Sem correspondente

Sem correspondente


A poesia desnuda a alma em cartas abertas lançadas o esmo, não anônimas mas sim abertas. Toda a minha escrita vem por mim assinada ou assassinada. É sempre o meu olhar. Meu olhar observando a ti leitor ou a mim escritora, há mensagem superficial e subjacente e uma voz. Uma voz humana ou sobre humana? Não passam de um amontoado de palavras que descrevem imagens e sensações. Não há necessariamente um pensamento mas sim um olhar, um sentir a realidade. Nossa sociedade está sem limites definidos, os contornos do real estão nebulosos, tateamos no dia a dia buscando um porto seguro. A arte nunca nos dá essa segurança ela apenas aponta horizontes. O pêndulo pendeu muito para o lado do libertino, vivíamos uma sociedade onde nada era permitido e agora estamos no lado oposto em que tudo é permitido mas falta um referencial. Estou a conceituar? Porque não? Porto Alegre deve estar em festa pois iniciou uma caminhada pelo não aumento da passagem e agora ela cresceu e toma conta de São Paulo, a revolução contra o preço da passagem deve estar deixando alegres todos os seus mentores e depois? Quando os jovens estiverem com a cabeça mergulhada na água do sanitário, ou pendurados em varas tomando choque nas partes íntimas. Você dirá: mas não era isso que queríamos, era uma revolução pacífica. Nenhuma revolução é pacífica. Porque a  revolta, remove coisas consolidadas e abre o solo para o plantio de uma nova cultura. Ação-reação-ação. Belos hinos fazem a guerra, nobres ideias alimentam a morte, o espetáculo dos raios e trovões antecede o da tormenta. Tudo renova nos dias que se seguem, sim, mas com um sabor amargo. Não acredito muito no que está acontecendo acho que é só uma acomodação mais do que um grande período de rupturas, o mundo ainda não parece pronto para romper com o atual sistema. Há muito o que ser consumido ainda. Usando uma metáfora que faz parte da minha formação cultural: está o universo a procurar um justo entre ímpios? Não que seja uma questão moral mas uma falta de paradigmas, de limites. Você quer transporte e não quer pagar por ele o valor que é necessário, você sabe da inflação mas nega que ela altera os valores; você quer ser remunerado e não quer remunerar; você quer férias mas não quer dar férias; você quer consumir e não ser consumido; você quer ser louco mas não ser chamado de louco; você quer usar drogas e não quer a violência das drogas ou a sua dependência; você aceita a miséria mas quer que ela respeite sua fortuna; você quer ser um revolucionário e não quer o retorno a repressão; você quer trair mas não quer ser traído, quer fazer greve mas quer receber pelos dias parados; quer ser amado e não quer amar. Ação-reação-ação. Minha escrita é um jeito de olhar e não necessariamente coerente ou revoltado, é um olhar que nem sempre vai ao fundo do poço. E a sua revolta que medida tem? O “Ogro da guerra” quando desperta não tem controle, ele é autômato. Leva as coisas ao seu modo, com sua energia própria, que vem de uma ancestralidade destrutiva. Uma guerra é uma guerra, quem busca essa energia tem que estar pronto para o que ela traz, muitas vezes destrói tudo e salva apenas as baratas e ratazanas que se escondem e sobrevivem. É justa a nossa realidade? Nem um pouquinho justa. Como ajustar? Vamos levar a realidade a costureira.

Fernanda Blaya Figueiró  

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