Que houve uma guerra! Não. – respondi - Nós ainda não morremos. A menos que não haja uma Capela, que não tenha havido uma guerra.
Mas, ele sabia...O cheiro da guerra estava em sua pele. Os sons impregnados em uma mente que não encontrava sossego para dormir. Ficou embevecido pelas frutas, planejava colher, conservar, vender. Queria refazer cada pedacinho da cidade em ruínas. Fui cruel. Acabou! Eu disse. Stone... A cidade acabou. Por quê? Não sei! Depois senti no seu olhar, uma tristeza indizível.
Convidei-o a entrar comigo na capela. Lembro bem de suas palavras: - É quieto aqui. Acho que nunca tinha visto a Capela iluminada pelo sol. Bonito. E, esse frescor? Perguntei qual era a sua melhor lembrança: - Ouvir meu pai falando sobre as estrelas. Minha mãe rindo dele e amassando o pão. Eu e os meus irmãos brincando... Depois a música, as festas, os amores... Não sei. O sol nascendo na frente da Capela. E você?
 Eu. O palco. Só me sobrou o palco.
Pediu para dormir no meu colo: Dorme! Criança! Dorme! O filho que nunca tive.
Foi assim, ele foi apagando... Eu vi a gravidade, ele foi arrochando... Não tinha o que fazer... O garoto estava cheio de vida... De sonhos. Coloquei-o bem onde disse que gostava de ficar. Olhando o sol nascer entre a Capela e o Arvoredo. Continuei cultivando o pomar e as rosas. Agora, a cidade está sendo demolida. Tudo mudou, mas continua a mesma coisa... Estranho. Negócio estranho. Ainda ouço o garoto cantando..























A Dama


A nobreza de um ser não reside em sua origem, nem em sua raça ou posição social, mas na natureza de suas ações. Ao longo dos tempos as histórias vão se repetindo e se cruzando, nobres e avarentos agem e interagem.
Essa é a história de uma bela égua chamada Dama que, por circunstâncias do destino, foi abandonada, já na velhice. Vagava pelas ruas de uma cidade, sem nada, além de um coração generoso e um meigo olhar, procurando pasto e fugindo dos carros.
Cavalos e homens sempre viveram grandes histórias de amor e de ódio. Dama continuava meiga e bela, apesar do abandono. Seu pêlo era totalmente branco e sua crina longa e macia.
Um dia sua história cruzou com a de ser humano avarento... Nem nome o tal homem tinha... Atendia por velho, traste, carroceiro, ou ainda bêbado. Magro e maltrapilho vivia num amontoado de tábuas velhas cobertas com um pedaço de lona que chamava de casa. Ocupava seus dias recolhendo lixo, bebendo e futricando sobre a vida alheia.
Ao cruzar com Dama seu olhar de malandro logo viu que a égua ainda servia para puxar carroça. Com este perverso intento passou uma corda de nylon em seu pescoço e levou-a consigo. O porte altivo e a elegante pelagem levaram o homem a adivinhar seu nome... O que a induziu a segui-lo sem resistência.
A vida nas ruas era muito cruel e degradante, a égua achou que sua sorte havia mudado, sem imaginar a crueldade que a esperava: pouca água, pouca comida, o confinamento, marcado por uma corda envolvendo o pescoço e a árdua labuta de puxar a pesada carroça.
Seus dias viraram tormentos, suas noites solidão e medo. O homem passou a ganhar melhor, com o fruto do trabalho do animalzinho. Mas, desperdiçava tudo bebendo... Não melhorou sua casa, não cuidou de Dama, nem de si mesmo.
 Perto dali vivia um jovem que a tudo observava, enternecido, acompanhava seu sofrimento. Nas prolongadas ausências do homem, passou a alimentar e tratar da égua.
Dama reconhecia o esforço do novo amigo e retribuía ao tratamento com a única coisa que possuía: um meigo olhar.
Passaram dias, noites, ventanias...  Muito peso Dama carregou! O homem perdia a paciência com facilidade e, a pouca razão que tinha, por qualquer coisa.
Um dia quando voltavam de um longo frete... Dama estava exausta e a rua enlameada, escorregadia. A carroça atolou enquanto o homem, furioso, esbravejava e batia na égua... O jovem, indignado, saiu de sua oficina e conteve a bestialidade do homem.
Ao descobrir que a égua era, pelo jovem, amada... O homem foi tomando por um ciúme doentio e destruidor. Seus olhos explodiam de ódio e seu coração amargo foi tomado por rancor... Sozinho, sob a lona e escondido atrás das tábuas, bebia e amaldiçoava: - Com que direito aquele... – Essa maldita égua branca... – Dama? – Bicho ruim... Peste dos quintos dos infernos...
A égua sentiu, por instinto, que sua sorte ficaria ainda pior... 
Ao amanhecer os pássaros não cantaram... O silêncio dominou as ruas...
O homem acordou com o sol do meio dia batendo na cabeça. Queria água. A carroça estava no mesmo lugar de sempre. E, ao lado dela, Dama dormia um sono eterno e reparador. Sua longa crina esvoaçava ao vento. Havia marcas de desumanidade por todas as partes, nas paredes, no chão, no machado cravado no tronco da árvore.
De sua oficina o jovem viu o último e libertador trote de Dama rumo ao infinito... Guardou no peito o seu olhar leve e meigo e teve a certeza de que tudo estava como tinha que ser.
O homem foi condenado a viver atormentado pelas lembranças de haver matado um anjo... Aquele que havia sido envido para libertá-lo dos sofrimentos.

Viamão, 23 de fevereiro de 2009
Fernanda Blaya Figueiró






[1] Todas as citações são trechos da Carta da Terra

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