Porque desconfiar!
Eu sou uma pessoa desconfiada, desconfio de algumas coisa. Minha mãe trabalhou no IEL, mais ou menos em 1978, um dia chegou indignada com o processo de seleção das obras. Disse: veio o livro com um carimbo - Publique-se!. Continuou - Nem precisa porque o livro era bom! Não quero ser injusta, minha memória não é das melhores, mas era o livro de alguém que se tornou um dos grandes. Uma outra vez encaminhei a este instituto o livro “Fragmentos” que não era uma boa obra admito. Mas estava fazendo uma oficina com o poeta Ronald Augusto e comentei: tenho um livro aqui para apreciação. Ao que ele respondeu: Esquece! Guardo a carta de 23 de dezembro de 2002 ofº617/02 assinada pelo senhor Cláudio Levitan em nome do IEL. O livro queimei! A correspondência era endereçada ao senhor Fernando Blaya Figueiró( acho que devo ter disortografia, segundo dr. Google) , tenho um tio Fernando Blaya, mas este senhor Fernando Blaya Figueiró, não existe. Numa outra oportunidade inscrevi o livro “Ecos da América”- uma bomba, um texto que não se definia nem como prosa, em como verso. Mas ao mesmo tempo inscrevi um livro de minha amiga Jane Peixoto, acredito que já em meados de 2005, meu livro era confuso, surrealista, doido. Mas o da Jane era impecável. Levamos bomba! Nós duas. Para me vingar escrevi um texto: “Marco Zero” e eliminei os outros. Comecei de novo e exclui a sigla- IEL- da minha vida, esta careta nem guardei. Publiquei de forma independente o livro “Ano Novo e Textos escolhidos”. Um verdadeiro drama, pois escolhi uma gráfica de Viamão e no dia do lançamento o livro parecia uma aberração, fiz até uma queixa na delegacia de polícia, pois descobri que a gráfica tinha o CNPJ inativo e não poderia estar atuando. Consegui reaver a entrada e que os exemplares fossem destruídos. Depois fiz o livro por uma boa gráfica, de forma independente, com o devido depósito legal. Ano Novo ficou um livro imaturo, minha ansiedade fez com que editasse sem o devido preparo, o mercado editorial é muito exigente. Todo meu trabalho infanto-juvenil publiquei no blogue, acredito que esta é uma fatia do mercado mais exigente ainda, é melhor não fazer um livro infantil de qualidade de impressão duvidosa. Reuni alguns textos sobre o Título Descontos – Contos e Poemas, com a intenção de fazer um livor , mas como ainda misturava prosa e verso optei por publicar como e-book. Esperei um tempo e organizei o livro Arquivo Poético, escolhi uma excelente gráfica, que me indicou uma editora para fazer a diagramação e a editoração. Agora apareceu esta oportunidade, inscrever o livro num concurso, pensei estou fora! Mas começou a “chover' e-mail em minha caixa de entrada de divulgação do edital. Li o edital e percebi que meu livro se encaixava direitinho, até parecia que o edital havia sido feito para o meu livro. Fiquei em dúvida sobre o item Depósito Legal, entrei em contato com a Biblioteca Pública do Estado do rio Grande do Sul e perguntei se o registro no EAD da Biblioteca Nacional correspondia ao depósito legal. Recebi uma confirmação da Morgana, diretora da biblioteca, e só então preparei o material e enviei o livro. Mas o “-publique-se!”, que guardo na memória deste de meados de 1978, o – esquece! Do poeta. Estão presentes na nossa vida. Falamos em cidadania, falamos em inclusão e parece que alguns circuítos são fechados. Eu criei este problema colocando o livro a “prova dos nove” , ele vai ser avaliado, mas que seja de forma justa. Se há uma lei federal, assinada pelo ex presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo ex ministro Gilberto Gil , que exige o “Depósito Legal” Lei nº 10994,de 14 de dezembro de 2004, só o que espero do Estado do Rio Grande do Sul, pelo seu instituto, é que exija o cumprimento da lei. Vou ficar conhecida como encrenqueira? Melhor do que ficar conhecida como “ovelha”.
Removi o post anterir e republiquei o texto aqui
Fernanda Blaya Figueiró
Alguns Bueiros
Quando se destampa alguns bueiros é preciso ir longe na limpeza, na real catarse, é preciso descobrir onde está o entulho. Sem remover o entulho a energia não volta a fluir, mexendo no lodo da memória, por força das circunstâncias, lembrei que eu sempre tive problemas com o entendimento da língua portuguesa e com “motricidade fina”. Nunca aprendi a desenhar, bordar, costurar, tremo ao tentar colocar a linha no buraco da agulha, não sei até hoje passar a roupa, deixo frisos e não acerto as linhas. Nunca acertei uma mosca ou barata. E tenho muita dificuldade em entender e decorar as regras da língua portuguesa, mas sempre adorei a leitura e a magia das palavras. Como alguém que sempre foi ruim em português decide escrever? Acho que por que a escrita artística é muito mais ampla do que respeitar um conjunto de regras e de “acertos” na grafia de alguns códigos. É possível amar também os erros, ou os códigos diferentes. Minha média ao longo da minha vida escolar foi de mais ou menos setenta por cento de acertos e trinta por cento de erros, por isso consegui passara pelo buraco do funil do ensino regular, consegui chegar do outro lado do buraco da agulha, como um fio desgrenhado, mas passei. Ao pesquisar sobre meus erros de digitação e ortografia, que estão se acentuando, enquanto deveriam estar sendo superados, já que cada dia escrevo mais, descobri o termo disortografia e acho que descobri o que me afeta há muito tempo. Muito tempo, tenho quarenta e três anos e tenho consciência de minha dificuldade desde a “quinta série do primeiro grau”. Nunca tinha percebido como as histórias que contamos tem um fundo de busca de entendimento, de autoconhecimento . Sempre conto esta história: “ Eu ganhei a quinta série no choro.” Isso mesmo! Quando eu estava na quinta série, estudava no colégio Leopoldo Titebohl, em Porto Alegre. Acho que fiz o jardim de infância no colégio João Neves da Fontoura, os três primeiros anos no colégio Roque Gonçalves , em Cachoeira. O quarto ano no Luciana de Abreu, já em Porto Alegre. O quinto e o sexto no Tietbohl. Sétimo e oitavo no Roque novamente em Cachoeira. O Terceiro grau quase todo no Barão de Rio Branco e o fim do terceiro ano no Colégio São José, em Porto Alegre, já era casada e mãe do João e da Luiza, meus gêmeos. Voltando a quinta série, na minha vida apareceu um anjo. Não lembro seu nome, só lembro que era uma senhora gordinha, com um fofo colo de “vó” e que me salvou, era minha professora de português, ela passou o ano todo tentando me ensinar, lembro que olhava aquelas tabelas enormes no quadro e de conjugações e pronomes e não decifrava. Para mim era como se tudo estivesse em grego. Na pedagogia falei sobre isso e conclui que na quinta série eu não tinha estruturas cognitivas prontas para entender o conteúdo, que para mim era muito abstrato. Quando chegou no fim do ano peguei recuperação e as aulas eram em períodos, só deveríamos ir ao período em que em tínhamos pego recuperação. Cheguei na escola no segundo período e a aula havia terminado. Quem faltasse uma aula de recuperação seria automaticamente reprovado. Entrei, literalmente em pânico, minhas pernas tremiam, meu corpo todo tremia, corri para o banheiro e vomitei muito, tinha uma grande amiga, alias sempre tive grandes amigas, muito intelige boa aluna, que não havia pego nenhuma recuperação e que estava na escola só para me encontrar e irmos a biblioteca. Ela chamou minha professora e explicou o que havia acontecido, eu não conseguia falar e fui tomada por um ataque compulsivo de choro. A minha impressão era a de que não sairia viva daquele banheiro. O fracasso, a humilhação a perspectiva da derrota fizeram com que eu paralisasse. Minha professora, que também não lembro o nome veio até o banheiro, me abraçou com um colo fofo de “vó”, me acalmou e disse que me daria uma aula extra. Ela havia passado o ano todo tentando me ensinar, me usava até como personagem em jogos lúdicos, em que eu deveria passar algo a um interlocutor e disser: - Eu estou te dando isso! Como o interlocutor tem que responder?... Para que eu entendesse o uso de pronomes. Marcou uma aula em sua casa, em que fui e me “treinou” para a prova final. Lembro que havia uma parede branca recoberta com belas obras retratando coloridos casarios antigos e que tudo era muito bonito e arrumado. Acho que foi a primeira vez que visitei uma “galeria” de arte. Passei, sofridamente pela quinta série, com a Graça de Deus e a ajuda de seus anjos. Mas a informação “- Eu não sei português!” Passou a me perseguir. Um ano antes eu tive uma grande vontade de morrer, como se a morte fosse uma solução para enfrentar a vida. Talvez eu magoe algumas pessoas escrevendo isso, mas é preciso, para tirar o entulho e a energia voltar a fluir. Meu irmão pegou uma lata de ervilha sem avisar, meus pais ficaram muito bravos, não com o ato, mas com a ocultação do ato. Não lembro muito bem, mas acho que delatei meu irmão. Morávamos no sexto andar de um apartamento na Olavo Bilac, e meu irmão levou uns “sopapos”, como era comum nestes tempos. Fiquei muito triste e sentei no beiral da janela: minha vontade era de pular. Mas o chão era muito feio, escuro, úmido, cheio de garrafas e um quartinho, acho que onde ficavam os bujões de gás do edifício. Porque mexer neste lixo todo? Porque toda a minha escrita é uma só escrita. Todos os meus problemas são um só problema: tenho dificuldade de entender a vida. Desde muito pequena. O texto fragmentos , que publiquei esta semana foi escrito a primeira vez quando eu estava na oitava série. O professor Cláudio de língua portuguesa, leu ele para todos os meus colegas e me disse: esse texto é muito bom, mostra a teus pais. Indaguei: mas, professor e os erros? E ele respondeu os erros alguém corrige e com o tempo eles vão diminuindo. Eu não tive coragem. Cheguei em casa e piquei o texto. Escondi! Há alguns anos minha depressão piorou e fiz terapia, com uma ótima médica, então voltei a escrever o texto. Construí, destruí, piquei, reescrevi e os erros continuam. E o “escondido” atulha a minha energia. Acho que meu maior problema é um bloqueio, é acreditar que algo me impede de saber, de crescer. Isso tudo dá pano para manga. Essa cantiga “negra, preta, feia da rua” me atormenta desde meus primeiros anos, é mais antiga. Esses dias falei da “Tamanquinho' uma mendiga que havia em Cachoeira, puxando um saco, era linda usava umas saias enormes e tinha o cabelo cor de fogo. Meu apelido de infância é Nega. Não tenho nenhum problema com ele, gosto mais do que Sapoca ( mistura de sapo com porca) . Tenho problema quando se transforma em “Nega, preta , feia da rua”. Porque ganha uma dimensão insuportável. Escrever literatura não é escrever textos bonitinhos para vender livros bonitinhos e engordar a conta de alguém. Literatura é arte! Não é gramática, não é comércio, não é pasteurização. Já comprei uma briga e compro outra. As oficinas de literatura estão matando a arte poética em Porto Alegre, porque encurtam o caminho, retiram da arte a dor e os calos nas mãos. Já falei sobre isso também tenho preconceitos com as oficinas porque uma vez meu tio José Blaya leu um lindo Conto de Natal, de sua autoria. No final disse: a minha professora de oficina não gostou deste texto pois não acontece nada, para ser conto tem que ter alguma cosia, um fato. Fiquei triste com isso pois o texto era lindo. Falava de um menino que na noite de Natal saia de casa com sua pesada caixa de engraxate e corria a cidade inteira, sem conseguir um só serviço. Não podia voltar para casa sem dinheiro, pois seria maltratado: Vai a graxa!, ele dizia. Quando estava quase desistindo e aceitando sua sina vê no alto de um morro uma enorme bota e ouve:hó hó hó. Como isso não é um conto?
Fernanda Blaya Figueiró
10 de novembro de 2011
Trecho do projeto de livro Frgmentos de minah autoria e escrito aproximadamente em 2001.
Cristal
Estes são Fragmentos não como os de um mosaico, que é criado da combinação de diferentes peças, mas sim de um objeto ,que ,por distração, tenha quebrado e emprega sua força na busca de uma forma seja ela qual for.
O que fiz eu de errado?
Para que me roubem o sol antes do meu desejo de que ele se vá .
Por hoje chega.
Mesmo que deseje mais e mais sol.
Por hoje chega.
A vida escapou por entre os meus dedos.
Quis segurar , mas foi escorrendo e se perdendo entre as pedras .
Ficou uma casca estilhaçada ,enquanto o suco , se transformou em vida .
Muita vida, em formas e manifestações diferentes.
Em cada parte o todo, no todo o nada, no nada o absoluto.
Porém, sempre restará o sol.
Amanhã tem mais.
Não perca o ponto, mas se por acaso perder olhe os fragmentos.
A última de Joana .
Aqui se despede Joana,
uma música suave e meiga ...
Como se a vida não pudesse esperar nem mais um minuto.
Não existe nada de ti ,nem nada de mim, nem nada do que passou, talvez nem o amanhã exista mais , é parte agora do que passou e passou tão levianamente que não deixou marcas.
Como é estranho entrar num lugar vazio, restos de café e pão duro; quem daqui partiu, partiu abruptamente; deixou pasta de dente na escova e teias de aranha em toda parte.
Uma revista, revela como viviam os habitantes daqui, o que comiam ,como se mantinham vivo;. tudo documentado através de fotografias, filmes, uma inumerável quantidade de objetos, utensílios , aparelhos eletrônicos, rótulos de alimentos, roupas exóticas ,cremes , enfim.
A porta foi deixada aberta.
Sumiram em poucos minutos.
Os últimos minutos de consciência, minutos gloriosos de revelação.
Tanta meditação, adoração e reflexão.
Dobrar-se sobre si inúmeras vezes ,por esses minutos de elucidação.
Quantas palavras elimino...quanto afirmo ,do amor ,do desamor?
Repousaria minha cabeça na terra e beijaria os pés do futuro.
Tolice é apenas um quadro retratando o hoje.
Hoje saí de casa com muita pressa; a campainha tocou enquanto escovava os dentes; não havia nem recolhido o café ou as teias de minhas amada aranhas; tive poucos minutos para me vestir ,revirei todo o armário procurando minha roupa preta. Deixei caídas no chão as fotografias, na máquina um novo filme, deveria enquadrar o espectro desta manhã.
Me contaram de ti. Meu belo pássaro.
Mente .
A palavra mente me remete ao que mente.
Como o intuito de abrir a mente para a mentira, para a verdade , será justo que se viva tão cerceado de possibilidades ?
Há que se duvidar da mente, lhe comprimir, lhe domar.
Algumas mentes são tão preguiçosas, que quando lhe sugerem algo novo e complicado se escondem no vazio.
Já aqui tens uma que propositadamente busca sabotar, escolhendo palavras sem nexo só para te confundir e achares que são profundas, quando que não passam de trapaça; teimosa não quer te brindar ,acha que pode, através de falsos ensinamentos, projetar-se em um novo universo; sua necessidade de perseguir lhe coloca plantada pensando em coisas vagas.
Acho que essa mente é no fundo uma demente não boicota, mente .
Se pudesse agora se infiltraria no topo do relógio, onde está a estátua, roubaria à força sua forma e sempre ligada ao bloco de concreto vigiaria do alto toda a terra; não haveriam mais recantos e becos ,todas seriam avenidas largas e bem iluminadas, onde marchariam as outras mentes.
Mas que mente, perversa , desprovida de cortesia, entraria nos teus olhos e te saquearia os pensamentos, já que está no vazio.
Estar suspenso no vazio é ,de início ,muito incômodo ,mas, ao longo, se notares os detalhes, verás que há muitos pensamentos ,que de armas em punho estão prontos, para arrebatar a mente lhe dominar e fazer com que se renda .
Vigiar.
Que crueldade.
Nunca mais o privado .
Um único momento de solidão.
A solidão em companhia.
O terceiro olho se abrindo no meio da testa, julgando cada pensamento atroz.
Até o que não foi pensado.
Quão? Quão bom? Quão mau?
Quão útil, ou inútil?
A espera pelo juízo final.
O severo julgamento das forças celestes.
Liberdade vigiada?
Me pedes agora uma solução para tão vasto problema?
Gostaria de lembrar que meus ombros são pequenos para suportar um fardo muito pesado.
Um cesto de palha praticamente vazio ,que colocas sobre minhas costas ,e me parece tão fácil.
Na medida em que caminho o cesto parece de chumbo.
Veja.
Minhas pernas estão engrossando, meus pés estão achatados.
Minhas costas curvas como um arco ; não tenho mais pescoço.
Vou jogar no rio esse cesto.
O que contém ,esse cesto para me deformar?
Roubou minha beleza e juventude.
O desconhecido.
Um dia abri uma página proibida.
E lá estavam inúmeras verdades.
Histórias minhas sobre mim, dos outros sobre mim.
Pior foi que nenhuma me causou o menor espanto ou surpresa.
Tudo o que foi dito ou pensado acerca de mim. Enchia um longo caminho de letras; daria para viajar por toda a terra por mais de cem vezes .
Lembra aquela vez em que pensou em se infiltrar na estátua......, quando se infiltrou na estátua........ foi ai que eu achei que havia enlouquecido. E a conversa sobre ler os pensamentos ..........vigiar, vigiar cada pessoa. Coisa de louco. ......
..... uma forma de fugir da realidade......... se achava um anjo apocalíptico ........leu a Bíblia demais..., pensava que carregava um cesto, Aquele monte de incenso......... O jeito que olhava para agente, que mulher indiscreta .no dia em que me infiltrei na estátua ,...... me tirar até está certeza....... humano é um ser social por natureza, não sabe viver isoladamente......a união das classes...
.......... o isolamento causa o desajuste.....desconsiderou tudo ....o bem comum, a manutenção do interesse do todo..... o grupo.........a formação de normas éticas até as... leis que..........a convivência social .......rompeu ...a ordem e o crescimento uniforme.......duvidou até da fé........o controle do público sobre o privado........que pecado...nunca deu ouvidos ......... .o direito à propriedade.... uma moça que parecia tão direita......a regeneração do infrator....no fundo uma ameaça ....o fim.
É pra amanhã.
Agora eu queria um lugar tranqüilo para sentar, ouvir o som do mundo.
Porque duvidas tanto assim da minha bondade?
Duvidas ainda mais da minha maldade .
Então ,para que tanta ideologia?
Um purgatoriozinho a mais ou a menos não faz tanta diferença.
De posse dos meus horrores me entrego, não importa mais.
Não quero mais reagir, que seja, que se torne infinito o sofrimento.
Irreal é o teu mundo ,não o meu.
Tuas pessoas se dissolvem no mundo de consumo ,o mundo do ambiente controlado, sem odor, sem moscas, mundo artificial , da luz a felicidade.
Eu sou muito antiga, prefiro uma bela peça de ouro.
Que delicia, um belo objeto de ouro.
Uma coroa, um cordão ,um relógio.
O tempo marcado em ouro.
Meu Deus.
Que maravilha, que tentação.
Que pecado.
Descobri.
Sou idólatra do ouro.
Que minha pena não seja severa demais.
Teu crucifixo também é todo do mais puro ouro.
Não te pedirei piedade, nem justiça.
Esta estória que começou de um jeito tão abstrato ,necessita, agora, de um pouco de concreto, roubado é lógico da materialidade da estátua.
Talvez não fosse bom que as crianças permanecessem na sala.
Se bem que as crianças sempre permanecem ;elas nos surpreendem nos momentos mais inadequados ,surgem do fundo do coração trazendo todas suas superstições e medos , procura em ti o que te mantém mais longe do universo infantil e te protege com toda a convicção do sólido mundo adulto.
Do pouco que sei é realmente sólido o mundo.
Do alto da estátua decidi gastar meu precioso tempo observando:
Um belo dia me deparei com um ícone..
Olhando no fundo dos seus olhos se via uma grande fortaleza,
Como eram sólidos seus princípios, como pareciam reais as palavras por ele proferidas, uma figura masculinamente bela, sem as amenidades do feminino.
Mãos fortes, olhar enigmático.
Deus não passa de uma invenção dos homens!
A alma não existe, depois tudo se acaba.
Meu caro , se não existe a alma ,como pode existir a vida?
Somos apenas animais como os outros, um dia vamos perecer.
Tudo o que não pode ser explicado são projeções da tua mente doente.
Então, como sentir o sol, a fome, porque trabalhar como um escravo ,todo santo dia?
O que justifica, acordar ,trabalhar, comer e dormir.
Procriar.
Tem que haver algo maior.
Só o mecanismo orgânico não basta.
Clara..........a mente é uma parte do organismo que cria a realidade. Sozinha.
Como ter certeza das verdades que me vendem?
E se agora eu duvidar da materialidade da terra?
Que me respondes, é mesmo sólido o mundo?
Os sentidos ,hipocrisia , se eles servem para provar o material, também servem para provar o imaterial, os espectros.
A razão.
A dúvida ,abrimos com ela, lembra? É preciso duvidar da mente.
Ser racional dotado de faculdades mentais ,no dia da decadência passaste a acreditar no nada.
E aí, vieram tantas verdades absurdas sobre ti.
Se soubesses o ninho de cobras que habitavas, todas te idolatrando mas ansiando pelo teu fim, uma imagem forte .
Esperavam como os seres reles, que tu morresse para poder pisar sobre tua cova ,amaldiçoar os dias que viveram sob tuas asas, mas como sentem falta do teu domínio, da tua opressão.
Não sabiam nem virar para o lado.
Tontos, foram caindo, um por um.
Que falta sentiram do olhar maroto, o sorriso falso, a grande mentira ,que nem um mal lhes alcançaria , te adorar, viver o medo :que faz tão sólido o mundo dos homens.
O mundo podia ter sido violentamente cor de rosa.
Não fossem as subversões, os cochichos, os conchavos, o silêncio , a culpa.
No vazio busco sinais, o mar grosso?
Como saber.
Entrar na sala pé por pé que ele está dormindo.
Melhor ,não entra .
Não chega perto ,hoje ele está de mau humor, talvez mais tarde.
E assim, vão se formando, os mitos sobre cada um.
Nunca foi respeito ,nem medo ,mas descaso, conveniência..
Prega em tuas paredes um altar a tua imagem., como eu sou feliz, é tão fácil.
Como te temiam.
Sozinho no teu elevado mundo , bem podias estar sofrendo.
Mas é um touro muito bravo ,sai fogo das ventas quando estufa o peito ,como enfrentar?
Só esperando a fera se acalmar sozinha.
Mesmo assim te amavam.
O medo tira a responsabilidade. A tirania isenta de culpa.
E sem ela em quem irás buscar abrigo ,quando o supremo mal te assolar.
Tu que rastejas , escondido da tua própria sombra.
Que tem nos olhos o brilho da veneração.
Venera teu opressor, por que no fundo só permite te oprimir na medida em que te serve.
Ele morreu.
Uma profunda dor , silêncio.
Da estátua me pareceu que as pessoas que rodeavam este ícone tinham tido um misto de sentimentos, alegria , tristeza, paixão, medo ,conheceram o vazio.
Mas logo preencheram com muitas idéias.
Belas, muito belas, tanto acerca da bondade quanto acerca da crueldade de que falavam, até com nostalgia , tudo pareceram flores.
E passaram a procurar um novo opressor ,o que foi deveras fácil. . E lá estavam de novo os conchavos ,as meias palavras ,as grandes deduções.
Parte do mundo .
Parte da solidez do mundo.
Garantindo ,assim ,a manutenção do real.
De repente, com um tropeço, cai da minha posição privilegiada e habitei mais
uma vez o peso do meu corpo.
Volto a minha história então.
Como tem passado, Clara?
Passado.
O passado é cheio de ambigüidade.
Incertezas.
Minhas histórias me parecem absolutamente falsas ,de cada uma pus fora o cerne.
Não reconheço .
Lembra de quando eu te vendi aquele sonho?
Perdão, tu querias de doce de leite .
Foi minha ,então a bagunça , passaste a vida comendo goiabada.
Me vê um sonho?
Clara........cadê .meu sonho?
Clara Mente.
_A Clara trabalha numa banca , ela é totalmente sem graça.
Uma criatura meio desligada , não vale a pena perder tempo com a história dela, é uma daquelas pessoas que só passam pela vida.
Consegue imaginar uma daquelas bancas, balcão de madeira, com tampo de vidro, salgados e sonhos nas gavetas embutidas , ovos em conserva, e uma cafeteira , no canto um grande e barulhento ventilador .
Vive perdida em pensamentos, acho que é pela monotonia do trabalho.
Imagina sempre a mesma chatice, mesmas conversas, outra , ela acha que é parte de uma maldição?
_Que maldição ?
_Ela acredita em maldições, sério, um dia fui comprar um sonho e ouvi ela falando com o seu Marcos, tinha que ver, patético. Disse que foi amaldiçoada.
“ uma ciranda de crianças, que me persegue e atormenta, com uma cantiga , que não consigo esquecer
Nega, preta , feia da rua,
Nega , preta ,feia da rua.
Como se fosse hoje , a casa , com suas paredes altas manchadas pela umidade, os quartos interligados, dos quais não conseguia sair pois retornava sempre ao mesmo ponto. Sem saída, o corredor, trancado por um portão.
O poder avassalador da palavra , da maldição, do desprezo, do medo , do ridículo, de não poder fazer nada.
A maldição, retornando sempre, com força , na forma de uma lâmina fria, que rasga a carne, faz brotar gotas de sangue vermelho, vibrante, que corre pela pele morena.
Clara é só uma tentativa desesperada de fugir do que não se pode evitar.
Há que se cumprir toda a jornada ,a profecia, a maldição.
Ela gosta do gosto do sangue.”
_Por que tu te interessou por ela ?
_Sei lá, falta de assunto. Sempre achei ela um pouco pancada, meio fora do ar, mas um dias desses eu tive no mercado e achei ela diferente.
_Então tu conhece a banca?
_Sim.
_Por que me perguntou?
_Te perguntei se tu conhecia ela, não pedi uma ficha técnica.
_Olha lá, parada na frente da praça ,o que será que ela tá fazendo?
_Ouvindo.
_Ouvindo o que?
“o barulho das roldanas do balanço, indo e vindo, indo e vindo, ao fundo conversas alegres, riso , algodão doce, um universo, de maças do amor, música, quem sabe até peixinhos coloridos em um lago artificial.
Estou só.
Com muito calor.
Passar mais uma noite
A brisa que refresca a noite me convida a caminhar no escuro, procurando a fonte.
A razão vai me permite sonhar com uma enorme fonte de águas límpidas, cercada de pedras, uma relva muito macia, onde poderia refrescar o corpo, dormir suavemente sob a luz do luar, sonhar com os anjos e acordar com o canto dos pássaros.
A gota de suor percorrendo a espinha vai lembra que o calor é insuportável, o colchão cola na pele, uma golfada de mosquitos invade o quarto
Não me cobre coerência, este universo pesa muito, às vezes esqueço que o corpo aprisiona a alma e a sociedade me cobra a existência.
A vida é a distância entre dois pontos. Antes deles, o infinito, depois deles, o infinito.
Um dia vou voar ad infinitum.”
_Quem sabe a gente chama ela?
_Ficou maluco, essa deve ser daquelas que cola no cara.
_Tu acha?
_Bom, se tu quiser ........só que eu vou cair fora.
_Calma, que fobia.
_Outra, dizem que ela tem pavor de Ciganas.
_De Ciganas?
“As ciganas
Tenho medo de ciganas, com seus vestidos rodados, cheias de colares, pulseiras, pinturas .O olhar, a fala alucinada.
Não sei de onde tirei esse olhar , um jeito de investigar os olhos dos outros
Foi a bruxa .
A bruxa tomou de assalto meu espelho, pôs fios brancos entre os meus cabelos, secou a minha pele, tirou o brilho dos meus olhos.
Tenho medo de ser feliz , o calor do meu mundo , pode despertar a ira
As ciganas ,são elas que lançam as maldições, são elas as bruxas....”.
_Não brinca, uma mulher adulta com medo de Ciganas.
_Sério, o pior é que dizem que ela mente pra cacete..
_Mente sobre o que?
_É uma história meio louca, ela faz um curso na Federal de noite, e lá ela diz
Que se chama Maria.
“O Sonho de Dona Maria é estar num lago.
Com água azul um pouco escura , areia na beirada, os pés tocando uma vegetação muito fina.
O silêncio da paisagem, uma brisa leve, o sol terno do fim de tarde.
Imaginando o que há de real nesta vida?
Feche os olhos e sinta.
Que intensidade, a vida é uma experiência solitária.
O corpo inerte frente ao lago, indiferente ao tempo, indiferente ao frio. Para que lado ir? Caminho curto, caminho longo?
Até ser tomado pela perplexidade e descobrir que todos os caminhos são solitários…esprema a essência da solidão, ou compartilhe meias verdades.
Música para meus dias serem assim suaves.
Maria!
Sai desta placidez atônita, pega nas mãos as rédeas do futuro, não vê o que te espera, a experiência, que queres com ela? Não vai te levar a lugar algum.
Acorda de manhã ,enfrenta o dia, briga com o leão ,finda o dia com o rei posto e te erguerão monumentos ,te brindarão com o melhor dos vinhos.
Na exaustão da noite ,tuas pernas irão doer ,teu corpo destruído não suportará.
A razão satisfeita, contará vantagens sobre os sentidos: olha tudo que construíste, vê agora como foi bom te tirar do lago.
Durante a noite, o lago invadirá teus sonhos, os pés repousando ,a brisa, a cor, o perfume que perdeste.
Tudo o que tens deves ao sentido prático que imprimiste à vida, aquela experiência solitária que te cobra ,um dia depois do outro, os caminhos que escolhestes.
O gado mugindo ,as ovelhas se reunindo em grandes bandos, saindo do lago gostarias de encontrar um belo caminho florido, uma cabana em um bosque encantado onde reinasse a magia ,um sorriso...
A vida ,lembra, o espaço entre dois pontos.
Eu queria ser a Dona Maria ,uma pessoa que eu já fui, a um tempo atrás, casada,com filhos , um bom emprego.”
_E alguém já contestou essa história?
_Não, por que parece que ela já foi casada e já teve filhos, só que ela fala como se isso fosse no presente e não no passado.
_Complicado .O que aconteceu?
_Ninguém sabe, só faz um ano e meio que ela mora aqui, é como se ela tivesse fugido.
_Que triste.
“Triste é seu Marcos, comendo sonho para encher o tempo.
Minha vida é como uma capa, vou me cobrindo com ela.
Para que desnudar? Gosto das capas, não têm pretensão .
Cada parte da capa é uma mentira embutida de verdades ,ou uma verdade distorcida pela percepção.
A verdade ,a grande capa. Feita de mil retalhos ,bem larga para ajustarmos como queremos.
A capa é cruel, injusta, profana. Não agrada a razão nem os sentidos.
Sem pretensão alguma ,sem curso de corte e costura, em mal traçadas linhas, junto pedaços de razão ,percepção ,interação.
Ao costurar a capa ,sem querer, me perdi entre o tecido e o forro.
Agonizo.
Há pouco a agulha perfurou a palma de minhas mãos, gotas de sangue brotaram, e a linha riscou fininho até o outro lado, o outro ponto cruzou a palma da mão de alguém.
Vivo um lapso de tempo; o mundo está caoticamente distorcido, restou pouco para se admirar.
Há uma linha que me liga, está tão fraca.
Será o fim de uma era ,o declínio do império, ou mais um período de
entre-safra ,onde não há nada a fazer a não ser esperar.
Dói, costurando a linha traz partes de todos e de nenhum.
Onde reside o real na luz ou nas sombras?
Por que ser prisioneiro do medo de ser do lado torto, quando no fundo não há lado?”
_Dizem também que ela tentou cortar os pulsos e foi socorrida pelo chefe, até queriam que ela se aposentasse, mas como é muito nova não deu.
_Como é que tu sabe tudo isso?
_Eu vi as marcas e perguntei pro pessoal do mercado.
_Tem marcas?
_Cicatrizes.
_Vamos tomar mais uma?
_Eu tenho aula, mas só mais uma não vai fazer diferença.
“Tem uma bruxa no meu espelho
_Clara?
_Me permita?
_O que?
_Suspender o sofrimento.
_Não.
_Por que?
_O sofrimento faz parte, até da paz...apartada do rebanho, vou achar que sou um lobo, quando encarar os olhos do lobo, vou ser dona do meu sofrimento, se buscar o lobo de perto corro o risco de seus dentes se entranharem em minha carne, senão, corro o risco de morrer só.
_Bruxa!....... sai do espelho!
_Pobre Clara. Acreditar em bruxas.
_As bruxas existem no fundo dos olhos ;um dia vou saber porque a cada dia há menos luz no fundo dos meus .Não viu os dois desocupados, enchendo a cara e contando aquele monte de besteira, o que tu achou?
_Ignora que passa, tu já não está acostumada, quem que se dizia dotada de uma mente que podia vigiar?
_Pelo olhar de bruxa que tu me impõe.
_As bruxas são teus desejos secretos, Clara.
_Bem que gostas de percorrer ruas sinistras ou encantadas com pedrinhas coloridas .Habitar palácios e casebres, beber vinho e água fétida.
Que me diz?
Se o real existe ,por que o irreal não?
O suor na nuca fala do real, do beijo que perdeste em sonho.
Buscas um lugar, um toque suave ,música, um suspiro.
Vendes sonhos, mas e os teus, os teus buscas na fonte.
_Tens algum segredo ,Clara?
_Não!
_Que triste. Mergulha no lago!
_Mergulhei .A água estava muito fria, aos poucos ,foi escurecendo, o peso do corpo e o impulso tornaram a decida profunda, não encontra o fundo, preciso do fundo. Quanto mais fundo mais escuro, o peso da água comprime os ombros. É preciso girar o corpo com rapidez, dar a volta, tenho pressa, não há tempo a perder. As mãos em concha separam a água, as pernas se debatem, um raio de luz surge, pressão nos ouvidos, Ar, preciso de ar, o corpo adormece, não tenho força. De onde vem, chego à superfície e descubro que não havia o que descobrir, é apenas um lago, não esconde nenhum mistério.
_Fostes ao fundo à toa? E na fonte, encontraste algo?
_Não.
_Então, o que procuras?
_O início do fim. É sombrio. O Desejo covarde de salvar, não me permite, quero sufocar mas não consigo. E sabe do que mais? Eu bem que escondo alguns segredos.
_Segreda para mim?
_Escondi tanto que não encontro, fiz tanta força para esconder que acabei por esquecer. Só que levaram junto meus sonhos. E agora não sonho mais. Minhas vísceras estão em alerta.”
_Tu viu aquilo?
_Não.
_Não viu o que ?
_Aquela mulher com sobretudo preto atravessando a porta da casa da Clara.
_Então tu viu?
_Não, eu imaginei. Também com essa tua conversa.
“A morte esteve na casa de Clara para avisar que seu relógio está por demais adiantado, ainda não está na hora.
Se aquiete ,coração acelerado; um dia ainda há de voltar, não precisa chamar.
Há um grande marcador, cada um tem sua hora. Viva em paz os dias que são seus e de mais ninguém.
Aproveitou para tomar um cafezinho, já que anda tão ocupada, e estava só de passagem, trouxe notícias também, estão todos bem.
Apareceu- lhe em sonho sentada em uma cadeira confortável, de respaldar de vime, ao fundo um castelo de areia erguido em frente ao mar, os mesmos olhos, só que muito tranqüilos, lábios finos, pele branca, disse que já não precisa de reza.
De saída, deixou-lhe a paz.
Não como presente ou despedida, nem como promessa, a paz, mais nada.
Boa pessoa, a Morte, agora precisa seguir.
‘Ciranda, cirandinha vamos todos cirandar, vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar. O anel que tu me deste era vidro e se quebrou, o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.
Por isso, Dona Morte, entre logo nessa roda, diga um verso bem bonito, diga adeus e vá embora:
A paz esteja convosco. Adeus.’
Quanto à Clara, trilha um caminho cheio de pedrinhas coloridas”
Como uma alma penada, ou uma alma que pena....
Do exílio .
É do exílio que te falo agora.
Não estamos em tempos de guerra, isso eu bem sei.
Estou no exílio por minha ordem.
As correntes que carrego são pesadas, foram feitas de ouro, contornam todo o meu corpo .
Roubei da vida o brilho.
Da morte, o tempo.
Uma guerra pessoal, por construir uma imagem , muito próxima do ouro e das meias de seda.
Estou com a vassoura na mão, para recolher meu lixo; as grades do meu exílio se tornam cada dia mais altas.
Não vá logo concluindo que eu tenha de fato tomado posse de tanto luxo.
Meu lixo é que contém muito ouro.
Do trigo ao ar puro.
Foi a ferro e fogo ardente que me marquei.
O ferro queimando ,como ao gado, foi tão fundo e tão sistemático...as correntes preenchem agora cada sulco na pele.
Pelo excesso, pela inércia.
Somos todos exilados nas grandes cidades.
Ruas sinistras, onde só tem acesso os eleitos, os guetos.
Meu jardim.
Cercado e selvagem jardim, habitado por adoráveis animais .
Daqui ,então, que te falo agora.
Esta missiva tem a pretensão de propor dias melhores.
_A senhora aceita um chá?
_Um chá ?
A casa de Dona Antonieta
Nos fundos da propriedade há um caminho que há muitos anos não se trilha .
Os moradores da casa têm todos suas valiosas atividades e quem não as
tenha ,inventa.Coisas para a elevação da alma, arte, exaltação, esportes ,poder.
Um enorme pátio cerca toda a casa ;na frente, entre a calçada e a casa, há aproximadamente trinta metros, de um belíssimo gramado, no meio um caminho de pedras leva até à porta principal, uma alameda de flores coloridas e um cipreste, de cada lado, completa a paisagem. Há ainda nas duas laterais da casa faixas de gramado que ligam a frente aos fundos, deixando a casa como que solta ,com muito sol e ar livre circulando. Nos fundos, mais espaço, um quintal separado, onde fica a parte de serviço, e uma pequena casinha, que servia para o caseiro, mas que se mantém fechada. Mais próximo à casa , a piscina e a área de lazer, construídas bem depois da casa, que deve datar do início do século XX,
As garagens e a passagem para o caminho, que não é usado.
Com as mudanças urbanas a propriedade foi ficando muito ostensiva, despertava uma certa inveja e acabara se tornando de manutenção muito cara.
Os impostos e reformas ,que seguidamente se faziam necessárias , traziam dúvidas quanto à manutenção pela família.
Só que a avó não abria mão de morar na casa; afinal havia ,nascido nela.Os outros é que moravam com ela , dois netos, e uma sobrinha.
Só que, com a manutenção da casa, a velhinha estava gastando todo o seu dinheiro, que não era pouco, mas que poderia ser melhor utilizado.
Os filhos e netos contavam com o dinheiro para realizar seus projetos de vida.
Mas a velhinha era linha dura, quase noventa anos e dirigia sozinha seus negócios, e no fim das contas a casa estava valorizando. As propostas de compra melhoravam a cada ano, mas a avó resistia.
Chegaram a lhe levar a uma casa de repouso cinco estrelas ;poderia ser considerada como um hotel, médicos, nutricionistas , recreacionistas e todo o tipo de serviço.
Mas Dona Antonieta ficou ofendida só com a hipótese de terem lhe levado até lá.
Em retaliação, um dia ,quando não havia ninguém em casa, chamou o seu advogado e anunciou que iria mudar seu testamento. Ele avisou os filhos, pois não queria se comprometer.
A família consultou um psiquiatra, quem sabe se com uma avaliação não conseguiriam interditar a velhinha. Afinal mudar o testamento?
Isso não é coisa de gente certa.
Só que a avaliação foi positiva .
O jeito era agüentar as manias dela e por sorte.
Mesmo sendo um desperdício, a casa foi acalmando, e a velhinha firme, reformou o jardim, e contratou um caseiro.
A família foi contra ,mas , como sempre, teve que aceitar.
O caseiro ficou incumbido de cuidar do jardim, limpar a casa por fora, a piscina e atender a porta, pois dona Antonieta é quem fazia estas tarefas.
Porém ficou absolutamente proibido de cruzar pela passagem que dava acesso ao caminho.
A proibição despertou sua curiosidade, mas como não tinha nada com isso, se manteve calado. Fazia suas tarefas e cuidava de tudo muito bem.
Uma coisa despertou a curiosidade do jardineiro , sempre que os netos e a sobrinha se ausentavam a velhinha passava pela passagem e ficava lá em torno de umas duas horas, depois voltava, limpava os sapatos, colocava no sol e calçava os chinelos.
Quando alguém lhe perguntava o que tinha feito, nunca mencionava os longos passeios.
Depois, por vezes sentava na varanda e se colocava a olhar fotografias muito antigas .
Um dia o caseiro resolveu seguir a velhinha em seu passeio.
Esperou que todos saíssem, esperou que ela lhe enchesse de tarefas , calçasse os sapatinhos e se dirigisse para a passagem.
Como uma sombra , cuidando para não fazer barulho, passou por um portão de ferro, uma trilha levava a mais um jardim, pequeno, em torno de uma fonte, da fonte corria um fio d’água, que caía entre pedras e era absorvido pela terra. No fundo tinha uma pequena construção, que se assemelhava a uma capelinha , e era lá que a velhinha ficava, então era isso, devia rezar .
Porém, não satisfeito , resolveu olhar dentro da construção, e viu a senhora sentada em frente a uma cruz, no chão o piso havia sido removido e um pequeno canteiro de flores crescia ,bem onde havia a cruz, a senhora estava ali sentada rezando e mexendo nas flores.
A capela tinha uma imagem de Nossa Senhora, sobre um pequeno altar, uma Bíblia e uma prateleira cheia de objetos, roupas, utensílios domésticos , fotografias, no meio um caldeirão de ferro vazio, com uma espada encostada.
Por pouco que a velhinha não lhe descobriu .O caseiro conseguiu sair antes que ela lhe visse, e quando ela voltou para a casa o homem estava fazendo as suas obrigações.
Curiosidade mata.
Não conseguia mais agir com naturalidade, quem estaria enterrado lá?
Por que todo aquele sigilo, e o caldeirão, será que Dona Antonieta era Bruxa?
A partir daquela noite passou a ter pesadelos horríveis. Sonhava com uma mulher muito bonita, ela lhe sorria e mexia no caldeirão com a espada e de repente caía morta. Foi ficando cansado e ineficiente a ponto de chamar a atenção .
Dona Antonieta lhe pediu que consultasse um médico. Sua aparência era de uma pessoa doente .O rapaz disse que estava cansado e pediu para tirar uns dias de folga, ao que foi atendido.
Quando retornou as coisas estavam na mesma .Até que um dia o Prefeito em pessoa foi visitar a velhinha e lhe propor um negócio irresistível, só que tinha urgência quanto à resposta.
E dona Antonieta nada .
A família fez uma reunião, não dava mais para agüentar, tinha que ter um mecanismo legal , que fizesse o bom senso prevalecer. Era gente entrando e saindo .
O Advogado saiu para fumar um cigarro e acabou desabafando com o caseiro:
_A Dona Antonieta vai acabar deixando todo mundo louco.
_Nem me fala, depois que eu descobri aquele cemitério, com coisas de bruxa, não consigo mais dormir, tirei uma semana de folga e não adiantou....
_O que você está falando?
_ Acho que até é segredo.
_Que segredo?
_O senhor promete que não diz que eu que lhe contei?
_Mas é claro.
_Um dia ,eu segui a velhinha até o fundo da casa e descobri que ela fica horas num tipo duma capelinha. Lá tem um túmulo........Coisa de arrepiar.
_E o pessoal da casa não conhece?
_Não que eu saiba.
Era tudo o que o advogado precisava, um motivo para decretar a insanidade da velhinha e liberar a verba para todo mundo.
Uma tragada maravilhosa lhe trazia a chance de desenrolar aquela história. Acendeu mais um cigarro e fumou tranqüilamente, enquanto bolava uma forma de ganhar com aqueles dados novos.
Primeiro, chamou o filho mais velho e lhe perguntou se tinha conhecimento dessa coisa.
_A mamãe sempre nos proibiu de passar por aquela passagem .Pra falar a verdade, eu só fui lá uma ou duas vezes quando pequeno e escondido. Pelo que eu lembro tem mesmo uma salinha , mas vivia fechada, até achei que tivesse sido derrubada .Não sei no que poderia ajudar.
_ Se realmente há coisas escondidas, nós podemos investigar e pedir uma nova avaliação psicológica. Ou talvez se descubra o motivo dela não querer se mudar e assim ter argumentos para convencê-la.
_ Essa obstinação é meio esquisita mesmo.
_Uma inspeção sanitária.
_Como assim?
_Nós vamos dizer para ela que o município está inspecionando todas as casas antigas e que o prefeito veio lhe comunicar. Aí eu te pergunto pela área total da casa e tu deixa bem claro que existe aquela área e assim a gente tira uma temperatura das reações dela. Que tu acha?
_ Vou agora mesmo chamar o prefeito.
Com tudo combinado a reunião recomeça, sendo sabedores do plano o filho o advogado e o prefeito.
_Bom, já que a senhora não quer mesmo conversar, eu estou retornando para a prefeitura. Aproveito a ocasião para comunicar os presentes sobre a inspeção sanitária. Hoje mesmo virá até aqui um inspetor.
_Inspetor ?
_Pois estamos inspecionando a rede sanitária das casas antigas, para adaptar às novas normas de construção. Então primeiro é feito um levantamento e depois um relatório sobre as mudanças .Mas não se preocupe, que será dado um prazo bem razoável para as obras, se necessárias, evidente. O filho mais velho aproveita a deixa:
_Isso é louvável, é bom que os técnicos não deixem de inspecionar o pátio dos fundos, que está fechado há anos.
_Mas, meu filho lá não tem nada que envolva rede sanitária.
_Tudo vai ser inspecionado, até canil e piscina , justifica o Prefeito, é o risco da dengue, fazer o que?
_Mas eu não autorizo ninguém a mexer na minha casa.
_Ora, Dona Antonieta, não vai levar mais que duas horas, tenha a santa paciência.
_Isso é o cúmulo, uma arbitrariedade , no meu pátio ninguém entra.
_A senhora por acaso tem algo de ilícito a esconder?
_Eu?...Não, só acho falta de respeito.
A velhinha tremia da cabeça aos pés, o rosto ficou transtornado, começou a balançar a cabeça de um lado para o outro e a balbuciar coisas ininteligíveis, sua respiração foi ficando acelerada, não havia o que lhe acalmasse. O médico foi chamado as pressas, mas não chegou a tempo , uma convulsão fortíssima lhe provocou uma parada cardíaca, morreu antes mesmo de ser medicada.
_Pobrezinha. Uma morte bonita ela teve, pelo menos não sofreu.
Antes do fim do velório o testamento já estava aberto. Ficou só a curiosidade,
A tal capelinha ,que segredos guardaria?
O caseiro foi convocado a ajudar, dentro do sapatinho foi encontrada uma chave, com ela os homens abriram a porta da capelinha. O caseiro trouxe alho amarrado no pescoço, um crucifixo e a pá para abrir o túmulo.
Nas prateleiras roupas antigas, livros e montes de bugigangas, o caldeirão continha umas quantas argolinhas , onde estavam gravados alguns apelidos, cada um com uma corrente e uma fitinha já poídas pelo tempo, e tinha mesmo a tal espada encostada.
O túmulo tinha uma cruz de madeira.
_ E agora abrimos , ou chamamos a prefeitura?
_Abre e pronto.
Com a abertura do túmulo foi descoberta uma grande ossada, os homens ficaram apavorados e saíram correndo .Nem o advogado tinha visto tanto osso junto. A velha devia realizar rituais satânicos ou algo do gênero.
Quinze minutos depois o lugar estava infestado de pessoas, o velório que corresse sozinho, mulher louca.
Já corria a boca pequena que a velha decapitava as pessoas e usava o caldeirão para ferver os ossos e o sangue, e com a espada imersa no caldo fazia as piores bruxarias, por isso era tão rica. As roupas ela ia usando em feitiços menores e mantinha no fundo do caldeirão um codinome para cada pessoa que havia matado.
Uma verdadeira bruxa, e como tinham violado seus segredos um grande mal pairava sobre a cidade.
Tributo.
A dor de não ti ter mais.
_Meu bom Deus, me devolve meu menino.
Eu não quis a guerra, o que é preciso para me perdoares?
Quatorze anos e uma metralhadora, o levaram para os céus.
Uma vala comum, uma vala comum.
Só te peço, me leva.
Eu não usei drogas, não roubei ninguém, não saqueei, não produzi miséria.
Eu só nasci no século errado .
O Brasil.
Por que meu Senhor? Por que?
_A senhora , tá fazendo o que?
_Rezando.
_Essa região esta sendo considerada área de combate ,a senhora tem que procurar um campo de refugiados, ou pode se alistar.
_Meu filho está nessa cova, eu não quero sair daqui.
_Minha senhora, a alma do seu filho é o que importa, aí não tem mais nada.
_Viva a revolução!
_A senhora mantenha a calma. Se alguém lhe ouve falar assim....
_Viva a ........ Revolução.
O soldado sacode os ombros da mulher.
_Dona Dolores, sou eu o Joca, filho da Maria do Carmo .Eu to tão triste com a morte do Léo quanto a senhora, mas a gente tem que continuar....fica calma.
_Não,......meu filho não.......me dá um tiro e termina com isso, por favor....
_Que tá acontecendo ,Soldado?
_Essa senhora tá com febre, ela tá delirando, perdeu o filho.
_...Viva ......a revolução!
Um olhar do Sargento , uma sentença, uma ordem. E o Joca filho da Maria do Carmo, com uma terrível tarefa, ..... um tiro .
_Mas ela não tá dizendo coisa com coisa.
_Se esse grito ecoar, quantos não vão se levantar, a situação é muito precária.
Morreu muita gente aqui, que não tinha nada com nada. Se começar um tumulto, muito mais gente vai acabar morrendo.
_........não pode ser outro? .........fui na casa dela muitas vezes.
Com um tiro certeiro na nuca o sargento resolve o problema.
Que merda de guerra.
O Joca volta a caminhar, os refugiados baixam a cabeça e se dirigem para os campos, aos poucos o grupo cai no mais absoluto silêncio e marcha , como gado, ordenadamente.
Que Nosso Senhor do Bonfim Abençoe o Brasil.
Fragmentos.
Na verdade era uma caixa feita de cristal , como um cubo .
As pontas onde as partes se encontravam estavam um pouco descascadas e a tampa, apresentava uma falha, talvez fruto de alguma batida, um objeto singular, sem sombra de dúvidas.O interior, todo almofadado e revestido de veludo vermelho. Uma caixa de espelhos , com o interior revestido de veludo almofadado. De quem seria aquela idéia esdrúxula?
É subitamente interrompido pelo vendedor :
_Mais alguma coisa?
_Sim, na verdade eu estou atrás de um prato de porcelana inglesa, eu trouxe um pires do mesmo padrão, será que você me consegue?
_É um pouco complicado, mas eu posso ficar com a peça e lhe dar um retorno em alguns dias.
_A minha esposa conseguiu derrubar, e ficou faltando só esse .
_Era da sua família ou o senhor comprou em antiquário?
_Da família da minha primeira esposa.
_Quem sabe o senhor me deixa seu telefone?
_Pois não. A caixa eu já vou levar.Com o pingente .
O presente perfeito logo na primeira loja, isso é que é sorte. Para completar , uma gargantilha , com um pingente de rubi, combinando com o forro.
A esposa do seu melhor amigo merecia um presente especial. Ingrid é uma bela mulher...nada que se compare com a jovialidade de Samantha.
_ Alô ?....
Eu estava procurando um presente para o aniversário da Ingrid, é hoje, lembra que eu te avisei?....Me esqueci do teu ensaio, quem sabe a gente almoça junto......Tu que sabe....Uma caixa de jóias de um antiquário.
Sábado, vinte para a uma .A jovem esposa ocupada até a noite, os filhos viajando , os netos no clube, e agora?
Veleiros ou Hípica? Que dilema.
Hípica.
_Marcos? É Dr. Campbell. Gostaria de reservar uma mesa , e de avisar que estarei visitando a hípica.....Uns quinze minutos.......Sozinho.
_Dr. Campbell, como tem passado?
_Bem, obrigado.
_Posso lhe ajudar em algo?
_Tem alguém da confraria aí hoje ?
_Sim, o Dr .Karl, está lhe aguardando.
_Obrigado.
_Karl, como vai o marido da nossa aniversariante?
_Fugindo dos preparativos.
_O que é uma excelente idéia.
_E a Samantha?
_Envolvida com a apresentação de balê.
E assim a tarde passa rapidamente, muitos elogios, boatos e trocas sigilosas de segredos do mercado financeiro...E lógico, os garanhões. Belíssimos P. S. I. e Árabes.
Samantha estava deslumbrante, o vestido longo contornando sua silhueta ,as formas bem definidas, esguia ,o rosto de boneca contornado pelo longo cabelo ruivo.
E Ingrid, a beleza madura, elegantemente vestida .O brilho dos olhos. O perfume.
A festa correu maravilhosamente bem, tudo perfeito.
Um toque de genialidade, do menu a decoração. Cada detalhe projetado.
Quando os convidados se retiraram, Ingrid não conseguia dormir, os preparativos e a festa em si, tinham lhe tirado o sono. Karl dormia como um anjo.
Foi agradecer aos empregados e dispensar a turma, que havia trabalhado muito.
Resolveu abrir os presentes, não sabia o que faria com tantas coisas, perfumes, jóias ,peças raras ,chocolates.....
No final uma caixa de cristal, linda,...........Samanta e Jack Campbell.
Que mimo, Ingrid ficou encantada com o presente, teve a impressão de lembrar de um objeto semelhante. Levou para o quarto, colocou sobre a mesinha de cabeceira e antes de dormir abriu e descobriu um pingente de rubi.
Nossa ,que extravagância, típico do Jack.
Aquela caixinha, o pingente, parecia que eram suas a muito tempo. Como se
fossem objetos perdido ou algo assim.
No dia seguinte logo que o horário fosse apropriado, ligou para agradecer o presente.
_ Dr.Campbell?
_Ingrid
_Jack? Liguei para agradecer.....adorei.
Um encanto.O cristal, parece que reflete tudo com mais beleza....Um beijo para Samantha.
_Já no telefone ,Ingrid?
_Olha só o presente do Jack.
_E da Samanta
_Poupe-me....
_O que é?
_Uma caixinha de cristal , com o pingente...
_Se não fosse do Jack, eu iria morrer de ciúmes.
_Bobo.
_Vem cá que tu ainda não recebeu o meu presente.
_Karl ! É lindo.....
Ingrid parecia uma criança , com seus presentes e comentários sobre a festa, os convidados.
O almoço hoje era com os netos, alegria da sua vida.
A caixinha não lhe saía do pensamento.
_Que caixinha bonita, vó.
_É linda, ganhei ontem.
_Não quer me dar?
_Bruninha, é falta de educação dar um presente que se recebeu, um dia eu te empresto, tá?
_Tá. Posso brincar com o cachorro?
_Pode, mas cuidado, vou pedir para a Margô te acompanhar.
_Mamãe , não devia deixar a Bruna brincar com o cachorro, vai se sujar toda.
_Deixa, se ela não puder se sujar agora imagina quando crescer?
_O Mano ligou , eles não se atrasar.
_Era de esperar.
_A vovó não tinha uma caixinha igual a essa?
_Desde ontem que eu tenho a impressão de que já vi esta caixinha.
_Ela deixava sobre a cômoda, com um rosário de pedras vermelhas.
_De rubi?
_Ela dizia que o rubi lembrava as pétalas de rosas e o sangue de Jesus.
“Fica sempre um pouco de perfume, nas mãos que oferecem rosas, nas mãos que sabem ser generosas....”
_O que foi feito das coisas que eram da vovó?
_Foi tudo doado ,pela tua tia , acho que para o asilo da paróquia.
_Então? Vai ver que é a mesma caixinha da vovó.
_Jack me disse que adquiriu num antiquário. Devem ter transformado o rosário em vários pingentes.
_Uma vez eu deixei cair a da vovó e lascou uma pontinha da tampa, ela ficou furiosa. Tá aqui, a lasca. É a mesma caixinha sim.
_Meu Deus, que coincidência.
Karl achou a conversa enfadonha.
Nesse momento Bruna invade a casa seguida pelo enorme dinamarquês, Caterpilar. Que corre espalhafatosamente em direção a Ingrid, e com um
movimento do rabo, lança para o outro lado da sala a caixinha de cristal da vovó.
Ingrid corre, mas não consegue nem se livrar do beijo do cão ,muito menos salvar o objeto, que se estilhaça em mil fragmentos.
No chão o cristal parece desenhar um quadro sobre o fundo de veludo vermelho, na mistura de pedaços de cristal, tecido e pedra.
Um pequeno pedaço de papel de seda, dobrado com delicadeza , trazia a inscrição:
Para minha amada Beatriz do sempre seu Thomaz .Uma lembrança do nosso amor,neste dia tão mágico e feliz, cuide bem de nossa pequena Ingrid. .
Rio, 17/10/1932
Nada é proibido.
Marta atravessou a linha.
Lavou os pés.
Trocou as vestes .
Sentiu um toque suave em suas costas.
Virou e não encontrou mão alguma.
A lua estava muito alta, muito cheia.
O barulho das ondas convidava.
Ofertou a flor que trazia nos cabelos à Senhora.
O fim dos tempos foi chegando assim, devagar, em silêncio.
As coisas como eram antes já não existiam mais.
Vem pro mar, Marta.......Vem!
Os primeiros raios de sol
Abriram tempos novos.
Marta acorda com a água do mar banhando suas coxas.
Pés descalços.
Volta com ânimo renovado.
É inacreditável o que um pouco de liberdade é capaz de causar.
Sente-se leve.
Feliz.
Deixou todos os problemas nas águas.
Só precisa de uma boa hidratação.
Um desjejum com frutas frescas e cereais.
Alimentar os peixes e voltar a rotina.
Sente um solavanco.
O que está acontecendo?
Um homem segura seu braço.
Marta ainda esta deitada na beira da praia.
Não pode ser.
O braço cai pesadamente.
O homem cobre seu corpo com a saia do vestido.
E fazendo o sinal da cruz vai embora.
A Senhora devolve a flor
O destino existe para explicar o inexplicável.
O incompreensível .
É muito reconfortante saber que tudo já havia sido escrito, decidido.
Que os fatos acontecem assim por que tem que ser assim.
Marta acreditava em destino.
Ela acreditava que uma noite iria morrer no mar.
Imaginava as ondas lhe chamando :
_Vem pro mar Marta ...vem!
Ao amanhecer um homem ,destes que rolam pela praias, acharia seu corpo.
Marta tinha muita curiosidade, queria ter com Deus logo.
Só que nunca atravessava a linha que separa a tentativa do ato.
Não sabia bem por que.
Imaginava, desejava, anunciava, mas não fazia.
Levava a vida assim acreditando no seu destino.
Poucas eram as pessoas que acreditavam , quando ela tocava no assunto um certo constrangimento se fazia notar.
As pessoas mudavam de assunto.
_Marta quando tu for velha onde tu gostaria de morar?
A Marta só ria, ela velha?
Que coisa tola, ficar velho é coisa para louco.
Respondia uma bobagem qualquer.
Não enxergava nos velhos sabedoria, experiência, afeto, como as outras pessoas .
Via decrepitude e tristeza.
Dores e uma vida sem sentidos.
Talvez por que ainda faltasse muito para sua velhice.
Comprou uma casa numa praia pequena, bem em frente ao mar.
Vivia sozinha lá.
Pegava a estrada todos os dias, trabalhava, comia , bebia , namorava ,voltava.
No verão a praia era inundada por pessoas freneticamente tentando dar um sentido para suas vidas.
Precisavam se divertir, precisavam se esquecer de si mesmos.
E .
Lá estava Marta.
Com a teoria do destino , da necessidade de morrer jovem, com toda a energia e a beleza , a sensualidade da juventude.
Virava a madrugada, com uma fala eloqüente, fazia amigos, flertava, amava homens, quase infantes.
E o verão passava, os turistas iam embora.
A praia sossegava.
Marta também.
Só não contem para ninguém que ela não viu que aos poucos envelhecia.
E o destino?
A bela morte no mar?
No outro verão, em meio a muitas taças de vinho, defendia sua tese.
Quando um belíssimo garoto de olhos esverdeados, lhe perguntou:
_mas a final Marta quantos anos tu tem?
_a idade é uma coisa relativa, esta na cabeça da gente.
_e o relógio biológico não conta?
_pois saiba que eu nasci a vinte e oito anos.
_daqui a dois tu faz trinta, e aí tua teoria termina.
_velho é aquele que tem vinte anos mais do que tu.
Naquela noite Marta ia para casa parou em frente ao mar e ouviu uma cantilena assim:
_vem pro mar Marta... vem.
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