Cultura nos dias de
hoje
“Pelas Igrejas do
Brasil pode-se julgar de quanto seria capaz este povo se os meios de
sua instrução fossem multiplicados e tivessem alguns bons modelos
para orientá-los”. Auguste de Saint-Hilaire, datadas de
19 de junho de 1820.
O viajante francês
escreveu esta frase referindo-se a Igreja Nossa Senhora da Conceição
em Viamão, há cento e noventa e dois anos, isso nos leva a pensar se
o desmantelamento da cultura não tem uma função ideológica. Estou
acompanhando, pelos jornais, mais uma vez a polêmica do fechamento dos
serviços públicos durante o “Feriadão”, o município parou por
quatro dias seguidos, durante o feriado farroupilha. Refletindo um
pouco sobre esse fato que se tornou corriqueiro, em pleno período
eleitoral, penso que a atual administração privilegia os
funcionários e deixa de atender a comunidade ou como ouvi de um
popular, tanto faz estar aberto ou fechado, não tem atendimento
mesmo. E essa realidade não é de hoje o município não consegue
usar toda a verba destinada para a educação e a população não
tem creche suficiente. Um feriadão desses não acaba aprofundando a
crise na educação? Será que o município consegue atingir o número
de aulas obrigatórias do ano letivo? E as aulas tem o turno inteiro
ou são pela metade? Ouvi o último debate dos candidatos e parece
que a maior preocupação com a educação é com o lanche das
crianças. Não ouvi uma só linha sobre propostas pedagógicas,
assim como na saúde o importante é ter um posto, não
necessariamente ter um posto que atenda bem a comunidade. Quanto a
cultura só tenho a lamentar e acredito que a atitude de desrespeito
com os artistas da comunidade é uma atitude ideologicamente pensada,
para que a população local não se reúna, não reflita, não se
fortaleça. O Brasil está mudando e a administração pública tem
que mudar também. Os pais tem que estar presentes nas escolas,
acompanhando o ensino que é oferecido para os seus filhos, além é
lógico da merenda. As comunidades devem antes do feriado “abrir o
berro” e exigir que os serviços públicos funcionem, depois não
adianta. Assim como devem notificar a falta de remédios, de médicos,
de fichas para o atendimento. Os funcionários públicos deveriam
também cobrar melhores condições de atender a comunidade e de
fazer o seu trabalho. Os administradores do município deveriam
servir a população e não se servir dela. Bibliotecas, teatros,
cinemas, salas de audição, atelies livres não são “luxurias
para pessoas snobes” são equipamentos de exercício da cidadania.
São locais em que o povo gaúcho pode se tornar mais instruído e
expressar a sua cultura, a sua ideia de mundo, que deve ser
respeitada. O Teatro André Ribeiro Cancella, antes de ser fechado,
atendia uma população heterogênea, do guardador de carro ao
empresário, dos saraus de literatura as apresentações dos "Talentos
da Terra", lembro de assistir ao falecido Augusto Biglia, que não era
nenhum magnata, a saxofonistas, grupos de samba... “ O gato toma
leite, o rato come queijo e eu sou um palhaço”, essa frase ouvi no
filme: “O Palhaço”, resume o drama existencial do filme, mas
que também reflete a dúvida de quem se dedica a arte. Poderia citar
também o filme “Saneamento Básico”, assim como os Muppets, que
se separam devido ao fechamento de seu teatro. Ao Zé Colméia que
luta contra a tentativa de loteamento do seu parque. No mundo mágico
as coisas se resolvem na vida real fica o dito pelo não dito, o
barco segue em frente e a população que se vire ou não adoeça
durante do feriadão, que isso é falta de respeito. Claro que
poderiam recorrer ao pronto atendimento vinte e quatro horas,
inaugurado as pressas para que a “oposição” não reclamasse.
Então eu pergunto e o Estado e a União, bem estes vão dar as caras
por aqui em um ano e meio para as eleições de deputados, senadores,
governador e presidente. Viamão tem grandes e fortes escolas
estaduais, umas um pouco abandonadas é bem verdade, tem muitos
alunos, alguns já votantes.Tem alunos que estudaram a vida toda na
rede pública e conseguiram passar no vestibular, formaram-se e são
hoje bons profissionais nas áreas que escolheram para atuar. Tem um
dos índices de violência mais altos do estado, mesmo assim não tem "delegacia das mulheres" e o movimento das mulheres foi "abafado". Tem dois grandes
parques administrados pelo estado mas pouco disponíveis para a
população local. Um índice alarmante de “imobilidade urbana”.
Mas precisamos ser, como vive afirmando um amigo: “Otimistas acima
de tudo”. Só não podemos mais ser ingênuos, vamos votar com
consciência e independentemente do resultado das urnas vamos
aproveitar os debates e modificar a cidade, com a fiscalização que
existe: os Meios de Comunicação, a Câmara de Vereadores, as
Conferências, Fóruns, Conselhos de Cidadania. Vamos fazer essa
máquina “pegar no tranco...” O gato... o rato... e eu escrevo.
Cada comunidade tem os políticos que elege e as condutas que aceita.
Fernanda Blaya Figueiró
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