Crônica recorrente
“O usuário de craque acaba se tornando um zumbi”
Esta frase ouvi ontem num programa de televisão, um zumbi é um morto que saiu do seu túmulo e deve a ele retornar... declarar que um ser vivo se tornou um zumbi é quase como declara seu óbito antecipado, pode levar a um entendimento de que aquela vida não vale mais nada. Que aquela pessoa, seja criança, jovem, adulto ou velho, não tem mais esperança nenhuma e pode ou deve ser eliminado. Acho isso muito preocupante, uma declaração assim não seria a mesma coisa que dizer, por exemplo, que os índios e os negros não tinham alma e por isso podiam ser escravizados? Ou que as mulheres não tinham condições de votar ou de serem responsáveis por si mesmas por sua “fragilidade”. Não sou contra uma tomada de atitude sobre a população de rua, acho muito triste a situação em que vivem e preocupante o número que está atingindo, só acho que esse debate não pode virar uma “Cruzada”, ou como muitos estão falando uma Guerra. Colocar estas pessoas como mortos-vivos é coloca-las numa situação de precariedade maior ainda, torná-las alvo do desprezo, do desamor, torná-las uma “vergonha nacional”, uma coisa da qual temos nojo. Esta população que está a margem da sociedade tem que ser recolocada de alguma forma dentro do sistema social. Outra declaração um pouco alarmante é por exemplo: quem usou o craque uma vez não tem mais volta, isso torna todos os usuários mortos-vivos. Lembro do aparecimento da AIDS e do desespero que criou, mas com o tempo apareceu uma solução, muita gente de fato morreu, mas muitos se salvaram. O Brasil vem saindo de uma pobreza muito grande, de muitos anos, que gerou uma enorme população sem acesso nenhum as instituições da sociedade, sem escola, saúde, cultura,segurança, religiosidade,esporte. Muitos destes usuários já nasceram nas ruas, já nasceram inseridos no meio do tráfico de drogas, em comunidade com a ausência total do Estado, dominadas pelo medo e pela corrupção. Vamos combater o uso de drogas sem tornar esta “população usuária de craque” culpada por todos os problemas de falta de segurança, de “falta de higiene” que nosso país tem. Eles são feios, ameaçadores, sujos, violentos, mas são pessoas que precisam ser compreendidas e que foram jogas no mundo muitas vezes sem “pai nem mãe”. As “cracolandias” acabam lembrando os terríveis guetos, esta população foi empurrada para lá , só que sem Deus, sem o conceito de “lar”,de “família”, de esperança, sem nada além da possibilidade de fazer uso de uma substância química e de se tornar objeto do ódio do não usuário. Vamos tratar este problema com amor, como imagino que diria Paulo Freire.Zumbi dos Palmares rogai por eles.
Fernanda Blaya Figueiró
20 de janeiro de 2012
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