Uma pá de cal.
Roubaram.Foram julgados.
Foram presos.Estão pagando a multa devida e cumprindo a pena.O
Brasil, para avançar, precisa jogar uma pá de cal nesta história
do Mensalão. A única coisa que ainda está aberta é a fuga de um
deles, que está já localizado e identificado. Esta novela está
começando, se será deportado, se será preso, se perderá bens e se
devolverá o dinheiro interessa a todo mundo. Antigamente os
corruptos e criminosos de outros países, pelo menos no cinema,
sempre acabavam fugindo para o Brasil, usufruindo do fruto de seus
crimes em belas praias e na maior impunidade do mundo. Agora a
realidade inverte isso, que bom, teremos muito assunto para tratar.
Há uma enorme corrupção no Brasil, sim. Como no resto do mundo.
Com o Mensalão os crimes contra o dinheiro do povo vão diminuir?
Provavelmente sim, mas não vão acabar, porque a sociedade está
organizada de uma forma que deixa uma margem grande para que a
corrupção aconteça. Com a maior fiscalização e com o risco
aumentado com o tempo se corromper e corromper ao outro não será
rentável, o risco será muito grande. Vão inventar novas formas de
burlar a lei? Sim. E novas formas de combate terão que se adaptar ao
jogo. Agora é o tempo de voltar a acreditar nas instituições.
Porque o Mensalão incomodou tanto? Porque as pessoas acreditavam que
o partido dos trabalhadores era um partido diferente, as pessoas
estavam embevecidas com a pluralidade partidária, acreditavam nas
ideologias, queriam um governo de “esquerda” e não de “centro
esquerda”. Sonhavam com uma democracia idealizada, utópica. Uma
vez escrevi um poema que depois perdi, ou eliminei, não lembro,
dizia mais ou menos: “ agora o PT é uma estrela... Cravada nas
costas do povo”. Era uma alusão ao poema de Elis Regina e ao
sentimento de traição que os escândalos deixaram. Esse para mim
foi na época o sentimento: 'Vocês não foram colocados aí para
isso.” Votei no Lula até a primeira eleição, acho que só no
segundo turno, depois não votei mais. Agora é a hora do país se
repensar, de surgirem lideranças novas e um novo eleitor. As coisas
não vão mudar magicamente no Brasil e nem em lugar nenhum. Há um
jogo político amplo e além fronteiras muito maior do que a
capacidade de tomada de decisão de líderes nacionais. Há um
mercado e um poderio transversal que já ultrapassa a autoridade
local, o mundo já mudou. As pessoas vão ficar um pouco chateadas
com a minha colocação, mas por exemplo, eu acho que Mandela foi
libertado porque estava na hora, muito mais do que pelo protesto das
pessoas ou pela sua figura. Um momento histórico estava acabando e
outro reiniciando. Ou o Muro de Berlim, outro momento marcante de
mudança, acabou porque surgiram as condições para isso. A luta e a
resistência das pessoas foi importante, mas não foi pesada o
suficiente para a virada. No ano passado uma blogueira cubana esteve
no Brasil e foi quase que impedida de expressar a sua visão sobre
seu país, agora uma médica diz estar se sentindo enganada e temendo
voltar para casa e ser punida pela sua decisão de não mais fazer o
jogo no qual estava inserida. Não era a realidade que ela encontrou
aqui a ilusão que tinha quando deixou o seu país. Eu vivo
insistindo que o Brasil está atrasado no mínimo vinte anos com
relação aos outros países, talvez os países do terceiro mundo
estejam. Outros países e cidades já enfrentaram e enfrentam os
problemas que nós temos, como a violência urbana, o excesso de uso
de drogas, os congestionamentos e a possibilidade de
desabastecimento, de falhas em serviços essenciais, como
fornecimento de luz, de água potável, de alimentos. A própria
questão da propriedade da Terra é um problema enorme. A questão
indígena é um grande problema, ouvi estes dias que uma comunidade
inteira estava prestes a perder a sua terra porque um laudo
antropológico dizia que os índios tinham o hábito de “andarilhar”,
a humanidade inteira sempre “andarilhou”. Então uma enorme faixa
de terra produtiva será entregue aos índios e as “ONGs”
estrangeiras, para que os índios andarilhem e famílias inteiras
serão jogadas em favelas, com uma mão na frente e outra atrás.
Essas famílias não são objeto de estudo da antropologia? Não são
seres humanos organizados e que também tem o seu direito de “não
andarilhar” e sim o de se fixar na terra que compraram ou que foram
incentivados a “ocupar”.Eles, antropologicamente, são um grupo
que acreditar na propriedade. Para mim o maior impasse que temos que
enfrentar é o de termos uma legislação farta, talvez bem
construída, mas mal executada. Não só pelo poder executivo, mas
pela sociedade como um todo. Leis, planos, normas, protocolos, nada é
bem conhecido e cumprido. E talvez esse emaranhado de coisas acabe
facilitando a sensação de que não faz mal dar uma “burladinha na
lei”, que no fim não dá em nada. Neste sentido há inúmeros
jargões e ditados; “ só ladrão de galinhas é que vai em cana”,
“cadeia é para pobre”... O país acompanhar a prisão dos
“mensaleiros” foi muito bom, saber que a “corda está
encurtando” também. A realidade pode estar mudando, se para melhor
ou para pior vamos ter que descobrir. Se por intermédio de um
movimento interno ou externo também só descobriremos com o tempo.
Nossas pequenas atitudes e nosso poder de decisão vai pesar? Acho
que muito pouco, mas alguma coisa vai acontecer, acredito que se
“usarmos a força do pensamento” de forma positiva o Universo
irá moldar a nossa realidade de uma forma melhor, se mantivermos o
nossos olhos abertos e ouvirmos mesmo as hipóteses mais absurdas com
capacidade crítica e menos paixão, a tendência será a de termos
menos ilusões e logo menos desilusões. As pessoas ao se desiludiram
com o mensalão se desiludiram consigo mesmas, agora espiam a sua
culpa dividindo o fardo. Uns negam que foi feita a justiça, acham
que foi feita uma perseguição, já que era assim antes, outros
acham que a pena foi branda. Mas o Brasil de hoje, mesmo com todas as
suas dificuldades, na minha opinião, é muito melhor do que antes.
Mesmo com a violência, os engarrafamentos, a corrupção, a baixa
escolaridade de grande parte da população, as dificuldades com o
manejo da terra, há mais esperança agora do que antes. Muita coisa
ainda precisa melhorar, a propaganda do governo é falsa, tanto
quanto a propaganda da oposição, a verdade fica num meio termo. E
há interesses estrangeiros em manter o país “dependente” de
alguma forma. Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar. Precisamos ver de
forma mais clara a nós mesmos e aos outros países.
Ficou um texto meio
“torto” mas publico igual.
Fernanda Blaya Figueiró
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