Uma viagem ao fim dos anos oitenta: “O
Verão do Skylab”
Ontem assisti ao filme “O
verão do Skylab” adorei, foi como voltar no tempo, toda a
caracterização do filme é muito bem-feita. Em setenta e nove
vivíamos aqui aquela ilusão colonialista de que tudo nos Estados
Unidos ou na Europa era melhor do que aqui, vivenciar na tela
as mesmas coisas que aconteciam aqui num cenário de uma pequena
cidade francesa foi muito bom e desmistificante. As reuniões
dançantes com as mesmas músicas e os mesmos conflitos. Lembro da
moda dos macaquinhos de algodão, que faziam o maior sucesso e dos
papeis de parede, objetos de decoração, os desenhos animados na programção da TV. As mesmas angústias,
dúvidas e claro sempre alguma forma de apocalipse eminente que
permeia a história da humanidade. Viagens de trem, uma coisa que
para nós brasileiros ficou no passado, uma aventura da nossa época.
Aqui o final dos anos setenta foi um período de muita euforia e
esperança de que o futuro seria muito melhor. O filme tem um olhar
do rebanho na carcaça de um cordeiro, que é muito simbólico.
Cordeiro de Deus. As memórias das guerras e da tirania presentes nas
entrelinhas dão um gosto amargo no meio do caminho. Toda a ideologia
da época está presente nos diálogos e nos pequenos e grandes
conflitos que a trama trata com a banalidade de quem está vivendo o
momento.
O filme me ajudou a amadurecer uma ideia que tenho daquele tempo, havia um “banzo” dos tempos antigos. Por exemplo ouvíamos: a escola de antigamente é que era boa, o inverno de antigamente é que era mesmo um inverno frio, o verão de antigamente é que era um verão tórrido…. A literatura antiga era…. Essa criançada não sabe nada, não tem base, não tem acesso à cultura…. O tecnicismo vai acabar com a educação e com o conhecimento. Bom era o tempo do Ginásio, onde se aprendia “latim”. A calculadora vai deixar a mente deles preguiçosa e muitos outros mitos sobre a nossa época. Como se tivessem sido tempos perdidos, entre a geração antiga e a futura. Um tempo sanduíche. Não fomos a luta. Mas enfrentamos a transformação da guerra em violência urbana. Somos testemunhas de um tempo marcado pelo terrorismo e pela explosão demográfica. Saímos de pequenos mundos, como os que o filme retrata, para as grandes metrópoles. Se o futuro ficou melhor? Nem melhor, nem pior. As mesmas coisas continuam acontecendo. Comprei na feira contos de Júlio Cortázar, inicialmente achei um pouco simples, esperava algo diferente, confesso que não conhecia seu trabalho, sempre ouvi muita propaganda. E não gosto muito de propaganda na literatura. Acho que vou ter que tentar esquecer a propaganda e situar este autor no seu tempo e o filme me mostrou isso. Talvez para quem não tenha tido onze anos justamente em setenta e nove o filme passe batido e até seja chato. Talvez eu tenha que ler os Contos "de novo" e "de novo" até conseguir situar a obra e ser justa, ficamos exigentes de mais. Comprei também os Cantos de Ezra Pound, li pequenas partes desse livro, sempre em bibliotecas e nunca entendi direito. Sempre o volume um, não sei se tem um volume dois em portugues. Não encontro o canto nem a poesia mas gosto muito de toda a prosa. Para mim estes Cantos, são como curtas do dia a dia. Esses são os de antigamente, os que são muito melhores do que nós, ensinados no tecnicismo. Ensinados não a pensar mas em saber fazer algo. Desenvolver uma técnica. Para uma divagadora como eu ficar presa na forma de uma técnica é uma violência. Talvez por isso que mesmo sem entender muito eu goste de Ezra Pound, parece, para mim que sou leiga, que não tem técnica, não tem fórmula. Ainda bem que a técnica não precisa de mim e mesmo assim me atende. Se não fosse o tecnicismo será que o mundo teria conseguido mudar? Eu era como aquela meninas que pulava doidamente no meio do salão, nunca aprendi a dar passinhos e imitar o ABBA, nunca usei bobs. Quando virei careta? Simples quando a vida decidiu que era a hora de crescer.
O filme me ajudou a amadurecer uma ideia que tenho daquele tempo, havia um “banzo” dos tempos antigos. Por exemplo ouvíamos: a escola de antigamente é que era boa, o inverno de antigamente é que era mesmo um inverno frio, o verão de antigamente é que era um verão tórrido…. A literatura antiga era…. Essa criançada não sabe nada, não tem base, não tem acesso à cultura…. O tecnicismo vai acabar com a educação e com o conhecimento. Bom era o tempo do Ginásio, onde se aprendia “latim”. A calculadora vai deixar a mente deles preguiçosa e muitos outros mitos sobre a nossa época. Como se tivessem sido tempos perdidos, entre a geração antiga e a futura. Um tempo sanduíche. Não fomos a luta. Mas enfrentamos a transformação da guerra em violência urbana. Somos testemunhas de um tempo marcado pelo terrorismo e pela explosão demográfica. Saímos de pequenos mundos, como os que o filme retrata, para as grandes metrópoles. Se o futuro ficou melhor? Nem melhor, nem pior. As mesmas coisas continuam acontecendo. Comprei na feira contos de Júlio Cortázar, inicialmente achei um pouco simples, esperava algo diferente, confesso que não conhecia seu trabalho, sempre ouvi muita propaganda. E não gosto muito de propaganda na literatura. Acho que vou ter que tentar esquecer a propaganda e situar este autor no seu tempo e o filme me mostrou isso. Talvez para quem não tenha tido onze anos justamente em setenta e nove o filme passe batido e até seja chato. Talvez eu tenha que ler os Contos "de novo" e "de novo" até conseguir situar a obra e ser justa, ficamos exigentes de mais. Comprei também os Cantos de Ezra Pound, li pequenas partes desse livro, sempre em bibliotecas e nunca entendi direito. Sempre o volume um, não sei se tem um volume dois em portugues. Não encontro o canto nem a poesia mas gosto muito de toda a prosa. Para mim estes Cantos, são como curtas do dia a dia. Esses são os de antigamente, os que são muito melhores do que nós, ensinados no tecnicismo. Ensinados não a pensar mas em saber fazer algo. Desenvolver uma técnica. Para uma divagadora como eu ficar presa na forma de uma técnica é uma violência. Talvez por isso que mesmo sem entender muito eu goste de Ezra Pound, parece, para mim que sou leiga, que não tem técnica, não tem fórmula. Ainda bem que a técnica não precisa de mim e mesmo assim me atende. Se não fosse o tecnicismo será que o mundo teria conseguido mudar? Eu era como aquela meninas que pulava doidamente no meio do salão, nunca aprendi a dar passinhos e imitar o ABBA, nunca usei bobs. Quando virei careta? Simples quando a vida decidiu que era a hora de crescer.
Fernanda Blaya Figueiró
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