Sobre o filme “Getúlio”
e outras divagações
Ontem fui
assistir ao filme “Getúlio”, demorei um pouco para ir ao cinema,
não sei bem porque, estava com dúvidas, mas adorei o filme, acho
muito complicado tentar retratar e pensar em figuras controversas da
história. O filme conta a versão oficial, a de que Getúlio Vargas
se matou e não a de que a conspiração que levou ao seu suicídio
o teria matado e montado uma “cena de suicídio”. A arte
brasileira ganha com o filme, com a maravilhosa interpretação dos
artistas, Tony Ramos está fantástico. Eu vou ao cinema para me
divertir e para aproveitar, procuro comentar o que gosto, raramente
falo sobre o que não gostei num filme, pois existem diferentes
estéticas e nem todas me agradam, só que agradam a
outro público, como filmes de ação ou comédias, dificilmente vou
ao cinema para assistir esses estilos, já outras pessoas adoram. É
preciso valorizar e apreciar o cinema nacional, que vem melhorando
em qualidade, nossos artistas precisam ser reconhecidos e admirados.
É dificílimo fazer arte no Brasil, a maioria dos artistas não
consegue chegar a ser reconhecido nacionalmente, mas não desiste.
Aqui em Viamão tentamos prestigiar uns aos outros, para formar entre
nós um público, claro que também acompanhamos os artistas
nacionais e internacionais. Uma coisa que precisa melhor entre as
emissoras de TV é uma maior valorização uma das outras, mesmo que
haja uma forte concorrência entre ela cada uma tem seus artistas e
pouco mostra dos outros. O público ganha com a concorrência, pois
pode ter mais opção e um olhar diversificado. O elenco do filme é
composto quase que todo de artistas da Globo, então algumas pessoas "torcem o nariz", isso parece uma grande bobagem. Nos programas
jornalísticos mesmo há um texto comum a todas as emissoras, o que
digamos é uma pauta principal e há assuntos menores que cada uma
aborda de uma foram, assistir diferentes jornais, ouvir ou ler
diferentes comentaristas ou especialistas é bom, cria uma imagem
mais ampla. O filme mostra um Getúlio humano, com vários conflitos
e dilemas.Barricadas, carros queimados, o povo nas ruas, as forças
armadas em polvorosa criam uma atmosfera pesada. O que mudou de lá
para cá? Hoje vivemos, posso estar sendo uma ingênua útil, uma
democracia bem mais consolidada do que naquele período, em que o
mundo inteiro era menos democrático e mais cruel. A diferença está
acho que na falta de um "filtro" para a realidade, a
sensação de que a sociedade está mais violenta pode estar
associada a um excesso de informações.Há muita coisa acontecendo,
tudo é imediatamente publicado e na sua crueza, exatamente como
alguém captou. Instantaneamente acontece um outro fato grave e a
notícia anterior fica velha sai do foco, nem bem digerimos uma e a
outra já nos toma de assalto. Aquela angustiante sensação que
permeia o filme, de que algo grave vai acontecer, para nós, no
ritmo que a nossa realidade anda é uma constante, de qualquer lado
pode surgir algo que prejudique a sua vida. Nos últimos tempos tenho
fechado os ouvidos para as fofocas políticas e isso muda a forma
como nos sentimos com relação ao poder público. Ontem saiu o
resutado do julgamento de um importante escândalo que aconteceu aqui
no DETRAN, muitas pessoas estão sendo punidas por atos de
corrupção. O "mensaleiros" já estão também sendo
punidos, isso pode trazer uma significativa mudança para a nossa
sociedade. Se a corrupção for diminuíndo as pessoas voltarão a
confiar nas instituições e na necessidade de "andar na linha".
Tem como melhorar as coisas, tem como mudar a realidade, sem chegar a
um ato dramático e extremo como a deposição ou o suicídio de um
chefe de estado. O filme finaliza com o dado de que só dez anos
separaram o fim da era Getúlio e o início da ditadura militar. Nós
já vivemos quase trinta anos contínuos de democracia com inúmeros
sobressaltos e problemas no meio do caminho. A qualidade da nossa
democracia é que precisa melhorar, a qualidade do debate, do
pensamento,dos partidos, das ideias, da militância. As pessoas são
ardorosamente contra ou a favor de um ou outro partido e estão
fechadas dentro de suas muralhas, estamos cansando dos políticos e
do diálogo e isso não é bom. Necessitamos das coisas públicas,
necessitamos que funcionem, que tenham qualidade e que possamos
confiar. Já me alertaram que eu falo sobre um mundo irreal, que no
dia-a-dia a "porca torce o rabo" e que é muito difícil, a
realidade é muito mais complexa e difícil do que eu percebo ou das
"coisas que escrevo". A realidade não tem um filtro, é
mais dura do que percebemos. Gostando ou não precisamos entender o
quanto Getúlio Vargas foi importante na história do país. Odiar ou
amar a sua figura não faz o menor sentido nos dias de hoje e esse
distanciamento, que o tempo permite, pode nos mostrar um ser humano
mais do que um ícone e nos ajudar a entender o que se passa nos dias
de hoje.
Fernanda
Blaya Figueiró
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