O Livro Perdido de La Boheme


Ontem fui assistir a uma brilhante montagem de La Boheme, na Puc: adorei! Sempre achei muito instigante a história da peça, sempre achei que o dilema principal, salvar a obra ou a vida, era mais profundo. Ontem tive uma grata surpresa com o desprendimento com que o livro vai ao fogo, o próprio cenário da mansarda, que me pareceu mais iluminado e alegre, esperava tons cinzas na retratação do quarto e andrajos. Fiquei com uma nova impressão,os personagens eram boêmios por opção ou por imposição? Sempre imagino qual era a história que foi queimada, que obra não aconteceu, claro que tudo remete ao próprio texto, a tragédia da morte prematura de Mimi, vitima da tuberculose, da pobreza. Fiquei impressionada com a quantidade de atores em cena no segundo ato e na leveza que trouxeram, não entendo nada de dramaturgia ou de música, mas no fim da apresentação alguém soltou um: Bravo. Com o qual eu concordo. Como é importante que ainda façam estas montagens de grandes clássicos e que nós possamos aproveitar, imagino a quantidade de horas de trabalho que levou até chegar a estas duas horas de encantamento. Como a “casa estava cheia” acredito que a curta temporada tenha sido um sucesso. Fiquei com a imagem da vela e da oração do final da peça no meu imaginário. Cheguei em casa e soube do falecimento de Hebe Camargo e fiquei triste. Ela foi uma grande artista. Para mim não há separação entre arte erudita e arte popular, cada um teu seu público, sua função social, seu valor. Teatro, televisão, circo, praças,livrarias, museus, se igualam e se completam. Todas as formas de arte são válidas. A dificuldade de transformar o trabalho artístico em renda é um problema ainda muito presente nos dias de hoje. Como o artista faz para “dar valor monetário” ao seu trabalho? Continua sendo um problema, muitas gente ainda acredita que os artistas “não passam de um bando de vagabundo”, “boêmios”, “hipongas”, “desocupados”... “Porque não trabalham de verdade?” Naquele universo escritor, poeta, músico, pintor, musa,varredores de rua, milionário, garçom, vedete, vendedores de bandeirinhas... coexistem. Nos dias de hoje pouca coisa mudou. Os atelies em lugares improvisados ainda existem. A tuberculose virou AIDS. Ainda é preciso, para algumas pessoas, atear fogo na sua obra para chegar ao raiar do dia. Nunca conheceremos a história que havia no manuscrito queimado, só a bela história em que se transformou. Fiquei inicialmente em dúvida se deveria ou não “meter minha colher” nesse angu, pois apreciar uma obra assim é coisa para especialistas. Resolvi arriscar, o mundo não pode ser descrito só por especialistas, senão fica tudo muito “nas alturas” é preciso também a percepção do espectador comum. 

Fernanda Blaya Figueiró

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