Cultura : O que é bom
permanece!
Sentei no sol para
escrever sobre o trabalho, um complexo assunto tão debatido. O que
significa esta palavra hoje? Não é bom pensar e escrever sobre
essa ideologias, porque toda palavra pode ser deturpada. Estou no
pátio do museu, entre cachões Farroupilhas. No terreno ao lado
trabalhadores estão batendo estacas, provavelmente fazendo a
fundação de uma nova construção. O triângulo de ferro que serve
de base lembra os grilhões que há dentro do museu para lembrar do
tempo do trabalho escravo. Um gato de pelagem comum, dorme ao sol
como se fosse uma esfinge faraônica, lembra muito a Brigite, uma
linda gatinha que eu tive, um amor antigo. Não devo me ocupar com o
trabalho, vi isso ao passar pelas terríveis argolas do tempo da
escravidão. Estranhamente o silêncio ocupa o espaço e o sol mostra
toda a sua força. Alguém se aproximou e comentei como estava bom de
ficar no sol, ganhei uma autorização para permanecer com um: fique a
vontade. Penso que talvez os bancos não fossem para sentar. Se o
gato pode eu também posso. Antes passei pela exposição Haiti- Arte
e resistência. Arte. Resistência. Transformação. Perenidade.
Trabalho. Dorme nos canhões o tempo antigo. O antigo tempo das
guerras. As árvores tomam os muros. Um pássaro rompeu o breve
silêncio e um galho cai lentamente no chão. O trabalho das aves é
o mesmo a Milênios. O dos seres humanos também. Os complexos
sistemas que criamos para definir nossa ação no mundo são apenas
amontoados de palavras criando ilusões. Uma formiguinha vermelha
procura comida no meu papel. Quem vai inventar as novas formas do
trabalho será o povo. Que é quem trabalha. Os intelectuais vão
fazer o seu trabalho e nomear as coisas. O gato tem plena consciência
de todo o seu poder. Tanta arte e ele foi fotografado. Quantas vidas
será que estes canhões tiraram? Quanto poder veio de suas
entranhas? É preciso trabalhar essa paz, mesmo que ele seja tão
precária. Tim, Tim, Tam... Tim, Tim, Tam... O som do tempo ecoa sem
parar. Meu amigo destes poucos segundos vai continuar aqui no sol.
Nada de novo acontece no Universo desde que estamos aqui, eu e ele. A
ideia mais bonita que a humanidade teve foi a ideia de Deus. Quanta
bela arte foi feita em seu nome? Quanta guerra e paz?
Atualmente resolvi cair
em devoção pela poderosa Deusa Ciência. Ela é a atual Grande Mãe,
maior que Eva, Sara, Maria, Kalunga, Ísis, Atena, Afrodite,
Kali, Tara, Pachamama... Isso é cientificamente comprovado. O Corpo
dessa deidade é luz e energia, suas feições são virtuais,
etéreas. Seu dogma o Método. A Ciência da arte é definir um
entorno ao que foi feito. Uma síntese do que
artista-objeto-espectador sentem. Na literatura leva a alguns absurdos
cortes, violentos, feitos com navalha afiada... Há um tipo de lírio
branco que está na sombra, atrás do banco do gato, está chateado
por não ter sido citado, neste texto. Acho que os bancos e mesas de
pedra também. Dizem que o gato e os canhões viram protagonistas e
que eles são apenas moldura. Protesto. No meu texto nada disso será
cortado e o lírio deve sentir-se tão ator quanto o gato. Soam os
sinos da Catedral, acho que já “aluguei” o espaço público
tempo demais. Podem confundir estes fragmentos de percepção com
algum tipo de loucura. Antes de sair me deparei com a “máscara
mortuária”. Uma antiga forma de arte. Passei pela praça e dois
cães aproveitavam o mesmo sol do gato, admirando as esculturas de
cães. Seus donos notaram minha percepção deste fato. Entrei no
Teatro e estava cheio de crianças. Deve ser por causa das férias.
Devo dizer que foi Divina a apresentação do grupo Tholl, o
repertório belíssimo e a execução das peças mágica. Tem um
discurso na cultura de que se deve dar acesso a cultura e que ela
está em todos os lugares. É verdade, mas é preciso este ponto de
contato, em que o que é feito por um encontra o que é feito pelo
outro. Essa convivência cria o novo, recriando o antigo. Piercingis,
corpos tatuados em roupas de festa e uma excelência na performance
ligam o jovem ao que foi legado pelos antigos. A nova expressão com
a antiga em coexistência pacífica. Esse será provavelmente o
design do novo-capitalismo-socialismo. Quem teve fôlego para vir até
aqui deve se perguntar se esse texto tem algum sentido e eu devo
dizer: Não. Estou apenas aproveitando um dia frio de sol, enquanto
ainda tenho dias e esse é o segredo de viver. Além do arco-íris...
Fernanda Blaya Figueiró
18/07/2012
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