Dalva nome de estrela


De volta ao plano inicial

Como o previsto o conto "O Quarto de Bonecas: um conto sob encomenda"  não correspondeu ao que a pessoa que encomendou pediu. Então, a pedido, escrevi outro. Só porque quem me encomendou foi minha grande amiga Jane Peixoto, ela quer levar a história para sua amiga Dalva, uma senhora que eu não conheço,  que aos setenta e quatro anos tem um quarto impecável só para suas bonecas, que passou a colecionar há poucos anos. Tentei explicar pra a Jane que literatura não é jornalismo, que talvez ela devesse falar com nosso amigos do Jornal Correio Rural e conseguir uma reportagem pois a história é muito legal, mas quando vira conto vira outra coisa. Não tive exito e vi ela ficar "magoada" então resolvi reescrever a história, que não tem como ficar como ela quer pois quem conhece a Dona Dalva e toda a história é ela, não eu. Então esta é a segunda versão e a Jane já fez dois lindos poemas. Eu com esse texto jogo a toalha, mas acredito que ficou mais perto da encomenda. Fico imaginando os artistas plásticos e suas encomendas, que difícil que deve ser... 


Dalva nome de estrela

Para Dalva e Jane

O quarto de Dalva guardava um encantamento protegido por um segredo: quando era pequena não tinha bonecas. Um dia olhou para o céu e sua estrela esta lá, resplandecente, iluminada, sozinha no imenso azul escuro. Estrela, estrelinha, que é só minha dá-me uma linda boneca. Lá no céu a estrela ouviu e lamentou. Dalva, Dalvinha, um dia, um dia teu desejo realizo. A menina cresceu, cresceu. Todas as noites olhava para a amiga e sabia que um dia, um dia seu sonho seria real. Não dá para dar mole para a vida, logo a menina cresceu e mãe se tornou. Um dia, um dia, passou pela frente de uma vitrine, seus olhos notaram que no alto havia uma estrela luzidia, iluminando uma linda boneca. Dalva, Dalvinha ela pareceu ouvir e a boneca pareceu sorrir. Na bolsinha carregava uma nota bem novinha. Que destino ela tinha? A poupança. Poupança? Que palavra popozuda. Pé ante pé a senhora, que já era vó na lojinha entrou. Uma linda mocinha olhou para ela e disse:- a vovó quer uma ajuda? Seu olhinhos brilhavam de alegria e a boneca parece que respondia. Quanto custa essa boneca, perguntou meio ofegante. Uma nota - disse a mocinha- Vai levar? O coração de Dalva pulava como o de Dalvinha, quando ela era pequeninha, a boneca parecia uma estrela brilhante. A nota pesava na carteira, que bobeira.- O que os outros vão pensar? Dalva, Dalvinha, hoje é o dia, hoje é o dia, a nota respondia. Embrulho pra presente? - pensou! Embrulha pra presente, respondeu, com um alívio. A estrela na ponta da vitrine soluçava de alegria. Dalva, Dalvinha chegou em casa com o pacote mas sem coragem. Seu marido, que já era bem velhinho, baixou o jornal, tirou os óculos e curioso perguntou:- Dalva, que presente é esse, quem te deu? Envergonhada ela contou tudo, tudinho. Seus olhinhos estavam opacos e cabisbaixos. O que ele pensaria? Então ele levantou e abriu uma caixinha, lá dentro sabem o que havia? - Um avião vermelho, de menino rico, que quando ele era pequeno não tinha. Dalva colocou o pacote sobre a mesa e aos poucos foi tirando o embrulho, todo de estrelas, que a mocinha havia feito. Retirou a caixa, a cordinha que amarava o pescoço dela, como sempre sonhara e deu um abraço na sua primeira bonequinha, que cheirava a flores do campo, A boneca usava um vestido todo rendado e o cabelo comprido. Estrela, estrelinha hoje tu é só minha. O marido riu de sua felicidade e entendeu o que acontecia. Dalva, Dalvinha nunca duvide: um pedido feito para uma estrela sempre acontece, um dia um dia...

Fernanda Blaya Figueiró

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