Tim
Lopes não morreu em vão.
Ontem
escrevi sobre a desarticulação das comunidades, muito em razão do
linchamento de uma mulher, hoje lembrei de Tim Lopes, jornalista que
foi brutalmente assassinado alguns anos, ele fazia imagens de um
baile funk quando foi descoberto pelos traficantes, “julgado”,
torturado, morto e “cremado”. Foi uma das primeiras mortes, amplamente discutida, ligadas a ocultação do que acontecia no interior das comunidades,
as pessoas sabiam, incluindo as autoridades que os traficantes
comandavam a população e impunham a lei do silêncio, um “tribunal”
não oficial e violentíssimo e regras profundamente distorcidas, que
acobertavam a violência interna das comunidades e os crimes fora
dela. Absolutamente o mesmo mecanismo que se sabe que as “Máfias”
do mundo usam e talvez articulado a estas grandes fontes de poder. O mundo do tráfico é muito mais complexo do que isso, onde a
droga é produzida, como circula, como chega ao consumidor final?
Esse “mercado” gera uma riqueza ilícita e banhada em sangue.
Além de toda a “mercadoria” contrabandeada que também tem sua
parcela de ocupação na violência. Essas são as formas ilegais e
paralelas de ação e geração de violência. Noutra esfera ou num
âmbito diferente estão a corrupção e superfaturamento de obras e
uso ilegal do dinheiro público, que é articulada por políticos e
funcionários públicos desonestos e por “empresários”
corruptores, também gera mortes, roubos aos cofres públicos,
escândalos e também é “mega” é parte de um mecanismo muito
maior que envolve empresas e políticos estrangeiros. O que mudou
mestes últimos anos: as duas realidades estão se fundindo, a
população das comunidades periféricas está mostrando o que
acontece por vídeos, fotografias, pelas denúncias, que antes eram
proibidas pela lei do silêncio, na esfera do crime de colarinho
branco, tudo está mais “vigiado”, mais documentado, assim Tim
Lopes não morreu em vão, pois abriu uma pequena brecha para que a
luz entrasse num mundo obscuro e assustador. Nasciam, viviam e
morriam pessoas “que não existiam”, o personagem da novela das
seis da Globo“Serelepe” ( um primor da dramaturgia, diga-se de
passagem) afirma que não existe, pois não tem pai, mãe e nem
documentos. A novela é uma refilmagem de um antigo texto, tem
assuntos bem polêmicos de uma outra época, mas que ainda são
importantes, o abandono de menores, analfabetismo, posse de
propriedade, não aceitação da diversidade sexual, a luta pelo
poder e as instituições. Mas voltando ao ponto as pessoas eram
mortas e não apareciam em estatísticas, não contavam, pois “não
existiam”. E ainda hoje há uma legião de “Serelepes”, não
protegidos pela comunidade como o personagem da novela, que
simplesmente não foi educada, nasceu e foi criada a margem de tudo,
na “selva urbana”. Temos uma imprensa muitas vezes
sensacionalista, que se alimenta do escândalo, porque a sociedade é
sedenta por coisas ruins. Esses garotos que aos quatorze anos já
mataram, roubaram, estupraram, vivem entorpecidos e sabem que “não
existem” saíram dos limites imaginários das comunidades e estão
vivendo nas ruas e becos das cidades, eles “ganharam o mundo”.
Não devem respeito nem mais aos traficantes e muito menos ao poder
instituído, a polícia. Os corruptos fizeram a mesma coisa, roubam a
luz do dia, porque acham que não serão pegos e imagino que só uma
pequena parcela é, a maioria “escapa”. Privilégio brasileiro?
De jeito nenhum é só pensar em filmes protagonizados por Al Pacino
e Robert de Niro que estes “personagens” todos estarão lá. Só
que lá, no primeiro mundo, eles usar o dinheiro sujo para criar as
atuais empresas corruptoras, nem todas lógico. Pensar na sociedade
atual brasileira é pensar na sociedade mundial. Então não tem
“santos e demônios”, tem seres humanos e suas limitações
construindo e destruindo comunidades. Como reverter isso? “ O amor
é a força mais poderosa do mundo”. Muitos filosos,
teólogos,profetas pedagogos, psicólogos, legisladores já
discorreram sobre o poder deste “sentimento”. Nossa sociedade
está com febre alta e precisa de compressas de amor, de antibióticos
contra a maldade, de aquecimento do coração e de menos hipocrisia.
Por que a sociedade precisa ser repressiva para funcionar? Porque
deixamos a violência aparecer? Porque uma parcela da sociedade não
consegue entender o que é ser “bom” e será que a sociedade é
“boa” com essa parcela? Quando a sociedade “joga” os
prisioneiros dentro da cadeia e espera que a “justiça” seja
feita lá dentro por outros apenados, e isso é velado, está
delegando a eles o poder sobre a vida dessas pessoas, mas quando esse
poder vem para as ruas as pessoas se assustam, isso é hipocrisia. Se
essa mulher que morreu tivesse sido presa e fosse assassinada dentro
da cadeia, seria “normal” mas a comunidade queimou uma etapa e
“fez o serviço” fora dos muros. Como os antigos traficantes
fizeram com Tim Lopes, ele deve ser “polícia ou alcagüete”,
logo deve sofrer e morrer. Para que nós todos recuperemos a sensação
de segurança de poucos anos atrás teremos que discutir a
valorização de uma polícia forte, mas não cruel e corrupta, além
de uma atenção real a esta população que cresceu a margem de
tudo. Se as pessoas que mataram a mulher tivessem um pouco de amor no
coração e temor de serem punidas, as coisas teriam sido diferente.
Mesmo que a vítima fosse uma pessoa horrível, uma criminosa cruel e
atacasse crianças ela não poderia ter sido morta a pancadas. A
sociedade tem que dizer isso: foi errado. Vocês que mataram agiram
errado. Vocês foram cruéis. Nosso pensamentos muitas vezes acabam
se tornado cruéis, quando morrem alguém na cadeia e pensamos “
menos um bandido” somos nós que estamos com o porrete na mão.
Quando um jornalista diz em cadeia nacional, “Olha o que te espera
na cadeia... Essa pessoa mereceu.... Bandido morto é que é bandido
bom... Tinha que...” Logo em seguida vem a polícia agiu com
violência... ônibus queimado com crianças dentro... linchamento,
esfolamento, esquartejamento... E o tomate? É o vilão. Nós aqui do
outro lado pensamos: Oh! Não vou comprar tomates hoje, se algum
ladrão aparecer eu quebro ele a pau... Quando houve o referendo para
desarmar a população eu fui contra e ainda sou, porque na época um
dos argumentos das pessoas que defendiam o venda legal de armas era
que o bandido teria a certeza de que a população estaria desarmada,
além de que quanto mais proibido mais violência gera, isso acontece
com o contrabando, com as drogas, como toda a economia ilegal, que
inclui a corrupção, a lavagem de dinheiro, a venda e compra das
coisas ilegais. Se mudarmos a sociedade tirando um pouco o “dinheiro”
dos impostos e tendo uma economia mais madura e competitiva
poderíamos melhorar o quadro? É só uma idéia, ser de fato uma
economia de mercado. Legalizando as drogas evitaríamos muitas
prisões? Nossos vizinho uruguaios estão tentando. O produto
falsificado o próprio consumidor está “selecionando”, ninguém
quer e quem compra sabe que não dura, que é ruim.
Fernanda
Blaya Figueiró
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