O quarto de bonecas: um
conto sob encomenda.
Observe que me foi
encomendado um conto, eu venho disfarçando e desconversando mas quem
encomendou me encontra e diz: e a história, já escreveu? Penso que normalmente a história nunca sai como a encomenda. E também já faz
tempo que deixei a arte dos Contos, são normas e prisões de mais
que os contistas inventaram para poder “julgar”, ou quem sabe
classificar, de 01 a 10, ficam atribuindo notas uns aos outros. Que
coisa. Mas em meio a esta noite acordei contando esta história que
se segue: O quarto de bonecas. Por um uivo muito forte dos cães e
nem era dos meus, pois fui verificar, acordei em meio ao conto. Não
sou uma pessoa covarde e decidi que assim que o sol apontasse no céu
sentaria e escreveria a história. Só que o sol nasceu, preparei o
café, tratei dos cães e quando ia lavar a louça do dia anterior, o
conto voltou. Com uma força criativa própria e autodidática. Mas
totalmente diferente do encomendado e como autora que sou, a maiorias
dos contistas não tem domínio sobre sua obra atende as normas do
mercado e não a força da criação. Resolvi contar exatamente o que o conto queria e não o que a encomenda pedia. Onde salvarei, uma vez
que não tenho mais uma pasta para contos? Entre os poemas, já que
crônica não é.
Dona Gertrude ou
simplesmente Gerta vive em meio as fantasias, em sua casa há um
grande e espaçoso quarto as altas janelas pintadas de branco,
adornadas com belas cortinas bordadas a mão, iluminam o seu interior
de paredes cobertas de papel florido. Um capricho! A cama de ferro
fundido e colchão macio tem uma colcha de retalhos feita por ela.
Anos levou para deixar tudo assim bonito e decorado. Gerta sempre
trabalhou, quando era pequena precisava recolher gravetos para o fogo,
alimentar os porcos e amassar o pão. Tinha pouco mais de dez anos
quando foi mandada para o colégio interno, lá aprendeu a bordar,
passar, lavar, rezar, pedir esmolas. Como odiava aquilo, vestir um
uniforme surrado e ir pedir esmola para o orfanato, as freiras diziam
que a esmola engrandece quem doa e dá humildade a quem pede. É preciso um coração puro e humilde para pedir esmolas. Mas Gertrude
sentia vergonha e humilhação, assim acreditava que seu coração não
era puro. Um domingo no mês podia ir até a Colônia e ficar perto
da mãe e dos irmãos. A casinha de madeira era cheirosa e limpa, a
mãe sentava na ponta da mesa e lia para todos. O Pai era caldado e
ausente, ouvia tudo e sacudia a cabeça: - Não enche a cabeça das
crianças com bobagens, dizia irritado, a vida da gente é só
trabalhar e pagar conta. O cabelo da mãe tinha um brilho e seu corpo
exalava um calor que no colégio não tinha. Em casa era Gerta, a
menina de ouro, que estudava para ser freira. Dos oito irmãos cinco
ainda eram vivos. Depois da missa a comunidade se reunia para o
almoço da paróquia e Gerta tinha que pedir esmola para a Igreja.
Lembrava que era um tempo feliz mas difícil. A noite a mãe servia
cuca e linguiça, a melhor coisa que havia no mundo, o pai então
falava da Guerra. Prometa para seu pai que não vai ter filhos,
porque os filhos da gente acabam indo para a guerra ou para as
fábricas. Ele falava de seu irmão mais velho que havia sido
esmagado por uma peça com defeito na fábrica. Falava também do
Tempo da Grande Guerra, que o havia mandado para este País. O pai
havia perdido tudo, veio com a cara e a coragem buscar abrigo na casa
do tio. Casou, se estabeleceu, ganhou confiança, só que seu coração
permaneceu amargo. Na segunda pela manhã tinha que pegar o ônibus e
voltar para escola, nem sempre era frio, mas a estrada deixava o
calor para trás. Gertrude sentia um frio interior, que fazia doer os
ossos e o peito. Na escola um dia confessou que queria voltar e o
padre disse: Filhinha a vida vai sempre pra frente, não volta... No
fim do mês serás algo que ninguém em tua família é, uma
enfermeira. Imagina a emoção de teus pais, formar a filha. Quinze
anos e as meninas ricas debutavam usando longos vestidos bordados,
pelas internas do colégio, usariam sapatos altos e fitas nos
cabelos. O Padre tinha razão o pai e a mãe quase não aguentavam de
orgulho. Na Colônia foi organizada uma grande festa. Gerta , a
pedido do padre, conseguiu muitos donativos para a construção do
hospital. A esmola tinha mudado de nome e ela já não se sentia tão
mal. Conseguiu emprego antes mesmo do verão e só ia em casa duas ou
três vezes no ano. O tempo foi passando,a maioria das amigas casou.
A Colônia ficava cada dia mais longe. Já passava dos trinta anos
quando casou. Seu companheiro já tinha cinco filhos, dois do
primeiro casamento, dois do segundo e um com uma garota que deu no
pé. A pequena Martinha criou com se fosse sua. - Amanhã ela vem
aqui me visitar, contou para a visita. Sabe a Martinha la já tem
duas filhas. Se as bonecas são delas. Não! São minhas, dizia
Gerta, eu abro todos os dias o quarto , para arejar, depois sento na
cama e penteio uma por uma. Uma vez por semana troco as roupinhas e
quando está frio coloco blusa de lã e sapatinhos combinado, eu que
tricotei tudo isso. Guardo no armário com sachê de lavanda e folhas
de louro. Meu marido acha engraçado, eu com essa idade, quase
oitenta, brincando de bonecas... Mas sabe, no fundo elas são minhas
filhinhas... Não contei mas eu olhava a mãe e via o brilho de seu
olhar, o calor de seu corpo e pensava... Um dia vou ser assim, só
que não deu... É a vida. A pessoa que me encomendou este conto
contou que Gerta brilhava, seus olhos se iluminavam com as bonecas.
Ela dizia que se fosse uma formiga seria operária, sabia disso,
precisava fazer. Fazer sempre alguma coisa. Gertrude foi mãe na
tardia hora da fantasia, que une a menina, a mulher e a senhora. Essa
é a sabedoria da Grande Mãe, se transformar como a lua no céu.
Fernanda Blaya Figueiró
25 de abril de 2012
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