Poema -Estilhaços


Estilhaços

Comprei hoje um livro antigo
Páginas amareladas guardam o cheiro
De guardado tem capa dura em cinza e a
Finesse de trazer só o título e o tradutor
Foi impresso em 1919, em Portugal
Na “Advertência” duas páginas charmosamente
Foram rasgadas, o mofo trabalhou as folhas e
Um furo vai da contracapa a página 115
Faminta traça nos leva a seguinte sentença
“ Quem eu sou?Parte da força, que,empenhada no mal,
o bem promove.
Fausto
Não te percebo o enigma.
Mephistopheles
Sou o espirito.”
dizes que é parte e eu te ve-jo completo!”
Há um detalhe este livro
Pertenceu a Belmonte de Macedo
Gravou seu nome em caneta tinteiro
Quem foi?
Não sei, só sei que deu seu nome a uma rua
Sua imagem é ligada a uma casa de religião
Logo em seguida há um emaranhado
Já em esferográfica indecifrável
Para não quebrar antigo rito
Grafo meu nome com a caneta
A única que tenho em mãos
Será que foi lido ou esquecido num canto de armário?
A vendedora o conhecia com a minúcias de uma amante
Ciumenta
Português bem antigo, totalmente decifrável
Colhi pequenas flores de jasmim do poeta, cinamomo e da
Pitangueira só as que as formigas ainda não haviam devorado
Assim o próximo comprador saberá que estamos quase na primavera

Mas
Não era sobre isso esse poema
Apesar de ser
Inicialmente queria falar sobre
Um tiro no escuro ou
Sobre um arremesso
Só que faltou uma caneta entre minhas coisas e
A ideia foi passando por uma mutação
Sem registro

Ao abril o livro em busca do fim do furo
Chego a esse esclarecimento
O fragmento é parte do completo
E tudo está explicado

Meu poema morre assim
Sem necessidade de ser escrito

Só lembro que seria em uma noite tomada
Pela tempestade e que a luz dos astros estava enterrada
De repente um apagão trazia para uma sinistra rua a
Respiração pesada e a consciência do som dos próprios
Passos
O peso da noite
A dúvida que surge no escuro
Peguei um pedaço de pedra estava febril
Joguei em um arbusto que sacudiu
Um zunido e um pequeno estrondo
E a luz voltou
Olhei para a minha mão e vi
Estava marcada pelo calor da pedra

Seria o fragmento de um corpo celeste
Decaído?


Fernanda Blaya Figueiró
13 de setembro de 2012

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