Ódio destilado: “Coxinhas”, “Magais”, “Nerds”, “Piriguetes”, “Porcos” Cachorras”

Ódio destilado: “Coxinhas”, “Magais”, “Nerds”, “Piriguetes”, “Porcos” Cachorras”

Ontem Porto Alegre recebeu bem inúmeros Argentinos, para um jogo de futebol maravilhoso, cheio de bons momentos. Claro que, como havia uma multidão, pequenos problemas de violência aconteceram, com alguns torcedores sendo agredidos e roubados. O principal alvo eram os ingressos ao Estádio Beira Rio. O Clikrbs postou um vídeo de um tumulto, onde um brasileiro era agredido caído no chão por argentinos, revoltante, mas a segurança logo agiu e controlou os bandidos. Fui ler os comentários sobre o caso e fiquei impressionada com o ódio disfarçado nos comentários... Parece que escrever nas redes sociais ou nos comentários de blogs dá o direito a um discurso irracional, ao xingamento pelo xingamento. Os posts sobre política partidária chegam as raias da loucura: o ser que não é do seu partido ou da sua corrente ideológica parece que é “uma besta”, uma coisa, sem alma. Porque tanta vontade de destilar ódio? Alguns posts parecem feitos por cães raivosos. Uma vez recebi um telefonema de um “falso sequestro” e a retórica era tão agressiva e estúpida que liguei, com outro telefone, para a polícia e a atendente me disse categoricamente:- não se preocupe isso é um golpe aplicado por presidiários. Mas o sentimento que fica é de que algo horrível está acontecendo. Aqueles gritos, xingamentos, o ódio na voz daquelas pessoas e a impressão de que alguém estava sendo espancado é real. Um fato que está acontecendo é que como virou crime o ódio racial, foi transformado em ódio homofóbico, de classe, um ódio verbal. Ler alguns comentários e perguntas e respostas deixa quase a sensação de que fomos agredidos. Eu também neste anos de blog em algum momento destilei ódio, mas não faz bem principalmente para o fígado. Acho que nossa mente, nosso corpo, nosso lado animal não diferencia o ataque real de um ataque verbal. Agora quem mais sofre com essa descarga química que o ódio carrega é quem escreve, quem faz uso da palavra de forma letal. Como a moça que atendeu ao telefone me tranquilizou, aos poucos identificamos um discurso corroído pelo ódio nas primeiras linhas.Também há um discurso de que o mundo está deteriorando as suas relações então tem listas de dez cidades mais violentas, dez países em crise, os vinte lugares mais violentos do mundo, estatísticas de que em breve estaremos todos em guerra, ou passando fome, ou envolvidos em algum tipo de apocalipse, então algumas pessoas entram em desespero e se alimentam destes dados. Nós alimentamos e nos alimentamos dessas coisas. Então você dirá que sempre foi assim e eu vou concordar, só que antes eram só algumas pessoas que tinham o poder da caneta, ou do teclado, agora qualquer um tem. E saber se relacionar com a palavra é um aprendizado também. Alguns sites e blogs que são tomados por vírus ficam assim caducos xingando, como numa ciranda maluca, talvez esta retórica seja virulenta... Para mim parece que as pessoas adoram odiar mais do que amar. É mil vezes mais fácil.


Fernanda Blaya Figueiró  

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