Abismo sócio politico?
Parece
haver uma força maior, vinda das profundezas de um espírito ruim,
que olha para a América Latina e seu povo como quem olha para uma
latrina: lugar de despejar dejetos. Tomar conhecimento da realidade
dos países é chocante a corrupção, violência, desigualdades
sociais, miséria tudo num lindo cenário. Já o lado oficial olha
como quem está no paraíso, crescimento econômico, empregabilidade,
fartura de recursos naturais... Como se ainda houvesse colossais
diferenças entre os países ricos e os pobres. Em qualquer parte do
mundo é mais fácil de sobreviver nos dias de hoje do que a meio
século atrás, tiro esta opinião da minha mente, não de dados
estatísticos. Corrupção, miséria e violência estão presentes em
todos os lugares, apenas em escalas diferentes. Parece que o mundo
ficará insustentável, mas isso também parece uma simples
retórica.Se os problemas com os dejetos é que levam anos para
desaparecer e se eles se tornarem o combustível do futuro teremos
muito combustível para queimar. Venho pensando, insistentemente, que
o trabalho deveria ser reinventado. Não é mais possível viver da
produção. Não é racional viver da produção. De que forma as
pessoas vão ser mensuradas e remuneradas?Não sei. Será que a nova
sociedade terá lugar para políticos? Como seria uma humanidade sem
estados e sem política? O que mantém as pessoas pacificamente
aceitando a vida que estão levando? Faço parte da Classe média
brasileira e já fazia antes, posso afirmar que a vida para nós
melhorou, a sensação de insegurança ligada a falta de recursos
financeiros diminuiu muito, a sensação de estar vivendo em um país
livre, de ser parte da história, aumentou com o fim da ditadura, a
sensação de segurança com relação a violência urbana, incluindo
o trânsito essa piorou, muitíssimo. A sensação de que os
políticos estão indo mal é a mesma, sempre desconfiamos dos
políticos, eles estão correspondendo a nossa expectativa. No que
confio? Em Deus! Calma! Não precisa atirar pedras... Confio na nossa
relação com o Universo, melhorou? Ou no que a ciência afirmar.
Parte da minha família é de origem portuguesa, outra espanhola e as
outras, não muito divulgadas, são uma mistura de índio, negro e
muitas outras etnias, então acredito no fado, no destino. De que de
alguma forma, mágica, tudo vai dar certo. E esse legado acredito que
mantém a ordem no nosso universo. Os povos estão cansados de
ideologias e de guerras, as pessoas comuns, como eu, estão tocando a
vida. Vivendo. Estou aqui aguardando as novidades, visito as grandes
shoppings como quem recebe a visita de uma carroça de ambulantes,
cheia de quinquilharias desnecessárias, mas que proporciona grande
alegria. As pessoas transitam pela Terra de um lado para o outro,
como os velhos andarilhos faziam, esse trânsito mistura tudo e ao
mesmo tempo pasteuriza, tira a identidade, iguala. Acredito que as
mudanças que o mundo espera serão suaves e imperceptíveis. Não
serão uma ruptura e sim uma acomodação a novas realidades. O medo
da violência e das drogas vai manter as pessoas em estado de
vigília, ninguém quer cair na margem e correr o risco de acabar na
sarjeta. Uma grande parte da humanidade vai continuar em situação
de perigo, frágil, desvalida, sustentando a ilusão da situação da
maioria e uma pequena parte continuará nas alturas, vivendo fora do
senso comum, sendo idolatradas pela beleza, dotes físicos, incluindo
a inteligência ou pelo dinheiro.Qual a razão desta crônica
existir, nenhuma, sou escritora e estou escrevendo, fazendo meu
trabalhinho. Estou chateada de ver um político acusado de corrupção
brincando com o povo e um partido que foi criado para combater a
corrupção mergulhado nela até o pescoço. Ao me indignar percebi
que na verdade sempre foi assim. E que a minha indignação é também
retórica.Aceitamos essa porcalhada por que é conveniente.
Fernanda
Blaya Figueiró
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