Marginalização na
adolescência
O Estatuto da Criança e
do Adolescente foi criado há mais de vinte anos para regulamentar os direitos e deveres da sociedade com relação as crianças e
os jovens. Mas alguma coisa parece não ter funcionado muito bem, os
conselhos tutelares, que deveriam ser um espaço de conciliação, de
acompanhamento das famílias parece que não cumprem este objetivo. As crianças e o adolescentes acabaram se tornando alvo do crime, pela imunidade, podem cometer crimes graves sem serem punidos. Crimes que
são fomentados por criminosos adultos, e isso não acontece só no
Brasil. Crimes praticados por adolescentes são uma realidade em
várias partes do mundo. Como reverter essa realidade? É um desafio
e tanto, a educação vem perdendo o seu poder de transformação do
ser humano, as religiões estão defasadas, a
cultura foi massificada. Na África recentemente um shopping foi alvo
de uma ação terrorista de cunho étnico e político, aqui no Brasil
grupos de adolescentes tem tirado o sossego das autoridades criando
confusões nas praias, com os famosos arrastões e agora nos
shoppings. A tensão está aumentando muito e é hora de reagir. Os
shoppings estão entrando na justiça para assegurar a segurança de
seus usuários e estão certos. A Constituição assegura a liberdade
de reunião e está certa. Em tempos recentes o povo brasileiro não
podia se reunir livremente. Os pais e professores destes adolescentes
não tem mais autoridade sobre eles. Se reunir em shoppings é um
direito? Sim, mas destruir e aterrorizar não. Hoje tudo é
monitorado, filmado, rastreado…. Bem e o Conselho Tutelar? Não
seria fácil identificar esses jovens? Cadastrá-los e transformar a
sua ação destrutiva em uma ação construtiva? Talvez até com a
ajuda do shopping, de seus usuários, da mídia, dos logistas. Criar
para esse público um desafio que não seja o de “querer se tornar
marginal”. Quem são esses garotos, quem são seus pais, onde eles
estudam e porque não vão ao shopping dentro das normas que a
instituição determina? Como reverter isso sem “criminalizar”?
Já o outro grupo, o de menores que estão sendo aliciados por
criminosos e que foram educados em ambientes profundamente violentos
e realmente marginal, para eles é preciso uma política pública de
ressocialização. Um esforço maior para encontrá-los e uma ação
conjunta para recuperá-los. Uma lei que pretende proteger a criança
e o adolescente não pode acabar sendo usada para colocá-los na mira
de quadrilhas. Vinte e tantos anos mudaram a sociedade e talvez o ECA
tenha que ser amplamente discutido e talvez modificado.
Essa meninada dos
shoppings só quer uma aventura, quer ter uma história para contar,
mas se continuar assim serão barrados, como se fossem pessoas
inferiores e isso não leva a nada, só a um conflito de classes e de
etnias. Tem como pegar a onda se formando e agir antes que as coisas
piorem, antes que se torne incontrolável. E repito: isso não
acontece só no Brasil e com uma pequena parcela de crianças e de
adolescentes. A grande parte da população tem a proteção e a
educação que a lei indica, tem o acesso aos direitos fundamentais e
conhece seus direitos bem como seus deveres. Logo que essas notícias
circularam eu pensei os shoppings vão se tornar “clubes fechados
de compras”, mas isso seria lamentável. Quanto mais discriminação
entre as pessoas maior será a tensão, gerando mais conflitos.
Essa população tem que ser bem-vinda aos shoppings e educada a se
comportar uma vez estando lá. O estado de alerta de lojistas, de
empresários, de bancários é tão grande que as vezes constrange
até o consumidor comum, afasta das compras. Essa conjuntura toda faz
parte do início do milênio que estamos vivendo, faz parte do
sistema social, da forma como a sociedade foi sendo construída.
Estamos vivendo uma nova realidade e aos poucos precisamos nos
adaptar a ela. Essa geração não está perdida, nem fadada a nada,
está sem limites. É uma geração que não sabe, e não quer saber,
ouvir “não”. Mas vai precisar aprender a ouvir. Nós pedagogos
temos nossa parcela de culpa, assim como a mídia, como os
psicólogos, os pais,os assistentes sociais, o Estado. Pode correr
pelos corredores do shopping e sair roubando? Não! O que acontece se
alguém faz isso? Nada. Agora por decisão da justiça se alguém
fizer isso será impedido de ir ao shopping. Se a regra for clara o
adolescente vai saber qual é a punição que pode receber e vai
poder decidir se corre ou não o risco. Quanto aos pais terão um
argumento a mais para alertar e educar os filhos, para impor os
limites para a ação deles no mundo. Quanto ao governo cabe, além
de mediar isso com as instituições responsáveis, criar as
condições reais para que esses jovens tenham oportunidades de
trabalho e de levar uma vida melhor, além de criar lugares para
lazer e diversão saudáveis e construtivos. Rebeldia na adolescência
é uma coisa muito normal, educar um jovem adolescente é um desafio
enorme.Mas não é impossível.
Fernanda Blaya Figueiró
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