A repetição
Outro dia eu falava com
uma amiga sobre a sensação de que minha poesia empacou, parece que
é repetitiva e do quando ando um pouco sem perspectiva para o
trabalho com a palavra. Sei que muitas pessoas ainda acham que só é
trabalho uma ação que gera renda e que transforma o meio. Então
mesmo não sendo “trabalho”, essa coisa antiga, a arte gera uma
energia diferente, gera uma reflexão livre. O artista é livre para
expressar o seu pensamento mesmo que seja ultrapassado, errado, ou
teoricamente errado. Esses dias estive na biblioteca da PUC só para
conhecer, achei muito legal. E lá encontrei o Livro de Cantos de
Ezra Pound, não é um livro muito difícil de achar, na Biblioteca
Pública do Estado tem, mas fazia muito tempo que eu não via e lendo
pequenos fragmentos pensei será que isso é poesia já que parece
tanto com prosa? O que é poesia? Meio tarde para perguntar isso?
Para mim é essa possibilidade de divagar. Ontem fui ao MARGS e
passei por objetos construídos pelos presos para se defender ou para
atacar e fugir da cadeia, a maioria do presidio central, é
impressionante a criatividade dos objetos, mas daí pensei isso não
é arte é trabalho, um trabalho para a morte ou para a
sobrevivência. Juntos e no contexto viravam arte, dentro da
instalação se tornavam arte. Lá fora a chuva caía e o “pau
comia”. Entrei em um bazar e a dona da loja disse que estava
fechando pois uma onda se alastrara pelo centro, um arrastão. Eu,
que não sou trouxa, “piquei a mula”. Não consegui uma palavra,
uma sensação, nada para minha página em branco. Hoje escrevi um
poema e claro pensei que não era um poema. Agora tenho certeza que é
um poema. Fiquei pensando que o camelódromo virou uma ratoeira,
fiquei imaginando a tensão que as pessoas todas lá dentro passaram.
Imediatamente lembrei das jibóias dos presos e a ginástica que,
para algumas pessoas, é a sobrevivência. Poesia é isso: percepção
e desvelamento. É uma licença para exercer a loucura. Alguns
especialistas podem reclamar, mas e daí?
Fernanda Blaya Figueiró
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