Aos olhos de Maria


Aos olhos de Maria

A palavra contém todos os mistérios do mundo
Transcende e transforma
Tens uma palavra, pelo amor de Deus?
A
Om
É impossível escrever sem ferir
No agora ou no futuro
Quem escreve a mão reconhece
Que a caneta faz uma bela sombra
No papel
Minha adoração pela palavra é antiga
Sempre vai existir em mim
Antigamente as pessoas peneiravam
A sua imaginação
Hoje tudo é valido e nada tem valor

Maria é um ser que já perdeu tudo e
Não tem mais nada a perder
Olha para o mundo da margem
Eu ainda tenho muita coisa a perder
Antes de sucumbir a verdadeira arte
Não é a primeira vez que meu texto
É reprovado por conter ideias fortes
Sobre a vida na sociedade
Já tive que inventar outras Marias
Que a minha pareceu muito política
Maria, Maria é sobre política

A Paz custa caro e a
Guerra gera muito dinheiro
O caldo entorna quando
A guerra fica cara e a
Paz gera muito dinheiro

Esse é o ciclo
Buscamos heróis e
Logo os amaldiçoamos

Não tem lugar no mercado
Da atualidade para textos que
Refletem o que ninguém quer perceber

Assim
A poesia foi substituída pela auto-ajuda
O Escritor pelo Médium

O mundo cansou das histórias desse mundo

Fernanda Blaya Figueiró




Aproveito e publico um antigo texto que não foi bem aceito e acabei reescrevendo, era sobre a música Maria, Maria e seria para um livro que nunca foi publicado, da oficina de literatura para mulheres.As vezes não sei o que fazer com todo esse arquivo morto. Por isso que desconfio de contos feitos para livros. Deveríamos falar na música com mais amenidade. Essa para mim é uma das músicas mais políticas do Brasil. Eu acompanhei a "depressão" de Elis Regina, dizem que ela morreu, para mim ela "se morreu", Trem Azul é quase um suicídio assistido. Quanto ao fruto tão esperado, amargou. "Quando crescerem as matas, quando colherem os frutos, digam o gosto pra mim..." Mas a dor ensina a gemer e o brasileiro tem que voltar a pensar e sentir. Ser parte novamente da vida da sociedade.

Primeira versão:

Maria! Amélia! Ama! Lia! Ria! Mar! Mel! Ária! Maria!


Eu vim a esse mundo para viver, não para sobreviver. Para separa a alegria e a dor. Intenso é meu dia. Suave minha noite. Leve minha vida. Minha gente merece mais do que agüentar. Mais do que ter força, garra, raça, marca. Mais do que fé na vida.
Acorda Maria. Chega de pranto, de carregar filho morto, de chacina e pedras de veneno.
O fruto tem um gosto amargo, não para mim, mas para os meus iguais. Não quero contar o gosto. Não quero passar esta semente.
Eu tive fé. Garra. Força. Raça. A democracia me traiu.
Acreditei que seria portadora de igualdade, de justiça social, de pão para todos. Sei que traiu a ti também Maria, Maria. Tu que sou eu. Tu que é cada um de nós. Aquele que fecha as grades e aquele que não pode transpor as grades.
As grades, Maria, continuam aqui. Dá uma vontade de gritar, o que foi feito do voto! Quem são estes homens, que estão corrompendo a fé de Maria. A fé de um povo simples e alegre.
Eu tenho tudo o que falta a muito de meus irmãos, menos o sossego de poder olhar dentro de seus olhos e entender, como convivemos com isso. Como agüentamos a dor misturada com a alegria, nas nossas ruas e praças, no nosso amargo fruto.
Cinco de junho de dois mil e nove, Dia Internacional do Meio Ambiente, estou preparando um encontro cultural, mas acho estranho comemorar esse meio, nesse ambiente, nessa cultura.
Tenho fé na humanidade, só não entendo. Só não me entendo.

Fernanda Blaya Figueiró
2ª Versão
 Amargo Fruto.

Drogas... Menino encontrado morto, com quatro tiros.
Íris sentiu um arrepio, ao ler, de relance, a manchete. O que mais chamou sua atenção foi o número de tiros... A arma cumpriu a sua função - pensou - foi construída para isso. Que falta de originalidade destes meninos brasileiros que insistem em morrer tão igualzinho. Não perdeu tempo lendo a matéria. Tudo parecia tão previsível e tão sem importância. Quantos meninos são mortos por dia?
A porta do cemitério já estava aberta, ainda não eram sete horas, a geada cobria o capô dos carros e o sol deixava tudo muito bonito. Tinham decidido não passar a noite velando o corpo de Maria. Íris foi a primeira a retornar, não conseguiu dormir, seus pensamentos estavam confusos. Conhecia a amiga há anos, uma mulher de garra, batalhadora, militante ardorosa, que tinha fé na vida. Morreu em casa, dormindo, como morrem os anjos, sem mover um braço.
O triste de ficar velho é que os companheiros vão aos poucos partindo. Os filhos, netos, conhecidos, foram chegando e enchendo a pequena sala de uma conversa despretensiosa. Quem ficaria com a casa, quem esvaziaria o guarda roupa, quem pagaria o funeral.
Saiu para fumar e viu a capela ao lado recebendo o pequeno esquife e uma mãe desesperada. Familiares atordoados. Gritos e sobressalto. Olhou para um funcionário do cemitério, que desviou o olhar e evitou a pergunta - O menino do jornal – disse. Virou as costas e saiu carregando uma marreta. Um diácono chegou para orar por Maria. E a realidade foi rasgando as ilusões. A gente já sabe que é tudo sempre igual. A gente sabe que morrem tantos meninos, porque há tanta gente no mundo. Em alguns tempos é a guerra, em outros a fome, em outros a peste e sempre a morte.
- Porque o meu filho, e não o dela? – perguntava atordoada a mulher apontando para a patroa. Essa é a pergunta que não tem resposta. Íris olhava e tentava entender, o que não tem explicação.
Terminado o rito, partiram todos.
Ela era a única que tinha a chave. A casa estava úmida e escura, abriu as janelas e lavou a louça. Arrumou a cama, varreu o chão e chorou sentada no sofá. As plantas estavam secas, o cachorro chorava na pequena área. Serviu água e ração. Mas os olhinhos dele indagavam por Maria. Íris percebeu que ele já sabia.
Os filhos e netos foram chegando. Pediram-lhe que ficasse com o cachorro. Suas vidas estavam muito atribuladas, não havia lugar para ele.
Íris partiu levando o pequeno amigo. Ela morava no outro lado da cidade e nunca mais regressaria aquela casa, que visitava todos os dias a mais de cinqüenta anos. Da esquina percebeu que havia perdido algo. Uma parte de si mesma havia ficado para trás.
Entendeu o fim abrupto da vida daquele menino.
Maria acreditava que era possível construir um mundo diferente. O Mundo é sempre o mesmo, não importa o que a gente faça. Íris percebeu que sua vida havia cruzado com a do menino, quando leu a manchete. Falhamos Maria, pensou, falhamos com este menino. O cachorrinho olhou para ela e parou diante do poste.

Viamão, 7 de junho de 2009
Fernanda Blaya Figueiró  



Outros textos da mesma época




 O mundo sem palavras


6,6,7 viva em mundo onde a palavra havia sido proibida.
Ela sentia uma enorme vontade de falar, mas isso era absolutamente proibido. Quem o fizesse seria humilhado em praça pública, arrastado pelos pés por correntes pesadas, ou levaria nas costas uma pesada cruz, além de um enorme chapéu de burro. Cada pessoa só podia dizer sim ou não e, se fosse indagada. Por exemplo: Você já ganhou sua poção de ração hoje? Você já fez seus exercícios? Você já pagou seu imposto? Você trabalha nesta unidade? Esse é o número de seu cartão de identidade? Sim. Ela nem podia repetir seis, seis e sete.
Uma vez, cansada deste opressor silêncio, resolveu arriscar. Quando a máquina perguntou: - Esse é seu número de identificação? Respondeu - um pouco engasgada pela emoção - Seis... seis... Antes que conseguisse dizer sete, uma enorme mão de ferro engatou pesadas correntes em suas pernas e a levantou, soltando no meio do pavilhão. Todos olharam para ela como quem olha para uma aberração, sobre sua cabeça caiu o imenso chapéu de burro e em suas costas foi depositada uma pesada cruz de carvalho. E assim passou todo o dia. Ao cair da noite a mesma máquina retirou-a de lá e advertiu: nem uma palavra ou a masmorra. Você quer ir para a masmorra? Não. Seis, seis, sete não queria ira para a masmorra, porque de lá ninguém jamais voltou. Além disso, acabava de ganhar, no meio da testa, o sinal da desobediência, um pequeno chip eletrônico que informava onde andava o número rebelde. Aquela foi uma noite terrível, seus ombros estavam destruídos pelo peso da cruz, seu coração estava pesado pela vergonha. Sua cabeça ainda sentia o chapéu, como se ele ainda estivesse ali, azul, comprido e com a palavra “burro” escrita em letras pretas. Ela aprendeu a lição e calou. Os dias passaram e entre sim e não tudo era sempre igual. Só que seis, seis, sete passou a sonhar. As máquinas não sabiam o que eram os sonhos, por isso não conseguiram perceber que ela estava mudando. Depois de entrar para sua unidade ela imaginava que cada coisa tinha um nome e, em sua imaginação via as palavras escritas nas coisas. Seis, seis, sete vivia alegre e brincalhona, os outros números começaram a perceber e através de gestos começaram a se comunicar. As máquinas continuavam fazendo sempre as mesmas perguntas e obtendo sempre as mesmas respostas, então para elas tudo continuava igual. Até que o chip, na sua testa, começou a esquentar de tantos sonhos e pensamentos emitindo um sinal de alerta para as máquinas. Quando perguntara para ela: Você já pagou seu imposto? O chip saltou longe. Seis, seis, sete respondeu: Sim. Mas já era tarde, as correntes prenderam suas pernas e a jogaram direto na masmorra.
A masmorra era um lugar frio, sombrio e assustador, de lá podia ver todos os números andando em fila, respondendo as perguntas, voltando para suas unidades de dormir, comendo suas rações, brincando nas unidades de brincar, pagando os impostos e começando tudo de novo. As palavras, que antes ela via desenhadas nos objetos, desapareceram. Na masmorra ela não podia dizer nem sim e não. Cansada sentou encolhida em um cantinho, triste e chateada, seus sonhos agora eram pesadelos e as palavras a amedrontavam. Tinha saudades até do sim e do não. A ração era amarga e os dias longos e frios. Seis, seis, sete esperava. Era só o que podia fazer: esperar.
Estava esperando quando encontrou uma pequena brecha nas paredes da masmorra, por ela entrava um raio de luz. Seis, seis, sete usou a tapa da ração para ir abrindo o buraco, sempre disfarçando, para que as máquinas não percebessem nada. Cavava um pouquinho, parava, cavava mais um pouquinho... Até que conseguiu passar pela fresta.
Sobre a masmorra havia um grande balão sem cor. Seis, seis, sete ouvia terríveis grunhidos vindos do balão. HumHumHum!!!!! Eram assustadores e desesperados. Com muito medo aproximou-se e com a tampa da ração rompeu a corda que prendia a boca do balão... Dele saíram todas as palavras presas e o mundo ficou repleto delas. Entre elas Seis, seis, sete descobriu seu nome: Celina a Sonhadora.


Viamão, 23 de julho de 2009

Fernanda Blaya Figueiró


 Atena


Um amor ateniense, Celina vivia um amor ateniense. Esculpido em grandes blocos de mármore branco, cantado em versos perfeitos. Marcado por ditas e desditas. Um amor de Deuses, envolto em arte, mistério, sabedoria, gozo.
Vivia uma bela criação dramática, era, Atena, Helena, Afrodite. Que sordidez julgar estas mulheres fora de seu tempo. Fora de seus Templos. Celina queria despertar a deusa-mulher que havia adormecida em si, neste amor que liberta e não escraviza. Que entende e admira. Estava vivendo um amor liberto, nestes tempos espartanos, onde o amor virou um produto para cartões e venda de ingressos.
Era bela, altiva, amável. Um ser humano adorável. Que pecado pode haver nisso? Receber flores, palavras sussurradas com magia e sensualidade. Um toque forte e ao mesmo tempo suave. Um amor de deixar boas lembranças, de dar inveja, de criar. Criar o belo. Criar a palavra, o verbo, o Deus.
Amores assim, tão raros, exigem silêncio. Exigem recolhimento. Exigem energia.
Celina amava... Quando acordou tinha a seu lado um simples mortal, no espelho a sombra borrada, no relógio o tempo correndo, no quarto ao lado o pedido de leite, na televisão a previsão de chuva, na campainha o carteiro trazendo a realidade. Ainda voltaria a Atenas... Os deuses sabem amar!

Viamão, 10 de julho de 2009.
Fernanda Blaya Figueiró
Ela



Os tempos andavam sombrios e os seres desanimados até que o Universo, cansado das conseqüências de tais vibrações, emanou uma nova energia criativa. Habitaria tempos e seres uma nova onda de energia... Aos poucos passou a existir. Ninguém sabia de onde vinha e nem para onde ia. Ninguém podia mensura-la ou aprisioná-la. Alguns definam como uma onda de calor, outros como uma onda de euforia... Outros como uma nova melodia. Uma nova cor, mais suave, mais tênue e delicada. Um gosto de nuvens. Era perceptível mas abstrata.
Logo espalho-se a notícia de que habitava entre os seres a Filha de Deus. Dotada de todos os poderes do universo, em eterna expansão, mutável, imensurável, amável. Porém, destruível.
O Universo mudou, ficou mais alegre. Os tempos iluminados. Os seres mais leves.- Eu estive com Ela... - Eu posso senti-la como se estivesse dentro de meu pensamentos. Hinos de louvor. Poemas. Na angústia de expressão: um retrato. Está é Ela, a Filha de Deus. Linda, perfeita, intocável.
Os seres, dentro de suas limitações, dividiram-se, entre os que acreditavam e os que não acreditavam. Entre os que percebiam e os que nada sentiam.
Mas Ela existia! Seus poderes espalharam milagres por toda a parte. Na intenção de protege-la uma torre muito alta foi erguida, um altar ornado com ouro, pedras, coberto por tapetes tecidos com os fios dos seres mais belos.
A quem pertencia?
Aos que acreditavam. Só a eles!... Um tratado, guardando seus ensinamentos garantiria que nunca fossem corrompidos, definiria quem eram os seus seguidores.
E assim foi dito, estas são palavras sagradas, eu creio! Ela, a Filha de Deus, habitou Tempos e Seres. Foi concebida sem corrupção, pelo Universo. Falou ao seres como se habitasse seus pensamentos. Espalhou milagres. E foi Destruída pelos que não acreditavam. Sofreu descrédito. Sofreu a tortura de ser mensurada, de ser estagnada e aprisionada. Mas, como uma onda de energia retornou ao Pai, onde expandiu, em sua grandeza. Deixando com os seres estas palavras: Sou o pensamento de cada um de vocês.
O pensamento de cada um ficou repleto de sentimentos. Cada um fez com eles o que queria. Para uns Ela foi cruel, para outros adoravél. Para uns bela, para outros horrenda. Povou o mundo das mesmas coisas que sempre existiram. O Universo observou, que só isso lhe restava a fazer.
Assim, Tempos e Seres aguardam até hoje seu retorno... Isso, se Ela existiu... Eu acredito!


Viamão, 7 de agosto de dois mil e nove


Idade das trevas
Ao longo da vida algumas fases são tranqüilas e outras nebulosas, como ao longo da história. As fases de transição são as mais complicadas, porque ninguém sabe o que vai acontecer. Os conflitos poderiam ser todos eliminados se tivéssemos garantias de onde vão nos levar os nossos passos. Seria o fim do cinema – pensou Helena de Tasso. Queria partir, sempre quis partir. De todos os lugares. Nunca quis estar na escola, nunca quis estar na sua cidade natal e em nenhuma outra. Nunca esteve realmente com alguém, não queria estar casada, não queria estar só. Uma densa nuvem escurecia algumas memórias, a adolescência é a idade média na história de algumas pessoas, na sua não era diferente. Rejeição, atração, rupturas, novas relações tudo estava coberto por um verniz, ora dourado e reluzente, ora turvo e quebradiço. Não tinha certeza de nenhuma de suas memórias, principalmente do julgamento sobre os fatos. Os amores não eram tão sublimes, nem tão odiosos. Sorriu! Se pudesse contar para aqueles jovens que o tempo pacificava tudo. Amarrou os coturnos, prendeu o cabelo com a renda, conferiu a arma. Logo que passou no concurso público achou que todos os seus problemas haviam acabado, estabilidade financeira, um salário acima da média, férias remuneradas, tempo para namorar. Bem diferente do corre-corre de vendedora. Plano de carreira. Sempre lembrava do plano de carreira, quando queria desistir. Se pudesse sairia pela porta e caminharia sem rumo. Como os loucos. Pensou nisso inúmeras vezes, sair caminhando e não olhar para trás. Mas não podia deixar a si mesma e com isso todos os seus problemas estariam caminhando sem rumo, sabia disso. A ocorrência era sobre um bando de jovens drogas e fazendo arruaça, mas seus sentidos estavam alerta. Além do normal. Um desconforto tomava conta do seu corpo. Os cabelos de sua nuca estavam arrepiados e uma sensação, familiar, de que havia perdido os limites de suas costas, como se seu tronco não coubessem no corpo, indicava que alguma coisa estava para acontecer. A porta do edifício ficou trancada, subiram ao último andar, a síndica falava como uma matraca. Do fundo do corredor vinha uma batida misturada com gritos e risadas. Helena ficou atrás do colega, faria a cobertura. A síndica dizia que essa não era a primeira Wave que os rapazes faziam. Toda a vez que os pais saiam eles aprontavam. Quatro e vinte e seis, marcava seu relógio. As garotas parecem umas “demônias” continuava a mulher, não usam quase nada de roupa e fumam e bebem mais do que os rapazes. A síndica continuava falando sem parar. Foi preciso que ela desse a ordem. Precisavam de silêncio para avaliar a situação. Será que essa mulher nunca fez uma festa, pensou. Um grande espelho, ao lado da porta do elevador, mostrava a porta do apartamento, estava escancarada. Seus olhos cruzaram com o do parceiro, alguma coisa extrapolava os limites de uma festa. Não deu tempo de segurar a síndica, cheia de razão a mulher avançou pelo corredor apontando o dedo e gritando que tinha avisado que iria chamar a polícia. Que cagada! – pensou – levando a mão na arma. Mas não teve tempo de evitar o tiro que repentinamente trouxe o silêncio. Os segundos que sucederam a este foram de pânico e desolação. Drogas, bebida, mortes. Odiava cheiro de medo. Odiava ver sangue quente. Odiava relatório... Imprensa! Teorias desfilaram a semana inteira! Especialistas em criminalidade, em adolescência. Helena de Tasso estava diante de um processo, precisaria justificar seus atos. Precisaria contar o que aconteceu. A menina comportada que nunca fumou maconha, estava gritando dentro dela, de que adiantou? A criança que sonhara em ser astronauta, cobrava onde ela estava. A adolescente que ouvia Raul e usava sandálias de couro, estava aborrecida. Queria sair. Sair caminhando sem rumo... O que a sociedade esperava mesmo?
Viamão, 28 de junho de 2009
Fernanda Blaya Figueiró



Os que seriam para o livro:

 Amar o mar
Ter, entre as palmas das mãos, a pequena concha, acalmava seu espírito. O brilho esmaltado e a perfeição do pequeno objeto guardavam, para ele, os mistérios da nossa passagem por este mundo. O som de um lugar distante e cheio de boas lembranças ecoava dentro da pequena concha, que não envelhecia... Não estragava como as edificações humanas. Tudo nela lembrava uma onda que estoura na praia com força e beleza. Guardava o amuleto para preservar-se de explicações, que aos olhos de muita gente, soavam como piada.
Colocou a concha na gaveta, coberta por uma pilha de papeis. Precisava revisar o contrato minuciosamente. Com a minúcia dos desenhos da concha, uma vírgula fora do lugar e podia ter sérios problemas no futuro. Lido, revisado, relido. Imprimiu e saiu.
No papel a sorte estava selada, na prática, dois longos anos de stress. Aprovação. Financiamento.Execução.Vendas. Ilusões e desilusões transformadas em matéria jurídica.
Como seria fácil levar nas costas a casa, e ainda deixá-la de amuleto.
Precisava disfarçar o que estava sentindo: um gosto amargo, subindo do estômago, um suor frio e a sensação de pisar em falso, que tinha desde a escola, antes dos grandes momentos. O terno, a gravata e os sapatos de couro ajudavam bastante, a armadura estava completa. Rir de piadas antigas, quebrar o gelo, até chegar no ponto. Um salutar brinde de confraternização e a sensação de chão firme novamente.
De volta! A mesa, a gaveta e o som ecoando - vai dar tudo certo! Um amargo diferente, esse, das lágrimas. Como precisava desta certeza, como precisava ouvir, sentir, lembrar.
A porta abriu, sem ranger, e uma pequena mão apareceu tateando as paredes. Em seguida a pergunta alegre. “- O que é isso, vô?”... Uma conchinha do mar. Os cabelinhos e a pele negra emolduravam um olhar brilhante e cheio de vida. “- Dá para mim?”.
- O Vô dá uma outra, olha que linda - disse - pegando uma pequena concha, no aquário sem água. - Guarda contigo e sempre que precisar ouve o barulhinho do mar.
- Olha! – disse, encostando a concha no seu ouvido. Ele diz - vai dar tudo certo!- Foi minha mãe quem me contou, competou.

Viamão, 22 de junho de 2009
Fernanda Blaya Figueiró

  Desfile da Pátria.


Alexanda, quando menina, adorava ouvir o vento, nas noites frias de inverno ele fazia bailar a chama amarelada das velas, que sua avó poupava com um sopro quente. O vento, quando entrava nas frestas do chalé de madeira, fazia um zunido de trem indo muito longe... Já na beira da praia fazia a mudança das dunas, senhoras muito elegantes, que vivem a desfilar de um lado para o outro. Ah! O Vento de dia de finados, esse era cheio de alegria, as almas dançam nele soltas e faceiras. Até dia sem vento tinha sua própria melodia, um silêncio, que reza uma prece.
A brisa, que entrou pela janela, trouxe junto uma bela recordação. Tudo estava pronto! Botas limpas, meias americanas, saia rodada, camiseta da escola. Enfileirados os alunos esperavam o apito, quase surdo, do chefe da banda. Uma brisa arteira, suave e cheia de perfume, ao passar pela menina, levou junto um longo cacho de seus cabelos negros... Até o ombro de um menino. Hum! Com um sopro quente, como o que sua avó usava para apagar a vela, o menino resolveu o problema. E, o apito tocou.
- Sentido! - dizia o chefe da banda.
O cacho voltou logo para seu lugar. O menino? Fingiu que não sentiu. Alexanda? Fingiu que não viu.
Mas, o canto do olho de um, foi bater bem no canto do olho do outro.
“Marcha soldado! Cabeça de Papel!” – entoava a brisa bobona, fazendo a menina rir disfarçado e achar bonito o menino, soldado cabeça de papel...
Todos seguiam a Baliza que, com suas baquetas, botas longas e roupa colorida, coordenava a marcha, aos poucos a Pátria desfilava. O Povo da cidade inteira coloria as calçadas e o sol brincava de esconde-esconde com as nuvens.
A brisa, muito malandra, virou ventania. O sol se escondeu e as nuvens fecharam a cara...
“Quem não marchar direito, vai ser preso no quartel!”
A avenida ainda estava no meio e a ventania brincava com a sua saia... A Baliza acelerou o passo, a marcha apurou. O sol ria escondido. E as nuvens começaram a chorar de saudade.
“O quartel prendeu fogo! Seu Francisco deu sinal!”
Ventania virou furacão e jogou mão com mão. Olho assustado, com olho assustado. Lábios... Que vergonha! A Baliza correu para um abrigo e o povo viu cair água como nunca.
Coração acelerou! Ventania acalmou e virou brisa... O sol, com um riso de homem velho, apareceu entre as nuvens.
“Acuda! Acuda! Acuda! A Bandeira Nacional!”
Alexandra descobriu! Isso é o amor... Uma brisa que sempre vem e que sempre vai embora. E, que sempre volta! Mesmo que haja uma boa tempestade.
O desfile continuou! A brisa seguiu caminho. A menina virou a esquina. O menino virou para o lado.
Nunca mais se viram, mas nunca mais esqueceram.
O quartel pegava fogo, o povo nas ruas fingia que não sabia, a Pátria, assustada, desfilava. Quem não marchou direito foi preso.
A Bandeira Nacional? Acuda! Acuda! Acuda!

Viamão, 28 de maio de 2009.
Fernanda Blaya Figueiró



Já visto

Enquanto Dolores falava senti um formigamento na ponta dos dedos, meus olhos fixaram em sua boca. Isso já aconteceu! As palavras pareciam fora do tempo, eu já tinha passado por aquilo... O tom de sua voz ia agravando. Desviei o olhar, tudo continuava certo, o garçom entrou, serviu o chá, uma cliente tocou a sineta. Tudo como da outra vez... Só não lembrava que vez. Vai ser agora! – pensei – Agora ela diz: - Vamos vender a casa! – Não! – respondi seco. A casa também é minha , ela disse, preciso do dinheiro. Bruxa! – A casa em que nascemos! Com que direito? - pensei. Minhas mãos tremiam, senti um calor subindo do estômago, acompanhado de um gosto amargo. Derramei chá na toalha de linho. Dolores estava igual a mamãe, o mesmo olhar, a mesma franja puxadinha atrás da orelha. E a voz?- Mamãe sempre odiou aquela casa, disse maldosamente. Isso não é verdade - não sei se pensei ou respondi. A advogada ao seu lado sorria, um sorriso falso, enganador, com a caneta na mão. – A senhora precisa assinar a procuração, a oferta é ótima, o apartamento é belíssimo... Moderno. Senti a maldade do olhar de Dolores. Se eu não assino é capaz de me matar, a sensação de que aquilo já havia acontecido foi substituída por uma profunda tristeza. Devia ter trazido alguém junto... Pedi para ir ao banheiro e de lá ligaria. Ligaria para quem? Quem ligaria para minha vontade de permanecer em casa.
O garçom, muito gentil, perguntou se estava tudo bem. Só então percebi o calor em minhas bochechas, o desconforto do cheio de minha pele suada. Que vergonha! Sentei e pedi um copo com água. Dolores estava nervosa. Porque precisava tanto de dinheiro? Era rica. Rica e vazia, batia a ponta da caneta, irritantemente na mesa. Assina! – Que eu tenho muito mais coisas pra fazer. Não! – respondi. – Eu vou levar para casa para ler. Inferno! – respondeu atirando as folhas na mesa e soltando o casaco do terno, vestia-se como um homem, nisso diferia de mamãe que sempre usou belos vestidos e adorava seda – Deixa de ser burra! – Você acha que os investidores vão esperar uma dona de casa quase analfabeta ler e entender um contrato? É só uma casa velha, caindo aos pedaços, com uma idiota dentro... Ah! E um monte de gato gordo e fedido... Todos olharam para ela, a linguagem parecia destoar com sua pose de empresaria bem sucedida. Sem saber direito por que obedeci. – Até que enfim! – respondeu sem a menor paciência. – Você entendeu que sua parte será o apartamento e a minha o dinheiro? Hein, sua anta? – Sim! Eu havia entendido que acabara de perder a casa onde nasci por um apartamento do outro lado da mesma rua e cinco vezes menor; e que Dolores ficaria com a diferença. Também entendi que o apartamento valia cinco vezes menos do que a casa, que ela ficaria com quatro vezes o valor e eu com um. Mas ela nunca mais me procuraria e isso valia a diferença. Nem a conta ela acertou com o pobre garçom, pegou os papeis, o casaco, a caneta e deu as costas. A advogada sorriu e se despediu de mim. O garçom trouxe a conta, paguei!

Autoria: Fernanda Blaya Figueiró

  

Nellya


Prezado Dr!

Meu nome é Nellya, uma humilde serva. Escrevo por indicação de minha senhora, que sabedora de seus méritos, sugeriu que eu lhe pedisse um conselho. Não há médicos em nossa aldeia. Tenho uma dor muito forte em minhas costas, e uma tosse contínua, que vem aumentando com o passar deste terrível inverno... Não sei se o senhor tem filhos, mas, eu tenho. E, em nome de meu filho peço, humildemente, um conselho, porque não é certo - o senhor há de convir - não é certo uma mãe morrer tendo filho pequeno. O Czar já lhe tirou o pai. Minha dor vem acompanhada de febre, tenho muitos delírios... Enquanto escrevo, a luz da vela lembra-me o que pode vir a acontecer... Imagino meu corpo inerte e meu menino sozinho. Esta imagem consome meus dias... Uso compressas de água fria e já fiz sangria... Nada parece aliviar... Canso!... Mas, imaginar que não haverá ninguém protegendo meu filho me traz uma dor aguda e profunda, no peito, como se um punhal de aço estivesse me transpassando, seria a lança, que cruelmente maculou o corpo santo de Nosso Senhor... Sempre fui temente a Deus, se algo acontecer comigo rogo de joelhos para que proteja meu pequeno. O mundo é um lugar tão áspero para uma criança pobre. Perdi o apetite. Antes comia muito bem, minha patroa é uma ótima pessoa, aqui há fartura, sem desperdício. Minha dor começou a piorar tem sete dias, o tempo que Nosso Senhor levou para criar o mundo todo. Imagino que seu tempo seja precioso, só gostaria do nome de algum remédio. Dizem que nos dias de hoje há muitos remédios. Minha patroa vai encomendar. Como vou pagar? Só Deus sabe. Sinto muita sede. Quando estou ruim procuro não deixar meu pequeno preocupado, pedi a minha melhor amiga que lhe ensine a ler. Ele há de ter uma outra vida, cheia de brilho, livre da labuta, a Poiesis... Tenho já vinte e seis anos, não sou jovem, mas, sinto que... Se o senhor souber de um remédio, por favor, imploro, serei eternamente grata, mande uma receita... Já recorri as velhas e aos curandeiros. Disseram que é a Peste. Que Deus me livre! Estou numa peça de um galpão, longe de meu pequeno e de toda a aldeia, como se eu fosse um cão sem dono. Doutor, salve-me! Não por mim, mas por meu pequeno Vanka...


Nellya

Para Dr Anton Tchekcov

Em Mosco
Fernanda Blaya Figueiró
Glossa do conto Vanka de Tchekcov

O Fantasma Parisiense


Isabelle nunca tinha ido a Paris, mas sempre via o mesmo fantasma. Seus relatos a levaram a viver confinada em uma pequena cela, com janelas de grades torneadas, uma cama de ferro... E um odioso colchão duro. Todos os dias ganhava duas horas de liberdade, logo depois da sesta, o homem grandalhão vinha, todo vestido de branco e a levava até um frondoso jardim, com uma invejável coleção de palmeiras imperiais, lá ela podia ouvir o canto dos pássaros e passear pelo gramado. O Conde só aparecia quando ela sentava no branco de pedras, usava uma boina preta e um bigode fino e engomado, seus longos cabelos cobriam os ombros, o que dava a impressa ode que sua estatura era ainda menor. Isabelle era uma mulher forte, encorpada, usava os cabelos presos com um lenço e tinha um belo sorriso. O conde ficava parecendo um garoto ao seu lado, ela não entendia como um renomado pintor podia ter mãos tão alvas e suaves, seus olhos brilhavam enquanto contava suas aventuras pelos salões parisienses, seus longos passeios solitários pelas infindáveis exposições... Isabelle podia sentir o cheiro da tinta a óleo, a magnitude das peças entalhadas, a suavidade do veludo usado pelas madames. Discutiam muito, o conde era absolutamente contra esta loucura moderna de encarcerar a arte em um museu: - A arte precisa viver, respirar, ser! Ser parte das cidades. – Mas, e a violência, os saques e depredações? - ela tentava ponderar - O que fazia com que ele inflamasse como se fosse explodir de raiva. – Prefiro um quadro meu destruído pela chuva do que embalsamado em uma parede fria e sem vida, iluminado por raios de sol do que ofuscado por luzes artificiais... Isabelle sabia que isso era só uma rebeldia passageira, uma esquisitice de artista. Ela calava, ria, chorava, gesticulava... Até o sino da igreja bater, chamando para a Ave Maria... O homem grandalhão voltava. Ela tentava não ir, mas ele era forte, se ela resistisse apanhava e vinha mais um, às vezes eles usavam a “camisa”. Isabelle agüentava tudo, menos a “camisa”. Naquele dia tinha tentado dizer a doutora o que acontecia. Ninguém acreditava. O homem grandalhão chegou como sempre e disse: - Então, seu pintor veio hoje? Ela já sabia que ele estava só debochando, não respondeu, ela estava com fome e uma sede que cola a boca por dentro, enquanto caminhava ao seu lado viu a doutora entrando no carro vermelho, como era lindo, ela, sem o avental, parecia uma das pinturas de que o Conde falava. Seus olhos ficaram embaralhados, não entendia porque uma pessoa tão boa não acreditava nela. As portas foram fechando e a grama sendo trocada pela pedra dura. Ela entrou e o homem grandalhão trouxe a sua sopa e o copo com água... – Está com fome? – indagou – Isabelle não respondeu. – Vem aqui! – ele ordenou enquanto soltava o cinto – Isabelle não se mexeu e os insultos dele começaram bem baixinho – Você tem que comer... Vamos que eu tenho outros pacientes para servir... Enquanto dizia isso ele jogava o corpo de Isabelle no colchão, penetrava por trás, enfiava as mãos em seus seios e gozava como um animal... Ela gritava e ninguém acudia. Depois disso podia comer e beber. Contou tudo, muitas vezes, e a doutora?... Quando a porta fechou O Conde apareceu, vindo de Paris, cheio de novidades sobre os salões. O homem grandalhão veio buscar a bandeja, Isabelle tremeu, ele tinha nas mãos a “camisa”... A “camisa”!!! Ela sabia o que ia acontecer, o sorriso dele contava, não reagiu e ficou de quatro, não adiantava reagir, só que desta vez quando ele fez, contraiu os glúteos e arremessou o corpanzil dele contra a porta, o homem urrou de dor e daquele dia em diante nunca mais chegou perto da cela. Isabelle nunca mais viu o jardim, nem as palmeiras, só o Conde.

Autoria: Fernanda Blaya Figueiró  


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