Crônica Sensação de Véspera


Sensação de véspera


Ontem parecia véspera de tempestade, o céu ficou escuro e tudo estava armado, mas a chuva não veio... Continua nublado, quente e nada da chuva. É péssima esta seca antecipada, há pouca chuva a terra está ressequida e a grama amarelada. Escrevi uma frase e não consegui continuar a ideia: “Há um mundo não oficial que transpassa a cidade.” Ficou perdida nas minhas anotações e ao assistir ao filme “O Moinho e a Cruz” parece que algo clareou a minha mente. O que será que está acontecendo e que não conseguimos perceber? O filme desloca a cena da Paixão de Cristo e aborda a vida dos figurantes da obra de arte “A Subida do Calvário”, numa época da humanidade em que divergir era motivo de massacre. Pensei imediatamente na realidade que estamos vivendo as execuções de bandidos e de policiais. O que está velado nisso? Policiais e criminosos estão se confundindo. A população tem mais medo do criminoso do que confiança na segurança oferecida pela instituição policial. A cadeia degenera e não regenera. Porque? A rotina, diz o filme. Para se auto preservar a comunidade desvia o olhar. Há algum tempo encontrei uma trabalhadora apavorada, ela disse: - A senhora soube? Perguntei o que? Mataram um rapaz que devia para traficantes e penduraram o corpo numa árvore. Todo mundo que passou pelo “beco” viu. Eu não sabia. Logo ela disfarçou e percebi que ela não deveria ter comentado e eu não deveria saber. Meu caminho não é o do beco, nem da floresta do lobo mau, nem o do calvário. O que está acontecendo no Brasil é o mesmo que sempre aconteceu na humanidade. É parte do nosso modo de agir. O ser humano é essencialmente bom? O ser humano é essencialmente mal? As duas coisas o Ser Humano é essencialmente um sobrevivente. Vive entre a chuva e a seca, a calmaria e a tempestade. Vive entre o bem e o mal. Cristo é ainda espancado e morto em praça pública, seja ele quem for, em que época a história aconteça. Voltamos a cantar e dançar porque é o que nos faz continuar vivos.
Hoje escrevo meu último texto em um computador de mesa, passo para o portátil, com um pouco de saudosismo. Parece que não é a mesma coisa. Ainda uso o papel e a caneta para começar uma ideia e passo para o computador. O primitivo e o evoluído em mim coexistem. E acredito que na sociedade como um todo essa coisas são assim. Uma roda da vida e da morte. Como diria nosso Cartola “Ouça-me bem, amor. Preste atenção, o mundo é um moinho”. A cruz antecede e perdura a Cristo: o início, o meio e o fim. O meio é a grande questão. Quem ler este texto pode hoje aplaudir e amanhã apedrejar, terminando suspenso com uma corda no pescoço. Quem apedreja este texto hoje pode amanhã aplaudir, termina usando esta palavras para chicotear seu irmão. Meu irmão. A cena do artista dentro de casa desviando o olhar e fingindo que não ouve o estalar do chicote diz da obra o quanto pesou sobre si. Não há inocentes no mundo. Na verdade eu queria ter escrito um poema, por isso escrevo essa prosa para ver se emerge um poema das profundezas. 


Fernanda Blaya Figueiró 

Acaba de começar uma chuva mansa...

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