Crônica: Ligando pontinhos.

Ligando pontinhos

As vezes parece que as pessoas não estabelecem relação entre as coisas. O medo da volta de "opressão" do tempo da ditadura miliar está criando na nossa sociedade uma perniciosidade. Quando ônibus estão sendo queimados para intimidar a ação do Estado, colocando a vida de pessoas em risco, assim como o patrimônio das empresas e o funcionamento das cidades podemos sim falar que existe uma ação terrorista, pois é uma ação que, através do medo, impõe um cerceamento da liberdade. Grupos que, a mando de presidiários ou de traficantes, matam e ferem, destroem e queimam estão impondo a sua vontade a força e com base no terror que geram nas comunidades. Ninguém fala, ninguém denuncia, ninguém reage, por medo. Calam as comunidades para se livrar da ação da polícia, que muitas vezes está mesmo errada.
Já as "manifestações" trouxeram a tona um grande problema: a política no Brasil ainda faz uso do "coronelismo". Contratar mercenários, capangas,cangaceiros, pau-mandados, milicianos ou seja lá como se denominam estes "manifestantes remunerados" ou "cabos eleitorais de aluguel" é uma prática antiga e antidemocrática. Ouvi na televisão que o cinegrafista Santiago foi a primeira vítima fatal dos protestos. Meu Deus! No ano passado a polícia invadiu uma favela com o "caveirão" e matou vários "manifestantes", parece também que no ano passado uma pessoa caiu de um viaduto no meio de um tumulto. Então ele foi o primeiro jornalista vítima fatal, não o primeiro brasileiro, que os outros também eram cidadãos. Como reverter isso sem cair no totalitarismo? Esse parece ser o desafio maior. A impressão que fica é de que os jovens estão agindo impulsivamente remunerados ou não e "dopados" por um sentimento de revolta.
Quais são os "interesses" como diria o velho Leonel Brizola ocultos nesta onda de protestos? A política brasileira está contaminada pelos "interesses". Não seria a grande reserva de petróleo que está no famoso pré-sal o motivo deste olhar das "forças malévolas do Mundo" para cá? Não que eu acredite que haja uma ou outra nação por trás destes movimentos ou um ou outro grupo, mas uma energia gananciosa, que quer desestabilizar o país para tomar conta do nosso petróleo. A imagem que me vem é a do personagem do "Senhor dos anéis" , um ser destruído pela ganancia, "Me precioso", atraído pela força maligna de um objeto desejado por todos. Devemos ligar pontinhos entre as notícias, protestos, protestos da população pobre, rolezinhos, milicias fazendo "justiça com as próprias mãos", corrupção desenfreada... Tudo isso faz parte de uma só paisagem. Os atores de sessenta e quatro estão  ofendidos com as comparações que os dois períodos históricos que surgiram  no imaginário da população comum, pois se acham mais importantes do que os atuais atores. Mas me pergunto será que na época eles sabiam o que estavam vivendo ou foi no exílio que construíram os pilares de sua ação, que deram sentido e "contaram uma história"? É só uma hipótese, não é uma denúncia. Esses rapazes, que tem mais de dezoito anos, logo perfeitamente cientes das consequências de seus atos, será que se sabiam "mercenários" ou agora estão construindo uma retórica sobre sua atuação? Quem está dando a eles a explicação sobre quem são e sobre o que representam?
Voltando a ideia de ligar pontinhos, será que a educação no Brasil é de fato tão ruim? E a saúde? Porque o foco fica só  no que está errado e na parte "ruim da sociedade? Não seriam os "interesses"? Quem e porque quer nos convencer de que tudo está perdido?
Nós poetas somos mais abertos a perceber "as energias" do mundo, a sentir as alegrias e as tristezas do mundo. É quase um estado comum a todos os poetas sentir as dores e os prazeres do mundo. Tudo o que afeta uma comunidade afeta a seus integrantes. Quando as energias do mundo estão desequilibradas parece que algo muito ruim está para acontecer, uma sombra oculta o sol e o lado escuro da humanidade aparece com toda a sua força e essa força precisa ser combatida com fé e esperança. De tempos em tempos nos enfrentamos com a fragilidade de nossa passagem pelo mundo e do próprio mundo que habitamos. Essa fragilidade da sociedade afeta a crença das pessoas e abre espaço para a ação do "grande mal". Cria argumentos para que o cidadão comum queira se torar um "justiceiro". Que pessoas boas aceitem que não há remédio senão o cidadão comum atacar a bandidagem. Esse é um sentimento terrível, pois ele abre as portas para que as pessoas aceitem o inaceitável e então a Guerra se apresenta e as pessoas pensam: se não há outra coisa, que ela venha! Então cheios de um sentimento de que é preciso viver esta realidade as pessoas marcham para um longo período de degredo. Não podemos nos deixar levar pelos "interesses" escusos que nos querem convencer a aceitar uma guerra eminente e necessária. Não! Não é necessária! As coisas não estão tão feias. Nossas crianças sabem muitas coisas importantes e tem um conhecimento que é só seu, que talvez não seja mensurável nos padrões que querem impor ao mundo todo. Sabem cantar, sambar, sabem fazer  quadradinho de oito, sabem sobreviver em condições que muita gente não sobreviveria. São felizes com um dia de sol para bater uma bolinha no campinho, ou uma volta na praia. Não precisam de quadras luxuosas para serem bons. Sabem construir e sorrir e gostam da vida. Alguns caem sim na desgraça, mas no mundo todo tem uma parcela de seres humanos que cai. Talvez isso seja só uma parte da humanidade como outra qualquer, uma parte da natureza do ser humano. Tem um "valor" que não é mensurável na nossa sociedade, deixem de medir o mundo por tabelas e passem a ver o dia-a-dia das comunidades para compreender que ninguém aqui quer tristeza. O povo quer alegria e coisas boas. Uma vez contei histórias numa aldeia indígena na Lomba do Pinheiro e o professor disse que "Nós(índios guaranis) não queremos tristeza!" . O Brasil tem como acomodar o desejo e a insatisfação de índios e não índios, com facilidade, o que talvez esteja atrapalhando o diálogo são os "interesses". Alguém que manipula o desejo das pessoas e cria uma retórica para satisfazer a sua necessidade e obter "Meu precioso".

Fernanda Blaya Figueiró

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