Diálogo com um poema
que ninguém leu
O poema “As personas”
fala sobre um aspecto da poesia que tange com a loucura. Duas coisas
alimentam a literatura: sexo, vejam os tons de cinza vendendo como
água, e loucura. Nenhum dos dois deixa de ser um velho Tabu. Sexo
todo mundo faz e entende e louco todo mundo é um pouco. Quando
escrevi meu primeiro livro meu irmão, apelidado de Kid, disse: - Isso não passa
de intimismo feminino. Como se fosse um demérito. Essa semana
me disse, seis anos depois, Bukowski dizia que para escrever poesia é
preciso... algo parecido com ser proletário. Borges, Pessoa,
Bandeira,Lorca, Meireles, diriam a mesma coisa? Ninguém mais vai
escrever como eles, pois eles eram únicos. Há alguns anos o Tatata
Pimental disse mais ou menos que a literatura gaúcha e mesmo brasileira não
tinham nada de novo. Dizia:- A gente vai na feira do livro e não
encontra nada, só lançamentos de donas de casa que juntaram um
dinheirinho e fizeram um livro... Como se essa energia não valesse
nada, hoje digo que ele tinha razão. Não tem nada para ler de
novo e isso não é culpa de donas de casa, ou de alguns médicos e
advogados. Isso é um processo de transição. Ao Kid peço que se
liberte de ler a mim. Ponto. Os parentes, amigos e inimigos não
precisam ler o que escrevemos, muito menos precisam gostar. Até por
que eu tenho uma percepção de que escrevo as vezes bem e as vezes
mal. Agora imaginem a autora dos tons de cinza, que não li um pouco
por preguiça, um pouco por que abandonei romances faz muito tempo e
um pouco pelo preconceito gerado pela crítica. Ela agora terá que
satisfazer um leitor que não quer literatura e sim sexo. E esse
leitor é insaciável, logo terá que fazer seu protagonista “rasgar
os fundilhos” sua protagonista descerá ao inferno e chegará a
Sodoma e Gomorra e ainda não será o suficiente. Vai ser violentada
e possuída em todos os poros e talvez chegue um dia a sarjeta ou a
um fétido apartamento, entorpecida de whiskey e apática quanto as
ruas e a vida fora da sua decadência e nem assim será uma escrita
digna do Velho. Pode furar todas as suas artérias com cocaína e
nunca será nada além de um personagem do século XXI, escrita neste
tempo e dentro da capacidade de sua autora. Já a loucura ela também
é insaciável e pouquíssimo entendida, não passa de entretenimento
barato para vender bilhete e remédio, ou whiskey. Mesmo que ninguém
leia, o que não é verdade, ou que ninguém goste, o que também não
é, vou continuar escrevendo, mesmo que a literatura não me queira,
não sei o que houve de errado, mas como diria o Tatata acabou. A
literatura como era não existe mais, eu transito entre o velho e o
novo. Faço parte do passado como quem ainda escreve sonetos. Perdi o tempo e o leitor do Velho vive preso a um passado que não retorna,
é anacrônico. Por mais “leituras” que uma escritora tenha ela vai
acabar escrevendo a si mesma. Já pedi muitas vezes ao leitor que não
gosta do que eu escrevo que não me leia mais. É simples. Aos outros
digo eu sei que vocês estão aí, alguns por curiosidade outros para
copiar, outros por que ficam entretidos, outros só para poder se irritar. Não vendo meu peixe, deixo navegar livremente.Concordo
com o Kid, oTatata e com Bukowski, não tem nada bom para ler no
momento. O Poema? Que poema?
Fernanda Blaya Figueiró
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