Poema Me quero de volta

Me quero de volta

tem algum mecanismo oculto em mim que tem
censurado a minha própria escrita

não é o olhar  cheio de inveja e de
ódio do outro é uma coisa interna
que é difícil de acessar se for
escrever para a compreensão de
seres limitados, presos em uma conjunto de
regras sobre o que seria uma escrita livre

as pessoas estão criando conflitos para si mesmas
pela
falta de um grande conflito existencial

não se pode viver uma existência inteira
como se viver bastasse

não basta
viver não é o suficiente

porque não faz o menor sentido viver
e isso não se trata de morrer

mas sim de que uma certa
incerteza tem que existir

é como uma pessoa muito oprimida
que precisa de um opressor
de um vilão

então fabrica para si esse ser
demoníaco
seja ele
o lixo, a fome, a poluição
a autoridade, o tempo, a miséria

e não é miserável, não é podre
mas a podridão justifica sua
não podridão, dá valor a sua
não poluição

não me queira perguntar que sentido tem este longo
e exaustivo poema

não tem sentido só um acorde grave
uma pincelada atordoante
um espasmo de vida

escrevo do terceiro mundo e
o primeiro mundo esqueceu que
mandou gente para cá
nossa arte, nossa existência
para eles não existe

nada do mundo novo para eles
será um dia uma coisa real
será sempre exótica, subdesenvolvida
e nós mantemos isso

mantemos o olhar para a corte
mesmo que simbolicamente
não haja uma corte

ou para os mestres
mesmo que os mestres não existam mais

esse é um grande dilema de fazer parte
de uma parte da humanidade que
vale pouco

exteriormente vale pouco

nosso país vive problemas que
o velho mundo já viveu e que o lado
rico do mundo esconde

há na humanidade uma parcela de seres
malévolos
intrinsecamente voltados para viver
violentamente

são os predadores
os inimigos

ter inimigos e predadores é
uma parte da natureza

essa é a parte que nos mantém em guarda
em estado de alerta

como entender e lidar com isso?

mais de noventa por cento dos seres
vive dentro das regras

uma grande parcela distorce as regras
corrompe
para viver melhor do que os outros

e uma parte simplesmente não
vive as regras e isso
não tem a ver com a condição econômica e
nem com o verniz da educação
é a besta em nós

os problemas que o Brasil vive
são os mesmos de outros países

porque mesmo que
se negue
a humanidade aqui
é a mesma que nos outros lugares
a arte daqui é tão importante
ou tão inútil quanto
a de outros lugares

a miséria daqui foi trazida de lá
foi aprendida lá
foi gestada lá

pariu aqui
mas foi concebida lá

eu queria estar falando em flores, em beleza
em como o verde tem saltado aos olhos e
das pequenas cigarras cantoras que estouram
das alegrias do mundo
das conquistas que nos esperam
de como vai ser belo o mundo amanhã
quando eu já for lembrança
de como
as pessoas serão boas e
livres
livres como nós somos
livres cheios de limites
nós que vivemos nas regras
mas há
alguma coisa me censurando

uma ideologia que quer
fazer de conta que estamos a
ponto de explodir em caos

essa gente que quer o caos
quer libertar um ogro
sedento que vive nos fundos da
humanidade nas cavernas escuras
do nosso pensamento e
dizem que eu sou
retrógrada
tem coisa mais superada que
alimentar o ódio e colocar
um país em colapso?

Este poema é
só um exercício de
entendimento
quem não gostar que
vá catar coquinhos

Fernanda Blaya Figueiró



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