Para os Contadores de História

Com permissão !




“Agora que ele e andorinha dormem,que só a Velha Coruja está acordada, permito-me filosofar um pouco. É um direito universalmente reconhecido aos Contadores de História e devo usá-lo pelo menos para não fugir a regra geral”

Jorge Amado

em “O Gato Malhado e Andorinha Sinhá”.





Com a permissão de Jorge Amado, coisa pouca, deixo aqui meu parabéns a todos os Contadores de Histórias, mesmo que poucas pessoas percebam sempre que se conta uma história há uma fogueira no meio de uma capoeira e uma tribo que, com os ouvidos abertos, os olhos brilhantes e o coração palpitando escuta. Escuta! Que eu vou contar para vocês que tudo no mundo é uma bela contação de causos. Uma “charla”, não é por acaso que no princípio era o “Verbo” e estava com Deus e era Deus e se fez carne e habitou entre os homens, digo assim de memória, mas quem quiser busque os alfarrábios e corrija esta velha sentença. Os budistas entoam mantras, os pajés cantam para o céu, as benzedeiras abençoam com sábias e antigas palavras, os Pais e Mãe de Santo evocam com tambores e velhas orações a sabedoria do mundo, os judeus passam de geração para geração as sábias palavras sagradas, os cristãos, de todas as fés, recitam o que disse Jesus... Os ateus o que disseram velhos filósofos e os cientistas o que contam:: o que conseguem comprovar. Provado é de novo reprovado e testado. Contar uma história, por mais simples que seja, é um ato de humanidade. Eu sou uma contador que gosta de contar pequenas histórias, para poucos ouvintes, que me assusta uma grande platéia, assim como todas as multidões, e o som dos espetáculos de grande monta. Ontem um senhor magrinho, bigode branco, costas encurvadas, pesava um ou dois tomates e eu esperava na fila, eis que disse ele: - Meu filho não quis trabalhar aqui, porque havia os Domingos e Feriados... Fez curso largou currículo por tudo e acabou foi “ralando” em obra... Mesmo meu antigo ofício... Respondeu-lhe a senhora, magrinha, cabelos longos presos em rabo de cavalo, olhinhos brilhantes: Eu estou aqui vai fazer dois anos e meio, ( o orgulho estufava seu peito) e nunca faltei um só Domingo! Ainda nas minhas folgas faço faxina na casa do Patrão. Disse o senhor o pobre tem é que fazer o que aparece e ser feliz. Ela continuou: - Aqui é assim eu sei que se precisar o Patrão me ajuda e ele sabe que eu sempre vou estar aqui. Todo fim de mês tenho meu dinheirinho e ajudo os filhos a cuidar dos netos... Talvez não tão textual tenha sido o diálogo, mas pesei meus legumes. A única coisa que me restou a dizer sobre o complexo pensamento foi: É verdade! Se dessemos uma real oportunidade ao povo de se manifestar acho que eles diriam: - Vamos fazer o que tem para ser feito! - Recebemos pelo feito e tudo se resolve. E talvez o povo tenha razão e as coisas todas do mundo são fáceis de se faz e resolver. O rio está sujo, vamos limpar. O sol está forte, vamos trabalhar a noite. A lua fica muito longe, vamos fazer poemas para ela. E assim a vida segue tranquila e todo mundo fica feliz. E tem final melhor que este para uma bela história?



Parabéns a todos os Contadores de Histórias grandes e espetaculares ou pequenas e populares!



Fernanda Blaya Figueiró

17 de março de 2009

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