Um conto contado
Estou aqui pensando em
um exercício de oficina, não gosto de exercícios de oficina. Não
acho bom para livre criação, se é que existe uma livre criação,
ficar preso exercitando, agora confesso que gosto menos ainda de
receitas. Na minha cozinha nunca usei receitas por isso as vezes
acerto e em outras erro. Mas a vida é assim. Vamos exercitar: a
proposição foi minha, é verdade.
A proposta foi ler o
conto Coco verde e Melancia de Simões Lopes Neto e escolher,
aleatoriamente 5 palavras, não necessariamente palavras típicas, só
palavras e propor algo novo.
Nosso grupo lê mais
poesia do que prosa então a proposta é escrever e ler prosa para o
próximo encontro, para variar um pouco.
O Conto Contado
Tenho guardada na
MEMÓRIA a visão de uma RAMADA de cipó COBREADO que balançava
furiosamente batendo no dorso de um Tobiano, que de VENTA aberta
empinou o corpo e saiu num trote marchado rumo ao campo aberto, em
total INDEPENDÊNCIA. O cipó se esparramava por todo o matagal,com sua
ramada pendurada entre maricás,butiazeiros, figueiras e brincos
de princesa. O Tobiano aventado desapareceu sem deixar rastro,
deixando o cavaleiro solito da vida... Solito? Solito, solito não!
Que este conto contado é uma velha história do tempo dos amores
proibidos. Essa velha coruja, que já ouviu muito causo, que já viu
muita coisa neste mundão velho de Deus, vai lhe recontar, rapidinho,
o acontecido. Os tempos eram de peleia, os dias sombrios e secos, o
gado andava magro, o rio barrento. E alguém disse: este amor não
pode ser. Foi o que bastou. Se não pode ser daí é que será. Quem
proibiu o mato não sabe, porque motivo, muito menos. Coisa de gente.
Que gente gosta destas coisas de proibir e de libertar. Proibi para
libertar, liberta para proibir. Vive pra lembrar, lembra pra
esquecer... E o proibido foi encontrar abrigo nas ramadas cobreadas
do cipó da mata. No tempo que tinha isso de ter mata. Tempo antigo.
Anoitecia, o sol deitava o cabelo no céu tingindo ele de um
alaranjado que só aqui no pampa acontece, os proibidos tinham a
doçura e a ternura do amor novo. Que o amor é coisa muito boa, nos
primeiros tempos. Chegaram no dorso do Tobiano, que foi amarrado, sem
a montaria, no pé de uma grande árvore, pra descansar o lombo.
Nisto apareceu uma cobra. Chiiiiiiiiiiiii, Chiiiiiiiiiiiiiii!
Pucutum,pucutum,pucutum... A Proibida arregalou os olhos e o proibido
foi logo tratando de encontrar um jeito de acalmar a amada.
Hu.Hu.Hu... Piei para ajudar! Disse ele que o Tobiano haveria de
voltar e que a cobra já havia partido. Ah, as cobras... Nunca perdem
a chance de dar uma forcinha pra uma amor proibido. O vento soprou os
longos cabelos da amada, que as amadas mantem longos cabelos, como os
cipós cobreados, na pele forte do amado, que os amados tem uma pele
forte, como os brados de independência. Todas as boas histórias de
amor acontecem no tempo da juventude. Com a ajuda da cobra, do vento
e da lua, que nessa hora já dominava o horizonte, o amor proibido
aconteceu. Hu,hu,hu... Dizem que foi desse amor que nasceu... Não!
Não foi a humanidade, que essa era uma história mais antiga. Nasceu
desse amor um conto contado, dissimulado. Coco Verde e Melancia? Não
sei não seu moço, não é bem o que a coruja tem guardado na
memória... Que as corujas guardam os segredos bem guardados...
Hu,hu,hu...
Fernanda Blaya Figueiró
Para o encontro do
grupo de leitura da ACF
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