A busca de nossa
identidade
Semana passada meu
marido recebeu uma visita da “Neguinha”, uma velha amiga, ela
entre outras coisas buscava notícias, perguntou se por acaso ele
teria alguma fotografia de sua infância em Cachoeira do Sul. Quando
me relatou isso dizendo que não acreditava ter nenhum documento eu
imediatamente lembrei que tinha sim, ela aparecia numa antiga
fotografia entre as crianças que comemoravam um aniversário seu.
Ontem tivemos tempo de revisar os álbuns guardados e encontramos
quatro fotografias em que ela está e uma em que aparece sua mãe.
“Neguinha”, meu primeiro apelido, logo minha xará, hoje é
formada em biblioteconomia e conta que todos seus filhos estão bem e
levam uma boa vida. Inclusive meu marido, sem saber, estava indignado
com um de seus filhos que andou fazendo um gol no Inter. Uma das
coisas que me chamou atenção nesta história foi ela relatar que
não recorda de si mesma. Esse papel de construção da auto imagem
que a fotografia faz é vital para a memória. Essas fotografias
estão guardadas por anos e contam preciosas histórias, nelas ela
vai se encontrar sorridente e de olhos brilhantes, fazendo posses que
recordam Michel Jackson quando criança. Uma infância feliz, que
deve ter tido seus desafios, mas que a conduziu a uma vida de
sucesso. Revendo os álbuns muitas coisas aparecem, sábado assisti
ao filme “Amor” e numa das cenas a protagonista solicita as
fotografias e se emociona com a beleza da vida “A longa vida”
conclui ela, uma idosa que enfrenta uma doença terminal. A beleza da
vida é isso alguns momentos de felicidade registrados na memória ou em algumas fotografias. Um velho amigo nosso “Seu Baiano”, aos oitenta e
tantos anos enfrenta também a perda de energia que a velhice traz. Há poucos anos viuvou e tem no carinho da família o apoio e o cuidado
que precisa neste momento em que suas forças começam a faltar.
Trabalhador e sonhador, foi ele quem conduzia a construção de nossa
casa, acho que para o Baiano o céu vai ser um canteiro de obras na
companhia dos amigos e um baile com a sua Dona Eva. Jogador de
futebol do Esporte Clube Avenida, na juventude, obreiro pela vida a
fora. Foi um dos trabalhadores que ajudou a erguer o Beira Rio mesmo
sendo Gremista até a alma. Eram outros os tempos. Adora contar
histórias e ouvir boa música, principalmente “Samba de Gafieira”.
Conta que há muitos anos foi contratado para trabalhar no Barro
Vermelho, para quem não conhece um distrito de Cachoeira e que no
fim de semana se arrumou todo e foi se divertir, chegou no Baile e
foi informado que não poderia entrar pois era um baile só de
Branco, perguntou então onde teria outro lugar, perto da barca tinha
um outro clube. Quando chegou lá foi informado que também não
poderia entrar pois era um Baile só de Negros. Perdeu a noite e
nunca mais esqueceu a história. Seu Baiano nasceu nas Minas, logo um
gaúcho nato, ganhou o mundo e com dona Eva construiu uma linda
família. O que une essas histórias? Uma antiga teia de
relacionamentos que vai moldando as histórias de uma comunidade. Eu
lembro que nos fundos da Padaria do Comércio havia um Clube “O
Independente” que era frequentado só pela comunidade Negra e se
dedicava ao carnaval e os outros, principalmente o Comercial, que na
minha juventude já aceitavam associados de todas as etnias.Todos a
baixo dos trilhos, lá “no alto” tinha uma outra vida social,
praticamente desconhecida para mim. Mas a música passava pelas
paredes e a cidade inteira ouvia o samba, as modinhas, as valsas,
boleros, o rock, a música clássica... Nos dias de hoje, ainda bem,
isso não existe mais. A necessidade de contar essas história é a
de manter esses tempos vivos e aprender com eles as coisas boas e não
permitir que as ruins retornem a acontecer. O Brasil está
enfrentando uma epidemia de uso de drogas e tenho certeza que vai
vencer, assim como novos desafios irão aparecer e assim é a vida,
feita de desafios, como a simples busca de uma imagem que nos diga
como nós eramos e ajude a formar a identidade de quem somos.
Fernanda Blaya Figueiró
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