Manifesto da Passagem, será?

Manifesto da Passagem, será?


Não sei bem porque continuar nesse assunto, talvez porque seja um terreno muito fértil. O evento “Manifesto da Passagem” pode ser só um velho ranço dos antigos movimentos revolucionários. Há muito tempo que venho falando sobre isso na crônica “Quem é o inimigo?” já abordava o assunto, mas sou pouco lida pela maioria por uma minoria acho até que sou “figurinha batida”. Vamos lá então: os protestos são contra “O Capital”, sabemos que o atual sistema está moribundo e que a única alternativa que as pessoas conhecem é essa da luta de classes, ou do proletariado contra a burguesia. O conceito de sustentabilidade se assemelha mais ao de Nova Era, movimento Hippie... A volta a uma sociedade sem moeda, onde a troca e a produção retorne a comunidade e em que a paz é alcançada de forma natural e mantida eternamente, quase um Nirvana ou Paraíso ou a Casa dos anões de Branca de Neve. Parte do pressuposto de que o ser humano é essencialmente bom e que não vai oprimir mais seu semelhante e vai viver em harmonia com a natureza. Fala sério! Coloque um punhado de dinheiro na mão de um ex-pobre e o verá se transformar num poço de arrogância e ele fará de tudo para manter seu benefício e se sobressair sobre os outros, imaginar que é superior. Meu tio tinha uma frase que era mais ou menso assim: quem nunca foi comunista quando jovem não tem coração, quem continua sendo não tem cérebro. É um pouco preconceituosa, mas realmente há um temor de que o comunismo retorne, para mim capitalismo-socialismo-comunismo são “farinha do mesmo saco” enquanto um existir os outros dois também existirão, se um está em crise os outros dois também estão. O que ainda não se delineia bem é o que o futuro guarda. Hoje somos impossibilitados de ver com clareza uma outra forma de relação entre produção, trabalho, segurança, rentabilidade... Como vamos viver e de que forma será? No atual momento isso se chama ainda “profecia”, ou adivinhação, não há um novo pensamento ideológico audaz o suficiente para superar este grande bloco de ideologias. Se terminar “O Capital” termina também o “Proletariado”. No caso das manifestações em Porto Alegre, Rio e São Paulo, um eixo forte na história política brasileira, as coisas estão acontecendo sem uma orquestração, só revelam uma insatisfação e uma vontade de expressar ideias e de romper com a monotonia. Poderíamos pensar numa ligação com os Movimentos Revolucionários Internacionais e com as primaveras do mundo a fora. Talvez com a percepção de que há uma turbulência e uma incitação a violência e a aceitação pela população da necessidade de que algo aconteça no “front” estas correntes mundiais olhem para nós. Ainda bem que não temos programas de armas nucleares e assim ficamos livres de ser uma real ameaça. Temos a maior floresta do mundo, um grande capital em petróleo e outros bens naturais e um povo tranquilo e pacífico, uma coleção de condições que podem atrair uma cobiça externa. Além de as “Mentes Brasileiras” terem parado no passado, parece que os meios acadêmicos ainda estão presos a o discurso dos anos sessenta. Quanto a reação policial se um jovem norte-americano, ou inglês jogasse uma pedra na polícia o que aconteceria? As pessoas amam dizer que os países do primeiro mundo são muito melhores em suas soluções do que os “emergentes” então vamos imaginar que o que aconteceu aqui fosse lá, os jovens não seriam punidos? O que está faltando aqui, talves seja o queestá sobrando lá: vigiar. Rastrear redes sociais, telefones, e-mails... Não só para encontrar fraudes bancárias e desarticular gangues em presídios, aos revolucionários falta entender que o tempo da barricada passou. As coisas vão mudar com toda a certeza e não será sem dor e sofrimento, alguém vai ganhar, alguém vai perder, os tempos ficarão momentaneamente sombrios e logo, logo tudo retorna ao seu estado normal. Parece que o termo para isso é resiliência. Eu desconfio que ainda estamos longe de uma grande ruptura e que a atual relação socio-política-econômica ainda tem muito pulmão e ainda vai longe. Quem vai acabar com a "baderna" serão os patrocinadores, os anunciantes e os publicitários. Mãos a obra!!



Fernanda Blaya Figueiró  

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