Oi, Gente!
Hoje senti vontade de reler um continho meu e encontrei a coletânea Arquivo Prosa... Esses são textos super antigos e a maioria já está no blog mas republico.Alguns são bons outros bem ruins, mas tudo escrito por mim.Acho que assim reunidos nunca tinha publicado. Ver algumas fotografias de crianças morrendo nas guerras, faz mal para a gente, não importa que crianças, nem que guerra, é sempre triste. Uma menininha brasileira foi morta espancada pela própria mãe e outros outros tantos casos horríveis acontecendo trazem o horror para perto. Esse continho "A noite eterna de Jacó" escrevi há muitos anos e as guerras vem e vão, sempre temos coisas repetindo.
Fernanda
Hoje senti vontade de reler um continho meu e encontrei a coletânea Arquivo Prosa... Esses são textos super antigos e a maioria já está no blog mas republico.Alguns são bons outros bem ruins, mas tudo escrito por mim.Acho que assim reunidos nunca tinha publicado. Ver algumas fotografias de crianças morrendo nas guerras, faz mal para a gente, não importa que crianças, nem que guerra, é sempre triste. Uma menininha brasileira foi morta espancada pela própria mãe e outros outros tantos casos horríveis acontecendo trazem o horror para perto. Esse continho "A noite eterna de Jacó" escrevi há muitos anos e as guerras vem e vão, sempre temos coisas repetindo.
Fernanda
A
noite eterna de Jacó.
Jacó
ainda está com o cajado nas mãos, travando a sua interminável batalha com Deus.
Abraão entra e toma a pequena Israel nos braços.
Deixa
os dois lá sozinhos. Ao fundo ouve o estampido seco de madeira contra madeira.
Ele
chama Israel de sua pequena criança e, tomando sua mão, os dois saem a passear
pelo mundo.
“Sabe Israel”, ele diz, “um dia os
homens vão entender que o mundo é um e muitos”.
As
enormes pernas de Abraão levaram os dois às mais variadas partes do mundo, em
passos largos. Às terras da África, a todos os cantos da América, aos floridos
recantos da Europa, a bela Ásia, a fria Antártica e a adorável Oceania.
Em todos os lugares havia muitas pessoas, muita
alegria e muita tristeza. Havia leite e mel. Ricos e pobres. Amor e dor.
Voltaram
à noite eterna de Jacó e a Aurora veio em sua companhia. Pena que Estavam tão
exausto que não perceberam...
Fernanda
Blaya Figueiró. 04/08/2006.
Publicado na Coletânea Escritos
Arquivo ... Prosas
Antologia de contos e crônicas da escritora Fernanda Blaya Figueiró
A foto do Maestro
Entrei só para tomar uma xícara de café e me deparei com
aquela figura sombria, de olhar inquisitivo.
aquela figura sombria, de olhar inquisitivo.
Expresso com creme.
Os ossos da face realçados pela magreza revelavam alguma coisa estranha,
perturbadora. Uma foto antiga, amarelada.
Ao sair dali, tinha pouca coisa a fazer. Pelo menos, achava que
tinha.Caía uma chuva forte, a praça alagou em poucos minutos.Enquanto as outras
pessoas fugiam da chuva, resolvi aceitá-la, os pingos gelados foram aos poucos
diminuindo, virando em chuvisqueiro.
Entrei no elevador e vi: Refletido
no espelho, o mesmo rosto com ossos saltados do retrato .Onde estava minha face
rosada e robusta?
Aquela imagem havia entrado em mim?Foi a impressão que me deu de que
aquela imagem havia se apossado de minha pessoa, de mim.
EU.
Com a chave que havia em minha mão, abri a porta do número 915. Um
apartamento revestido de carpete em tom pastel, paredes claras, poucas
mobílias, limpo, frutas selecionadas e bem arranjadas sobre uma cesta de vime.
Minha figura lavada pela chuva parecia estarrecida, sem reação.Por que
aquela imagem havia me causado aquela impressão de possessão, de invasão? Não
senti fome, nem frio. Adormeci tranqüilamente, sem receio.
Acordei com a imagem dele.
Os ossos do rosto saltados, os olhos fixos em mim.Ele estava no meu
quarto Seu rosto claro sobressaía na escuridão.
Não dizia nada, não se mexia, mas estava ali. Incontestavelmente estava
ali.
Meu corpo ficou colado ao colchão, não consegui reagir, senti um
formigamento na espinha, como uma descarga que descia por minhas pernas e me
imobilizava.
O que poderia querer de mim? O que
quer de mim?
As mãos delicadas do pianista tocaram a terra seca, a pele macia não
estava acostumada com a aridez.
Temi os temores errados. Não posso
mais morrer.
Augusto estava sentado nos degraus. O vento frio da tarde de inverno
embaralhava seus cabelos, o rosto magro e envelhecido do maestro trazia marcas
de sofrimento.
- Gunther, não devíamos ter vindo, não faz sentido.
Ontem a vida fez uma volta completa
para me mostrar que eu quis as coisas erradas.
Os sinos dobram solenemente, aos poucos, os fiéis entram na Igreja,
tomados pela dor, beijam as chagas do Cristo em frente ao altar e rezam,
pedindo piedade.
Uma estranha alegria me alcança. Eu
já morri.
Ensaiavam Bethovem, para a cerimônia pascal.
Nos fundos da Igreja, o pianista e o maestro tentam entender. Haviam se
despedido dela há quatro anos, em frente ao salão da Pontifícia e nunca mais,
um longo silêncio, até um garoto encontrar uma pequena bolsa de festa.
Eu queria saber mais sobre a foto, o maestro. Essas imagens todas
passeavam pelas paredes do meu quarto. Augusto, o maestro, Gunther, o pianista,
quem seria a mulher desaparecida? Eu?
Publicado no Livro Ano Novo e Textos Escolhidos
Liberdade em Monumento.
-Mentira! -Mentira!
Gritava, contorcendo o corpo, em movimentos de gestos largos. Corpo que
girava hora com os braços soltos, hora esmurrando o peito. Cabelos desgrenhados
e olhos insanos atordoados num ir e vir desprovido de sentido.
O cruzamento trancado. As mãos apertadas ao rosto, o casaco sujo. Os
gritos invadindo as janelas fechadas. E, o sinal piscando no amarelo. O vento
trocando o som por saliva. A revolta dirigida ao monumento a Liberdade.
Homem ou Mulher?... Que pergunta?
- Mentira! Mentira! Mentira... O sinal, em fim, retornava. Mas, o caos já
estava espalhado. Pelo retrovisor e a uma velocidade quase nula a figura
desaparecia. No rádio o desfecho, morto vândalo que agredia o monumento.
A liberdade não combinava com a prisão. Do corpo, da roupa, do sinal, do
monumento.
A mentira.
Fernanda Blaya Figueiró
Pelas Ruas
A sombra na calçada não é uma ameaça real. É um jogo, uma brincadeira dos
sentidos.
- Obrigada, mãe!- ele responde ao receber a moeda – Eu te amo! – E assim,
parte. Pés descalços, rosto queimado, olhos vazios. A cidade aceita, com culpa,
medo e remorso. Toda a cidade tem andarilhos... Senhoras, senhores e
servidores... Horrores...
Sob os pés pedra. Sobre a cabeça sol. Nada disso existe! Toca o barco...
Toca a vida. É você! Sempre, você.
O escriba
Nos dias de hoje, coube a mim esta nefasta tarefa...
As advertências antecedem ou criam
as tragédias? A arte registra a violência de se estar no mundo, ou cria esta
violência? - Perguntei ao Escriba.
Era um velho homem, de barba
crescida, olhar turvo pela catarata,
ombros pequenos e mãos de dedos tortos, de
labor . Pena e tinta.
Assim escreveu: Tudo é energia! Gaste sua energia, em sorrisos, e tudo
serão dádivas! Gaste sua energia, em rugas, e tudo serão dores! É falsa a pena ou
invisível a tinta. Não sofra! Celebre! Está o osso à mostra e lateja a carne,
em febre, mas é na mente que tudo
acontece.
Quanta bobagem! -
pensei - E uma ruga escureceu meu rosto.
Viamão, 02de
dezembro de 2008.
Autoria: Fernanda
Blaya Figueiró
Moa e a
Pitangueira
Moa atravessou o
campo florido, procurando pitangas
maduras. A frutinha vermelha e carnuda era sua favorita. Levemente amarga, mas
com um sabor inconfundível, era um prazer gastronômico que dispensava qualquer
complemento. Ao aproximar-se do arbusto, tropeçou, na ponta de um objeto que
parecia uma raiz.
Colheu as
pitangas, colocando-as em um guardanapo e sentou, para degustar, calmamente, a
iguaria. O amargo da pitanga dava uma sensação familiar. Moa estava feliz! Ao
observar melhor o chão, percebeu que o objeto, no qual havia tropeçado, não era
uma raiz, mas um pedaço de couro. Movida por uma curiosidade infantil e levada,
desenterrou o objeto, que, aos poucos, foi se revelando...A menina estava se sentindo
como uma arqueóloga, desvendando segredos. Aos poucos, conseguiu soltar a peça,
embrulhado em um pedaço de couro curtido, estava uma pequena caderneta. Moa
abriu, impaciente, a sua descoberta.
A caderneta, fina
e comprida, tinha a capa azul e estava em perfeitas condições. Moa notou que as
primeiras páginas haviam sido arrancadas, sobrando só retalhos irregulares das
folhas. Não havia data, mas a grafia das
palavras parecia muito antiga.
Moa estava
perplexa diante do achado. Na primeira página inteira, estava copiado, em
caligrafia exemplar, um poema.
“Transforma-se
o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.”
Luís de Camões
Ela leu e releu
as palavras: cousa amada, soava muito estranho aos seus ouvidos. Entre as outras
páginas, havia pétalas secas, sementes de frutas, pedaços de cachos de cabelos
castanhos e algo que parecia um cordão
umbilical. Moa enrolou tudo, novamente. Que segredo seria aquele que a
pitangueira, docemente, guardava?
Viamão, 5 de dezembro de 2008.
Autoria: Fernanda
Blaya Figueiró
Morreu na casca
Belminda! Oh, Belminda! Trás logo
o meu casaco mulher. Hoje eu acabo com essa cobra, antes que se crie. Devia ter
morrido na casca a infeliz... Imagina que essa bruxa, pois isso só pode ser uma
bruxa! Imagina que quer exibir em Cafundós essa tal peça de teatro. Essa
mulher, histérica, não passa de uma louca desvairada! Nem por cima do meu
cadáver! Peça de teatro? Uma ova! Isso na verdade é uma ironia de nosso
candidato a dirigente do Cafundó Futebol Clube. Belminda, o meu sapato, olha!
Tu não tá vendo? Tem caca de cachorro, no meu sapato... Anota isso, nessa tua
cabeça de vento, Eu, Vagner do Nascimento de Azambuja, mando em Cafundós de Judas, há mais de
cinqüenta anos. Tudo! Mas, tudo que acontece nessa cidade tem que passar por
mim. Agora vem essa fedelha, que até meio índia é, querendo fazer a cabeça do
povo com essa idiotice de peça sobre abóboras. Eu estou na estrada... Ninguém
me engana... As abóboras que a diabinha
fala são as minhas melancias. Não construí um império, A Melancias Companhia
Limitada, para virar “personagem”. Para rirem de mim. O padre vai, o secretário
da saúde vai e hoje fechamos definitivamente aquela espelunca. Uma espelunca.
Belminda, já chamou o carro? Onde está... Não! O crachá, cabeça de vento! Como
vou sai sem o meu Crachá? Há cinqüenta anos eu uso o meu crachá, de sócio
honorário do Cafundó Futebol Clube. O olheiro já me disse quem está no tal “espetáculo”,
vou quere uma lista completa, com fotografias, de todos os “alcagüetes” que
sentarem a bunda para ver essa tal peça de teatro. O infeliz que soltar uma só
risadinha, mas vai levar uma bordoada, vai rolar mais cabeças por aquela escada
que nem a revolução francesa podia imaginar. Cobra se mata na casca, eu sempre
digo, não dá para deixar se criar. Como? Tem certeza? Deputado Federal? Como?
Mas, quem deixou isso acontecer? Belinda! Tu sabia disso? O borra botas está na
cidade! Isso é coisa dessa bruxa... Manda embora esse carro, eu não sento na
mesma sala que esse traste... Bom mesmo era o tempo da inquisição...
Viamão, 05 de agosto de 2009
Fernanda Blaya Figueiró
O Ato
No conto, o primeiro parágrafo. Na poesia, os dois primeiros
versos. No romance, três páginas. No cinema, dez minutos. Os dois se olharam. A
antipatia foi imediata.
Dolores e Altair.
Ela cruzou o corredor, pisando firme, baixou
levemente a cabeça e balbuciou um “Bom dia...” Murcho. Ele respondeu com um
grunhido que pareceu “igualmente...”, colocou a mão no bolso e fingiu procurar
algo. O som do relógio de parede ecoava. Dolores deixou cair uma pasta com
documentos. Altair fingiu não ver. Fazia
frio e a recepção estava vazia. Uma gota de suor correu pela testa dele.
Uma sorridente senhora,
usando um vestido lilás, apareceu na porta lateral.
Os dois respiraram... Aliviados. Suzete, “que não era
o crepe” , foi muito amável e tratou de proceder as apresentações. Somente os
dois estavam inscritos para a seleção. A entrevista era fundamental, ainda que
o número de vagas sendo maior do que o de candidatos.
A sala de aula ficava nos fundos do corredor. Suzete explicava como deveriam preencher o formulário: três
vias, letra de forma... O vento encanado trazia folhas de árvores e poeira para
o pátio interno, onde o corredor desembocava.
Lindo!
Os dois pronunciaram a palavra...Ao mesmo
tempo. O grande pátio limitado por uma mureta, emoldurava um horizonte verde e
ensolarado.
Suzete abriu a porta; um rangido anunciava a enorme sala, com grandes
janelas de madeira. Um quadro negro. Uma mesa escura. E uma cadeira revestida
de couro. No lado oposto, uma mesa comprida acolhia quatro professores. Poucos
sorrisos!
Suzete entregou os documentos e saiu. A luz do sol iluminava a sala.
Algumas perguntas, algumas respostas. E a folha em branco!
Altair: Crie um personagem em situação de
risco.
Dolores: Crie um personagem em situação de
risco.
As palavras pulavam pela janela. Produção
textual! A sala encolheu! Altair suava, pediu para sentar, próximo
a janela. Dolores derrubou a folha, a caneta e a cadeira. Estabanada,
ocupou a pesada mesa do professor.
Café. Discretamente, Suzete
entrou com a bandeja!
Nome! Um personagem começa pelo nome. Altair:
Maria. Dolores: José.
Situação. Altair: Parto, não. Assalto, não.
Incêndio. Boa!
Situação. Dolores: Atropelamento, não. Briga de
bar, não... Salvamento. Boa!
A folha, o lápis..
Maria estava na enorme sacada de seu
apartamento... As chamas altas consumiam rapidamente a mobília. A garota implorava
por socorro! Aflitos, os amigos gritavam da calçada. Ouviu a sirene.
A folha, a caneta:
A sirene do quartel general, do corpo de
bombeiros, soou estridentemente, José correu para a
viatura. Tinham poucos minutos para efetuar o salvamento. A jovem estava presa
na sacada. Fortes labaredas avançavam. Subiu as escadas rapidamente.
A sirene! Tempo esgotado! Súplica!
Três linhas! O fim?
Trêmulo, Altair entregou a folha. Sem sentir as
extremidades Dolores entregou a folha.
Assim que a porta fechou, os risos contidos
viraram frenéticas gargalhadas. Aproximaram-se da mureta. Tanta coisa pra
falar! Aquela imagem.
Estavam em frangalhos, quando a porta abriu, e Suzete perguntou muito solenemente: - Mas e o José? Salvou
a Maria?
Senhora das Jóias
A velha senhora resmungava em um escuro canto do antigo casario, enquanto
a vida palpitava florida pos todos os lados. Agarrada a suas preciosidades não
percebeu o correr do tempo. Presa em um emaranhado de colares, anéis e
braceletes não sentiu as mudanças ao seu redor. A certeza, equivocada, de sua
infinita riqueza a fez insensível à realidade. A si mesma denominava: Senhora
das Jóias.
O tempo nunca parou! Seus bens perderam o valor, a vida o sentido.
Rosa estava ligada a ela como uma sombra que a acompanhava desde sempre.
Não havia mais água, luz ou pão no antigo casarão.
As trêmulas mãos de Rosa abriram, com dificuldades, o portão enferrujado.
Lá fora os carros corriam. As pessoas corriam. As pedras quebradas da calçada,
não combinavam em nada com a luxuosa avenida. Todos os dias ela buscava água na
torneira do majestoso edifício. Saia com o balde na mão e enchia, sabendo que
não era certo. O que é certo?
O vigilante, sabendo da necessidade, fingia não ver o pequeno delito.
O dono da padaria, cumprindo promessa
a virgem, preparava um saquinho com pão, leite, frutas e açúcar. O olhar miúdo
de Rosa, acompanhado de um sorriso sem graça, dizia tudo.
Voltava com a única refeição do dia e um enorme agradecimento no coração.
Não deixava de achar belo o mato que tomou conta do jardim, nem os ninhos dos
pássaros, as tocas dos ratos, as fanfarras dos gatos.
Cantarolando ela arrumava tudo
numa bandeja limpa e polida. Aproximava-se com cuidado, cabeça baixa e voz
suave.
- Senhora! Senhora!
Nada! Nem um movimento... Insistia:
- Senhora! Senhora!... O seu café...
Os gatos aproximaram-se atraídos pelo doce aroma de leite. Rosa
percebendo que ela havia reagido deixou a bandeja sobre a mesa e recuou até a
porta.
- Some!... Some daqui! Abutre!
- Abutre! Sempre viveu nas minhas costas... Vai! Vai daqui...
Arfando, a Senhora das Jóias, comeu e resmungou. – Abutre! Vive que nem
sombra, sussurrando, falando mal de mim. Acha que não sei??? Isso nunca teve
vida. Some, some! Ela quer minhas Jóias! É isso... Passou a vida querendo...
Mas, eu não dou! Não dou... Levo tudo comigo.
Rosa encostou a porta com cuidado, tomou seu café na varanda, ouvindo o
canto dos pássaros e conversando com os gatos.
Faltava pouco para terminar. Tinha decidido tudo na manhã anterior, a
casa ruiria sobre suas cabeças. Nos dias de chuva as goteiras eram tantas que
não tinham como escapar. Os dias eram tão longos.
Só restavam as duas. Rosa caiu no profundo sono eterno.
Na manhã seguinte seus dois amigos, sentindo sua falta, invadiram o
antigo casarão. Rosa estava no jardim, tinha o rosto sereno e tranqüilo. A
velha estava sentada em uma poltrona rasgada, resmungando e xingando.
- Abutre! Cadê o abutre! Ladrões!!... Quem são vocês? Demônios!! Ninguém
vai levar minhas jóias... Ninguém!
O antigo casarão caia aos pedaços. - Meu castelo! – gritava – saiam do
meu castelo...
A triste figura gritava e fedia coberta por fios ornados com coloridas
tampinhas de garrafas. Nos dedos tinha
anéis de arame, enfeitados com pedras da calçada. Nos braços tiras de papelão.
Na bandeja um pequeno pedaço de papel com a inscrição: “Senhor! Não havia
mais dignidade! Perdão! Rosa.”
Viamão, 17 de agosto de dois mil e oito
Rosas e chocolate
Ela aproximou-se do caixa, com os
produtos que havia escolhido.
- Precisa de mais alguma coisa?
- Não! – Só das rosas e do
chocolate. Vermelhas! As rosas. Preto! O chocolate...
Mostrou a ele a beleza deste
contraste.
- É para presente?
- Não... Ou, melhor, sim... Um
presente para mim.
- É seu aniversário?
- È.
Ele ficou em silêncio por alguns
minutos, depois com um sorriso lhe desejou felicidade. Ela agradeceu e saiu
levando o pacote. Foi a única pessoa com quem falou naquele dia, além de suas
flores. Estava muito feliz! As gloxicinias abriram bem no seu aniversário, não
podia esperar um presente melhor. Teve pena dele, parecia tão confuso,
atarefado, de sua janela viu quando soltou e o tempo que ficou esperando pelo
ônibus. Tão novinho e tão ambicioso, tinha nos olhos uma indignação, de
vencedor. Seria um vencedor... Acendeu uma velinha para iluminar seu caminho,
para que conseguisse vencer sem se perder, sem amargurar, como tinha acontecido
com seu pai. A vida tinha lhe corrompido a alma... Como eram parecidos, chegava
a arrepiar. Tudo podia ter sido mais fácil para ele... Escolheu bem a casa,
sabia que o casal não conseguia ter filhos, eram bem empregados, pareciam tão
felizes, mas o casamento durou pouco. O menino ficou levando uma vida difícil.
Melhor do que a vida que levaria na sombra do pai, ela não tinha remorso. Não
podia ter ficado com ele. Quando o pai saísse da cadeia os encontraria. Mataria
os dois, como matou a mãe dele. Se soubesse que ele viveria tão poucos anos e
que nunca sairia da cadeia teria ficado com o menino. Pena que a gente nunca
sabe o que vai acontecer... Não quis estragar tudo, remexendo em histórias
antigas. Não teve coragem de por filho no mundo, disso tinha um pouco de
remorso. Que dissipava quando suas flores abriam. Ele vai ficar bem, já é homem
feito, trabalha, anda na linha... Acendeu mais uma velinha, para que a linha
ficasse bem visível e ele continuasse assim, no caminho.
Viamão, 9 de outubro de 2009
Fernanda Blaya Figueiró
Quando o jornal chegar
As noites na escuridão são muito longas. A morte vira um instrumento de
liberdade e de alento. Um ser que sofre muito, por maldade e abandono, perde a
vida aos poucos. Um dia perde o apetite, o ânimo, no outro o brilho no olhar.
Uma hora nada mais tem importância e a manhã chega mansamente.
O silêncio vai contar tudo um dia, como as ruínas contam sobre os
druidas; as marcas nas escarpas contam do oceano que um dia habitou o vale.
O pote não estava quebrado, nem virou. A chuva foi escassa naqueles dias.
O sol forte! Onde estavam todos?
Jaz a casinha de madeira no meio do mato. Contando, sem contar. Quando o
jornal chegar não terá mais latido.
Viamão, 6 de março de 2009.
Fernanda Blaya Figueiró
O Chalé de 1919
Um painel de mogno foi o que me restou do Chalé que ocupou o meio do
terreno por noventa anos. Além de muitas fotografias, algumas em preto e
branco, outras coloridas. O Shopping que foi erguido em seu lugar silenciou sua
existência e aniquilou com os gatos, as baratas e os ratos, seus últimos
moradores. Vende-se de tudo ali, muitas coisas das quais ninguém realmente precisa.
Esta inscrição, em auto-revelo, ficava bem na fachada, logo acima da porta
principal, protegida por uma pequena varanda:1919. Sempre achei um belíssimo
número, sei pouca coisa sobre este ano, apenas que havia acabado a primeira
grande guerra. Dizem que foi construído por uma família de estrangeiros que
comprou um pedaço de mato e montou uma fabriqueta de móveis. Quando morei nele
lembro de encontrar retalhos de madeira no porão, pregos, um torno muito
antigo... Na demolição um antiquário levou tudo, consegui roubar estas paredes
da fachada, subornando um pedreiro.
Dos noventa anos de sua existência, seis foram meus. Nunca imaginei que o
terreno fosse ser tão valorizado, quando nos mudamos, meus pais disseram que
estávamos subindo na vida. Saímos do subúrbio para o último andar de um luxuoso
edifício. Sonhei, em segredo, que um dia compraria novamente o Chalé. Tinha
seis anos e a terrível tarefa de aprender a ler, não gostava dos exercícios da
escola, mas adorava as ilustrações e os poemas. Lembro do Chalé ficando para
trás, com seus mistérios e segredos, a cadeira de balanço foi a minha maior
perda, ficou sozinha pendurada na varanda. Era de vime e tinha uma almofada
estampada com enormes folhagens, verde e vermelho. De uma forma acabei
comprando o que sobrou dele.
Quando nos mudamos levei junto, escondida na caixa de brinquedos, um
velho álbum que tinha fotos dele em construção e de seus primeiros moradores.
Nas mais antigas a paisagem era totalmente rural, com o tempo ele foi sendo
abraçado pela expansão da cidade. A primeira escritura, tirei cópia no cartório
há alguns anos, estava no nome de Badwin e Marta Andersson. Quando era pequena ficava horas imaginando como eles viviam.
Ele era grandalhão e risonho, ela tinha os braços roliços, as bochechas coradas
e um ar de vó. Por isso eu os chamava de vovô e vovó Santana, como se fossem
pais de meu pai, inclusive levava as fotos para a escola, inventava muitas
histórias sobre eles. Talvez porque não conheci meus verdadeiros avós. Não eram
em nada parecidos conosco, mas as fotos eram muito antigas e ninguém reparava.
Meus pais não tinham passado, ou
não queriam ter. Sempre fomos nós e meu irmão. Nossa vida vivia cheia de outras
pessoas, amigos, conhecidos, compadres. E de muito trabalho, muito, muito, muito,
mesmo. Mas, eu adorava plantar flores. Achava lindo vivermos do comércio das
flores e de seu perfume. Na escola as flores eram de papel, isso me incomodava
muito, bem como o apelido de colona. A gente acordava com o sol e dormia quando
ele dormia. Isso é pura magia.
No edifício todas essas coisas
foram se perdendo, aos poucos, mamãe me inscreveu no Balé, eu odiava, as outras
meninas riam de meus “pés rachados de colona”. Umas tontas que nunca tocaram na
maciez da terra recém arada. Consegui
sair logo, mas descobri a música e a dança livre. Um espírito livre não aceita
doutrina nenhuma. Sempre que podia voltava ao Chalé, não era fácil, mas minha
madrinha continuou morando no subúrbio e isso era como uma porta para o
paraíso. Estudei etiqueta, corte e costura, minha mãe realizava os seus sonhos,
como se eu fosse a sua boneca.
Às vezes caminho pelo shopping
como se pudesse recuperar um pouco do cheiro das flores. Mas, tudo feneceu. Meu
pai jura que lhe roubaram as fórmulas e o direito de produzir os perfumes. Do
último andar do poderoso edifício fomos para uma pequena casinha numa praia
quase deserta. Tempos de negócios ruins, dívidas e de poucos amigos. De lá
fomos para a casa de minha madrinha, para mim a vizinhança com o Chalé, que já
não era mais o mesmo, foi um retorno a paz e a tranqüilidade.
A quitanda deu muita dor de
cabeça no início, mas depois nos levou novamente ao topo. Compramos uma casa no
bairro e dali não saímos mais. Fui a primeira mulher a cursar o técnico de
eletrônica. Minha mãe não queria, achava rude e pouco elegante. Mas, no fim
entendeu que era uma profissão em ascensão e muito bem remunerada. Meu irmão
quis ficar na quitanda. Aos poucos foi recolocando as flores, foi aumentando e
diversificando os produtos. Fui embora, trabalhar em uma multinacional. Vinha
no Natal. O Chalé passou a ser ocupado por pessoas muito pobres, o pátio
cheirava a mijo de rato e a umidade. Construíram várias malocas no pátio. Houve
uma longa disputa judicial que acabou no despejo daquela gente toda e na imediata
demolição de tudo. Eu já havia voltado, fiquei com a casa de minha madrinha,
que não tinha filhos. Só o que eu consegui comprar foi esse pedacinho. Então
montei o painel começando com essa do casamento de Badwin e Marta Andersson, minha mãe achou horrível, eu usar
fotos de pessoas que não conhecia. Depois fotos do chalé novinho, com muitas
pessoas e ornamentado para festas. Das nossas minha mãe gostou, meu pai sempre
chorava com a foto da camionete cheia de flores fresquinhas, recém colhidas. As
fotos de meu irmão doíam muito, mas, mantive. O balanço, com um urso sentado,
faz as pessoas sorrirem. Eu apareço em poucas. 1919 é um tributo ao Chalé. Não
gosto quando dizem que eu vivi uma mentira. Baldwin e Marta são meus avós. Eu
comprei o Chalé... As pessoas não entendem o que é a verdade. No início fiquei
confusa, mas não é uma memória só minha. Mesmo assim não vendi a obra para o
shopping, acho que seria como perder de novo o balanço, o Chalé, meu irmão, as
flores, o perfume. Então eu te pergunto: O que é a arte?...
Viamão, 15 de novembro de 2009.
Fernanda Blaya Figueiró
Dos loucos
Uma pessoa que perturbava. Tirava o sossego das outras pessoas. Não como
o choro de uma criança que irrompesse a madrugada. Ou, o cobrador que invadisse
a linha telefônica logo pela manhã. Ou a notícia nefasta, na caixa de
correspondência, denunciada pelo timbre antes mesmo da carta aberta. Esses
todos são muito fáceis de se livrar.
Onira era perturbadora, na fala, nos gestos, na presença quase
insignificante, mas, paradoxalmente incomoda. Indesejada. Parecia cobrar
constantemente, coisas incobráveis, como o amor.
Agora que: - Já se foi! Com a Graça de Deus.
Podia ser revisitada, como uma grande obra que nos arroubos de um jovem e
atrevido escritor fosse dilapidada em sua essência e reduzida a um livreto de
fácil leitura.
Uma fogueira e restaria só o aceitável. Nada de sorrisos escancarados.
Como quem altera a cena de um crime contra a imagem. Removeu erros, anulou
rascunhos e qualquer indício de devaneios. Qualquer gemido nas entrelinhas.
Qualquer toque, suor, lágrima ou gota.
A obra limpa. Os despojos queimados.
Ao percorrer os corredores da obra descobriu...
O incomodo continuava ali. Gritando. Em cada verso desalinhado.
Dos loucos
Uma pessoa que perturbava. Tirava o sossego das outras pessoas. Não como
o choro de uma criança que irrompesse a madrugada. Ou, o cobrador que invadisse
a linha telefônica logo pela manhã. Ou a notícia nefasta, na caixa de
correspondência, denunciada pelo timbre antes mesmo da carta aberta. Esses
todos são muito fáceis de se livrar.
Onira era perturbadora, na fala, nos gestos, na presença quase
insignificante, mas, paradoxalmente incomoda. Indesejada. Parecia cobrar
constantemente, coisas incobráveis, como o amor.
Agora que: - Já se foi! Com a Graça de Deus.
Podia ser revisitada, como uma grande obra que nos arroubos de um jovem e
atrevido escritor fosse dilapidada em sua essência e reduzida a um livreto de
fácil leitura.
Uma fogueira e restaria só o aceitável. Nada de sorrisos escancarados.
Como quem altera a cena de um crime contra a imagem. Removeu erros, anulou
rascunhos e qualquer indício de devaneios. Qualquer gemido nas entrelinhas.
Qualquer toque, suor, lágrima ou gota.
A obra limpa. Os despojos queimados.
Ao percorrer os corredores da obra descobriu...
O incomodo continuava ali. Gritando. Em cada verso desalinhado.
Dila
Uma hora não tem mais volta, o pensamento liberta a pessoa dos dogmas e
da necessidade de reconhecimento, de aprovação. Dila estava neste estágio,
poucas coisas a incomodavam. Não tinha medo do ridículo. Quando subiu na
tribuna sabia do desprezo da grande maioria por mulheres na política. Ou talvez
pela própria política: a Arte ou ciência de governar.
Arte! Em sua mente só imaginava a loucura que a administração pública
tinha provocado na comunidade. Escândalos, futricas, rombos, sujeira. O
discurso importaria pouco. Estava tomando a medida certa. Esperou que todos se
acomodassem. Como não fariam silêncio mesmo, iniciou em um tom muito baixo de
voz. Boa noite aos senhores presentes, autoridades... Estou deixando na noite
de hoje o cargo. Muito obrigada!
Desceu calmamente os degraus da escada, o silêncio imperou de uma hora
para a outra. Não havia sinais de que faria uma coisa destas. O Governador,
tomado de susto, gesticulava para os assessores.
A imprensa calada! Que vergonha, a Secretária de Cultura renunciava na
cerimônia de inauguração de uma grande obra. E ninguém havia noticiado. Não
havia rumores. Não havia suspeitas.
Um ato totalmente inusitado e não haviam fotografado, nem gravado sua
fala. Correria e Pânico nas mídias. Assombro no Governo.
Dila atravessou o imenso salão, as paredes cor de creme davam um toque de
requinte e majestade. Tapeçarias, murais, móveis, pinturas, esculturas,
cristais. O Belo! A Arte. Lajotas portuguesas pisadas por insanos. O longo
piano de calda quieto e esquecido. A Bíblia, ornada com fios de ouro,
incompreendida.
O burburinho apagado pelo solo do violino. Uma Ária! A voz suave e doce,
um pouco contaminada pela idade, encantou. Dila Gaute, em sua sabedoria,
ensinava cultura.
Sem palavras, deixou a polis. Cada povo tem os governantes que constrói.
Cada governante colhe o que semeou. Cada cultura tem o fim que permite.
Os tempos eram de uma riqueza e tecnologia invejáveis, mas de uma
desigualdade assombrosa. E o preço?
O impacto foi pequeno e logo contornado: - Arroubos de Artista!
Dila olhava as rugas no espelho de cristal, as mudanças no rosto de uma
senhora. Que tempo é este onde os grandes foram morrendo e ninguém os
substituiu?
Onde? Onde estão os grandes homens e mulheres dos dias de hoje? Quem guia
esta massa?
O sorriso alegre da menina trazendo rosas e um poema. O brilho verdadeiro
nos olhos do menino travesso que acha música nas grades da escola. A letra que
repetem sem saber que sentido tem. Quando
eu crescer vou ser puta! A frase não abandonava sua cabeça. Um trezoitão na cintura! Os passos de
uma dança expressiva e sincera. De uma cultura popular que mostrava à sociedade
seus valores. Alegria, ritmo, energia, equilíbrio: Arte. O lixo como matéria! O
odor nas mãos hábeis. O palavrão na poesia. Um
dia eu pego a mina!
Não faz drama dona, passa a grana!
O pescador
que sabia esperar.
Com o braço erguido ele rodava a rede sobre a
cabeça. O movimento produzia um som característico. Costumava girar cinco vezes
antes de jogar. O Golfinho sabia o momento exato em que a rede tocava na água.
O Golfinho empurrava o cardume até o pescador. O
pescador permitia que o golfinho comesse primeiro.
Foram anos de amizade até que a rede caiu antes do
tempo.
O Pescador sabia esperar. Mas não esperava o golpe
pelas costas. Não esperava ser pego de surpresa.
O Golfinho voltou, e voltou, e voltou...
Publicado na
Coletânea Escritos
Madame Kitty.
Cíntia
cantava numa praça do centro de uma cidade. Sua voz soava docemente... Seus
cabelos estavam amarrados com uma fita amarela.Usava o uniforme antigo de
alguma outra menina, com listas e brasões. Pedras eram arremessadas contra
ela.Outra menina cantava no centro... Outra menina acordava os anjos, atiçava
os demônios, apagava a luz.
Esse sonho a acompanhava desde pequena, falara sobre ele com várias
pessoas. Naquele dia Cíntia resolveu consultar Madame Kitty, queria que lesse
sua sorte. Precisava entender.
Chegou na hora marcada, estranhou
o lugar, era uma saleta simples, com paredes brancas, sem nenhuma ornamentação
que indicasse uma tenda cigana. Imaginava que seria um lugar com cortinas
coloridas, bola de cristal, búzios, imagens nas paredes, incenso... Madama
Kitty estava sozinha e foi logo dizendo:
-
Cantar sozinha em público significa uma grande
exposição, mesmo que seja docemente. As pedras são os obstáculos da sua vida.
Os anjos, os seus protetores. Os demônios, seus desejos mais secretos. A luz
apagada, é o obscuro, o que não desejas revelar. A outra menina, o futuro, e o
uniforme, o passado, como um ciclo.
-
O que eu posso fazer para fugir disso?- indagou Cíntia.
-
Fugir, por quê?- perguntou a vidente.
-
Eu vou sempre me sentir destruída pelas pedras?
-
Não, você só tem que aprender a usar as pedras. Agora
pense em alguma coisa que lhe interessa saber.
Madame Kitty estava sentada com o baralho nas mãos. Ficou em silêncio
observando Cíntia, que já não sabia se queria mesmo estar ali.
-
Eu quero...
-
Não, - interrompeu a vidente. Pense, não fale.
-
Por quê?
-
Porque uma palavra proferida ganha o universo... Nunca
mais será destruída. Ficará vagando pelo cosmos...
-
Penso pra mim? – indagou Cíntia.
A vidente balançou a cabeça afirmativamente e olhou
com firmeza para ela.
-
Mas com convicção, concentre nesta idéia enquanto eu
vou dispondo as cartas. Empreste-me sua mão.
-
Tome.
Madame Kitty pegou a mão de Cíntia, que sentiu
vontade de sair correndo. Mas, pensou com convicção na menina do sonho, nela
menina.
-
A senhora. Esta carta representa a sua vida atual... A
cobra estando do seu lado representa um grande perigo, envolvendo falsos
amigos. Já o sol, a lua e os lírios, demonstram a superação de obstáculos.
Porém, o homem estando tão longe da Senhora e à direita, significa o fim de um
grande amor. O caixão ao lado dele, indica a morte ou uma doença muito grave. O
valete, indica uma longa viagem. Problemas com dinheiro, já que o navio está do
lado oposto e o anel longe, muito longe.
Sua vida vai passar por algumas transformações...
-
Eu sabia. Desgraça?
-
Não sei, pode ser coisa boa ou ruim. Agora mantenha a
calma, alimente-se bem e procure relaxar antes de dormir. Não fale mais sobre o
sonho. Esqueça.
-
Vou tentar, mas não é fácil – disse ela.
-
Eu sei, você não me falou nada sobre o castelo.
-
Como a senhora sabe?- indagou perplexa Cíntia.
-
Está aqui. Com as pedras, a menina constrói um castelo
com telhas de vidro.
-
Isto, em alguns sonhos a menina constrói um castelo e,
em outros, uma longa estrada com alamedas de árvores e flores.
-
Então, o que você precisa entender, Cíntia, é por que
alguém que é apedrejado constrói um castelo de telhas de vidro.
-
Para ser destruído?
-
É um ciclo, como vimos no início. Por hoje é só.
Cíntia achou Madame Kitty impressionante. Pagou a consulta satisfeita e
saiu leve e feliz.
Logo que Cíntia virou as costas Krishna
beijou as notas, precisava muito daquele dinheiro. Tinha um pouco de
pena de pessoas tolas como Cíntia, mas o mundo era dos vivos. Sentiu um leve
remorso, que tratou de espantar. Só não sabia de onde tinha tirado tanta
idiotice. Estava se sentindo uma atriz digna de pisar nos melhores palcos do
mundo: Madame Kitty, como alguém ainda caía num golpe tão antigo.
Os Antigos Espíritos, ao perceberem as intenções de Krishna de enganar
Cíntia, decidiram interferir. Sem que Krishna soubesse nascia Madame Kitty.
Pelo poder do sangue que corria em suas veias.
Ela tomou conta dos preparativos. Consagrou o baralho, deixando uma
noite sobre um copo de água límpida e sal, depois envolveu em um pano vermelho.
Usou o corpo de Krishna para lavar as mãos, beber um gole de água e fazer o
devido recolhimento espiritual.
Madame Kitty colocou uma toalha de linho branco
sobre a mesa. Nela colocou uma taça contendo água pura com uma ametista dentro
e um punhal com a ponta virada para Cíntia. Acendeu uma vela branca e um
incenso de Almíscar. Invocou os elementos: Terra, Fogo, Água e Ar.
Fez uma reverência a Santa Sara Kali, que estava
presente.Um rio caudaloso corria nas linhas da mão de Cíntia.
Madame Kitty leu o destino de Cíntia, mas não podia
mudar nada.
Cíntia viu a verdadeira Madame Kitty. Era uma bela
mulher, de olhos negros, pele escura, nariz comprido e rosto angular. Os
cabelos estavam cobertos por um lenço vermelho. Tinha a altivez de uma rainha.
O Olhar penetrante de quem tudo sabia. A voz firme de quem nada temia.”
Krishna cantava...
Diklô.
Não é o que eu sou... Mas o que habita em mim
Que produz esta inquietação.
Não é o que eu sou... Mas o que habita em mim...
Que traz esta paz.
Krishna ilumine o caminho.
Kali ceife a vida.
Sara... Sara... Sara...
Teço seu lenço com todas as cores de Deus.
Madame Kitty.
Publicado na
Coletânea Escritos
JOSÉ FICOU
RICO
-
Bom dia, tia. Vai cortar a grama?
-
Bom dia, José. Pois é tava aqui pensando... – respondeu a senhora.
-
Se a senhora quiser eu corto. Cobro vinte o pátio inteiro.
- Vinte?
Puxa, liguei pra empresa de jardinagem e eles pediram cento e trinta...
- E aí? Vinte fica bom?- indagou o garoto.
- Fica,
o problema é o sindicato. Tão pegando no pé de quem contrata informal.
-
Ninguém vai ficar sabendo. Eu juro.
-
Que idade você tem?
-
Dezesseis. –respondeu prontamente, com muita convicção.
-
Parece doze. Não sei... Eu vou deixar você cortar, pago vinte e cinco, é mais
justo. Mas não conta pra ninguém, posso confiar em ti?
-
Pode. Eu fecho o portão.
-
Feito. Sabe que eu já tava pensando em soltar uma carga de brita nesse gramado.
Mas,começa logo. Use a galocha por cima do sapato, as luvas e o jaleco. Não
demora muito viu José.
-
Sim, senhora.
Em pouco menos
de duas horas José cortou a grama, aparou os cantos, podou as árvores, juntou
tudo e antes de ir embora dividiu com a senhora uma porção de pipocas com
guaraná. Recebeu vinte e cinco reais. A senhora economizou o dinheiro do
remédio para dor nas costas, pois ela mesma teria cortado a grama.
José chegou em
casa trazendo arroz, feijão, farinha, óleo, leite, ovos, biscoitos, sabonete,
pasta de dente, sabão... Sua mãe encheu os olhos de lágrimas, o pai prometeu
que assim que voltasse a trabalhar ia recompensá-lo. Ele chamou as crianças e
fingindo um truque de mágica puxou do bolso do casaco um saco colorido. Os
olhinhos delas brilharam mais do que o normal.
-
Jujuba! José ficou rico! José ficou rico!
As crianças
pulavam e cantavam ao redor do garoto...
Publicado na Coletânea Escritos
Capão I
Numa
tarde de quarta-feira a gurizada saiu de uma interminável aula de matemática.
Com as cabecinhas cheias de números, símbolos e pequenos problemas. Correram
direto para o “campinho”. Os meninos divididos em dois grupos disputavam uma
bola. E as meninas, sentadas sobre suas mochilas, trocavam enfeites, segredos e
doces.
Danilo,
Diadora e Douglas chegaram e pediram para brincar junto. Olharam para eles com
desconfiança e perguntaram de onde vinham. Danilo, que era o mais velhos dos
três irmãos, respondeu que eles haviam se mudado há poucos dias.
Um
pequeno silêncio foi rompido por Thomáz com as seguintes palavras:
-
Vamos
joga! Entra cada um dum lado.
Foi o
suficiente para que os irmãos invadissem o campo. Douglas arrasou, driblou meio
mundo e na primeira oportunidade virou o jogo para o seu “time”, que vinha
perdendo uma partida atrás da outra. Danilo não deixou por menos, mostrou que
sabia jogar.
Diadora
sentou com as meninas.
Assim
que o ônibus chegou a gurizada largou tudo e correu para a parada. Danilo
perguntou se poderiam jogar novamente no outro dia.
-
Não
sei. Respondeu Thomáz. Vocês não vão à escola?
-
Aqui
não, estudamos em Porto
Alegre.
-
A
gente vai pensar.
Capão
II
Danilo estava sentado na
ante-sala do presidente do engenho. Trazia as reinvidicações dos produtores de
arroz, acordadas na última reunião do Sindicato Rural.
Conhecia
Thomáz desde os tempos do “Capão”, quando jogavam bola e capoeira juntos. Ele
era um líder já naquele tempo. Conseguiu ascender no engenho comprando parte
das ações. Era um estrategista.
Os
produtores queriam aumentos, já que os custos dos insumos e financiamento
estavam muito mais altos. E o governo vinha importando arroz, destruindo com o
mercado interno.
O casamento de Thomáz com
Diadora havia sido um desastre. Danilo tinha medo que o ex-cunhado guardasse
mágoas.
A recepcionista ofereceu
um café a ele, informou que seria recebido em poucos minutos. Algumas
lembranças invadiram sua mente: as inúmeras brigas, seu pai não aceitava que
Diadora namorasse um homem negro. Enquanto que os pais de Thomáz não aceitavam
que ele namorasse uma “Catarina”, e ainda de origem alemã. A briga de Douglas e
Thomáz no campinho ficara marcada na sua memória. Tinha sido no final de uma
partida de futebol, logo que Danilo e Douglas descobriram o namoro as
escondidas da irmã com Thomáz.
A porta abriu quase sem fazer
barulho, Thomáz o esperava com um sorriso no rosto.
-
Boa
tarde, como vai o meu cunhado? – disse Thomáz.
-
Boa
tarde! – respondeu mais aliviado - Vou
bem, quanto tempo?
-
Pois
é, sente-se. E o velho Shaffer?
-
Está
ótimo, ele e a mamãe.
-
Eu
recebi o e-mail do sindicato, mas francamente, as exigências estão pesadas.
Thomáz era um homem
direto, não tinha por costume enrolar, sabia o motivo da visita e foi logo se
posicionando. Não pretendia ceder muito, sabia das dificuldades que o setor
vinha enfrentando.
-
Nós
precisamos de um aumento.
-
Eu
sei, mas este índice é insuportável para o engenho. A gente vai ter que chegar
a um acordo.
Os dois homens estavam
frente a frente, com a devida diplomacia que a ocasião exigia. O diálogo foi
direto, impessoal e produtivo. Danilo conseguiu em parte o que precisava e
Thomáz conseguiu acalmar os produtores.
Thomáz perguntou por
Douglas.
-
Ele
está bem. Ganhou medalha de prata nas últimas para-olimpíadas.
-
Que
bom, Diadora tinha me contado. O meu piá é fã dele. Tem em seu quarto várias
fotos do tio Douglas.
-
O
Ronaldo é uma figura.... Acho que por
hoje é isso, foi um prazer...
Os dois despediram-se.
Danilo saiu com uma boa impressão. Seus medos não se confirmaram, Thomáz
parecia estar tranqüilo. Douglas, em compensação continuava remoendo em amarguras. Danilo
lembrava de tudo com nitidez: Douglas atacou Thomáz pelas costas, ele, por
reflexo, jogou o garoto no chão. Douglas caiu sobre uma pedra, fraturando a
coluna. Todo mundo viu que Thomáz não teve culpa, ele era forte e jogava capoeira
como ninguém. Antes da briga eram grandes amigos...
-
Vamos jogar, pô! Entra cada um dum lado.
Com essa frase ele tinha aberto as
portas para os irmãos. Depois da briga as famílias nunca mais se falaram.
Diadora estava grávida e os dois casaram sem o consentimento de ninguém. Com o
tempo foram ficando amargurados, ressentidos e se separaram. No fundo
sentiam-se culpados.
Douglas fez vários tratamentos, mas o
dano foi irreversível.
O dano na coluna de Douglas podia ser
comparado ao dano nas vidas de todos eles. Todos tinham ficado um pouco
paralisados. Os pais não aceitavam a amizade entre as crianças e foram,
lentamente, contaminando o pensamento deles com o preconceito e a
discriminação. Danilo lembra do olhar dos pais de Thomáz para eles, “Os Catarina”.
Os burgueses, almofadinhas... Sempre que iam aos bailes as pessoas ficavam
olhando de canto, cochichando. As meninas não aceitavam Diadora. Implicavam com
tudo nela, que também tinha sua parcela de arrogância, achava que todos eram
provincianos e sem educação. Já seus pais eram agressivos e intolerantes com as
pessoas do lugar, não queriam eles brincando com Thomáz por que era “negro”.
Quando souberam do motivo da briga nunca perdoaram a filha. Ela estava afastada
da família desde então. Ronaldo não conhecia nem os avós maternos, nem os
paternos. Era um garoto alegre e não conhecia o preconceito. Sua geração já
lidava bem melhor com estas questões. Diadora morava numa cidade grande, era
formada em biologia.
Estava casada com Arnaldo com quem teve Ziza.
Antes de voltar para “Fora”, Danilo
passou na agropecuária. Um grupo já esperava por ele. Queriam saber tudo sobre
a reunião, o assunto rendeu horas de discussão acalorada.
Thomáz passou pelo campinho e sentiu
uma irresistível vontade de parar. Desceu da caminhonete e ficou olhando para o
campo vazio. A grama estava crescida, já que ninguém jogava bola desde que
fizeram uma quadra na escola. Não havia mais as marcas do gol, nem as linhas
laterais.
Danilo viu Thomáz de longe. Achou
estranho e resolveu parar ali também. A cidade tinha crescido, como eles e
mudado em vários aspectos.
-
O
que você está fazendo aí parado?
-
Lembrando...
-
A
gente era feliz e não sabia, não é?
-
É.
Eu fico pensando se o Douglas vai me perdoar um dia.
-
Bobagem,
o Douglas teve azar, só.
-
Sorte
e azar. Ta aí um negócio no qual eu não acredito.
-
Eu
acredito. Vamos tomar um chope?
-
Não,
eu tenho que assar um churrasco. O Ronaldo está indo lá pra casa, com toda a
turma do futebol. Uma galera! Comem que nem uns loucos.
-
Também
ele já tá com quase quinze.
-
Quinze
anos. E parece que foi hoje.
-
Dois
de novembro, que coincidência. Amanhã fazem quinze anos do acidente.
-
No
dia dos mortos. Por anos minha avó me culpou por isso, disse que tudo aconteceu
por que nós jogávamos bola e brincávamos no dia dos mortos.
-
Vamos
embora?
-
Vamos.
Capão III
O Capão continuava ali. Uma clareira
envolta em mata nativa.
O dia de finados sempre tem vento e
naquele não teve. O vento traz para o mundo dos vivos as queixas das almas.
Naquela tarde, nem uma folha se mexia
nas árvores. Os garotos estavam jogando e Diadora apareceu. Thomáz foi falar
com ela, a mão suada encostou com suavidade no rosto de porcelana. Daniel e
Douglas fingiram não ver. Mas um dos meninos, por pirraça, gritou:
-
Olha a alemoa com o negão!
O sangue de Douglas ferveu, correu
com todas as forças pulando sobre Thomáz. A velocidade do garoto trouxe o vento
que faltava ao dia de finados. Os movimentos de flexão do corpo de Thomáz
jogaram Douglas contra o chão. O impacto provocado pela queda tirou os sentidos
do menino. Só não lhe tirou a vida, por que os espíritos, acordados pelo vento,
entraram na dança das almas. Dançaram os ancestrais de Thomáz e de Douglas.
Universo,
Diverso.
As almas não têm cores, mas têm
passado. Não têm forma, mas têm recordações.
E os povos se levantaram!
Bateram Tambores. Bateram Pratos.
Ritmos africanos. Ritmos germânicos.
Gerações e mais gerações.
Um assobio! Brasileiro!
Um silvo forte. São as bruxas!
Um grito de dor.
Um grito de Morte!
Um grito do Céu e o outro do Inferno.
E
Deus
Desceu.
Soprou vida no sangue unido
De Diadora e Thomáz.
Aprendam!
Numa nova vida.
O fim dos conflitos.
Depende de muito pouco.
Publicado na Coletânea
Escritos
A
noite eterna de Jacó.
Jacó
ainda está com o cajado nas mãos, travando a sua interminável batalha com Deus.
Abraão entra e toma a pequena Israel nos braços.
Deixa
os dois lá sozinhos. Ao fundo ouve o estampido seco de madeira contra madeira.
Ele
chama Israel de sua pequena criança e, tomando sua mão, os dois saem a passear
pelo mundo.
“Sabe Israel”, ele diz, “um dia os
homens vão entender que o mundo é um e muitos”.
As
enormes pernas de Abraão levaram os dois às mais variadas partes do mundo, em
passos largos. Às terras da África, a todos os cantos da América, aos floridos
recantos da Europa, a bela Ásia, a fria Antártica e a adorável Oceania.
Em todos os lugares havia muitas pessoas, muita
alegria e muita tristeza. Havia leite e mel. Ricos e pobres. Amor e dor.
Voltaram
à noite eterna de Jacó e a Aurora veio em sua companhia. Pena que Estavam tão
exausto que não perceberam...
Fernanda
Blaya Figueiró. 04/08/2006.
Publicado na Coletânea Escritos
Para não
esquecer
Outro dia o
Milton, muito orgulhoso, e com razão, me alcançou a edição com formato novo do
Correio Rural, adorei. Mas, em suas páginas, uma pequena notinha me paralisou,
informava o falecimento de seu Pires, o fotógrafo. Duas emoções invadiram o meu
peito, a tristeza e um alívio, imaginei que ele havia descansado. Pensei
imediatamente em enviar esta pequena crônica, que tinha em meus arquivos, mas
não fiz. Encontrei com ele em sua cadeira de rodas, no dia vinte e nove de
maio, estava fraco e mostrou um poema
meu que guardava consigo. Poema que só ele tinha e que escrevi especialmente a
seu pedido. Sempre que nos encontrávamos ele dizia: - “É preciso cuidar dos
jovens!” Fico contente em ver estes
programas de combate as drogas e projetos que apontam novos horizontes para a
juventude. O Pires tinha razão, os jovens não tem como lembrar de muitas
coisas, é nosso papel mostrar a eles. Assim como nós não temos uma noção real
do que a juventude de hoje passa, precisamos ouvi-los, deixar que expressem sua
realidade, seus sonhos.
Bom! Deixo com vocês esta crônica antiga e presto
minha humilde homenagem a este meu grande amigo.. Perdi um amigo aqui, mas
ganhei um no céu. 18/05/2009
“Dias melhores
virão.
As marcas da
violência são permanentes. Quem olha o empobrecido fotógrafo em sua cadeira de
rodas, não reconhece nele o homem forte que um dia foi confundido com um
Tupamaro. No fundo dos seus olhos ainda estão presentes o medo e a angústia.
Não virou celebridade, nem enveredou pelos caminhos da fama.
Um dos seus
desejos era de que alguém contasse sua história, seu testemunho de um tempo
cruel e violento, muitas vezes retratados no cinema, na arte, na música. Mas,
esquecido.
Sua voz aos
poucos silencia, sua energia enfraquece... Seus gritos estão gravados nas
paredes de lugares insólitos e são os mesmos dos excluídos de toda a sorte.
Eu queria ter
escrito, ter apreendido um flash desta memória. Minha imaginação não foi capaz
de tanto horror.
Antonio! Ainda
viveremos dias de paz e respeito pelo homem, pela vida.
Oro para que os
anjos iluminem teu caminho. Sempre haverá alguém dizendo esta foi tirada pelo
Pires, o Fotógrafo de Viamão. Ele dizia... “Eu fui torturado!”
Viamão,
20/03/2007”
As Figueiras de Viamão
Hoje consultei
as figueiras sobre a Carta da Terra. Viamão é uma cidade privilegia em
figueiras; na minha rota mesmo tem várias, a mais bela, para mim, fica bem na
entrada do Clube Cantegril. Em um pequeno bosque, que um dia foi um local de
lazer, com churrasqueiras, fica próximo as quadras de tênis e vôlei. Bem ali
temos um santuário que deveria ser tombado como patrimônio ecológico.
Ali indaguei
sobre a sua idade e não questionei sua magnitude, ela do alto de seus galhos
deixou claro que já era uma anciã e no alto de sua sabedoria disse que ainda
estaria ali por muito tempo.
Ontem indaguei
de uma amiga o nome e ela disse chamar-se Maria. Seus olhinhos pequenos e
tristes pediam um prato de comida, eu não tinha ontem, mas lhe alcancei um
bombom. Ela disse que dormiria na rua, estava muito frio... Voltei ao meu chá
quente, mas, minha mente partiu. A carta da terra estava comigo, com toda
aquela benevolência: “ Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma
nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a
sustentabilidade, a intensificação da luta pela justiça e pela paz, e a alegre
celebração da Vida”[1]
Lembrei que
deve fazer quase um ano que a Cássia Eler (?)de Viamão morreu. Era uma noite
muito fria, lembro que escrevi algo sobre, mas, não guardei tamanha vergonha.
Ela vivia bêbada, maltratada e suja. Naquela manhã foi encontrada só de
camiseta na calçada do paradão. Lembro que a Câmara de Vereadores fez um
encontro para refletir sobre a situação dos moradores de rua. Lembro que o Abel
ganhou um blusão vermelho e meias quentinhas e bandagens nas mãos. Lembro de
não ter feito nada. Ontem vim para casa fazer o que achava que era o melhor,
uma oração.
Aí:
“Responsabilidade Universal”; “desafios para o Futuro”; “ Terra nosso lar”.
Perderam ainda mais o sentido.
Quando cheguei
na altura do restaurante as belas figueiras davam guarida as bromélias, aos
cipós e a outras espécies. Mais além, no laguinho artificial, as carpas nadavam
e um pequenino peixe boiava morto, parte do ciclo do lago. Vi uma folhagem
boiando, uma vez ganhei uma muda, vem de muito longe, meu vizinho largou no
lago e estão até hoje lá. Acho que são Vitórias Régias... As caneleiras que
padre Edgar me deu estão bem desenvolvidas, vieram lá da Igreja de Santa
Cecília. O mesmo vizinho foi quem Plantou. Notei que a terra na volta das
árvores da praça estava bem solta e adubada. Desci a Pau Brasil e passei pela
casa do seu José, falecido há alguns anos, aos oitenta e quatro anos. Bem,
naquela quadra ainda estão as folhagens que ele cultivava, até as sementes
secas e o sorriso brincalhão dele. Os pássaros voando, os gatos espalhados e
muita vida. “ O caminho adiante.”
Cheguei em minha
casa e a Figueira que minha família plantou esta bela. O Pau Brasil, que foi
trazido do nordeste por uma amiga minha e que adotamos, já que ele não gostava
do vaso. Perdeu um longo galho na última chuva, mas, passa bem.
Os pica-paus,
que moram no telhado não tem aparecido. Já as borboletas que foram muitas no
início deste ano, talvez estejam em seus casulos... Não sei muito de
borboletas. Nem da Carta, nem do Futuro. Mas das figueiras posso dizer que vão
continuar e continuar e continuar e conti...
Publicado no livro
Raízes de Viamão
Um
pedido de Natal
“Papai
Noel eu queria...
Parou
por alguns minutos. O que queria?
Atravessou
a praça, as folhas das árvores rodavam no chão em pequenos redemoinhos. Uma
semente fina, comprida e coberta com uma película quase transparente, ficou
presa entre seus cabelos. Enquanto soltava a semente viu os cães correndo para
o outro lado da avenida. Os pássaros pousando na frondosa árvore. Os ônibus
passando, o cantor andino conversando com a cigana. O pipoqueiro recolhendo a
carrocinha, o artesão confeccionando uma bela peça de pedras e linha. O gari
brigando com o vento. A feira acabando, livros nas caixas, histórias
adormecidas. Tendas coloridas, fitas, palavras, tudo em movimento.
Harmonia.
Voava o pequeno cartaz para o meio da rua. Escrito numa colorida cartolina.
A
semente foi roubada pelo vento, o cartaz recolhido pelo artesão, as fitas pelo
pipoqueiro. A tenda foi parar com a cigana, os livros com o cantor andino.A
linha foi recolhida pelos pássaros, as pedras pelos cães. As folhas entraram no
ônibus.
As
palavras caíram no texto. A frondosa árvore leu: “Papai Noel eu queria...
Harmonia...
Fernanda
Blaya Figueiró
Encruzilhada
Ele estava diante de uma estranha encruzilhada, nela todos os caminhos eram alternativos. Para chegar ao mar, seu objetivo, teria que trilhar pelo campo ou escolher um caminho que o levasse a uma nova estrada.
Seus pés cansados queriam seguir o atalho, mas uma voz poderosa em seu peito dizia que deveria seguir por uma das estradas. O sol se punha, guiado pela lua e pelas estrelas andou.
Andou, andou, andou... Muitas portas estavam fechadas, muito pão escondido, água aprisionada, ódio nos corações. Ele trazia sandálias nos pés e uma oração na garganta. O Pai enviou a água do céu, o pão dos pobres, a palavra que salva.
Ao amanhecer estava diante do mar. Pensava nos pequeninos, nos discriminados e excluídos, eram tantos ao longo do caminho. O pai, ao seu lado, diante da grandeza do mar, da textura da areia, da tênue luz que iluminava a humanidade, disse: - Filho, no meu reino os últimos serão os primeiros. E o espírito, voando nas asas de uma pombinha, concluiu: - Assim tem sido desde os primórdios.
Escrito em 08/03/2007. Para o Sarau da ALVI em 23/03/07.
Do exílio .
É do exílio
que te falo agora. Não estamos em tempos de guerra, isso eu bem sei. Estou no
exílio por minha ordem.
As correntes
que carrego são pesadas, foram feitas de ouro, contornam todo o meu corpo.
Roubei da
vida o brilho. Da morte, o tempo.
Uma guerra
pessoal, por construir uma imagem, muito próxima do ouro e das meias de seda.
Estou com a
vassoura na mão, para recolher meu lixo; as grades do meu exílio se tornam cada
dia mais altas.
Não vá logo
concluindo que eu tenha de fato tomado posse de tanto luxo. Meu lixo é que
contém muito ouro.Do trigo ao ar puro.
Foi a ferro e
fogo ardente que me marquei.
O ferro
queimando, como ao gado, foi tão fundo e tão sistemático... As correntes
preenchem agora cada sulco na pele.
Pelo excesso,
pela inércia.
Somos todos
exilados nas grandes cidades.
Ruas
sinistras, onde só tem acesso os eleitos, os guetos.
Meu jardim.
Cercado e selvagem jardim, habitado por adoráveis
animais .
Daqui ,então,
que te falo agora.
Esta missiva
tem a pretensão de propor dias melhores.
- A senhora aceita um
chá?
- Um chá?
A Lata
- Rique ! Rique Sho, olá?
– Uma mulher aparentando pouco mais de trinta anos olhava para ele. Usava um
terno preto cortado de forma clássica, em tecido fino, que lhe caia muito bem.
Não era exatamente magra. Bonita, mas não exageradamente. Como ele tinha
esquecido de quem se tratava?
- Olá! – respondeu
aturdido.
-Não me reconhece? –
indagou ela. Sou eu, Silene!
- Silene Colom! Sim,
claro?
Os dois se
abraçam longa e ternamente. Trocaram energias e fluídos. Ele estava confuso
lembrava vagamente dela. O sobrenome veio em sua mente como um complemento,
mais ou menos como: Cola, em Coca-cola.
- Meu Deus, como você
está bem! O que tem feito?- perguntou a estranha figura.
- Escrito, escrito,
escrito... E você? – responde ele, como uma rota de fuga, ou talvez em busca de
pistas.
- Lido, lido, lido...
Entre outras coisas tudo o que você escreve.
-E então?
Um prolongado
e, ameaçador silêncio permeou a interação.
Pisavam um campo minado. Logo Rique percebeu que não tinha sido uma boa
pergunta, mas sustentou o silêncio.
- Devo confessar que
gosto de algumas coisas. – respondeu a mulher, medindo cautelosamente cada
palavra - Acho que você tem evoluído com
relação ao uso das palavras, o seu texto está mais leve, atraente, mas quanto
ao conteúdo: não sei, me parece vazio. Como já comentei em vários artigos...
- Maravilha! Era tudo que
eu queria ouvir. – respondeu, para espanto de sua interlocutora.
- Como assim?
- Tenho buscado
exatamente esta liberdade. Este desprendimento entre o ato de escrever e uma
construção ideológica. Esta tradição retórica que faz com que o texto ganhe um
novo sentido a cada momento, a cada leitura. Não quero discípulos, não quero
participar de uma escola, entende? – estava diante de Silene Colom, a crítica
mais estúpida que ele já tinha conhecido, quer dizer que ele definitivamente
nunca tinha conhecido. E estava gorda; e o terno estava desajustado; e era bem
mais bonita do que nas fotografias dos jornais, o que não fazia com que fosse
bonita...
- Entendo, mas não
concordo. Mesmo o vazio é uma construção ideológica, uma imagem criada e cheia
de significados...
- Não! Não nego os
significados, mas se posso procurar uma escrita consistente, também posso
desenvolver uma escrita vazia. Um mero exercício de minhas faculdades. Assim
como você pode ler, sem necessariamente tomar para si aquele objeto de leitura
e a verdade nele contida.
- Adorei conhece você
pessoalmente, mas meu tempo acabou, Você não vai?- interrompeu ela.
- Onde? – respondeu ele,
já com uma profunda irritação na voz.
- Para A Lata, o evento
cultural mais importante do ano. Você não foi convidado?... Desculpe-me, eu não
tinha como saber...
- Eu fui convidado, mas
não sei se vou poder ir. – Um blefe, sem muita importância. O convite pode ter
extraviado, quem sabe durante a greve dos carteiros... Ele se despediu dela e
ficou lembrando de todas as vezes que quis quebrar seu pescoço, esfolar suas
unhas, vê-la sofrendo. As noites de sono que perdeu remoendo o amontoado de
palavras hostis dela. Pensava nisso quando seu telefone tocou, no outro lado da
linha, o editor gritava desesperado ao seu ouvido:
- Como você esqueceu de
sua palestra. “A Lata”, você sabe o que significa? A LATA...
Eclipse
O Dragão assombrou minha noite mais uma vez. Acordei com a roupa
suja. As notícias sobre eclipses sempre me atormentavam. Era terrivelmente
belo. Eu estava só, no campo, o céu me trazia uma sensação de infinitude, de
dissolução. Tirei a roupa e deitei de frente para aquele mar de estrelas. Os
cavalos pareciam estar mais agitados naquela noite clara, os bezerros
desmamados choravam como crianças e as vacas respondiam, num lamento de dar dó.
O eclipse já tinha passado, mas a minha inquietude não. Nos meus sonhos o
dragão cuspia fogo pelas narinas. Acho que tinha a ver com São Jorge. O medo
estava voltando e a noite seguia. Meu
corpo nu e entregue ao prazer. Minha alma atormentada. O dragão cavalgando o
céu e o Olho de Deus atento a tudo.
Verme!
Rastejei para dentro do galpão. O que seria de mim, maldito aos doze anos?
A fusão das verdades
Agora que sei
que todas as palavras já foram ditas e todas as combinações feitas. Perco a
pretensão de disser algo novo, deixo para trás os vícios e verdades dos
ensinamentos. Fico com uma leve sensação de liberdade.
E o sol vai
se pôr vermelho entre árvores e casarios. Vai nascer amarelo refletido em algum
espelho da terra.
Descontos
A pequena
casa estava com a porta e a única janela fechadas. As paredes sem tinta
expunham a madeira desgastada pelo tempo. O ar de abandono não combinava com o
ritmo acelerado da estrada. O entorno empobrecido apontava a decadência do
lugar.
Vinha com a
foice em uma mão, brincando com o espaço, ceifando imaginárias nesgas de ar.
Com a outra carregava um saco de estopa. Camisa surrada, bombachas e
alpargatas. Não usava chapéu, nem sabia dançar floreado. Cabelos brancos em
contraste com a pele. Nos olhos uma indagação: Até quando?
O véu da
noite desceu sobre a cidade, sem lua e sem estrelas. Nos fundos da casinha
ainda podia ver um pouco de noite escura, sentir um pouco do mistério da vida.
Sem o brilho falso da luz do homem.
Sozinho!
Sentou na cadeira de vime, eliminou aos poucos do ouvido treinado o som
grotesco da estrada. Uma prece silenciosa, na linguagem dos anjos.
-Senhor!
Desconta o mal que um dia eu, com estas mãos e com este pensamento, cometi.
O pasto que
carregava no saco colocou na cocheira. A foice guardou com carinho no prego.
Água no bebedouro. Entrou pela porta dos fundos. Com os gravetos acendeu o
fogo, esquentou a sopa. Estava cansado.
Da pequena
janela viu o alazão galopando. A lua apareceu e uma cauda de estrelas iluminou
o seu caminho. Sorriu! Um dia ele vai me levar, pensou. Um dia meu alazão vem
me buscar!
O criador de mundos.
O canto das
cigarras distraia Pascoal; o calor, no início do ano de dois mil e sete, estava
superando todas as marcas, mesmo para os especialistas, que esperavam por esta
reação. O jovem olhava pela janela da sala de aula; estava pendurado em
matemática, física e filosofia. Sentado em uma cadeira dura, tinha, a sua
frente, o livro aberto, um lápis e uma caneta. O professor suava, com o giz
entre o indicador e o polegar, falava sobre a importância da ciência nos dias
atuais e na necessidade da formação de pensadores, rabiscava palavras no quadro
e fazia diversas perguntas.
Pascoal
acompanhava atentamente, com o olhar, os movimentos do mestre. De sua cadeira,
sentiu o cheiro do mar. O estrondo das ondas fez com que sua prancha invadisse
o ambiente. Sentiu-a em seus braços_ leve e macia. Sentiu a pressão no
tornozelo, ao prendê-la. A água jogava seu corpo para cima, e a calmaria
permitia que nadasse deitado sobre ela. Chegando até as desejadas ondas. As
belas ondas... No momento exato: estava em pé, sobre ela. Esperando, sentindo,
respirando. O mar respondeu, produzindo uma enorme onda. Pascoal sobre sua
prancha percorria o tubo de água clara e salgada, sentia a espuma em sua pele,
o vento em seu rosto...
- Você não
está me ouvindo, rapaz??? – interrompeu, irritadíssimo, o professor.
- Sim, estou.
O senhor pode repetir a pergunta?
- Para você
quem é Deus?
- O Criador.
– respondeu o rapaz, com uma segurança que espantou o professor que, na
dúvida,reprovou o aluno.
Hoje Pascoal foge; foi acusado de causar danos permanentes ao planeta. Inventou
Ozônio, um gás que os homens estavam, aos poucos, destruindo. No início, ficou
conhecido como o criador de mundos. Pois o gás era fundamental para a continuação
da vida no planeta Terra. Mas não contava que os cientistas iriam produzir uma
grande, ou enorme quantidade dele. Sol, hoje, era um privilégio de pouquíssimas
partes do planeta, havia uma densa camada de ozônio que impedia a passagem dos
raios do astro rei.
Pascoal era caçado, vivo ou morto. Deveria pagar, deveria retificar, deveria
sangrar. Foi encontrado nas colinas de Santa Ana. Ninguém quis saber das
advertências que fizera, dos inúmeros memorandos que enviou, nem das tentativas
de reparação...Queriam sua pele..Esticada num pandeiro.
O juiz furioso gritava ao dar a sentença: - Você não está ouvindo????
Pascoal sorria, numa linda manhã
ensolarada, á beira da praia... O criador!
Marco zero.
Vanilda
estava decidida a zerar o marcador da vida. Como se isso fosse possível.
Chegava ao fim mais um projeto.
As mudanças
na administração do estado trariam um longo período de retrocesso. Olhou mais
uma vez para o prédio, se aquelas paredes pudessem falar, o que diriam?
Alexandre estava escorado
no portão, olhava a fachada e imaginava tudo o que estava por vir. Tinha
certeza que o fechamento da Casa de Cultura era uma retaliação, uma vingança
barata, já que levava o nome de um antigo político do partido opositor ao que
governava agora.
No local
seria construída uma garagem, o centro da metrópole não tinha mais espaço para
estacionamento.
O antigo
prédio estava condenado.
Um garoto
chegou perto dos dois e pediu uma moeda. Eles hesitaram, mas Alexandre deu a
ele todas as moedas que tinha. O garoto recebeu e saiu, sem agradecer ou mesmo
olhar para ele. Vanilda achou o menino arrogante, chamou-o e indagou dele por
que não havia agradecido.
- Por que eu
teria que agradecer?- ele respondeu em tom debochado.
- Porque você
recebeu o que pediu, - disse Vanilda indignada.
- Eu morava
aqui. Todos os dias via à senhora chegando, via ele – disse o garoto apontando
para Alexandre.- Todos os dias eu comi os restos que vocês deixavam no lixo,
fumei os tocos dos cigarros e bebia as sobras. Eu vivi aqui e ninguém nunca me
cumprimentou. Vocês misturavam o lixo, comi muita torta com papel higiênico. E
nunca fui chamado para assistir a uma peça de teatro, ou para um vernissage, ou
para ler um livro. Mas eu sempre estive lá. E ninguém nunca me agradeceu.
- Como assim?
- Indagou perplexo Alexandre, primeiro pela linguagem do garoto. Segundo pelos
fatos que ele enumerava e pela precariedade daquele diálogo.
- Vocês
querem conhecer onde eu morava?
- Sim.
Respondeu imediatamente Vanilda.
- Venham
comigo, disse ele dirigindo-se para os fundos do prédio.
- Como é seu
nome?- perguntou Alexandre.
- Marcado.
- Marcado? –
indagou Vanilda.
- É. Eu sei,
parece uma sentença, mas é o que eu sou – respondeu o garoto, com um olhar
desafiador. Até os “cana” me conhecem assim.
Marcado levou
os dois a um pequeno portão, que ficava nos fundos do antigo prédio, escondido
pelos botijões de gás. Ele servia de entrada para o porão da antiga casa. Ali o
garoto se escondia.
- Há quanto
tempo você mora aqui? - perguntou ela surpresa.
- Há anos. Eu
era da “Boca do Lixo”. Mas roubei um cara, um chefe e ele me “juro”. Eu
tive que caí... Tava vagando e um dia vi a senhora correndo atrás de um rato...
Gritando feito uma louca, eu entrei aqui e fingi que ia ajudar e encontrei a
entrada do porão.
- Isso faz
muito tempo!- falou Vanilda.
- Faz.
Respondeu Marcado...
O porão era
um espaço enorme. Tinha vários objetos depositados. Um bico de luz no fundo
produzia uma iluminação bastante precária. No chão o garoto havia colocado
vários papelões que serviam de cama, sobre eles haviam alguns panos e pedaços
de cobertas. O bico de luz estava sobre uma caixa. O cheiro era de pano podre.
Um violão estava sobre a cama de Marcado, mais alguns livros e um caderno.
- Você toca?
- perguntou Alexandre.
- Toco –
respondeu ele. - Aprendi ouvindo as
aulas dos bundinha... Eu também li todos os seus textos.
- E gostou?
- Alguns...
Fiquem quietos...
Marcado fez
um sinal para que eles o seguissem, abriu um pequeno buraco pelo qual podiam
ver uma das salas. Vanilda viu sua mesa, um funcionário da empresa de
transportes abria as gavetas e fazia uma imitação grotesca de seu jeito de
falar para um outro funcionário.
- Você me
vigiava? – indagou Vanilda.
- Sempre, você é muito
divertida - disse ele rindo e imitando o jeito atrapalhado de Vanilda. – Eu fui
preso duas vezes, mas sempre fugi e voltei pra cá, passei uns tempos com os
padres outros na casa espírita... Eu sei tudo Linda. Concluiu o garoto
- Linda? -indagou
Alexandre.
- Bobagem! Um apelido
–respondeu Vanilda. Vamos?
- E eu? - Marcado olhava
para os dois - O prédio vai ser destruído. Vocês vão perder a “teta” e eu?
- Sei lá - respondeu
Alexandre - a gente nem sabia que você existia. Você viveu todo este tempo sem
precisar de ninguém...
- É assim, Drê? – provocou
o menino.
- Deixa de frescura! -
respondeu com voz firme Alexandre.
Os três
saíram do pequeno esconderijo. Vanilda e Alexandre estavam constrangidos,
atordoados, invadidos. O garoto demonstrava saber muito sobre os “segredos” de
cada um. Os apelidos que ele mencionara eram particulares e a cada um enviava a
um universo diferente. Linda era a forma como a família chamava Vanilda. Drê era como uma aluna que tinha uma “relação
especial” com Alexandre o chamava.
- Vocês sabem
que o prédio vai virar um estacionamento e que quem vai construir é um amigo do
tal de Soares? - perguntou o garoto cheio de malícia.
- Olha aqui –
interrompeu Alexandre irritado com a situação. - Eu não sei de nada e não quero
saber. Ouviu?
- Muito menos
eu, falou Vanilda. E se você acha que vai ganhar algo com estas insinuações,
cuidado! Essas coisas não são brincadeira.
- Eu sei,
disse Marcado. A senhora não precisa se preocupar comigo, eu me viro. Mas
aquela sua filhinha não deve saber de nada da vida.Tão mimada...
- Sai daqui
antes que eu perca a paciência – ordenou Alexandre.
O garoto saiu
e deixou os dois sozinhos em frente ao prédio. Observando a fachada Vanilda
pensou em quantas vezes tinha subido os degraus, entrado no pequeno hall,
aberto a porta e entrado na ante-sala. Tinha o hábito de olhar tudo antes de
descer a escada de madeira. Pela manhã, durante o inverno, sua sala ficava toda
iluminada. Já no verão recebia a sombra do prédio vizinho. O piso de taboão
fazia um barulho seco sobre seus sapatos. Ouvia cada um de seus passos.
No andar
superior aconteciam as oficinas e eventos: exposições, saraus, concertos. E
todo este tempo aquele menino enfiado naquele buraco. Não conseguia imaginar.
Estava mentido, certamente estava mentindo.
- Ele está
mentindo, - disse Alexandre.
- Eu estava
pensando isso - disse ela - O garoto não pode ter morado anos num prédio
público e ninguém ter notado.
- O papo dele
também, muito cheio de coisa, muito apurado.
- Quem será
esta peste? – indagou Vanilda.
- Não sei.
Bom, eu vou indo. Amanhã começo no meu novo cargo: professor de música da
escola aberta. Depois de ensinar violão clássico, para os melhores...
- E eu, que
fui remanejada para a Delegacia de Educação. Agora me diz o que eu vou fazer na
delegacia?
- Sei lá,
arquivar documentos, tomar cafezinho, - disse Alexandre em tom irônico.
- Logo eu que
detesto burocracia – respondeu ela.
Os dois
amigos se despediram com um certo pesar, já que suas vidas iam tomar caminhos
diferentes. A sensação de mudar tudo era muito ruim. Se tivessem ficado na
mesma área, mas estavam sendo jogados em lugares onde não eram necessários. O
novo governo não tinha interesse em que se mantivessem unidos, a equipe toda
era muito forte e profundamente comprometida com as diretrizes da administração
anterior.
Linda abriu a
porta do carro e quando colocava o cinto de segurança sentiu a presença do
garoto ao seu lado. Ela acenou para ele e pediu ajuda para manobrar, na saída
abriu a janela e lhe alcançou uma nota de dez reais. Não entendeu direito por
que tinha feito aquilo. Ele sorriu e agradeceu com uma frase que ela não
entendeu: te vejo amanhã, Linda!
Pelo
retrovisor viu o prédio ficar perdido no tempo.
Passou numa
lanchonete antes de voltar para casa e pediu hamburguês, fritas e tortinhas.
Estava pronta para preencher o seu “vazio existencial”.
Algum
marcador tinha que ser zerado entrou em um boteco e comprou tinta para o
cabelo. Estava pronta para olhar no espelho a nova Vanilda.
A Implosão.
O antigo
prédio seria explodido ao meio dia. Alexandre pegou a máquina de fotografias e
correu para lá, queria registrar tudo. Antes, durante e depois. Estava apegado
aquele lugar. Ao chegar lá encontrou Linda e Marcado. Ambos sorriram para eles.
Alexandre achou graça, pois o garoto tinha “adivinhado” que eles se reencontrariam
naquela manhã.
Linda tinha
ficado muito bem com os cabelos dourados, combinava com o tom de sua pele, de
um branco aleitado. Os dentes pequenos, levemente amarelados, apareciam no
sorriso encabulado que Alexandre eternizou em forma de fotografia. Um contraste
com a cor de terra do garoto, que aparecia em segundo plano. Marcado tinha o
tom de pele das pessoas do oriente. Os olhos negros, o nariz alongado e um
sorriso largo. Tinha uma expressão muito forte, cheia de malícia, como todo bom
malandro. Mas ao mesmo tempo uma doçura no olhar.
Faltavam
quinze minutos para o meio dia e Alexandre pediu a um dos bombeiros, que
acompanhava a operação, que tirasse uma foto dos três em frente à porta de
entrada, da qual restara só o arco de alvenaria. Todas as aberturas tinham sido
removidas, no dia anterior, pois eram de madeira de lei e valiam muito nos
antiquários.
Os bombeiros
pediram a eles que atravessassem a rua e mantivessem a distância recomendada.
Uma fita de plástico foi estendida, interditando a área. Vários curiosos,
inclusive a imprensa, cercavam o lugar.
Ao meio dia
em ponto a implosão aconteceu, rápida e violenta. Em segundos o prédio desabou
inteiro. Restaram um amontoado de caliça, uma nuvem de pó e muito espaço. A
paisagem mudou completamente. A rua ficou como o sorriso de uma pessoa sem os
dentes da frente. Um caminhão e uma retro escavadeira aguardavam para retirar
os escombros. Estava cumprida a jornada
da edificação.
Alexandre
convidou Linda e Marcado para almoçar. O garoto agradeceu, disse que não se
sentia bem em restaurantes, preferia que ele lhe desse o dinheiro e buscava
algo na padaria. Então eles acabaram optando por também fazer um lanche rápido
e informal, queriam especular a história dele.
O garoto
pediu um xis e uma cerveja. Alexandre e Linda não concordaram com a bebida.
Linda questionou sua idade.
- Quatorze
anos. - respondeu ele.
- Você sabe o
dia que nasceu? - perguntou Alexandre.
- Vinte e
cinco de dezembro. Minha mãe sempre brincava comigo que eu fazia aniversário no
mesmo dia de Jesus.
- Onde sua
mãe está? - Linda pensou antes de formular esta pergunta, certamente a resposta
não devia ser muito boa.
- Presa. No
IPF. Ela matou um cara.
- Como ela se
chama?
- Ismália.
- E você vai
visitá-la?
- Não. Ela me
odeia. Por causa do cara que ela matou.
- Era um
conhecido? - perguntou inocentemente Alexandre.
- Era o
“Homem” dela, mas o cara era um baita tarado... Ele era chegado numa “rosca”...
O garoto fez um gesto unindo a ponta do polegar com o indicador.
Linda tentou
interromper a fala dele antes que piorasse e as outras pessoas ouvissem, mas
não conseguiu. Um constrangimento foi se tornando inevitável.
- Ela chegou
em casa e viu ele com uma galinha no p... Marcado segurou e sacudiu a
genitália, em movimentos compassados.
- Que horror.
Exclamou Linda.
- Eles
discutiram e o cara, que tava pra lá de chapado, contou que fazia o mesmo
comigo e com minhas irmãs... Ela enlouqueceu... Quebrou tudo e colocou fogo na
casa. Minhas irmãs estavam dormindo e morreram junto. Eu nunca gostei daquilo,
achei bem feito... Que dizer... Eu tinha um amigo que às vezes a gente fazia...
E era bom... Mas era diferente... Cada um fazia o do outro e nem doía, era até
divertido... Hoje só se me pagarem... E não aceito esfregação...
- Quer mais
alguma coisa, Marcado? – interrompeu Alexandre.
- Posso
levar?
- Pode. Eu
vou pagar e tenho que ir embora...
- Eu também,
disse Linda.
Ambos se
despediram do garoto e foram para seus novos empregos. A forma como ele contava
aquelas atrocidades todas era estranha. Agia como se tivesse entrado no
automático. Seus olhos ficavam esvaziados, sem expressão. E as palavras
pareciam como uma fita rodando, sem sentimento. A fala era desconexa, não tinha
exatamente a intenção de comunicar. Como se falasse para si mesmo.
Logo em seguida Alexandre
ligou para Linda, precisava falar sobre aquilo, os dois acharam que tudo não
passava de uma fantasia dele. Mas ao mesmo tempo ficaram preocupados, pois o
garoto tinha demonstrado uma fixação neles.
Linda
imaginava de onde ele conhecia sua filha. Porque na manhã anterior havia citado
ela?
E o namorico
de Alexandre com a aluna, passava a parecer uma perversão, nas insinuações do
garoto. Até por que ela tinha quinze anos, teoricamente uma criança. Alexandre
sabia que eras “mais rodada” que muita mulher velha, o que não justificava de
forma alguma a atitude dele.
Alexandre
entrou na escola e logo viu uma realidade bastante parecida com a narrativa do
Marcado, ficou imaginando o que cada um daqueles pequenos passava. Roupas
desbotadas, narizes sujos, unhas encardidas. Até o cheiro de alguns era ruim,
não dava para saber se era suor, urina ou fumaça. Ou tudo junto. Ele usando um
perfume caríssimo, uma calça jeans escura e uma camiseta justa, destoava
completamente. Os garotos usavam calças largas, caídas, camisetões e bonés, as
meninas a mesma coisa.
A primeira
reação deles ao vê-lo foi impressionante. A diretora da escola entrou na sala e
informou que ele era um dos maiores músicos da cidade e que estava ali para
ensinar violão e técnicas musicais. Um dos meninos levantou e disse que não
ficaria na aula do boiola. Ela disse que não tinha problema, que só
ficasse quem quisesse. Todos os alunos levantaram e saíram.
Alexandre
ficou sozinho com a diretora, que foi logo dizendo que não queria ele ali e que
assim que fosse possível pediria sua transferência. Mostrou lhe a sala dos
professores, apresentou-o a alguns colegas. Disse que deveria assinar o ponto e
ficar a vontade. Enfatizou o quanto estava indignada por terem “largado” ele em
suas mãos. Aline, a professora de artesanato, se aproximou dele e perguntou se
podia aprender violão.
- Claro.
Respondeu ele. Fico feliz em ver que alguém aqui quer aprender alguma coisa.
- Não te
assusta. O maior problema aqui é a baixa estima. Todo mundo tem uma expectativa
ruim. E a “Janete” é mergulhada na ideologia do partido. Jamais vai dar o braço
a torcer, pois eles queriam o pescoço de vocês.
- Eu sei, se
eu pudesse nunca teria entrado em partido ou me vinculado a uma tendência. Já
fui discriminado de tudo que é jeito.
- Nem sei
como não tiraram vocês.
- Por que no
nosso grupo tudo mundo é concursado. Eu sou professor de música, estava cedido
para a secretaria de cultura.
- Eu tenho
acompanhado os teus textos, acho muito legal. E também comprei os teus dois Cds.
- Nem
acredito. Acho que se eu vendi uns “quatrocentos” foi muito...
- O pessoal
não gosta de música alternativa, mesmo de quem já tem fama.
- Você está
de folga Aline?
- Não, minha
oficina começa no próximo período. Mas se eu pudesse te dar um conselho seria:
vai pra tua sala e mata tempo lá, pois isso aqui no intervalo vira uma guerra.
E como “eles” estão por cima da carne seca. Vão te trucidar, falando mal do
governo anterior.
Alexandre
resolveu aceitar a sugestão, Aline era um doce de pessoa, baixinha, gordinha,
simpática e cheia de vida. Ele achou que ela tinha um jeito de fofoqueira, não
sabia avaliar se tinha se aproximado para ver se ele falava mal do partido que
tinha assumido ou se queria ajudar. Ele já era “escolado”, nestas formas de relação.
A sua sala
era um pequeno canto de um corredor, fechado por uma divisória. Ali tinha um
quadro negro, uma mesa com uma cadeira giratória e dez cadeiras dispostas em
meia lua. Nas paredes toda a forma de pichação. Sendo a mais nova com as
seguintes palavras: Fora bichona! Em vermelho, para que todos pudessem ver.
Alexandre
colocou a pasta sobre a mesa, limpou a cadeira imunda e afinou o violão. Pela
janela via a praça, o pipoqueiro e Marcado.
Sentiu um
frio na espinha. O que ele estaria fazendo ali?
Alexandre
ficou observando, com o cuidado de não ser notado. O garoto olhava para o seu
carro, espiava a porta da escola, falava com o pipoqueiro, trocava um pacote
por algo que parecia dinheiro. Quando os brigadianos passaram se escondeu atrás
de um monumento. Logo depois abriu um bueiro e entrou nele.
O sinal
tocou, Alexandre pegou suas coisas e foi embora. Pelo retrovisor viu o menino
rindo e cuidando todos os seus passos. O aluno que se recusou a ficar em sua
aula estava conversando com ele e soltando altas gargalhadas.
Pensou em
ligar para Vanilda, mas achou melhor ficar quieto com suas suspeitas. Tinha que
comprar um presente para Marina, um problemão, por que ela não gostava de nada
e tinha praticamente tudo. A cada data que passava tinha que dar um presente
melhor. Pois ela sempre achava chinfrim. Não podia dar perfume, pois ela achava
impessoal, não podia dar sapatos por que ela não usava sapatos e sim marcas e
tendências. Se desse uma coisa para a casa ouviria um longo discurso, sobre a
banalização da mulher. Se desse lingerie era uma ofensa, se desse chocolate uma
indireta. Se desse um vale, uma vez fez isso, era o próprio “troglodita”.
Estava de saco cheio disso. Ele já tinha mandado entregar um buquê para ela no
Tribunal. Pensou numa jóia ou num casaco.
Ligou para o filho e
perguntou o que ele achava. Dimas tinha cinco anos. Respondeu que ela queria
uma viagem. Como ele nunca tinha pensado nisso. Uma viagem, para onde? Pra
Bahia, né pai. Lógico ele respondeu. Quando? No próximo feriadão. Sete de setembro
na Bahia, Ótimo. Entrou na primeira agencia e comprou as três passagens. Com a
condição que se ela não gostasse poderia trocar, adiar ou desistir.
Passou no boliche o
pessoal estava lá, enchendo a cara e mentindo muito, para a alegria de todos. Ele
ficou por um tempo ali e na saída viu Marcado no outro lado da rua. Vanilda
saía do Bistrô, com a filha, o marido e a irmã. Alexandre acenou para eles e
fingiu que não tinha visto o garoto. Linda gritou que precisava que ele
revisasse uns textos para ela. Alexandre viu que não passava de um pretexto
para se encontrarem. Combinaram de almoçar juntos no outro dia. Ingrid A filha
de Vanilda parecia uma modelo, esguia, corpo bem definido, cabelos perfeitos.
Alexandre observou a fixação do garoto por ela.
Teve certeza de que eles
corriam perigo. Marcado era como uma sombra. Espiando, controlando seguindo os
passos deles.
Marina adorou o presente,
Dimas tinha acertado na mosca. Os pais dela e alguns amigos ligaram e acabaram
decidindo sair junto para jantar.
Alexandre entrou no carro
preocupado. Já imaginava que Marcado estaria por perto. Nunca imaginou que ele
abordaria o carro e daria um presente para Marina. Uma rosa vermelha. Pediu uma
moeda, ela lhe deu o dinheiro e agradeceu.
Alexandre passou todo o
jantar apreensivo, mas ninguém notou nada. Ao chegar em casa falou de suas
suspeitas e de tudo o que o garoto tinha contado. Marina conhecia toda a
história dele. Tinha julgado o processo da mãe dele e o marido de Vanilda tinha
sido o promotor do caso.
Tudo o que o garoto disse
tinha acontecido. Os abusos, a morte do abusador, a morte das irmãs. As
passagens dele pelas unidades para menores infratores, pela escola aberta,
pelos centros de reabilitação da igreja e das associações espíritas. A jura que
recebeu por brigar com um traficante, que hoje estava preso.
Alexandre achava que eles
deveriam comunicar os fatos para alguém. Marina pediu para ele não se meter,
disse que no outro dia ia procurar uma assistente social e solicitar que desse
uma olhada nos documentos do Conselho Tutelar e do Juizado de Menores. Ela
Estava muito feliz e não queria estragar a noite com trabalho. Fazia tempo que
não se olhavam de verdade. Que não namoravam, a noite terminou de forma
inesperada, Alexandre e Marina entraram em sintonia, como se fossem jovens
apaixonados.
A
sombra.
Alexandre
chegou na escola e Marcado estava esperando sentado na primeira cadeira. Tinha
um violão encostado na cadeira ao lado.
Pela marca na
cabeça do violão Alexandre reconheceu um velho instrumento seu.
- Eu não
roubei. Você jogou num canto lá no depósito da casa de cultura - disse Marcado.
- Eu vou ser
bem franco, não estou gostando nada disso. O que você faz seguindo a mim e a
Vanilda?
- Nada. Eu
não tenho nada pra fazer. Minha vida é vazia de sentido. Como eu li uma vez num
dos teus textos. Eu não tenho uma mulher juíza, um filho, uma namoradinha
boazuda...
- O que você
quer?
- Nada. Eu
vivia lá com vocês e nas horas de folga achava divertido ver o que acontecia
quando vocês saíam de lá. Um dia eu acompanhava você, no outro a Linda e às
vezes aquela tetéia da filha dela. Até o Promotor eu já espionei. Tomando
cerveja, jogando bola, dirigindo bêbado, dando uma passadinha no cabaré da Tia
Carmem.
- E hoje. O
que você está fazendo aqui?
- Isso aqui é
uma escola de freqüência livre. Eu venho aqui quando eu quero, assisto a
algumas aulas e filo a bóia. Às vezes venho jantar também... Mas aí é mais
complicado, por que eles querem prender a gente aqui. Como nos albergues, que
eles obrigam a tomar banho e fica de cara limpa.
- Eu estou
aqui para dar aula e se você está aqui para aprender eu vou ensinar. Mas quero
que você se afaste da minha família e da Linda também, senão eu vou prestar uma
queixa. Entendeu?
- Não precisa
ficar nervoso. Eu não quero fazer mal para ninguém. Eu gosto de vocês.
- Toca uma
alguma coisa.
- Vou tocar a
que eu mais gostava de ouvir... Drê.
Alexandre
ficou emocionado com a música escolhida, com a perfeição com que o garoto
tocava o violão. Com a magia de sua voz. A letra da música falava em sombra,
água fresca e uma vida boa. A melodia refletia um mundo de paz e harmonia, sem
sobressaltos, sem mudanças bruscas. Era toda num único tom, melódico e
levemente feliz.
- Você toca
muito bem, pode ser um grande artista, só precisa de um nome.
- Evandro.
Filho de Ismália. É um prazer. O garoto estendeu a mão para ele.
- Então este
é o seu verdadeiro nome.
- Não, é o
nome que os padres me deram. Eu não gosto do meu verdadeiro nome.
- Qual é?
- É muito
horrível... Que você achou?
- Está muito
bom só um pouco acelerado. Essa música é bem cadenciada, mas a posição dos
dedos, o toque nas cordas está muito bom.
- A Vanilda
tocava uma outra que eu gosto muito. Mas não consegui tirar.
- Você tira
de ouvido?
- Sim, mas eu
conheço as partituras, até peguei umas quer ver?
- Quero?
Evandro pegou uma pasta com várias partituras e letras de
música. Inclusive raridades que estavam arquivadas no antigo Centro de Cultura.
- Onde você conseguiu isso tudo?
- No depósito. Sendo comido pelos ratos.
- Inacreditável. Então vamos começar com o que significa
cada parte e para que serve.
Alexandre deu
uma aula completa para o garoto, a relação entre eles havia mudado. O medo e a
desconfiança foram virando admiração e uma certa cumplicidade.
Naquele
momento ele se via tentado a adotar o garoto. Não disse nada, mas pela primeira
vez via Marcado como um adolescente.
Vanilda já
estava no restaurante quando Alexandre chegou. Os dois se cumprimentaram com
muita alegria, sentiam falta um do outro. Ela trazia um caderno e um envelope.
- Que isso?
- O motivo do
nosso encontro. Respondeu Vanilda.
- Eu preciso
te contar um monte de coisas. Descobri que o Marcado tem um nome: Evandro. Ele
vem nos seguindo, ontem eu saí com a Marina, o Dimas, os pais dela e mais uns
amigos. Ele parou o carro e ofereceu uma rosa para Marina, parecia que sabia
que era seu aniversário.
- E sabia.
- Como assim?
- Termina de
contar que eu te mostro.
- Bem falei
com a Marina sobre ele e ela me disse que conhecia toda a história.
- Claro, ela
julgou o caso da mãe dele e o Jéferson foi o promotor.
- Ele te
falou?
- Não. Está
tudo escrito pelo garoto neste caderno. Que foi deixado na caixa de
correspondência lá de casa. E o envelope, que estava junto, tem uma infinidade
de fotos.
- Fotos?
Deixa-me ver.
- Aqui não.
Tem umas muito nojentas. Tuas com aquela frangainha tem um monte. Do Jéferson,
nem sei como consegui olhar pra ele... Até minhas.
- Tuas?
- Limpando
nariz, fazendo carreta, coçando o bumbum, devorando tortas e mais tortas, até
vou começar uma dieta urgente. De frescura com as minhas amigas, bêbada.
Furiosa, brigando no supermercado. Outras bem comportadas. Até pintando o
cabelo, dentro do banheiro da minha casa. Foi aí que me apavorei. Como ele
conseguiu?
- Hoje ele
foi lá na escola, me pareceu um garoto como qualquer outro. Toca violão como se
tivesse estudado anos. E aprende rápido, muito rápido.
- Eu estou
assustada, não sei o que fazer.
- Mas porque
ele teria te enviado tudo isso? Será que tem mais alguma coisa, o que pretende?
- Eu acho que
quer alguma vingança. Destruir nossos casamentos. Pode achar que temos culpa de
alguma coisa?
- Do que?
- Vai saber,
até de levar uma vida boa. Já que a dele é “infernal”.
- Chegou a
falar com o Jéferson?
- Não. Eu vi
ontem e as crianças estavam por perto. Não vou tá criando pânico em todo mundo.
Os dois
estavam confusos, embaraçados. Resolveram mostrar tudo para Jéferson e Marina.
Afinal eles deviam estar envolvidos de alguma forma. Terminaram o almoço sem
comer praticamente nada. Marcaram de se encontrar à noite na casa dela.
Alexandre levaria Marina.
Ele pediu as
fotos, para olhar com calma e decidir o que fazer. O caderno era todo em
tópicos e não tinha nada de conclusivo ou comprometedor. Registrava letras de
músicas, recortes de jornais, convites, folders, o histórico do julgamento nos
jornais. Mas as fotos eram impressionantes. Não pareciam ser tiradas com câmera
digita e a revelação devia ter custado muito caro. Em algumas aparecia com a
aluna em situações realmente comprometedoras. Notou que quase todas eram de
períodos recentes a implosão do prédio. Talvez duas ou no máximo três semanas
antes. A tarde foi de muita apreensão para os dois. Eles não viram mais o
garoto.
Às oito horas
eles se reuniram na sala de estar do apartamento de Vanilda. Alexandre havia
selecionado as fotos. Mostrando as menos comprometedoras. Inclusive ele disse
para todos que só tinha trazido algumas.
Jéferson e
Marina acharam que eles estavam fantasiando muito, que um garoto por mais
malandro que fosse não passava de um garoto. E eles já estavam imaginando
seqüestro, chantagem, espionagem. Marina disse que havia falado com uma
assistente que tinha garantido que o filho de Ismália, Evandro ou Marcado havia
sumido. A polícia tinha quase certeza de que ele tinha morrido, só não haviam
encontrado o corpo. Baseado no depoimento de outro menor que tinha mencionado o
crime, que teria sido praticado por um traficante chamado de “chefe”.
- Agora, esse
sim, é um bandido. Interrompeu Jéferson. Vamos fazer uma queixa crime,
entregamos “todo” o material e fim. A polícia que investigue.
- Todo o
material?
- Tem alguma
coisa errada Alexandre? Perguntou Marina.
- Tem. Em
algumas fotos eu apareço com uma aluna, uma idiotice que levou só uns dias...E
tem fotos do Jéferson na “Tia Carmem” e da minha filha de vocês aos beijos na
porta da escola com um cara mais velho do que eu.
- Por isso
você selecionou o que ia mostrar?
- Selecionei.
Mas abri o jogo tá Marina.
- Então esse
menino quer ganhar um dinheiro. Disse Marina. Com as sujeiras de cada um.
- Depois cada
um de nós lava a sua roupa suja. Disse Vanilda. Essa história tem que ter fim.
- Então vamos
deixar de falsos pudores e ver o resto. Como esse menino é?
- Eu tenho
uma foto aqui, no dia da implosão ele estava lá e eu tirei uma foto dele. É essa.
Alexandre mostrou a foto.
- Deixa só eu
entender uma coisa Alexandre, vocês dois por acaso?
- Não. -
Interrompeu Vanilda - Nós somos somente
amigos e mais nada.
- Ainda bem.
Respondeu Jéferson. Só que esse menino não é o filho da Ismália.
- Deixa-me
ver? Pediu Marina.
Ela observou
atentamente a foto e disse:
- É o menor
que disse que ele estava morto. É filho do “Chefe”. Ele e Marcado viviam
juntos, até o pai dele ser preso. Depois ficaram rivais. Vocês não lembram da
repercussão desse caso na mídia”.
- Esse
negócio pode ser mais sério do que parece. Eu vou passar tudo para um camarada
meu, o Gringo, ele pode cuidar disso, sem tumulto. Disse Jéferson.
- A Mídia ia
adorar isso, se vocês notarem bem, estas fotos são de pequenas contravenções.
Marina espalhou as fotos na mesa de centro.
Foi mostrando
com cuidado, não eram somente cenas ridículas. Vanilda aparecia pintando o
cabelo, fumando e bebendo. Numa outra em que estava fazendo festa com as amigas
aparecia um baseado, logo alguém estava consumindo drogas. Esposa de promotor,
mãe. O que isso parecia?
Marina
aparecia dirigindo e falando no celular, rindo de uma pessoa estatelada no
chão. Jogando cartas a dinheiro com as amigas, assistindo a um strip masculino.
Jéferson aparecia saindo dum bordel, visivelmente bêbado, com uma mancha de
sêmem na calça do terno e dirigindo sem condições nem de andar. Alexandre
aparecia tendo relações sexuais com uma adolescente. Comprando Cds piratas.
Eles não
estavam matando, roubando ou seqüestrando. Mas estavam cometendo pequenas
infrações. Ou, no mínimo em atitudes moralmente inadequadas. Ficava clara a
intenção do garoto de desmoralizá-los e talvez de criar alguma forma de
chantagem.
Estavam
despontados, uns com os outros e também consigo mesmo. Os fatos eram constrangedores,
mas até um certo ponto, normais em seu meio.
Alexandre e
Marina foram embora em
silêncio. Não falaram nada sobre as fotos. Jéferson e Vanilda
também evitaram continuar com aquilo. O garoto desapareceu de suas vidas, não
souberam mais nada dele.
Durante a
escavação para a construção dos alicerces da garagem que substituiria o antigo
prédio foi encontrado o corpo de um menino, identificado como o filho de
Ismália. Estava enterrado no porão do prédio, em estado de decomposição, a
perícia constatou que devia ter morrido a umas três semanas, no máximo um mês.
Tinha os braços amarrados para trás, fraturas no crânio, na bacia e nas pernas.
Por um tempo
o relacionamento entre os casais mudou, depois voltou ao normal. Alexandre e
Vanilda foram se afastando.
Alexandre fez
muito sucesso com um novo Cd, onde tocava entre outras, a música escolhida pelo
garoto durante a única aula em que apareceu. Amadureceu, suas composições
ganharam um sentido diferente, mais simples e acessível. Devia isso a Marcado
ou quem fosse aquele garoto.
Vanilda
passou a estudar o impacto das condições sócio-econômica na vida das pessoas.
Focou sua atenção na chamada “Boca do Lixo”. Sobre ela escreveu um longo
trabalho. Usando uma analogia com a destruição do prédio da Casa de Cultura. A
obra denominada Marcas foi amplamente divulgada e sensibilizou um pouco algumas
pessoas.
A Boca do
Lixo.
O homem
segurou o menino pelos cabelos e acertou seu rosto com uma bofetada. Os outros
menores assistiram calados.
Marcado
estava muito chapado, para sua sorte. Ria a cada bofetada que recebia, o que só
aumentava a fúria do “Chefe”. Mesmo tendo ele caído com as mãos amarradas para
trás, o homem chutou violenta e repetidas vezes seu crânio, braços e pernas.
Estando inerte o corpo não cessava o espancamento. Olhava para os outros, como
se avaliando suas reações. A punição foi exemplar. Todos sabiam que ele havia
roubado, na boca do lixo, onde o “Chefe” era quem dominava. Ele havia invadido
um território ocupado, subvertido a ordem e estava pagando por aquilo.
A morte lhe
encontrou no porão do prédio onde morava há muitos anos. Um local seguro, que
“Chefe” descobriu por intermédio dos outros garotos, seus filhos de rua. Foi
enterrado ali mesmo, no meio da noite.
A desgraça se
abateu sobre ele no dia do seu nascimento. Vinte e cinco de dezembro. Nasceu
numa maternidade pública, saudável e predestinado. Pai, mãe e duas irmãs
dividiam uma pequena casa, aquecida, abastecida, segura. Até o pai cair no
mundo, sem volta. A mãe cair na tristeza. O abusador entrou pela porta que a
mãe deixou aberta. Trazendo o medo, a violência e o fim da célula familiar.
Marcado viu
tudo de longe. Viu as chamas consumirem o lar. A mãe sendo levada algemada.
A rua para
ele foi horrível. Demorou a aprender a se virar sozinho. Sentia falta de
abrigo, de consolo de orientação, de comida. Mas aprendeu, sobreviveu. Ele
sabia que não devia ter roubado na boca do lixo. Muito menos ter enfrentado a
repreensão do “chefe”. Não podia ter dedurado. Tinha que ter engolido sua raiva
e baixado a cabeça. Mas não gostava de se curvar. Não gostava que zombassem
dele.
A morte foi
em parte esperada e em parte bem vinda. Ele seria o próximo a dominar o pedaço
e “Chefe” sabia disso. Pelo olhar sem medo, pelo jeito arrogante e enfático. O
outro Marcado aprendeu a lição. Marcou o “Chefe”, na paleta. Sondava,
observava, avaliava todos os seus passos e dos “bacanas” também. Vivia na
sombra esperando. Armava arapucas invisíveis e tinha a sapiência dos antigos,
sabia a hora.
Vivia na boca
do lixo, entre os caminhões cheios de mercadorias, que desembarcavam toda a
hora. Entre os botecos e prostíbulos, era dócil, obediente. Dava-se bem com os
“cana”. Com os padres, os espíritas, os pastores e as assistentes sociais.
Sorria para os políticos, torcia por todos os times.
E matou o
“Chefe” sem paixão. Até sem que ele soubesse. Buscou Ismália no dia em que saiu
do IPF e beijou-a como um filho morto de saudades.
Ele pode
estar em qualquer canto. Pode ser aquela sombra no arbusto, o movimento que faz
os cães ladrarem nas noites de pouca luz. O mendigo enrolado no cobertor cinza
que você doou na última campanha.
E quanto mais
famílias forem destruídas; e quanto mais empregos forem fechados; e quanto mais
verbas os políticos desviarem; e quanto mais você fingir que não está nem aí.
Mais Marcado aparecem. Mais sombras aparecem e mais longe a paz fica.
Não esqueceu
de guardar o carro na garagem? Isso aqui é perigoso.
Boa noite!
Durma com os anjos.
Mol
As flores
adoravam a estufa. Mol controlava a temperatura, a unidade, a luz e a
quantidade de água e nutrientes que cada planta precisava. Era muito respeitada
por isso, ela tinha estudado nos melhores lugares, sabia muito sobre botânica.
Quando ela
morreu as flores sentiram, algumas morreram também e outras sobreviveram. Eu só
lastimo ter chegado tão tarde: um mês. Sinto-me culpada, éramos grandes amigas,
mas nos últimos tempos falávamos muito raramente. Meus netos ocupavam grande
parte do meu tempo, sei que não é uma boa desculpa, mas foi assim que ocorreu.
Fui visitá-la
e a notícia me atingiu como um meteoro, de forma inesperada e violenta. Sua
filha estava constrangida por não me haver informado. Fui até a estufa para, em
oração, despedir-me dela. Estava intacta. Com teias de aranhas, pó e folhas
caídas, as luvas de Mol estavam sobre a pia, suas anotações, seus recados, tudo
estava parado. Por sorte, ou pela ação do sol, alguns gomos de plástico haviam
rompido, permitindo que a água da chuva entrasse e alimentasse algumas das
plantas. Duas figueiras lutavam por água.
Fiquei chocada.
Ao
despedir-me indaguei de sua filha o que pretendia fazer com as plantas. Ela
respondeu que a casa estava à venda e que por acaso estava ali. Perguntei se
ela não me venderia às plantas e ela respondeu que somente com a casa. Eu não
tinha como adquirir tudo...
O tempo
passou e hoje retorno.
As flores de
Mol sobreviveram, a estufa foi reconstruída e as duas grandes figueiras servem
agora para abrigar a orquestra durante os concertos campestres. Na casa as
crianças aprendem sobre as plantas...
Sobre a pia
ainda estão as anotações e as luvas, emolduradas e nomeadas: As flores de
Mol. Fotografias, roupas, objetos
ornamentam tudo: os quadros que pintava, as obras que escreveu, seus rascunhos,
seus projetos, as preciosas sementes...
A energia
dela está presente em cada canto, em cada planta, em cada sorriso. Meus netos
vão tocar hoje... Vão tocar para Mol, no último jardim vivo da terra.
O
Mouro e a Portuguesa.
As orquídeas
nativas esbanjavam alegria em pequenas flores amarelas, que mais pareciam uma
chuva colorida em meio ao verde das árvores.
- Eu vi
aquele moreno bonito, me contou a portuguesa há muitos anos. Era carnaval, e eu
pensei comigo: este é meu! Naquela época os bailes eram nos salões, as pessoas
usavam belas máscaras e dançavam marchinhas cadenciadas. Quando ele passou,
joguei lança perfume em sua direção, como uma chuvinha – contou-me ela. Olhei
em seus olhos e sorri, foi o suficiente.
Imagino o Mouro preso no verde dos olhos da
Portuguesa. Formaram um belo casal e foram felizes.
A videira de Domenico
Era uma bela
manhã de setembro, a videira estava coberta de brotos novos, a natureza
anunciava um período de renovação e alegria. Domenico havia preparado este
momento acompanhando cada passo de seu desenvolvimento.
“ Se fores ao Chile traga-me uma muda de
videira”. Lembrou do sonho do pai: produzir um vinho que tivesse alma. Era
ainda um garoto percorrendo a América quando trouxe a pequena muda escondida...
Tereza estava
ocupada viajando em suas novelas. Dionísio caçava: um homem rústico, criado no
campo matando pequenas aves indefesas por esporte. Mas, era um bom sujeito,
cultivava a terra, alegrava a vida contando causos e lendas. Consumia vinho
como um admirador de arte. Sabendo apreciar e entender o que sentia.
Com o garfo
Domenico revolveu a terra em torno das raízes. Era fértil e rica. Cheia de vida
em pequenos pontos luminosos, minhocas saltitantes e adubo orgânico curtido.
A cada ano
ele preparava tudo de novo, um processo que culminava num vinho colonial de
qualidade e com características próprias. “ Esse
ano vamos ter uma boa safra” O pai costumava disser, olhando o solo e os
primeiros brotos. “ A uva não é sempre a
mesma, depende...”
As pessoas
não eram sempre as mesmas ele pensava. Um estampido e uma pequena ave caída no
solo, seu sangue correndo pela terra, encontrando conforto nas raízes da
videira. Dionísio correndo com um sorriso no rosto e Tereza tapando os olhos
para não testemunhar... Domenico pensando na alma do vinho. A videira na alma
do passarinho.
“Na vida nem sempre as coisas acontecem como a
gente quer!” Talvez este ano tenhamos um vinho pardo.
Mariana morreu!
Viver e
morrer. Notícias de Jornal. A história da Mariana passou batida, foi divulgada brevemente.
Um operário que é acusado de matar uma prostituta ganha apenas algumas linhas
na coluna de rotina das delegacias. Nos jornais locais ganhou um pouco mais de
espaço, pela total falta de assunto. Agora, quando ele acusou o chefe da linha
de produção o enredo ficou mais atrativo, por que criou um intenso conflito. O
perfil da vítima! Inacreditável... Ganhou uma conotação de estudo
comportamental.
Mariana
morreu! Problema dela.
O enterro foi
muito triste! Dona Laurinda quis trazer a filha para a Picada, o custo ficou
elevado. Castilho, o chefe da produção da fábrica, tomou todas as providências
e arcou com as despesas. A família tinha recursos, mas, estava abalada. Aos oitenta e um anos, o pai não conseguiu chorar
a morte da filha. Mariana levou uma vida desregrada, incompatível com o lugar
onde moravam.
A comunidade
compareceu mais em respeito aos pais, do que a ela. Ao lado da avó, as duas
crianças tentavam entender. Jonas estava com treze anos, a morte da mãe,
naquelas circunstâncias, foi um duro golpe para o garoto. Kátia acabou tendo
sua primeira menstruação, uma avalanche de emoções. A vida adulta invadiu os
dois com dureza e crueldade.
Mariana
deitada no caixão parecia uma princesa adormecida. Levara vários golpes de
facão, nas costas. Covardia! Matar pelas costas. A pele alva contrastava com a
maquiagem suave, os lábios finos e o contorno bem desenhado da boca pareciam
ainda ter vida. As pálpebras cerradas escondiam o azul do olhar, o mesmo de
Kátia. Castilho não deixou de notar, com uma certa malícia, a similaridade
entre as duas.
Jonas jogou a
primeira pá de terra sobre o caixão. Um homem. Kátia virou o rosto. Uma mulher.
Naquele momento Mariana deixava a todos.
Ao tempo
caberia a missão de pasteurizar a sua passagem no mundo dos vivos. Mariana
viveu com uma intensidade que as pessoas não entendiam. A vida para ela era
fruição, gozo, movimento. Só as crianças sentiriam sua falta e por algum breve
espaço de tempo. A relação dela com os filhos foi tão forte que os preparou
para enfrentar a vida.
Jonas e Kátia
eram livres. Uma estranha liberdade construída nos desregramento, na superação
de conceitos, na ausência do medo.
Mariana
recebia a energia na pele, lia e sentia o mundo, respirava o mundo.
Nasceu na
Picada, um lugar perdido no meio de vales e campo. Quando pequena adorava
correr, subir em árvores e nadar. Foi a beira de um córrego que descobriu o
prazer no sexo. Amor? Ela amava de um jeito diferente. Amava qualquer
experiência. Nunca amou uma pessoa, mas muitas. Nunca foi uma pessoa, foi uma
multidão de tendências.
Couto
encontrou com dona Laurinda na fila de espera de uma repartição pública. Abriu
o jornal e a história estava lá, por puro exercício da fala, comentou que
achava um absurdo o suspeito ser solto. Aos poucos e numa ingenuidade
surpreendente ela foi lhe contando tudo. O escritor recebeu a história como um
presente embalado em folhas de seda. A palavra era sua única forma de
expressão, não tinha talento pra música, para a pintura ou para qualquer outra
manifestação artística. Mas, achava, ingenuamente, que devia registrar sua
impressão sobre o mundo, sobre a vida, sobre a morte. O cotidiano. Fatias de
realidade assim ele entendia a sua expressão.
Um dos seus
quadros favoritos havia sido pintado anonimamente por ela. Uma conexão visível
ligava o texto e o quadro. O homem e a mulher. O escritor e a pintora. Por que
teria ele encontrado com Laurinda? Lido
exatamente aquele fragmento do jornal? Comprado o quadro?
Ao chegar em
casa a obra estava lá, uma fina armação de ferro emoldurava a tela. Branco,
cinza e uma sombra. Nuvens, céu e o infinito. Numa delicadeza incontestável,
uma harmonia e uma beleza triste de fim e continuidade. Ocupava praticamente
toda a parede. O apartamento era pequeno, havia colocado o quadro bem em frente
a uma poltrona. A parede branca mantinha a neutralidade necessária e a luz
natural iluminava o quadro na diagonal. A moldura projetava uma sombra
enigmática na parede, como uma fenda.
Mariana nua!
Assim ele percebeu pela primeira vez o quadro. Nua de máscaras, de julgamentos.
Imaginou a solidão dela. Sentiu o odor de seu suor, o gosto de sua boca. O
calor do seu corpo emanando das pinceladas. A tinta seca guardava um sorriso.
Um olhar frenético, louco. O ato de criar leva qualquer um à loucura. Couto
buscava palavras, gestos, nuances!
Nuances!
Mariana estava na sua sala. Despida e solta. Em frente à tela. Nos olhos do
escritos. Um toque suave! Surpreendente e provocativo. Um beijo com gotas de
vinho. A pele fresca levemente emplumada. Os longos cabelos perfumados.
Com que
palavras atingir a perfeição?
Com inspiração.
As pedras
sabem! Foram testemunhas. Desci o degrau que separava o jardim da calçada. Meus
sapatos eram altos e negros. Não usava meias, mesmo assim, a rua confundiu-me
com uma bailarina. Quem sabe não foi o seco som do salto do sapato. A pista era
só minha e a melodia? Uma tempestade. As vidraças romperam. “É ela!”. As
palavras alinhadas tramaram línguas, me libertando. No espelho da história, as
lâminas transparentes cruzaram meu corpo. Senti todas e deixei que fossem.
Poeta! Ainda
busca a folhinha alva manchada pelo poema perdido? Louca!
Vá! Logo e sem lamúrias. O poema fugiu!
O gigante.
A tristeza da
alma, em gotas salgadas, vira alegria no cavaquinho.
Chora! Um
choro sentido, desejado,conquistado.Passo a passo,rasgando o espaço,
Contornando o
tempo, alegrando e sofrendo.
Quatro linhas
imaginárias: um sonho.
Um sonho
sonhado na mais alta velocidade: rompe ao ângulos, gira a esfera, roda a terra.
Chora o
cavaquinho!
A Fonte da Paciência
O manto verde que cobre as paredes de pedra
guarda um segredo de séculos: a mensagem da mulher negra que deu seu encanto
aquele local mágico e colorido.
- Paciência! Paciência.
O que teria ela a nos dizer? Sobre a
impermanência, sobre o vazio, sobre a terra... Sobre nós.
Paciência subia o moro, descia ladeiras, lavava a
roupa. Amava e tecia. Escolhia o feijão, colhia trigo. Morava na atafona, ou
nos fundos da Igreja, ou nas senzalas dos senhores.
-Paciência! Paciência!
Ouvia o doce canto dos pássaros, deitava na relva
fresca. Servia água para cavalos cansados da tropeada.
Era tão bela, tão forte e sábia que um amor
conquistou. E um filho perdeu, nas águas da fonte...
Seu lamento foi tanto e tão sentido que até hoje
é ouvido, nas noites de lua clara, nos dias de sol dourado.
- Paciência, seu moço! Paciência.
Tá lento.
- Descobri! Tá lento!
Exclamou o homem, com um pano sujo de graxa nas mãos.
- Obrigada, eu sei que eu
tenho talento, mas o que tem o carro? – respondi indignada.
-Tá lento! Tem que
regularar a lenta!- ele respondeu mais indignado ainda.
- Bom, vai demorar? O
concerto começa em dez minutos – perguntei com um misto de raiva e súplica.
- Dois minutos, mas eu que
faço o conserto! Decretou e enfiou o carão, no capo do carro.
- Não, meu filho... -
Interrompi, mas não quis perder tempo, tava na cara que o “cara” nunca tinha
assistido a um concerto.
- Pronto!
- Quanto?
- Vinte.
Paguei e sai
apressada, estranhei que ele olhou para o relógio, colocou a mão na cabeça e
entrou em um cubículo, já se despindo. Fiquei assustada, o que aquele tipo
faria?
Resolvi parar
no posto da Polícia Rodoviária e perguntar onde ficava a Fundação de Arte. O
policial me atendeu com muita gentileza e disse que eu devia prestar muita
atenção em um novo talento que seria apresentado: meu filho, disse o homem com
o peito estufado. Certamente respondi e parti.
- Violino
Solo, pelo jovem talento, o nosso queridíssimo Martinho. Anunciava a
apresentadora.
Um jovem rapaz
entrou na sala e emocionou a todos, com a suavidade e a leveza da música.
Música dos anjos... Fechei os olhos. O paraíso!
Ao final fui
modestamente apresentar minhas palmas.
- Oi! E a
lenta?
- Lenta?
Tá...
Achei que fosse
outra a tua morada.
Hoje eu queria ouvir uma história que não fosse triste. Queria
conhecer alguém que falasse sobre coisas boas, alguém que me contasse o Bem.
Estou farta de queixas. Ontem vi um homem falando mal da mulher na fila - ”Ela
sempre me irrita!” - Dizia, com a boca apertada, cenho franzido. Uma senhora
lamentando a vida que os pais lhe deram, contando, como quem conta um tesouro,
cada pormenor das amarguras que carregava: “Só eu sei o que passei!”. Brincos
de ouro, perfume caro, roupas de seda. E, um menino sorrindo, pés sujos, roupa
rasgada, olhos vivos, nariz escorrendo, magro, pele opaca. Contando que gostava
de olhar um ratinho que corria para roubar comida.
Hoje estava com pressa e liguei a torradeira com o balcão da pia
úmido e os pés descalços. Um pequeno choque elétrico atravessou minha barriga.
Corri para desligar os disjuntores. Lembrei do menino, do ratinho, da comida.
Das placas de choque para queimar gordura. Olhei a torradeira, a pia, a casa.
Achei tudo muito engraçado e estranho.
O telefone tocou, deixei que tocasse.
A luz do sol não conseguia atravessar as cortinas, abria as
janelas e senti a brisa da manhã. Ouvi o canto dos passarinhos. Vivia rodeada
de paradoxais histórias tristes.
Cheguei tarde! O homem estava entrando na lotação, encurvado,
parecia carregar pedras. A mulher tinha ficado para a próxima e com ares de
vítima matraqueava. O menino trazia uma caixa de chocolates, nas mãos sujas.
Perguntei pelo ratinho, sem perder o sorriso, ele disse que sua televisão
estava estragada... Mas, que agora ele acordava ouvindo os passarinhos.
Perguntou meu nome: Albertina Sotto. Por que eu havia me atrasado? Contei da
torradeira. Rimos muito, comendo chocolates e imaginando a cena... Ficou
contando de um lugar encantador que um dia seria sua morada... Lembrei de mim,
assistindo um ratinho correndo para roubar comida e como eu queria uma casa
como aquela, com torradeira...
A Janela da Cultura
O flautista solitário, do alto, vê a rua e, aos seus
olhos, a cidade se apresenta... Serena. A música atravessa ruas e esquinas,
alcançando velhos e moços. Pacífica... Sem alarde.
Amor nas bancas, atritos nos bancos. Disputas acirradas nas
contendas. E a música alheia atinge corações.
A paz vem da alma! Pulsa o coração da cidade, com ritmo
manso e suave...!
Edificada na cultura e na história, a janela, de venezianas
abertas, abre as portas do paraíso. Por alguns instantes, uma melodia entra nas
frestas da dura realidade e a vida se refaz. Há Paz nesta hora...!
As horas correm e as batalhas retornam: o pão nosso de cada
dia, a luz que tem de ser paga, a dor vencida. A nova vida que, no ventre,
aguarda. O corpo cansado que, na missão cumprida, à
terra retorna. Reciclado.
Uma cantiga de ninar, uma louvação. O amor na praça. Um
beijo doce. Um abraço solidário.
A moeda corre no vinco do chão. De um lado a paz, do outro
a guerra. Alegria e tristeza. Amor e ódio. Rico e pobre. Bom e mau.
A flauta mágica, no calor da melodia, funde a moeda e os
lados somem. E essa pele fina que nos une e nos separa... Desaparece...! Pura
energia!!!
Uma homenagem ao poeta e músico Antônio Penai
A Terra e o Tempo
Ao longo de uma estrada andavam lado a lado a Terra e o Tempo.
Ela estava cansada... Tinha poucas flores coloridas nos cabelos e profundas chagas nas mãos e no rosto... Olhando nos olhos dele pediu:
-
Senhor! Por
favor, preciso de ajuda.
- Preciso atravessar o rio.
Não era um problema dele,
o Tempo pensou em seguir o seu caminho... Mas, os olhos dela! Aqueles olhos despertavam compaixão... Aproximou-se e viu melhor a gravidade de suas
feridas.
O
Tempo trazia um importante documento: uma carta de intenções generosas da
humanidade. Imaginou
que as feridas dela podiam contaminá-lo. Mas, mesmo assim resolveu acompanhá-la.
O
rio era raso, a água pura e doce, ela parou na margem e calmamente foi
entrando, ele colocou a mão em sua cintura e juntos iniciaram a travessia. A
força da correnteza tornava a marcha lenta e pesada, cada passo podia ser
sentido. Mas,
no rosto dela o Tempo via serenidade em seus movimentos leveza. O rio
murmurava:
- Reciclar!Reciclar!
A
água tocou o rosto dela levando as chagas, nele tocou o coração enchendo de paz, de
alegria e de ternura.
Quando
chegaram a outra margem ele havia perdido o seu precioso documento. Ela as
dores.
Vendo
a aflição do Tempo, a Terra agradeceu:
-
Amigo, obrigada!
O
tempo desceu, então, o leito do rio. A terra subiu.
Constrangido
ele achou que havia falhado em sua missão. Os sábios que esperavam o documento
estavam todos reunidos em volta da fogueira, entoando uma canção, que lembrava
o murmúrio do rio: -Reciclar! Reciclar!
O
mais velho dos mestres perguntou o que havia acontecido, ele disse que trazia
as mãos vazias... Os sábios compreenderam e responderam com o silêncio: a Carta
da Terra havia chegado até ela. Aliviado ele adormeceu.
O
sol lentamente apareceu no firmamento, seus primeiros raios iluminaram o ancião estava
sentado ao lado do Tempo. Eles olharam
para o rio que corria lentamente.
Os
olhos do Tempo encontraram-se com os do Ancião, e a humanidade enfim
compreendeu. O dia passou, o rio correu. O tempo mudou. A terra girou sem
chagas e com flores nos cabelos.
Texto
preparado para o II Encontro Diálogos de Budismo e Ecologia.
Agradecimento
especial a Taís, Ilson Fonseca e as crianças do Castelinho por sua valiosa colaboração.
As
pétalas de Tibirro.
Lohane estava
indo para Tibirro, pequena cidade do interior. Queria um produto elaborado com
essência de rosas. Estava ansiosa para chegar, sofria com pequenas manchas na
pele. Mesmo com o ar condicionado o calor era muito intenso, o ônibus parou
quatro vezes. Sentia sua pele fervendo.
Usava um
vestido colorido, num tecido bem leve. Sandálias baixas de couro cru. Não
ficava muito bem, já que era relativamente alta e muito magra.
Sua mãe tinha
sido contra a viagem, ela achava normal “ter manchas na pele”. Mesmo assim,
comprou as passagens e fez a reserva numa pousada. Ela fazia praticamente tudo
que a filha queria. A garota não suportava as intromissões dela.
Lohane queria
se virar sozinha. Queria resolver os próprios problemas. Por sua mãe ela teria
comprado por catálogo. Indicado por um vendedor. Sem saber a procedência. Sem
se importar com a legitimidade e qualidade do produto. Já ela não, queria
sentir, ver a fabricação, conhecer as plantas. Saber a origem.
Eram quase
cinco da tarde quando, enfim, o ônibus chegou na pequena cidade. A Rodoviária
era tipo um armazém, vendia de tudo um pouco, no canto havia um guichê para
compra de passagens. Um cartaz escrito com pincel atômico informava os horários
dos ônibus: seg a sábado, ás 06:00 e ás 15:30. Domingos 15:30. Um horror.
Se alguém
tivesse uma emergência, sei lá: a morte de um parente. Teria que ligar e dizer:
“Desculpe-me, perderei o enterro, pois estou enterrada aqui!” Ninguém merece!
Ela chamou um
táxi, para ir até a pousada. O taxista olhou-a e com um sorriso amável apontou
para um prédio no final da rua. Lohane quase teve um ataque de nervos. Como sua
mãe podia ter reservado vaga num lugar daqueles? Ela ouviria. Pegou o seu
celular e constatou a pior notícia que poderia ter: sem sinal. Já passavam das cinco e era sábado.
Ela foi
lentamente em direção ao hotel. Na porta estava escrito: “Pousada das Pétalas.
Seja bem vindo!”. No balcão da recepção havia um pequeno sino, muita poeira e
um livro aberto com uma caneta pendurada. Um vaso de prata, continha duas rosas
vermelhas. Ao lado alguns vidros cheios de um líquido viscoso. No rótulo: Óleo essencial de Rosas. Produto caseiro.
Pousada das Pétalas.
Lohane sentiu
as pernas fraquejarem, um zumbido nos ouvidos e caiu.
Como o médico
não estava em Tibirro naquele sábado, quem a atendeu foi Raul, o farmacêutico.
Prescreveu um chá de camomila com muito açúcar, resolvendo o problema. Ele foi com a garota até a farmácia, mostrou
todo o processo natural de utilização das pétalas. Ela aos poucos foi ficando
mais calma. Sua pele apresentava muitas manchas. O cabelo estava opaco e com
falhas como se estivesse caindo.
Raul lhe
passou, totalmente de graça: um xampu, uma loção para o rosto e um elixir a
base de óleo de girassol. Lohane voltaria no ônibus das 15:30 de domingo. Já
passavam das sete horas de sábado. Ficaria em Tibirro aproximadamente vinte
horas.
Ela queria
comida vegetariana ou macrobiótica.
Dona
Gertrude! Raul foi rápido, ligou para ela explicou do que se tratava. A gentil
senhora era professora de Yoga, e com prazer resolveu o problema. Tinha pães
especiais com semente de papoula e farinha integral, queijo de cabra, Granola e
essas coisas.
Lohane riu
muito das histórias divertidas que ela contou. E acabou dormindo no sofá.
Gertrude contou que pela manhã a garota olhou-se no espelho e não conseguia
acreditar no “milagre” da loção de rosas. Antes de ir embora, fez com que Raul
abrisse a farmácia e lhe vendesse vários vidros. Ele forneceu a ela o seu
endereço para que ela renovasse o estoque assim que fosse preciso.
Ela nunca
voltou à cidade. A cada dois meses chegava um novo pedido seu. Sempre
acompanhado de um poema. Raul guardou todos.
Sonho com Tibirro
Minha alma toca as pétalas
Inala o perfume, chora
Ferida pelos espinhos
De suas rosas
Lohane.
Raul
continuava produzindo artesanalmente a “loção de Lohane”.Colava os cartões com
os poemas em folhas recicladas de pétalas das rosas.
O seu estúdio ficava no fundo da casa. Era todo fechado com
janelas envidraçadas. Ali ele cultivava orquídeas, rosas e violetas.
Lohane enviava sempre fotos suas junto com o pedido e o poema.
Estava bela como uma pintura.Aparecia nas fotos com um olhar mais maduro e
cheio de autoconfiança. Sua pele estava acetinada, como uma pétala.
Um tibirro-do-pampa vinha todos os dias cantar próximo a estufa. A
ave era pequena e estava sempre desacompanhada. Raul sempre colocava sementes
para ele. O Tibirro caminhava rápido pelo chão catava as sementes e levantava
vôo. Voltava alguns minutos depois e fazia a mesma coisa. Tinha o hábito de
bater com o bico no espelho, como se estivesse travando uma batalha, consigo
mesmo.
Os pedidos de Lohane cessaram.
Raul pegou os poemas e foi colocando um ao lado do outro, como se
fossem pétalas. Fechando delicadamente formou uma rosa.
A Rosa de Lohane coube nas suas mãos.
Tibirro também teve suas penas postas lado a lado.
Muitas rosas ornamentavam a estufa de Raul.
Eternize
Envolta em pétalas
Estou me tornado tua rosa
Ouço o ruflar de asas
Tibirro
Veio Salvar-me
Adeus Raul...
O Natal diferente.
Nossa
história começa dois mil e sete anos antes deste. Quando a humanidade ganhou um
presente: um menino chamado Jesus de Nazaré.
Ele veio ao
mundo para trazer uma mensagem de paz. Todos os anos, pessoas do mundo inteiro
fazem uma grande festa, chamada Natal, para comemorar o seu nascimento.
Nessa época,
as casas e ruas são enfeitadas com bolinhas coloridas e luzes. E as pessoas
trocam presentes e preparam deliciosos banquetes .
Joaquim morava
no centro da cidade e adorava o Natal. Para ele, esta era a melhor época do
ano. Ele percorria todos os shoppings, para ver a decoração e os presentes. No
seu quarto, tinha uma montanha enorme de brinquedos, jogos, livros... Ele
ganhava presentes do pai, da mãe, da avó, da dinda, dos tios e dos amigos.
Mas este ano
ele queria uma coisa diferente...!! Queria dividir seus brinquedos com as
outras crianças. Ninguém entendia o menino...!! Joaquim, dizia a avó, fui
eu que comprei este urso gigante para você. O pai dizia: Quando eu era pequeno,
tudo o que eu queria era ter uma miniatura como essa, vermelha, com bancos de
couro, portas que abrem, igual a um carro de verdade.? A mãe disse que pensaria
no assunto: o quarto dele estava mesmo precisando de espaço.
O tempo foi
passando e os adultos esqueceram a idéia dele. Só que Joaquim não desistiu.
Pegou um saco grande e colocou dentro vários brinquedos, deixou a miniatura e o
urso gigante.
No dia do
Natal, saiu, pelas ruas do centro, entregando pequenos pacotinhos que ele mesmo
tinha feito. As crianças não entendiam direito. Joaquim recebeu muitos
sorrisos.
Entregou
muitos presentes naquele dia, sem se importar em saber quem estava recebendo.
O garoto
entrou numa rua estreita calçada com paralelepípedos; nela, um grande arco
guardava a entrada de uma casa de cultura enorme...Parecia um castelo
iluminado...!! Ele viu que, lá, no fundo, estavam sentados uma moça
e um rapaz. Chegou perto e viu que, no colo dela, dormia um menino. O vento do
rio soprava forte. A cidade começava a esvaziar.
Já
anoitecia e Joaquim precisava voltar pra casa...Pegou o seu saco e procurou um
pacotinho: não havia mais. Vasculhou o bolso das calças e nada. A jaqueta
estava vazia...!!
Uma canção:
era só o que ele tinha. Noite Feliz...? Joaquim cantou e sua voz espalhou o
Espírito do Natal pelo pequeno beco.
A rua virou
uma estrebaria, com ovelhas, vacas, uma manjedoura. Três reis magos pisaram as
pedras em busca do Menino Deus. O casal sorriu para Joaquim que, feliz, voltou
para casa. Uma estrela correu o Céu e dois mil e sete anos passaram.
Sangue doce
Hanna ficou
indignada. O olhar da franguinha: por cima, olho brilhando, desafiadora. O
risinho estúpido de canto de boca. Não entendeu nada, por que a haviam convidado?
Teria sido por pura educação? Ela teria entendido errado? Ou, por pura maldade?
Foi
desarmada, de sangue doce, leve. Chegou propositalmente atrasada. A festa já
corria descontraída. Aurélio foi gentil, o namoro havia acabado, mas a amizade
não. Trabalhavam juntos na melhor equipe, do melhor hospital da cidade. Mas,
Lea, abriu fogo. Um fogo no olhar, na ponta da língua. Queria jogo! Provocou
Hanna de todas as maneiras. Estava deslumbrante, depois das cinco cirurgias que
ele havia feito e que Hanna anestesiara. Pensar que esteve em suas mãos e
agora... Seu sangue fervia.
Soube por
Dário do trabalho: um galo preto morto, ao pé da cruz... Para eliminar micro
varizes e para afastá-la de Aurélio. A franguinha, uma boneca, nas mãos dele.
Coitada! Um ser sem personalidade nenhuma, vivia a sombra dele, se esgueirando,
pedindo licença para existir. Não comia para manter o visual esquálido, como um
vampiro ele sugava a vida dela.
Ao cruzar a
esquina viu o galo preto com o pescoço quebrado. O sangue bebido, vampiros...
Desceu e olhou de perto, em meio a milho de pipoca, moscas, sangue fétido e
parafina derretida a carta batizada. O ódio em palavras proferidas ecoando nas
esquinas da velha cidade. Sem receio pegou o pequeno papel delicadamente
dobrado. Precisava saber! Sem assinatura o pedido: o sangue de Hanna. Com uma
reverência devolveu as intenções aos donos.
Hanna estava
pronta, sabia do trabalho. Sabia do quão covarde eles eram. Do quão baixo eram
seus sentimentos. Lavou o dorso antes de entrar no bloco. Eliminou o ódio.
Deixou o peso morto da vingança para trás. Ao cruzar a porta sua pressão caiu,
desmaiou.
Lea estava
pronta para remover as varizes, Hanna foi substituída. Aurélio, cansado das
festas, errou. E o sangue da boneca escorreu pelas esquinas das veias.
Liberdade!
Liberdade...liberdade...liberdade...
Liberdade!
Liberdade...liberdade...liberdade...
Uma pequena índia, do alto da serra gritou:
Liberdade!
Liberdade...erdade...dade...dade
O eco foi se propagando e um pequeno índio dos Andes respondeu:
Liberdade!
Liberdade...li ...dade...
Foi tão alto que chegou nas duas costas e atravessou os oceanos e se espalhou por todo o mundo:
Liberdade!
Liberdade...berdade...dade...Li
E até hoje os homens não sabem o que a indiazinha quis dizer.
Liberdade!
Liberdade...liberdade...liberdade...
Uma pequena índia, do alto da serra gritou:
Liberdade!
Liberdade...erdade...dade...dade
O eco foi se propagando e um pequeno índio dos Andes respondeu:
Liberdade!
Liberdade...li ...dade...
Foi tão alto que chegou nas duas costas e atravessou os oceanos e se espalhou por todo o mundo:
Liberdade!
Liberdade...berdade...dade...Li
E até hoje os homens não sabem o que a indiazinha quis dizer.
El Condor.
O Céu é meu.
Ou você duvida?
Uma pitada.
Uma pesada
mesa de madeira servia de balcão. Ali fazia os pães, bolos, cucas, folhados e
salgados. A mão experiente salpicava de farinha, a longa mesa. Deitava a massa
e abria com o rolo. Passava horas neste ritual. A padaria abria às seis horas,
mas o trabalho iniciava às quatro. Uma vida difícil?Nem um pouco, a tudo o
corpo acostuma. Mesmo nas noites mais frias do inverno, acordar cedo tinha suas
vantagens. Caminhar pelas ruas vazia da cidade enquanto os outros dormem, faz a
gente pensar com mais clareza sobre o sentido da vida.
Um bom começo
são os alongamentos. Iniciar a jornada esticando os músculos. Sorrindo para o
dia.
Às quatro e
meia os galos e pássaros começam a despertar. Às cinco, o sol aparece e a vida
transborda: pássaros, cães, gatos, galos, homens, invadem o cenário.
O primeiro
trem passa às seis. O doce aroma de pão invade a estação. A fornada sai em
poucos minutos, com muitas xícaras de café e leite fresco.
As senhoras
mal humoradas começam a chegar cheias de problemas, reclamando da cor do pão,
ou da luz do dia. Coitadas, gastam a vida com lamúrias: saem os amargos de
polvilho.
Depois, a
criançada. Olhos brilhantes, faiscando em frente às vitrines: saem os doces, os
bolos e as balas.
Os
trabalhadores passam apressados: saem os sanduíches e salgados.
Os políticos
se reúnem para o cafezinho: saem os pastéis de vento.
Ela vem com
os cabelos em tranças: sai o coração do padeiro em disparada.
Vai o trem.
Vem a noite. Uma pitada de sal. Outra, de pimenta. Dorme, dorme o padeiro.
Quatro horas.
Texto
publicado na II Coletânea Entre Prosa e Verso
Ilusão
Cacau! Cacau!
O chamado vinha do outro lado da avenida. Alvino acenava, com um sorriso
metálico, cabelos esfiapados e a pasta cheia de livros. O ônibus chegou ao
ponto de parada. Ela fez um sinal de que ligaria mais tarde. A ponta da saia
ficou presa na porta do coletivo.
Milhões de
imagens preenchiam a sua mente: sonhos, projetos, expectativas. Havia poucos
lugares vagos, avaliou com o olhar; podia sentar ao lado da mulher, com o bebê
no colo, ou, do rapaz, com os fones de ouvido, ou ainda de um idoso. Achou que
o último seria a opção mais sensata. Odiava sentar em banco quente, não gostava
de usar prato recém lavado e de tomar qualquer coisa, em copo molhado. Assim
que sentou, reconheceu Gilmar Cecco;estava absorvido em seu mundo, gesticulava,
sorria e “falava” em
pensamentos. Ombros curvados pelo tempo, mãos trêmulas,
roupas puídas. As pálpebras caídas, sobre os cílios, mal podiam ser vistas,
atrás dos óculos pesados.
Ele notou o
interesse de Cacau, virou e perguntou o que ela buscava. Ficou surpresa, mas,
não aborrecida, afinal não era uma atração e, sim, uma pessoa que estava ao seu
lado. Constrangida, disse que gostava muito de ler sua coluna política, que seu
pai achava que ele tinha sido “o último honesto”. Um breve silêncio foi o
suficiente, para que ele percebesse que ela estava diante de uma Ilusão. E para
que ela percebesse que havia invadido um universo solitário. Fim da linha. Ele
pediu o seu telefone.
Sorrindo, ela
sumiu, perdeu-se, na multidão que corria, adoidada, para algum lugar, no centro
da grande cidade. Achou, sórdido, o sorriso malicioso do “Deputado”. O olhar
satírico deixou-a comovida. Sentiu pena. Um homem triste.
Assim que
chegou, recebeu a notícia de que deveria procurar o departamento de recursos
humanos: por motivos de redução, blábláblá... A empresa tinha uma pessoa
treinada em demissões.
Uma saleta climatizada, com obras de arte nas paredes,
mensagens de estímulo e um cafezinho de consolo. Precisava cumprir trinta dias,
com redução de duas horas. Teria direitos...Mesmo?!
Aproveitou as
duas primeiras horas de redução, para colocar o cinema em dia: tragédia ou
comédia? Tragédia, toda a vida, precisava que alguém estivesse sofrendo muito.
Escolheu um filme sobre exilados. Perfeito!
Saiu, do
cinema, pronta! Em vinte minutos, pegava na lanchonete. Assim que chegou,
notou o clima: a gerente estava na “ponta dos cascos”, olhos apertados e cabelo
arrepiado, mesmo preso com uma touca branca. Havia fila nos pedidos, no caixa,
e as mesas estavam sujas. Nada comparado aos exilados estrebuchados... Vestiu o
uniforme e foi pro salão, recolheu os pratos, passou um pano nas mesas, sempre
sorrindo para os clientes. A mesa do canto recebia seus tradicionais
clientes..Bolinho de bacalhau, limão e chopp. Torta de chocolate para as
senhoras: O Chefe! Todos os dias, a reunião tinha a mesma temática, as
diabruras do CC - Cargo de Confiança. Um absurdo do serviço público. Você não
acha? Cacau não achava nada... Tinha prestado prova, três vezes, sem passar.
Técnica em
Gestão Administrativa , cinco anos de curso de inglês. Inúteis
precauções para “engordar” currículo. Usaria o fundo para curtir a vida.
Os clientes
de fim de tarde são mais simpáticos do que os estressados da janta. Não tinha
amigos na lanchonete, ninguém estava ali pra brincadeira. Aquilo era um bico na
vida deles. Menos da gerente que já fazia parte dos móveis e utensílios.
Resolveu não falar nada sobre sua demissão, não queria passar para o diurno, o
movimento era dobrado no almoço.
Alvino
esperava por ela com um envelope na mão: uma bolsa de estudos. Cacau pulava
como uma louca, ele merecia. Admirava sua sensibilidade e o idealismo que via nas
coisas. Ele queria salvar o mundo. Para ela: tudo bem! Muita gente queria e era
preciso. Ela queria viver o planeta. Salvar, dominar, conquistar: essas
palavras que não faziam parte do seu vocabulário.
Passaram
pelas prostitutas, pelos moradores de rua que lotavam as calçadas, o normal da
cidade. O ar fedia a mijo, pizza e óleo queimado. Vem comigo? Pergunta louca.
Entraria fundo na vida dele? Recapitulou o dia.
Fatos, cores,
sabores, melodias.
Amanheceu
chovendo. Cacau fez as malas e partiu
Não
Não foi por
você
Não foi pela
terra
Não foi a
cidade
Ou o idioma
Partindo
Restou o amor
Liberto
Tomate seco com orégano
- Não gosto!
- Todo mundo
gosta!
- Eu não!
-Você gosta
de tomate?
-Gosto.
- Gosta de
Orégano?
-Gosto. Mas,
não dos dois juntos. E por falar nisso...
Ela mantinha
o olhar longe, apático. Com uma mão segurava uma bandeja cheia de torradas
cobertas com tomates secos salpicados de orégano. Com a outra Tonho.
O gato
quebrou o silêncio, ronronando enrolado no casaco jogado na poltrona.
Ele estava
com a frase trancada na garganta: - Não gosto mais de...
O bebê
colocou a mãozinha nos lábios dele. Como se entendesse que às vezes é melhor
não dizer. A pequena mão cheirava a biscoito com leite.
O gato
esticou a pata enrolando mais o corpo. Alegre o pequeno puxou os óculos dele,
trazendo até a boca. Pulou para seu colo fazendo gracinhas.
Ela jogou as
torradas na lixeira. Faltavam palavras... O ar estava pesado.
A lua
docemente ornava o céu, o bebê adormeceu.
- Eu vou...É
só um tempo...
- Você já
foi... Faz tempo.
Um hiato os
tornava estranhos.
Quando ele
voltou, ela usava o mesmo suéter. O gato estava enrolado na mesma poltrona.
Tudo aparentava calma, a pintura na parede havia desbotado com o passar dos
anos. Continuava bela, mas amarga.
Não havia
brinquedos, nem fotografias, nem sinal de Tonho. O cheiro de biscoito com leite
invadiu suas narinas. O toque suave da pequena mão. Um hiato, um apavorante
hiato.
- Ele...?
- Cinco anos!
- Conta...
- O conselho
tutelar levou de mim. – os olhos dela não mentiam - Ce saiu por aquela porta –
apontou – aquela dali!. Foram os vizinhos... E eu não culpo eles. Eu tava
doente, meu mundo desabou! Assinei os documentos e foi bom pra todo mundo.
Sentou com o
peso da notícia. Tonho!
- Eles não
dizem nada. Nem pra que lugar foi... Ouvi dizer que bebê não fica em abrigo... Ainda
mais bonitinho como era. Você lembra?
- As minhas
cartas? Você nunca respondeu?
- Eu
desliguei... Como uma máquina... Não trocava fralda, não dava comida. Tive
outro depois: menina.
O gato
levantou da poltrona e subiu na mesa. A cabeça dele explodia de dor. Cinco anos
vagando em busca de paz. Não odiava ela. Só não amava. Nunca imaginou que algo
assim pudesse ter acontecido.
- Às vezes eu
acordo ouvindo o risinho dele... Lembrando do cabelinho, do cheirinho, chego a
ver ele... Devorando biscoito, abraçando meu pescoço... Sinto, sabe? Sinto que
ele está aqui comigo... Mas, no fundo eu sei que ele tá bem... Em algum lugar
do mundo, sob esta mesma lua... Ele deve correr, deve brincar e deve ter uma
mãe querida e um pai cuidadoso...
A realidade o
atingiu como um torpedo.
- Vai embora?
Ele não tinha
pra onde ir. Não sabia para onde ir. A decrepitude da casa, o pêlo judiado do
gato, a falta de brilho nela. E aquela porção de tomates secos numa bandeja,
orégano. Mundo cão!
Em ruínas
A
violência institucionalizada sustenta uma paz precária. Uma paz que não
convence. “Eles e nós”. Cruzamos, todos os dias, as mesmas calçadas,
freqüentamos os mesmos lugares. Ruínas de uma sociedade dissolvida em um ácido
composto de maldade, corrupção e miséria.
A guerra foi
sendo construída bem aos nossos olhos. Fingimos por muito tempo que ela jamais
viria. Mas, um dia acordamos e ela havia sido
declarada. Encontrei Glads Stone
entre as ruínas do que havia sido Capela das Flores. Éramos estranhos.
Estranhos compartilhando ruínas e construindo memórias. Lembro que estava
sentada em um dos muros destruídos da minha casa e ele chegou: sujo, fraco,
desolado, ferido. Lembro do que falamos como se ele estivesse aqui. Como se
hoje fosse o último dia da guerra.
A pequena
cidade havia sido destruída. Stone chegou confuso,
falando pouco, com frases curtas e sem fôlego. Queria saber há
quanto tempo eu estava ali. Deus! Nem eu sabia...!! Muito tempo. Logo, nos
primeiros saques, as pessoas foram embora. Apavoradas. Imaginavam que, em
outros lugares, estariam seguras.
Ambos tínhamos saído da cidade, há muito tempo. A sensação que eu
tinha era de que a cidade havia me apagado, no meio das fofocas e das intrigas.
Stone compartilhava da mesma impressão. Capela das
Flores era um lugar amargo, sem brilho.
Muita gente
morreu tentando guardar alguma coisa. Eu me escondi na Capela, sob o altar. Ao
descobrirem os revolucionários, eles destruíram tudo. Mataram todos que
ajudaram. O pai de Stone foi morto, por que escondeu
armas e munição. Joelmo, o jardineiro da capela, por
que tinha livros revolucionários.
Eles
estouraram a porta da Capela. Reviraram os bancos. Não me viram. Ficaram três dias
aterrorizando a cidade. Bestializados. Levaram jóias, dinheiro. Tudo!
Não sabiam
dos estoques de comida que as pessoas tinham feito. Quando partiram enterrei os
mortos. Como pude. Não é nada fácil enterrar mortos.
Eu estava
exausta, quando ele chegou. Mal entendia o que me perguntava: Lembra de mim Edméa? Respondi: - Glads Stone o músico, não é...Lembro... Eu lembrava dele
cantando. Quando saí de Capela das Flores, ele tinha seis anos. Disse que tocou
no recital em que declamei Fernando Pessoa. Eu não lembro.
Queria rever
a Capela, caminhamos entre as ruínas. Ele estava fraco, reclamando de dor.
Ficou deslumbrado diante dela: -Edméa. Está intacta!
A gente fazia festa até amanhecer e depois vinha pra cá... O sol aparecia
tranqüilo, manso, entre a Capela e o arvoredo. Em nenhum outro lugar do mundo,
eu me sinto tão bem. Quando saí, achei que a vida em outros lugares seria
melhor.
Qualquer
lugar serve. A paz mora dentro da gente. Voltei, por que as luzes
apagaram, as cortinas fecharam... Eu era aquilo que fazia. Eu respirava arte,
transpirava texto... Comia ilusão. Nunca esqueço, quando me indagou: Será que
já morremos?
Quantas vezes
já havia me perguntado isso? E saberíamos as mesmas coisas? Que há uma Capela
entre as ruínas! Que houve uma guerra! Não. – respondi - Nós
ainda não morremos. A menos que não haja uma Capela, que não tenha havido uma
guerra.
Mas, ele
sabia...O cheiro da guerra estava em sua pele. Os sons impregnados em uma mente
que não encontrava sossego para dormir. Ficou embevecido pelas frutas,
planejava colher, conservar, vender. Queria refazer cada pedacinho da cidade em ruínas. Fui cruel.
Acabou! Eu disse. Stone... A cidade acabou. Por quê?
Não sei! Depois senti no seu olhar, uma tristeza indizível.
Convidei-o a
entrar comigo na capela. Lembro bem de suas palavras: - É quieto aqui. Acho que
nunca tinha visto a Capela iluminada pelo sol. Bonito. E, esse frescor?
Perguntei qual era a sua melhor lembrança: - Ouvir meu pai falando sobre as
estrelas. Minha mãe rindo dele e amassando o pão. Eu e os meus irmãos
brincando... Depois a música, as festas, os amores... Não sei. O sol nascendo
na frente da Capela. E você?
Eu. O
palco. Só me sobrou o palco.
Pediu para
dormir no meu colo: Dorme! Criança! Dorme! O filho que nunca tive.
Foi assim, ele foi apagando... Eu vi a
gravidade, ele foi arrochando... Não tinha o que fazer... O garoto estava cheio
de vida... De sonhos. Coloquei-o bem onde disse que gostava de ficar. Olhando o
sol nascer entre a Capela e o Arvoredo. Continuei cultivando o pomar e as
rosas. Agora, a cidade está sendo demolida. Tudo mudou, mas continua a mesma
coisa... Estranho. Negócio estranho. Ainda ouço o garoto cantando..
A Dama
A nobreza de um ser não reside em sua origem, nem em sua raça ou posição
social, mas na natureza de suas ações. Ao longo dos tempos as histórias vão se
repetindo e se cruzando, nobres e avarentos agem e interagem.
Essa é a história de uma bela égua chamada Dama que, por circunstâncias
do destino, foi abandonada, já na velhice. Vagava pelas ruas de uma cidade, sem
nada, além de um coração generoso e um meigo olhar, procurando pasto e fugindo
dos carros.
Cavalos e homens sempre viveram grandes histórias de amor e de ódio. Dama
continuava meiga e bela, apesar do abandono. Seu pêlo era totalmente branco e
sua crina longa e macia.
Um dia sua história cruzou com a de ser humano avarento... Nem nome o tal
homem tinha... Atendia por velho, traste, carroceiro, ou ainda bêbado. Magro e
maltrapilho vivia num amontoado de tábuas velhas cobertas com um pedaço de lona
que chamava de casa. Ocupava seus dias recolhendo lixo, bebendo e futricando
sobre a vida alheia.
Ao cruzar com Dama seu olhar de malandro logo viu que a égua ainda servia
para puxar carroça. Com este perverso intento passou uma corda de nylon em seu
pescoço e levou-a consigo. O porte altivo e a elegante pelagem levaram o homem
a adivinhar seu nome... O que a induziu a segui-lo sem resistência.
A vida nas ruas era muito cruel e degradante, a égua achou que sua sorte
havia mudado, sem imaginar a crueldade que a esperava: pouca água, pouca
comida, o confinamento, marcado por uma corda envolvendo o pescoço e a árdua
labuta de puxar a pesada carroça.
Seus dias viraram tormentos, suas noites solidão e medo. O homem passou a
ganhar melhor, com o fruto do trabalho do animalzinho. Mas, desperdiçava tudo
bebendo... Não melhorou sua casa, não cuidou de Dama, nem de si mesmo.
Perto dali vivia um jovem que a
tudo observava, enternecido, acompanhava seu sofrimento. Nas prolongadas
ausências do homem, passou a alimentar e tratar da égua.
Dama reconhecia o esforço do novo amigo e retribuía ao tratamento com a
única coisa que possuía: um meigo olhar.
Passaram dias, noites, ventanias...
Muito peso Dama carregou! O homem perdia a paciência com facilidade e, a
pouca razão que tinha, por qualquer coisa.
Um dia quando voltavam de um longo frete... Dama estava exausta e a rua
enlameada, escorregadia. A carroça atolou enquanto o homem, furioso,
esbravejava e batia na égua... O jovem, indignado, saiu de sua oficina e
conteve a bestialidade do homem.
Ao descobrir que a égua era, pelo jovem, amada... O homem foi tomando por
um ciúme doentio e destruidor. Seus olhos explodiam de ódio e seu coração
amargo foi tomado por rancor... Sozinho, sob a lona e escondido atrás das
tábuas, bebia e amaldiçoava: - Com que direito aquele... – Essa maldita égua
branca... – Dama? – Bicho ruim... Peste dos quintos dos infernos...
A égua sentiu, por instinto, que sua sorte ficaria ainda pior...
Ao amanhecer os pássaros não cantaram... O silêncio dominou as ruas...
O homem acordou com o sol do meio dia batendo na cabeça. Queria água. A
carroça estava no mesmo lugar de sempre. E, ao lado dela, Dama dormia um sono
eterno e reparador. Sua longa crina esvoaçava ao vento. Havia marcas de
desumanidade por todas as partes, nas paredes, no chão, no machado cravado no
tronco da árvore.
De sua oficina o jovem viu o último e libertador trote de Dama rumo ao
infinito... Guardou no peito o seu olhar leve e meigo e teve a certeza de que tudo
estava como tinha que ser.
O homem foi condenado a viver atormentado pelas lembranças de haver
matado um anjo... Aquele que havia sido envido para libertá-lo dos sofrimentos.
Viamão, 23 de fevereiro de 2009
Fernanda Blaya Figueiró
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