Educação em pauta
Este ano haverá em Porto
Alegre um fórum da educação, achei uma ideia muito boa, quem
trabalha na área precisa de espaços para pensar e refletir sobre a
sua atuação. Em Viamão participo de um fórum permanente de
cultura onde procuramos agir para melhorar a cultura na cidade
especificamente. Educação e cultura sempre andam lado a lado e
fazem parte da base de uma convivência social que vai determinando a
ação das pessoas no mundo. Este ano não pretendo participar do
Forinho, evento paralelo voltado ao público infantil, já participei
de outras edições e acho que tem que haver uma rotatividade de
pessoas, de ideias, basicamente de ventos novos, se não vira só uma
festa anual. Ontem estava assistindo a um programa de televisão
sobre o turismo na Cidade do Cabo, na África do Sul, e uma senhora, uma empresária bem-sucedida, deu um depoimento que achei muito
importante, dizia ela que vinha de uma família pobre, que seu pai
havia morrido quando ela era jovem, com dezoito anos, e que teve que
ajudar a mãe a sustentar os irmãos. Isso deve ter acontecido a mais
ou menos uns trinta anos, logo em pleno tempo do Apartheid, ela precisava
de um passe para poder estar na cidade e para poder trabalhar, sem
saber o que fazer começou a produzir salgados e outras comidas
típicas e a vender de forma ambulante, uma história que podia ter
acontecido em qualquer parte do Brasil. Mas ela disse algo que cabe
bem a nossa realidade, foi algo parecido com essa frase “eu tinha a
ilusão que para fazer sucesso teria que ter uma formação (
educação formal)...E eu não tive.” Isso é muito importante essa
senhora construiu uma bela casa, um negócio promissor, ajudou a mãe
a criar os irmãos e construiu a sua própria família, fazendo
aquilo que tinha competência: cozinhar os alimentos de sua tradição
cultural. Cultura, educação e desenvolvimento econômico se
encontraram, sem os mitos de que só faz sucesso quem “estuda
muito”. E ela continuou “se você tiver um sonho e acreditar nele
tudo vai dar certo” ou uma frase parecida com essa, não gravei as
palavras textuais. Estamos, neste início de milênio, vivendo uma
realidade fantástica, nossos mitos e tabus estão caindo. O que é
ser alfabetizado? É ter a capacidade de decodificar o código da
escrita. Um aluno que não consegue entender os textos da escola, mas
que consegue bater longos papos na internet com os seus iguais,
jovens que tem a mesma “linguagem”, que consegue jogar, postar
fotos, editar imagens está alfabetizado na sua cultura. Quem tem que
correr atrás do prejuízo é a escola, que talvez esteja defasada e
presa a conceitos antigos sobre o que é ser educado. Não que eu
ache que todo o currículo está errado, não está pois as novas
gerações tem o direito de ter acesso a todo o patrimônio cultural
e de conhecimento que foi construído até hoje. Porém achar que os
jovens precisam ser todos iguais em conhecimento, na minha opinião (
nem posso dizer na minha humilde opinião, pois não é uma coisa
humilde talvez até seja arrogante) é um erro. Um jovem que saiba
fazer uma “massa de cimento” pode ter um conhecimento tão
importante quanto o jovem que sabe manipular produtos químicos num
laboratório. Nós brasileiros ainda guardamos preconceitos com
algumas atividades. Como se alguns trabalhos fossem coisa para
“fracassados”. Isso pode destruir uma nação. Esses dias soube
de uma garota filha de pais formados em direito, super bem colocados,
que passou para pedagogia, levei um susto. Pensei mas essa menina vai
ser pedagoga? Ela estudou nas melhores escolas de Porto Alegre e vai
para uma profissão desacreditada, pouco remunerada. Logo em seguida
fiquei super feliz, pois essa menina vai seguir seu sonho. Nós temos
expectativas preconceituosas, não no sentido pejorativo, criamos
“barreiras” e conceitos sobre o que os jovens devem fazer e sobre
quem eles serão na sociedade. Se um jovem for analfabeto será um
“fracassado”.Não. Seria maravilhoso que todos os jovens fossem
bem alfabetizados, mas há também um futuro promissor para o jovem
que acreditar em si mesmo. Todos os jovens que estudam nas melhores
escolas serão médicos, advogados, cientistas... Não. Serão o que
eles quiserem e sonharem ser. Que bom que temos pedagogas com uma
formação básica boa. A pior coisa que pode acontecer a um jovem é
um adulto olhar para ele e dizer: “ você não serve para nada”,
se ele ficar bravo e reagir será como a senhora que foi fazer
salgados, se ele acreditar é que será um problema grande. Só que a
grande maioria não tem a força de espírito para reagir a uma
sentença dessas. Então economia, bem estar social, felicidade,
educação, saúde, cultura andam juntas. Como nossos alunos poderão
passar pela experiência da estar na escola da melhor forma possível?
Essa é, para mim, a grande questão. Com que competência eles
sairão do outro lado, depois de passar dez ou vinte anos dentro do
sistema escolar, de ter vinte ou mais professores, pedagogos,
diretores de escola, conselheiros tutelares, psicólogos, agentes
administrativos, seguranças, merendeiras... Que resultado tem toda
essa energia? E no caso do aluno que não se encaixar no conteúdo
programático oficial, que alternativas a sociedade vai criar para
ele? O Brasil está enfrentando um dos grandes problemas do atual
sistema global que é a violência. Não quis escrever aumento da
violência, pois penso que a humanidade já viveu períodos de muito
maior violência do que este. “Eu quero aquilo que você tem”,
poderíamos estar falando de um grande imperador querendo um
território de um outro povo, ou um ditador querendo a posse da
cadeira de um chefe de estado, mas falamos de pessoas armadas, com
armas de fogo ou com um cargo público ou privado, de todas as
classes sociais, que atuam sozinhas ou em grupos organizados para,
com o uso da força armada ou econômica, conseguir aquilo que querem. Esta semana ouvi
uma frase “ O Brasil não precisa de mais escolas, precisa de mais
presídios”... Será?
Há uma tentativa, acho que de de grupos políticos, de criar um certo descrédito sobre a gestão do país. Claro que coisa graves acontecem e precisamos pensar nelas, a principal é a corrupção em segundo a burocracia, que atravancam as coisas. Um outro problema é a falta de dados confiáveis, só para ilustrar, ouvi pela imprensa que o brasileiro é o povo mais feliz na semana passada, agora o brasileiro é o povo sexualmente mais insatisfeito. A taxa de empregabilidade cresceu, o índice de inadimplência diminuiu, o consumo caiu alarmantemente... Se formos tentar entender essas notícias parece que cada “instituto” cria suas pesquisas e não há um verdadeiro panorama do desenvolvimento social. E porque divulgar tabelas todas as semanas? Que confiabilidade estes “estudos” tem e para que servem? Isso também é "educação". Finalizando essa “milonga longa” essa semana encontrei uma moça que era diarista, inclusive adorava ser, tinha orgulho de sua profissão. Ela tem três filhos e quando teve o último tomou uma decisão: parar de trabalhar. Perguntei “Como vão as coisas?” “Vão bem.” ela responde. Está certa gastaria mais colocando os três filhos na escola ou contratando alguém para ficar com eles no turno inverso, do que ficando em casa, cuidando da educação dos próprios filhos, seu marido tem um patamar de salário que é o suficiente para a manutenção da casa. Essa é uma brasileira bem resolvida e feliz com a suas decisões, tem aproximadamente trinta anos o primeiro grau completo, está fazendo o segundo, tem uma grande formação cultural de base, é bem alfabetizada. Faz parte dos dados estatísticos de quem não está procurando emprego. Talvez esse seja o ponto que a discussão sobre educação tem que chegar, o ponto que falo no início, qual é o “produto” gerado pela energia de passar pelo sistema de educação. Além do tempo que os alunos estão na escola, estão vivendo a escola, no que a escola os ajuda na tomada de decisões no seu futuro, como ajuda na caminhada? Se a escola fosse um pouquinho melhor e isso não se trata de “ter mais dinheiro”, pois o sistema de educação é um dos mais ricos no Brasil, acho que não precisaríamos construir mais presídios.
Há uma tentativa, acho que de de grupos políticos, de criar um certo descrédito sobre a gestão do país. Claro que coisa graves acontecem e precisamos pensar nelas, a principal é a corrupção em segundo a burocracia, que atravancam as coisas. Um outro problema é a falta de dados confiáveis, só para ilustrar, ouvi pela imprensa que o brasileiro é o povo mais feliz na semana passada, agora o brasileiro é o povo sexualmente mais insatisfeito. A taxa de empregabilidade cresceu, o índice de inadimplência diminuiu, o consumo caiu alarmantemente... Se formos tentar entender essas notícias parece que cada “instituto” cria suas pesquisas e não há um verdadeiro panorama do desenvolvimento social. E porque divulgar tabelas todas as semanas? Que confiabilidade estes “estudos” tem e para que servem? Isso também é "educação". Finalizando essa “milonga longa” essa semana encontrei uma moça que era diarista, inclusive adorava ser, tinha orgulho de sua profissão. Ela tem três filhos e quando teve o último tomou uma decisão: parar de trabalhar. Perguntei “Como vão as coisas?” “Vão bem.” ela responde. Está certa gastaria mais colocando os três filhos na escola ou contratando alguém para ficar com eles no turno inverso, do que ficando em casa, cuidando da educação dos próprios filhos, seu marido tem um patamar de salário que é o suficiente para a manutenção da casa. Essa é uma brasileira bem resolvida e feliz com a suas decisões, tem aproximadamente trinta anos o primeiro grau completo, está fazendo o segundo, tem uma grande formação cultural de base, é bem alfabetizada. Faz parte dos dados estatísticos de quem não está procurando emprego. Talvez esse seja o ponto que a discussão sobre educação tem que chegar, o ponto que falo no início, qual é o “produto” gerado pela energia de passar pelo sistema de educação. Além do tempo que os alunos estão na escola, estão vivendo a escola, no que a escola os ajuda na tomada de decisões no seu futuro, como ajuda na caminhada? Se a escola fosse um pouquinho melhor e isso não se trata de “ter mais dinheiro”, pois o sistema de educação é um dos mais ricos no Brasil, acho que não precisaríamos construir mais presídios.
Fernanda Blaya Figueiró
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