Crônica; Vigiada noite de Porto Alegre



Vigiada noite de Porto Alegre


Esta semana as câmeras de vigilância da Guarda Municipal de Porto Alegre captaram o linchamento de um morador de rua no centro da cidade, próximo a porta lateral do Mercado Público. Impossível não ligar a cena da vida real a do recente filme “Os miseráveis”, baseado no livro do grande escritor Vitor Hugo. As cenas condensadas do caminho que a protagonista trilha até as ruas ao encontro da morte parece com o video. Quem povoa o centro da cidade às quatro e trinta da madrugada? Antigamente seria Mario Quintana voltando de um passeio literário, Lupicínio Rodrigues saindo tardiamente do Dona Maria. Talvez houvessem alguns passos embalados por boas cervejas e algumas gargalhadas soltas no ar pelo simples prazer de estar vivo. Em tempos remotos seriam marinheiros, chapas, pescadores,mulheres da noite. Hoje? Uma gente assustada que sobrevive a noite, os mesmos do filme. Jovens, adultos e o poder público, além da sua ausência. Houve uma pequena época da minha vida em que vendia livros pedagógicos em escolas dos bairros de Porto Alegre, durante o dia alguns bairros ficam com as ruas vazias e a sensação ao circular por eles é de que a qualquer momento alguém pode pular na nossa frente, não há policiamento. Quando retornava ao centro da cidade me sentia no lugar mais seguro do mundo. Há um corre-corre e um agito que põe tudo em movimento, basta segurar seus pertencer e andar rápido que parece que você é do centro e nada acontece a quem é do centro. Os assaltos, confusões acontecem com os visitantes, mesmo os moradores dos bairros. Hoje moro em Viamão outro município,mas vou ao centro duas ou três vezes por semana, tanto de uma como de outra cidade. Há muitas cidades dentro de uma cidade. A realidade da noite é outra. Antigamente o “manto escuro da noite” acobertava uma “fauna” diferente. Quem são? Em dois mil e seis escrevi um conto “Ano Novo”, em que a personagem principal é Madá, alguém do centro. Uma jovem de classe média que usa drogas e vive a noite do centro. Liguei a moça chutando o morador de rua a minha personagem, seria algo que ela faria. Esse texto é quase uma releitura de um personagem criada por meu tio José Blaya, no livro “Basta dizer que amei Natacha Pietova”, uma novela que fala em mulheres que beiram a loucura. Ele era psiquiatra, então me pareceu que olhou para a loucura “de um lado do divã”, o do terapeuta. Madá deveria ser um contraponto, olhar a “loucura” por dentro. Um garoto uma vez me indagou: porque? Disse que não compreendia Madá pois ela “tinha tudo” e jogava fora.Jogava com a vida. Perdi os arquivos do texto e não pretendo digitar novamente, pois teria que praticamente reescrever tudo. Não acho isso certo com um período histórico, reescrever, limpar os erros e acertar os ponteiros, tira a beleza da inexperiência, foi meu primeiro livro. Ter tudo, ou não ter nada talvez não seja a questão. O homem que finaliza o vídeo tem nas mãos um pedaço de laje, provavelmente parte do material de um conserto na calçada, eleva os braços e desfere o golpe, talvez o fatal. Esse homem está entorpecido pelo ódio. Talvez seja o mesmo ser que espanca a personagem de Vitor Hugo até a morte. Porto Alegre, Paris, São Paulo, Rio de Janeiro, será que tem diferença? As barricadas do filme mostram que logo após as grandes contendas há uma anistia que apaga os traços das ações e faz as coisas voltarem ao mesmo ponto. O Mercado hoje estava fervilhando de gente, a gente do centro, do dia. Fui procurar hoje informações sobre uma poetisa Nina Gualdi, comprei um livro seu e queria saber quem foi ou é, não achei nada. Só sei que foi casada com um promotor de justiça e o matou com dois tiros, foi condenada e cumpriu a pena. Faz parte de um dicionário de escritores. Queria saber mais, só não sei porque. Acho que escritores não comerciais, como eu, tendem a cair no esquecimento, isso é bom. Essa escrita é viva enquanto acontece, não precisa ser lembrada é vivida no ato de escrever. É a laje adormecida, tomara que nunca seja jogada.

Fernanda Blaya Figueiró 

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