O que me dá alegria!
Ontem participei de um
encontro em que abordamos esta expressão: “ O que me dá
alegria!”. Eramos apenas cinco mulheres reunidas em torno da
palavra Alegria, quase um pentagrama. Tivemos cinco respostas
diferentes, mas todas muito simples o canto dos pássaros, a música
erudita , o nascer do sol, as viagens, a vida das casas. “Só se vê
bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”
Saint-Exupéry , lemos um fragmento do Pequeno Príncipe e a cada uma
remeteu a uma memória diferente. E esse é o grande mistério da
literatura, as diversas possibilidades que um texto tem. Outro dia
estava lendo um fragmento da autobiografia de Agatha Cristie e ela
dizia que é preciso ter consciência sobre o tipo de escritor que se
deseja ser. Diz ela mais ou menos que sabe que é uma escritora
profissional e que como tal atende a determinadas normas e formatos.
Isso para mim foi importantíssimo porque eu, neste caso, escrevo para
mim mesma. Ou talvez escreva publicamente para mim mesma. Nunca vou
ser uma escritora profissional e isso é maravilhoso, mesmo assim
tenho alguns poucos leitores “cativos” e alguns “críticos”,
pessoas que gostam, ou não, do formato ou do conteúdo da minha
escrita. É normal, não só na literatura, mas em qualquer
interação. As pessoas formam grupos dos mais variados, de
literatura, arte, religião, política, ecologia, esporte,
gastronomia, moda, exoterismo... E passam a exigir do outro que seja
aquilo que é esperado dele e não aquilo que ele é. Uma pessoa me
convidou para um evento e delicadamente me advertiu, mas tem que ser
só a “elite”, não queremos misturar as coisas. Eu não sou e
nunca serei da “elite”, sou uma pessoa comum que cultiva hábitos
comuns,não gosto de cerimoniais muito exagerados e principalmente
admiro as pessoas comuns e suas sabedorias. Poderia dizer que minha
erudição é popular, se isso for possível. Meu gosto não é
refinado, prefiro os ambientes mais “fora de moda”, informais.
Mesmo assim irei ao compromisso da “elite”, mesmo que isso seja
uma incoerência. Acho que isso nos leva a pensar que a literatura se
elitizou, se estratificou, a tal Literatura e literatura. Isso com
toda a certeza não me dá alegria, não fala ao coração. É
preciso saber equilibrar a alegria e a tristeza e isso só se
consegue ouvindo o próprio coração. Acredito que sou uma pessoa
comum e quem se aproxima de mim achando que irá encontrar uma pessoa
da “elite” vai se frustrar, mas o que os outros pensam e esperam
é um problema deles. Tenho procurado diminuir minhas próprias
expectativas com relação aos outros e a mim mesma, esse é um
difícil aprendizado, mas que evita muitos transtornos. Assisti ao
filme “O Corvo” , sai do cinema um pouco sem saber o que havia
achado, mas logo me dei conta de que é só um filme, uma abordagem fictícia sobre um grande poeta. Se eu fosse abordar o poema teria sido de uma
forma totalmente diferente. O filme é uma diversão e atinge seu
objetivo como distração, é bem feito, prende a atenção, não
elucida, não desvenda nada de novo. Como o nosso encontro de ontem,
falamos um pouco sobre nossas alegrias e junto vieram algumas
tristezas, não sei se chegamos ao coração uns dos outros, se
atingimos as expertativas, mas isso não importa. O que importa é
que naqueles poucos minutos paramos e olhamos para nós mesmas.
Porque fazemos isso? É um dos mistério do trabalho voluntário.
Deveria ser o ponto de partida de cada ação social: - Estou
promovendo este momento porque... .
Fernanda Blaya Figueiró
25 de maio de 2012
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