Escrita do cotidiano
Fiz uma releitura de
alguns textos antigos e parece que fiquei um pouco sem energia para
começar tudo de novo. Uma vez participei de uma palestra, faz tempo,
nem lembro bem o conteúdo mas disse ao me apresentar que eu escrevia
contos e poemas. A palestrante fez a seguinte pergunta: “De que
oficina tu és?”. Respondi que de nenhuma e seu olhar
automaticamente desviou e fez uma expressão de desdenho. Aqui neste
canto do mundo e talvez no mundo todo, as pessoas são imediatamente
classificadas por sua condição social ou pela sua tradição e
pelas “escolas” que frequentou. Há um preconceito imediato aos
autores sem editora, sem “mestres oficineiros”, ou que pertencem a um ou outro grupo. Não há espaço,em algumas
esferas,para quem quer seguir o caminho sozinho e aprender com os
próprios erros, definir a própria pauta. Então muitas vezes o cenário fica ocupado só por
“queridinhos” da mídia, atores, músicos, jornalistas, acabam se
tornando escritores mais por serem conhecidos, do que por terem
vocação. Não que eu ache isso errado, acho que é legitimo. A
literatura anda carente de “ídolos”, de pessoas que tenham
vontade de entrar em circuito. Isso contraria o jeito de alguns
escritores e poetas. Assim como ter que convencer o outro de que o
que você escreve deve ser lido, ou tem um valor agregado. Não tem,
é mentira da barata!! Leia se quiser e mesmo sem um valor literário,
linguístico, monetário ou a intenção de construção do
conhecimento... Eu não sou de nenhuma escola, não participo de
nenhum movimento e nem quero “fazer parte”. Escrevo como quem
respira. A palavra, bem ou mal escrita, é minha mais antiga
companheira. Sempre me ocupei em imaginar como se chegou a
determinada palavra, determinada combinação, como alguém nomeou o
Pão de Pão, a Mão de Mão? É pela palavra que nosso mundo vai se
definindo, que vamos entendendo: isso pode, isso não pode. As
palavras são as estruturas de nossa ação no mundo. O universo da
literatura não é o palco é a folha. Onde surge a nova ideia por vezes muito
antiga. É preciso andar sozinho para perceber as coisas, para olhar
a realidade e ver o esqueleto do mundo.
Para saber se são sólidos os discursos é preciso andar na rua,
olhar a vida acontecendo, sem distração. O que as pessoas dizem e
mais como elas vivem, o quanto tem de real na fala de uma pessoa? De
uma cidade? Que as cidades falam sim. Que as ruas e avenidas contam
sim os casos de vida e morte. Poesia me abandonou, mas ela volta.
Preciso ir escrevendo essa prosa cansada até lá.
Fernanda Blaya Figueiró
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