Porque não torna-se violento?

Porque não torna-se violento?


Ontem fui ao cinema assistir ao Faroeste Caboclo, adoro o Renato Russo e a Legião Urbana, mas desta música nunca gostei muito, é quase uma ópera roque, mas sempre achei cansativa. Adorei o filme, foi muito bem-feito e conseguiu retirar da música a história inteira. Dá para dizer que a música foi clarividente e que o “faroeste” continua entre nós, ou poderíamos também dizer que é uma releitura brasileira do “Poderoso Chefão”. O filme é violento, um pouco desalentador mas atualíssimo, fico me perguntando se João de Santo Cristo não houvesse roubado “duas balas”, que poderíamos comparar ao “pão” de Vitor Hugo, seu pai não tivesse morrido em consequência e não houvesse secado a água do poço, teria o personagem uma outra sorte? - “Não sei se fui eu ou se foi o destino?” Ele responde antes da derradeira hora. E a menina? Porque a atração por um bandido? É só um filme, mas reflete o momento que o Brasil vive. Deveria passar na Europa e teríamos menos turistas subindo o moro. Fico pensando no que buscava o turista alemão que hoje está entre a vida e a morte, lutando para sobreviver.Na semana passada assisti ao filme “Artigas: La Redota” outro grande filme que também fala em luta, poder, violência e transformação. João de Santo Cristo e Artigas um personagem fictício e o outro real, ou dois personagens fictícios e dois reais? As velhas fronteiras estabelecidas a força bruta estão caindo pelo mundo a fora. Antigamente a guerra ficava no front, hoje não há mais front, ela ocupa cada esquina de cada cidade do mundo. Todas as barbáries que a comissão da verdade está encontrando ainda acontecem em outra dimensão, não em casernas mas nas prisões e nas “bocas”.
Aqui no nosso estado esta semana foram soltos os responsáveis pela tragédia ocorrida na boate Kiss, onde muitos jovens morreram. A televisão transmitiu a indignação dos familiares das vítimas e a revolta em seus olhares. Em nome dos jovens que morreram é preciso diferenciar o sentimento de vingança do de justiça. Erraram os responsáveis: muito. Foram negligentes?Além da conta e de forma infantil. Provavelmente não pensaram nas consequências de seus atos e acreditaram que isso só acontece com os outros. Mas não é por isso que devem ser brutalizados, linchados ou mortos na surdina. Se você fosse um deles? Ou se um dos seus filhos fosse um deles? Esse exercício de tentar ver o outro lado pode amenizar a raiva, diminuir a revolta. Se os parentes das vítimas quiserem continuar sendo pessoas de bem devem conter o impulso e aguardar. É muito difícil mas neste momento ainda é preciso confiar no Estado. Existe um sistema que precisa funcionar bem. Caso contrário os pais e amigos das vítimas vão se tornar os algozes, os carrascos que infligem na carne a punição, cobram “olho por olho” e “dente por dente”. Roguemos a “Nossa Senhora Medianeira” que ilumine os corações dos familiares e que os liberte da dor e da “Guerra”.
Porque não vale a pena.

Fernanda Blaya Figueiró

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