Escuridão?



Escuridão?


Ganhei essa palavra e não sei bem porque , num repente “escuridão” minto “Darkness”. Não falo inglês, constantemente inverto letras e cometo erros e essa palavra caiu assim, na ponta do meu lápis, perfeita, em outra língua... Segunda feira fui ao centro de Porto Alegre e não consegui aguentar o calor, tive que voltar para casa. Passei antes na praça e um pregador gritava palavras, cuspia ameaças e senti que mesmo com seu discurso ofensivo tinha o direito de estar ali. Em um determinado momento disse que esteve no parque e que viu Buda ladeado de estátuas de dragões e serpentes. Dizia ele: olhe Buda é do Diabo, pois está na Bíblia que a cobra é o diabo... E pensei em escrever algo, não saiu nada, rabisquei a folha e a única frase que saiu foi: “O Comércio de Deus continua”. Rasguei esta expressão junto com as demais anotações, números de telefone, dados para atas e nomes.
 Hoje revirei tudo em busca desta frase e de entender de onde veio este Darkness, acho que das propagandas de filmes... Hoje é quinta-feira, dia de Iemanjá, a mãe das águas, um dia de festa e louvor. Tem um silêncio, uma quietude e nobreza na escuridão, que não entendemos! Para Budistas a serpente é simbolo da energia vital, é um bom símbolo. Luz e sombra sempre encantam as pessoas. Porque esse pregador precisa atacar as divindades alheias? Porque ameaçar as pessoas com a imagem do Diabo? Porque ele transformou Deus em seu produto, sua mercadoria e as outras religiões em seus concorrentes. Precisa criar, como fazem os vendedores, a necessidade de Deus através do medo. Precisa provar que seu Deus é o cara, melhor do que o Deus dos outros. Não sei porque essa palavra caiu na minha mente, mas olho para ela sem medo algum. Antes disso tudo passei pela vitrine de uma loja e a etiqueta de um vestido me chamou a atenção: R$ 997,00. Quase mil reais por um vestido? Olhei novamente! Gente! Estamos no Brasil, um vestido por mais “bonitinho”, que era isso que ele era, não pode custar isso! Então eu pensei pode, se tiver alguém que pague por isso.
Se eu tivesse uma sineta agora tocaria forte e diria: - Olá! Vamos acordar!!! O mundo está em crise! O Brasil está indo num caminho que o mundo já experimentou e que não deu certo: o caminho do endividamento coletivo e individual. Se você tem uma casa própria, um carro, um campo, um salário, um brinco valioso, não use este produto para pagar por um vestido um valor que ele não tem. Claro que estou usando uma metáfora, mas diria algo assim, querida classe média brasileira: não hipoteque sua casa para pagar dívidas de banco, não faça leasing de seu carro para comprar um sonho vazio, não use sua aposentadoria para comprar remédios milagrosos, ou sua terra para tirar um papagaio, não penhore seus brincos por mais alguns hambúrgueres e quilos indesejáveis. O mundo está na escuridão por comprar coisas, por endividar-se além da medida. Não pague a um produto o que ele não vale, nem pegue emprestado o que não cabe no seu bolso. Deus não está a venda, cada um pode ter sua ideia e sua fé sem ter que pagar por ela, desconfie destes “vendilhões a porta do templo”.
Quem sou eu para escrever tudo isso? Sou uma marionete das palavras elas são minhas chefes. Eu bem que tentei evitar esse texto, mas sei lá, ando com vontade de escrever. Acho que no fundo dessa verbalização das últimas crônicas, tem um segredo, é a poesia descansando ou uma abertura no meio da testa que faz a gente ver o que ninguém dá a menor bola e associar as coisas. O terceiro olho do terceiro mundo. Pode também ser só retórica, mas se servir para algo que bom, se não servir de nada vai ficar aqui no blog e pronto. Logo a nuvem que está sobre a cabeça das pessoas vai se dissipar e a crise lá fora vai passar, então se formará em outro lugar pois a crise e  a bonança são passageiras e ilusórias.  

Fernanda Blaya Figueiró
02/02/2012  

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